A Vingança De Kammi
5 Presídio

― O que?! – exclama Kammi, sem realmente conseguir acreditar no a prima acaba de falar – Por que...? Por que isso tem que acontecer comigo...?
― Kammi, é a justiça. – Laureen tenta explicar – Na justiça nós trabalhamos com provas concretas e, infelizmente, as suas digitais estão na arma, as de Richelle não. A única testemunha que havia no local está morta, por isso ninguém mais viu o que aconteceu. É a sua palavra contra a dela, mais as suas digitais que estão na arma.
― E que justiça é essa que condena inocentes?
― Querida, você ainda não foi condenada. E, embora o juiz não tenha concedido o Habeas Corpus, eu acredito que até o julgamento poderemos reverter a situação a seu favor.
― Estou começando a desacreditar nesta justiça que está louca para me condenar.
― Kammi!
― Só estou dizendo a verdade. Estou sendo tratada da pior forma possível, humilhada, maltratada...! E tudo isso sendo inocente! Enquanto a verdadeira assassina está sendo tratada como se fosse a vítima de todo isso! Que tipo de justiça é essa que condena inocentes? Vou perguntar isso até obter uma resposta que me deixe satisfeita!
Laureen não encontra palavras para responder a prima, pois sabe que, bem lá no fundo, ela tem razão. A prima está passando por momentos para lá de difíceis e, infelizmente, a justiça está contra ela, pois todas as provas estão contra ela. Não sabe o que fazer para tentar acalmar o coração de Kammi e, a única coisa que pode fazer por ela é tentar fazer a defesa dela se baseando na conduta dela, reunindo testemunhas que deixem bem claro a pessoa que Kammi é, e que ela não é capaz de matar uma pessoa, principalmente essa pessoa que era noivo e pai do filho que ela está esperando. Além de tudo, também precisa provar que tipo de pessoa Richelle é, e, que ela é a culpada, em nome de um amor doentio que ela sempre sentiu por Mark, e em nome da inveja que ela sempre sentiu de Kammi.
― Até o julgamento, eu vou provar a sua inocência, Kammi. – é tudo o que Laureen consegue dizer – Eu prometo.
― A visita acabou. – diz um policial de forma brusca – A senhora tem que ir embora, Doutora Ambler.
― Eu preciso ir, Kammi. – fala Laureen, com pesar – Mas eu espero sinceramente que você fique bem.
― Duvido muito. – responde Kammi, se sentindo pior do que já estava.
― Fique bem, Kammi. – Laureen torna a repetir, antes de deixar a prima.
Novamente, sozinha, Kammi volta a se sentir mal. É tomada por um enjoo e corre para a pia, vomitando água, já que não tem se alimentado direito para ter o que vomitar. Fica ali, inclinada na pia vomitando até sentir o estômago completamente vazio, então lava a boca com bastante água até tirar todo o gosto de vômito dela e, volta a se deita no velho colchão de sua cela, se esforçando para não derramar mais nenhuma lágrima.
Não quer mais chorar...! Não quer mais derramar nenhuma lágrima...! Precisa ser forte não somente por ela, mas pelo seu bebê, um tesouro precioso que Mark lhe deixou antes de morrer, salvando sua vida...!
Richelle pode ter matado Mark, mas, lhe deixou um pedacinho dele, que cresce sem eu ventre e virá ao mundo dentro de alguns meses e, se a justiça for feita, quando este tempo chegar estará bem longe desta prisão...! Este lugar horrível que só faz com que se sinta cada vez pior...!
Não aguenta mais este lugar e, seu coração está tomando de medo, sabendo que será transferida para um presídio e sem saber o que realmente a espera lá....! E, tudo isso por culpa de Richelle, que a colocou nesta situação da qual parece não conseguir se livrar...!
Quanto tempo mais terá que suportar...? Quanto tempo mais terá que ser tratada como uma criminosa...? Quanto tempo mais...?
Não consegue conter a grande onda de tristeza que toma conta de seu coração, enquanto leva suas mãos a seu ventre, que, ainda nem mostra sinais de que existe uma vida em desenvolvimento...!
Não consegue nem imaginar o futuro, o que será dela dali para a frente, e, tudo o que terá suportar no futuro incerto que a espera...! E isso, só faz com que sua tristeza aumente mais e mais...!
― O que eu fiz para merecer isso...? O que eu fiz para ser tão odiada assim...?
Talvez, seu único crime fora ter se apaixonado perdidamente por Mark e ser inocente demais, a ponto de não perceber a maneira como Richelle sempre a olhou, com um ódio profundo e insano...! Talvez, seu único crime tenha sido não levar o ódio desta mulher dissimulada a sério e, na maioria das vezes, tentar agir como se ela não existisse em sua vida...!
