A Vingança De Kammi

21 O Destino Incerto de Kammi


Alcir e Melody não perdem tempo e correm ao encontro de Kammi, que está caída no chão com a mão suja de sangue na lateral de seu abdômen ferido. O mafioso não perde tempo e seu olhar recaí sobre aquele ferimento, o qual Kammi tenta desesperadamente esconder com a mão, ao mesmo tempo em que seu sangue começa a pingar no chão.

― Kammi! – a voz de Alcir mostra claramente toda a sua preocupação.

― Eu estou bem...! – responde a mulher – Mas a minha filha...! – Kammi não consegue conter as amargas lágrimas que começam a verter sem parar por sua face – A minha filha...! Aquela desgraçada levou a minha filha...!

― Kammi, temos que te tirar daqui. – fala Melody, preocupada ao ver a grande quantidade de sangue que escorre do ferimento de sua amiga – Você precisa de cuidados médicos imediatamente, parece que esse seu ferimento foi bastante profundo.

― O que eu preciso é da minha filha...! – Kammi fala em meio às lágrimas de dor – Preciso dela em segurança...! Nada mais que isso...!

Kammi continua a chorar de forma totalmente descontrolada. A culpa a corroendo por dentro. Essa dor que está sentindo em seu coração é mil vezes pior do que a dor deste ferimento em seu abdômen.

― Kammi, você precisa cuidar de seu ferimento! – a voz de Alcir não deixa qualquer margem para discussão – Está ferida e, não poderá fazer nada por sua filha enquanto estiver assim. Precisa se cuidar.

― Ele tem razão, Kammi. Você precisa cuidar de seu ferimento. – diz uma voz feminina e familiar, que acaba de chegar ali.

Kammi olha para a pessoa que acaba de chegar e, se surpreende ao ver sua prima Laureen ali, estendendo a mão para ajudá-la a se levantar. Como? Como ela pode estar ali? Sua cabeça está uma bagunça, a tal ponto que ela não consegue ao menos formular a pergunta a dar voz a seus pensamentos.

― Laureen...? – é tudo o que Kammi consegue dizer.

― Vocês tem que leva-la a um hospital. – Laureen continua a dizer – Olhem como o ferimento dela é profundo. Ela não pode continuar a perder sangue deste jeito.

― Não...! – Kammi fala mais uma vez – Não quero hospital...! Não quero me cuidar...! Eu quero a Belinda...! Eu quero a minha filha...!

Laureen e Melody ajudam Kammi a se levantar, enquanto Alcir pega seu telefone e, rapidamente liga para alguém, começando a falar com pressa, claramente passando instruções.

Kammi geme de dor, o sangue não para de escorrer de seu ferimento. Melody e Laureen olham para aquilo preocupadas e, sem perder tempo, Melody rasga um pedaço de sua blusa e, de forma um pouco desajeitada, enfaixa o abdômen de Kammi, enquanto ela tenta, em vão, protestar.

― Quieta, Kammi. – Melody fala, em um tom de voz de quem está dando uma bronca – Sei que está preocupada com sua filha. Eu também estou! Droga, eu trouxe sua filha ao mundo, esqueceu? Talvez tenha sido essa a única coisa boa que eu tenha feito em toda a minha vida!

Alcir desliga o telefone e, se aproxima das três mulheres. E, antes que possa dizer qualquer coisa, seu olhar recaí sobre Laureen, que, não se importa com ele, continua com seu rosto fixo na prima.

Tinha muito a dizer a Kammi, mas, a cena que presenciou tirou tudo da cabeça dela, como também revelou, da pior forma possível, a verdade da qual ela desconfiava há muito tempo.

― Imagino que a senhorita tenha muito o que dizer. – Alcir fala para Laureen, antes de se aproximar de Kammi e fixar o olhar no ferimento de sua noiva.

― Talvez eu tenha. – Laureen não se deixa intimidar pela presença de Alcir – Mas não agora. Não quando Kammi é muito mais importante do que qualquer outra coisa. E não pense que ela é importante apenas para você. Pra mim, a Kammi é mais do que uma prima, é a irmã que eu nunca tive.

― Passou as ordens, Alcir? – pergunta Melody, colocando um fim a discussão dos dois.

― Com toda a certeza. – responde o mafioso – Logo saberemos o paradeiro da sua filha, Kammi, não se preocupe. Richelle não tem como esconder a jovem na minha cidade. E, ela não teve tempo para tirá-la daqui.

― O que isso quer dizer...? – a voz de Kammi sai entrecortada devido à dor.

― Isso quer dizer que, para onde quer que estejam levando a sua filha, eu vou descobrir e, a trarei para você, Kammi. Disso você pode ter certeza.

― Eu quero a minha filha, Alcir...! Quero a minha filha segura em meus braços...!

― E você a terá. Mas antes, precisamos leva-la para um hospital, Kammi. Você precisa cuidar desse ferimento.

― Isso não é importante agora. O importante é a minha filha! Não me importo com este ferimento! O que eu quero é a minha filha! Agora! Vocês não entendem! Richelle me odeia! E mesmo que ela tenha criado a Belinda, não pensará duas vezes antes de matá-la, pois sabe que isso vai me destruir completamente! Ela não é burra!