E agora, está pagando caro por isso...!
Não consegue mais segurar as lágrimas e começa a derramá-las...! Porém, dessa vez, não são lágrimas de tristeza...! Desta vez, suas lágrimas são de ódio...! Do mais profundo dos ódios...! Todo o ódio que sente por aquela mulher...! Todo o ódio que sente por Richelle...!
Uma mulher sem qualquer escrúpulos que está lhe roubando de forma cruel dias de felicidade e de liberdade...! Lhe tirando tudo o que tem...!
― Ela me paga...! Ela me paga...! Nem que leve a minha vida inteira, mas ela vai me pagar...! A Richelle vai me pagar...!
Enquanto murmura essas palavras para si mesma, como se fosse um mantra, acaba mordendo seu lábio inferior com toda a sua força, fazendo-o sangrar. Sente o gosto amargo de seu sangue enquanto seu coração continua a se encher de ódio, e, sabe perfeitamente bem de quem é culpa...!
Está para ser transferida para um presídio, um local onde irá conviver com mulheres que, ao contrário dela, provavelmente cometeram os crimes que as colocaram lá, e, precisa se fortalecer para conseguir lidar com isso...! Pois não sabe como será tratada por elas...! E tem medo de seu sofrimento só aumentar...!
Precisa vestir uma armadura de frieza para conseguir sobreviver até o dia do julgamento...! O dia em que a chamada justiça irá decidir o destino de sua vida e de sua liberdade...!
*****
― Estenda as mãos. – ordena um policial a Kammi.
Obedientemente e, sem dizer uma palavra, ela obedece, a fim de ser algemada para deixar a prisão, rumo ao presídio. Não conseguira dormir na última noite, pensando em sua nova realidade e, em quanto tempo terá de suportá-la. Acabou sendo vencida pelo cansaço no meio da madrugada e, o pouco que conseguiu dormir foi tomada por horríveis pesadelos, todos eles envolvendo a fatídica noite em que Mark fora cruelmente assassinado.
Após algemá-la, o policial a empurra para fora da cela, e, a conduz para fora da delegacia, onde uma viatura policial a aguarda, para leva-la ao presídio. A intensa luz do sol quase a cega, devido aos dias em que ficara confinada em uma cela escura e sombria e, por um minuto, quase não conseguiu notar a presença de Laureen, bem em frente a viatura.
― O que faz aqui? – pergunta Kammi a prima, sem qualquer emoção em sua voz.
― Consegui autorização para acompanha-la até o presídio. – responde Laureen – Achei que você se sentiria melhor.
― Obrigada. – Kammi se força a sorrir.
O policial a empurra para dentro da viatura, onde, um policial está no banco de trás. Ela senta no meio e Laureen na outra ponta e, nos bancos da frente, mais dois policiais.
O trajeto da delegacia até o presídio é feito no mais profundo silêncio, sendo que o único som a ser ouvido são os da sirene da viatura, indicando que todos os carros da rua devem dar passagem para eles.
Kammi está totalmente focada nos próprios pensamentos, incapaz de prestar atenção em qualquer coisa, a não ser na dor e no ódio que tomam conta de seu coração. Tudo o que quer...! Tudo o que deseja, é que este inferno que se tornou a sua vida acabe de uma vez por todas...! Tudo o que quer é a sua liberdade de volta...!
A jovem está tão perdida em seus pensamentos que mal se dá conta da viatura parando e, só percebe que chegaram quando o policial à força a sair da viatura.
Com os olhos cheios de lágrimas, ela olha para o prédio mau cuidado a sua frente. Paredes altas, com cercas de alta tensão. Uma porta velha e sem nenhuma abertura. Um sentimento de tristeza se espalha em Kammi ao ver a fachada do local, e, fica imaginado como será lá dentro, que tipo de pessoas irá encontrar...!
Sem que ao menos se dê conta, é empurrada para a porta do presídio por dois policiais e, só então nota Laureen parada, em frente a viatura.
― Lamento, Kammi. – diz a prima – Mas eu só posso vir até aqui. São as regras, já que hoje é seu primeiro dia. Mas, amanhã eu venho te visitar. Espero sinceramente que você fique bem.
Kammi não consegue encontrar palavras para responder a prima, pois sabem que a partir de agora não vai ficar bem. O portão do presídio se abre e, é conduzida para dentro e, onde, anda por um pequeno corredor até chegar a um pátio, onde vê várias internas que, por um minuto, olham para ela com curiosidade, mas, depois, voltam suas atenções para qualquer outra coisa, que não importa nem um pouco para Kammi.
Após caminharem pelo grande e mau cuidado pátio, entram no prédio do presídio, onde são recepcionados por uma policial feminina.
― Ela é a nova interna? – questiona a policial.
― Sim. – responde um dos policiais que está acompanhando Kammi.
― Me acompanhem. – fala a mulher.
Seguem a mulher por um longo corredor, até chegarem a um almoxarifado, onde, atrás de um balcão, está uma outra policial, que encara Kammi, observando o corpo da jovem Em seguida, ela vai até uma prateleira, pega um uniforme e um sapato, enquanto um dos policiais que está acompanhando Kammi tira as algemas de seus pulsos. Em seguida, a mulher entrega o uniforme a ela enquanto os três policiais que a acompanhava deixam o almoxarifado.
― Aqui você vai deixar suas roupas e joias e, deverá colocar o uniforme. – fiz a mulher – Todos os seus pertences serão devolvidos à você no dia em que sair daqui.
― Onde é o banheiro? – pergunta Kammi, a voz incerta.
― Deixe de frescura e vista logo o uniforme, menina. – continua a mulher – Sua vida de moleza acabou no dia em que resolveu entrar para a criminalidade! Agora deixe de frescura e vista logo o uniforme! Eu não tenho o dia inteiro.
Kammi quer protestar, dizer que é inocente e que não cometeu nenhum crime mas, suspeita que, ninguém irá acreditar em sua inocência. Então, sem saída, não tem escolha a não ser fazer o que lhe é ordenado. Tira o seu vestido, suas sandálias e, coloca o uniforme e os sapatos do presídio. Em seguida, entrega suas roupas, sapatos, brincos e colar a mulher, que os coloca em uma caixa e os guarda em alguma prateleira qualquer.
A outra policial faz sinal para que Kammi a siga e, assim as duas deixam o almoxarifado e começam a andar por um grande corredor, onde se localizam as celas. Atravessam todo o corredor e, ao chegarem ao final dele, a policial aponta para a cela da direita.
― Esta é sua cela. – anuncia a mulher – Está na hora do banho de sol. Então sugiro que deixe suas coisas aí e vá para o pátio, se enturmar com as outras detentas.
Sem dizer uma única palavra, Kammi entra na cela, que, é maior do que a que ocupou na delegacia. Ela nota que há duas camas, uma do lado direito da cela e outra do lado esquerdo e, como percebe que a do lado direito está ocupada, coloca sua pequena mala na cama da esquerda. Olha para trás e percebe que a policial já se foi. Então, se sentindo livre, abre sua mala e tira dela o seu edredom, que sua mãe lhe trouxera enquanto ainda estava na delegacia. Abraça o edredom com força e sente suas lágrimas molhando-o, mas não se importa. Tudo o que quer, tudo o que precisa, é colocar de algum jeito toda a sua dor para fora.
― Então você é que é a novata? A que dizem que matou o noivo a sangue frio?
Kammi deixa o edredom de lado e olha para a frente, onde vê uma mulher de feições duras, cabelos negros até a altura dos ombros e usando um uniforme igual ao dela a encarando com curiosidade.
― Sou. – Kammi responde, de má vontade – Mas não matei ninguém, sou inocente. E meu nome não é novata, meu nome é Kammi.
― Tanto faz. – diz a mulher – Mas aqui, querida, você é a novata. Acostume-se. Meu nome é Melody e sou sua companheira de cela. Muito prazer.
Melody estende a mão para cumprimentar Kammi, que devolve o cumprimento.
― Novata, todas aqui se dizem inocentes.
― Já disse que meu nome não é novata! Meu nome é...
― Kammi, já sei! Mas olha, vendo bem a sua cara, acho que você tem razão, você deve ser mesmo inocente.
Kammi olha boquiaberta para a mulher à sua frente, sem realmente acreditar no que acabara de ouvir. Desde o dia em que fora presa, todos, com exceção de sua família, a tratam como se fosse culpada, como se realmente tivesse matado Mark. E agora, sua companheira de cela diz, do nada, que acredita em sua inocência.
― O que disse? – Kammi se força a perguntar.
― Que acredito em sua inocência, novata. – responde Melody, da forma mais natural do mundo – Com esta carinha de mosca morta que você tem é impossível que tenha tido o sangue frio necessário pata tirar a vida de uma pessoa. Acredite em mim, querida, tenho experiência no ramo. Sei reconhecer uma assassina quando estou diante de uma.
― Acredita em mim?
― Sim, acredito. Já disse, sei reconhecer uma colega quando vejo uma.
― Você é uma assassina? – Kammi pergunta com espanto.
Melody começa a rir, tamanha a inocência que encontra e sua companheira de cela.