― Sei disso, Kammi. – Alcir não se deixa obedecer pelas palavras da noiva – Mas quando eu disse que Richelle não saí da cidade, ela não sai! Se eu disse que eu vou encontrar a sua filha, é porque eu vou encontrar a sua filha! E se eu disse que você precisa ir a um hospital cuidar de seu ferimento, porque é profundo, é porque você vai a um hospital cuidar dele!

― Alcir...!

― Kammi, faz o que ele está dizendo! – Laureen pede, a voz é uma clara súplica – Se ama a sua filha como sei que ama e quer o bem dela, você precisa cuidar deste seu ferimento!

― Não vai conseguir salvá-la ferida e perdendo sangue desta forma, Kammi! – Melody faz coro com os dois – Confie em Alcir! Se ele diz que vai trazer sua filha em segurança para os seus braços, é porque ele vai fazer isso.

Completamente vencida, Kammi desiste de argumentar com os três. Ela começa a se sentir fraca e tonta, e, ao dar um passo, perde os sentidos, sendo imediatamente amparada por Alcir, que, gentilmente, pega a noiva nos braços e sente o sangue dela continuando a jorrar, sob o curativo improvisado de Melody.

― Vamos agora mesmo para o hospital. – ordena o homem.

*****

Richelle anda de um lado para o outro na sala de sua casa, esperando pelo telefonema de Sebastian, para lhe dizer que o plano fora um sucesso. Seu amigo lhe garantiu que, não há como haver falhar no plano, pois todos os detalhes foram minimamente planejados, mas, mesmo assim, não ficará tranquila enquanto não receber a ligação que irá lhe dizer que o plano fora, verdadeiramente um sucesso.

Isso porque sabe que o amiguinho de Kammi é um homem demasiado perigoso, e, decididamente, um desses que sim, não se deve ter como inimigo. E ela, infelizmente, está na lista de inimigos dele.

O tal Alcir não é somente o maior mafioso da região, como também um perigoso assassino, segundo Sebastian lhe informara. E, isso só faz com que os riscos de seu ousado plano aumentem inda mais, pois, um passo em falso e sua vida efetivamente chegará ao fim.

E, tudo isso depende do telefonema de Sebastian. Se ele ligar e disser que o plano fora verdadeiramente um sucesso, então terá Kammi em suas mãos e, a vitória neste perigoso jogo de vida e morte será sua. Mas, por outro lado, se Sebastian lhe disser que, o plano fora um verdadeiro sucesso, então terá Kammi em suas mãos e, a vitória estará garantida!

O tempo parece não passar e os minutos parecem se arrastar, o que a faz começar a ficar maluca, pois, quer logo que o telefone toque, a fim de acabar com essa aflição que a está consumindo a cada segundo.

Por que ele não lhe telefona logo?

Por que ele não acaba de uma vez com essa maldita apreensão que ela está sentindo?

Sebastian sabe melhor do que ninguém o quanto ela espera por este momento e, acima de tudo, o quanto ela tem medo de que alguma coisa dê errado! E, mesmo assim, o maldito não faz a parte dele, que é lhe informar de qualquer notícia, por mínima que ela seja!

Não!

Ele faz questão de mantê-la no escuro e, o conhece perfeitamente bem para saber que é de propósito! Que, há esta hora, Sebastian já sabe se o plano deu ou não deu certo e, ao invés de informá-la, como era o combinado, fica brincando de deixa-la curiosa e pior, com os nervos à flor da pele, porque é este o estado em que ela se encontra neste momento, com os nervos à flor da pele!

Droga!!!

Droga!!!

Mil vezes droga!!!

Seu desejo é pegar o aparelho de telefone celular e jogar longe, tão grande é a sua raiva! Mas, não pode fazer isso! Se o fizer, infelizmente não saberá se o plano deu certo ou não!

Precisa do maldito telefone intacto para quando Sebastian tiver a boa vontade de ligar, informando se o plano deu certo ou não!

Pega um copo em cima da mesa e, com toda a sua força, o joga longe, apenas para descontar sua frustração em algo, os cacos de vidros voando em todas as direções.

A campainha toca e, sem pressa, ela vai atender. Ao abrir a porta e ver que é Sebastian, quase acerta nele um poderoso soco, mas o golpe é impedido facilmente pelo homem que, segura o pulso dela de forma firme e sorri cinicamente antes de dizer:

― Que recepção, Richelle. Achei, sinceramente, que você estava morrendo de vontade de me ver.

― Ora seu...! – Richelle não consegue esconder a raiva em sua voz.

Sebastian solta o pulso de sua amiga e, se empurra para dentro do apartamento, fechando a porta atrás de si e indo para a sala, onde se senta confortavelmente em um sofá como se fosse o dono da casa. E, enquanto faz isso, é seguido por Richelle, que o olha sem conseguir esconder toda a sua impaciência.

― E então, o que está esperando para me dizer? – pergunta Richelle, sem esconder a raiva em sua voz.