― Não apenas assassina, novata. Também sou traficante e mafiosa. Mas não precisa ficar com medo de mim, a partir de agora somos companheiras de cela e eu fui com sua cara, menina. E, acredite, aqui você vai encontrar tipos muito piores do que eu. Mas não se preocupe, aqui ninguém vai mexer com você, pelo menos se você andar comigo e for a minha protegida. Mas não vou te enganar, novata, aqui a sua vida não será fácil. As policiais não dão mole para ninguém. Seja bem vinda ao inferno.
Kammi fica totalmente sem palavras, sem saber o que responder a sua nova companheira de cela. Não esperava por isso...! Não esperava que fosse recebida dessa forma por sua companheira de cela...! Se bem que, a bem da verdade...! Nunca soube o que realmente esperar...! Tomada por medos e incertezas, a única coisa que pensava era em se isolar e viver sozinha sua dor e seu ódio...!
― Não precisa me responder se não quiser. – continua Melody – Já disse, a partir de agora somos companheiras de cela e se você for condenada, vamos passar muito tempo juntas, já que eu ainda tenho vinte anos de pena pra cumprir aqui. Então não fique aqui e vamos lá para o pátio, você precisa conhecer as outras, ou então todas elas virão aqui para te conhecer e vamos acabar levando serão das policiais e, creio que este não será um bom começo pra você.
Sem escolha, Kammi segue Melody pelos corredores, até chegarem ao pátio, onde se encontram com cinco detentas.
― Companheiras, esta é a novata, Kammi. – anuncia Melody – Novata, estas são Natalie, Regina, Edrea, Laina e Adriana.
― Melody, tem certeza de que esta garota com cara de peixe morto é mesmo a assassina perigosa de quem nós ouvimos falar? – questiona Adriana – Porque cá entre nós, ela não tem cara de assassina nem aqui e nem na China!
― Eu não falei, novata? – fala Melody, sorrindo maliciosamente – Não sou a única aqui que sabe reconhecer uma assassina. E, se não quiser se dar mal, acostume-se a andar conosco, assim nenhuma outra detenta vai se meter com você.
― Como quiser. – diz Kammi, sem qualquer emoção.
― Novata, nós não vamos morder você! – fala Regina – Deixe essa cara de enterro de lado, menina, aqui nós estamos todas no mesmo barco, querida! E, como disse a Melody, nós não vamos te morder não!
― Me desculpem...! – fala Kammi, mais uma vez – É que estou um pouco confusa...! Não sei o que pensar de tudo isso...!
― Aqui é o inferno, criança! – diz Edrea – E é bom que você tenha isso em mente. Nenhuma das policiais aqui vai facilitar as coisas para você. Vai ter que deixar as lágrimas de lado e amadurecer criança, isso se você quiser sobreviver a isso.
Kammi continua sem palavras, e permanece em silêncio, ouvindo as estranhas mulheres lhe explicarem como é a rotina no presídio, na qual era irá tentar se habituar até chegar o dia de seu julgamento.
Durante o resto do dia, não é capaz de proferir uma palavra, apenas respondendo quando alguém lhe faz alguma pergunta. Sentindo-se cansada e doente, acaba vomitando durante o almoço e também durante o jantar, por esse motivo, acaba levando várias broncas das policiais que tomam conta delas no refeitório. Ao final da refeição, volta a sua cela, abre sua mala, tira dela um lápis e, começa a fazer alguns traços na parede, cada um marcando um dia.
― O que está fazendo riscando a parede, novata? – pergunta Melody, que acaba de chegar.
― Estou marcando os dias na parede. – responde Kammi, voltando a guardar o lápis em sua pequena mala – E já disse que meu nome não é novata, meu nome é...
― Kammi, já sei, já sei. Mas que dias você está marcando aí?
― Quantos dias da minha vida a Richelle já me roubou.
― Se você for condenada, vai ter muito o que marcar.
― Não me importo! Vou marcar nesta parede cada um deles, sem esquecer nenhum! Porque um dia, eu não sei como, mas eu ainda vou cobrar!
Melody apenas dá de ombros e, deita-se em sua cama. Cansada pelo dia estressante, Kammi faz o mesmo e, rapidamente adormece, sendo consumida por um sono sem sonhos.
Acorda horas depois, sentindo-se totalmente enjoada e, corre para a pia, para mais uma vez vomitar. Melody acorda e, sem ao menos se levantar, apenas observa sua nova companheira de cela. Quando Kammi se recompõe e volta a sua cama, a voz de Melody se faz ouvir:
― Escuta, novata. Eu estive te observando o dia inteiro, e, tenho certeza de que você está grávida.
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