― Dizer o que? – Sebastian finge que não está entendendo do que a amiga está falando.

― Ora, não se faça de sonso, Sebastian! – Richelle não é mais capaz de segurar a raiva – Era para você ter me ligado e dizer se o plano deu certo ou não! Mas ao invés disso, está aqui, sem me dizer nada e agindo como se eu soubesse como está indo a situação.

― Então é por isso que você está tão nervosinha, Richelle?

― E por que mais seria? Você deveria ter me ligado e não o fez! Quero saber como anda a situação, se é que você ainda não tenha notado!

― Então é isso? É que achei mais interessante dar a você a notícia pessoalmente, achei que ficaria mais feliz se eu viesse pessoalmente te dar a notícia, mas, parece que eu estou enganado, Richelle, ao contrário do que eu imaginei, você não parece nem um pouco feliz em me ver.

― Me diga logo, Sebastian! Vai querer que eu implore agora?

― Até que seria uma boa ideia...! Mas não, decididamente não quero isso de você, minha cara. Mas, muito me admira o fato de você duvidar assim das minhas capacidades, minha cara.

― Então isso quer dizer que você conseguiu? – a voz de Richelle é pura ansiedade.

― Exatamente, minha cara. Você tem a filha de sua inimiga em seu poder. Pode dar prosseguimento ao plano no momento em que quiser e, de brinde, eu te digo que, sua amiguinha, a tal Kammi, teve um grave ferimento enquanto tentava, em vão, proteger a filhinha dela. Ao contrário de você que a criou, a tal Kammi ama a filha que trouxe ao mundo.

― Ela faz isso porque é uma tonta, levada por sentimentalismos tolos. E, será exatamente isso que irá tirar a vida dela no final.

*****

No maior hospital da cidade, Kammi tivera o ferimento devidamente tratado e, espera, sedada em um quarto, a chegada de sangue, pois, ela perdera uma quantidade excessiva e, por esse motivo, todo o sangue perdido precisa ser recuperado, o mais breve possível.

E, na sala de espera, Alcir, Melody e Laureen apenas aguardam. Um silêncio mortal reina entre os três, pois, nenhum deles consegue dizer alguma coisa, ante a situação que estão vivendo.

O médico que atendera Kammi deixara bem claro que, o ferimento dela foi muito profundo e que, a vida dela depende da transfusão de sangue. Se ela não receber a transfusão, certamente morrerá. E, não encontraram no banco de sangue do hospital, o sangue do tipo O, que é o de Kammi, o que fez com que o hospital tivesse de pedir em outro hospital e, para os três, esta espera é angustiante.

Laureen encara o homem a sua frente com olhos desconfiados e, não consegue deixar de sentir certo ódio dele, pois, de certa forma, o culpa pelo que aconteceu a prima. Não tem quem tire de sua cabeça que a culpa é sim dele, de Kammi ter se ferido.

Por sua vez, Alcir não deixa de notar o olhar repleto de rancor que é dirigido a ele e, como não é um homem de deixar as coisas passarem, resolve acabar de uma vez com o que o está incomodando.

― Parece que você tem algo contra mim. – fala Alcir, encarando Laureen com indiferença – Seja lá o que for, é melhor falar logo, pois se tem uma coisa que eu detesto, são verdades não ditas.

― Se faz tanta questão assim que eu fale, eu direi. – a voz de Laureen é carregada de rancor – Acho que a culpa é sua da Kammi estar nesta situação!

― O que está dizendo? – questiona o mafioso.

― Eu estou dizendo que o sequestro que presenciei acabou confirmando todas as minhas suspeitas! Acha que sou tonta? Acha mesmo que em nenhum momento eu desconfiei de que Kammi estava por trás por trás de todos os envolvidos no julgamento dela? Saiba que eu sempre desconfiei! E hoje tive a prova cabal que confirmou tudo àquilo que eu já sabia! Foi você! Você induziu a Kammi a fazer o que ela fez!

― Eu não induzi a Kammi a fazer nada, até porque não tenho poder para isso! Fale apenas do que você sabe, Laureen, não daquilo que apenas deduz.

― O que quer dizer com isso?

― Eu quero dizer que, vinte anos atrás, a Kammi me procurou com o coração sedento por sede de justiça, a mesma justiça que você defende e que a condenou vinte anos atrás! E sabe por que eu não neguei o que ela me pediu? Porque eu a amo! Eu amo a Kammi desde o primeiro instante em que a vi, droga! Nunca na minha vida, eu pensei que fosse me apaixonar por uma mulher, mas me apaixonei por ela, pela Kammi! E, se eu realizei o desejo dela por vingança, é porque essa foi à maneira que encontrei de mostrar a ela que eu me importo com ela! Que a felicidade dela é a minha felicidade! Será que é tão difícil para você entender?

Não. Na verdade, não é nem um pouco difícil de entender. E, ele disse algo que até agora ela sequer imaginava. Kammi procurou por ele...! Kammi procurou por este caminho que ela se encontra agora...!

Sem que perceba, lágrimas começam a inundar sua face, pois não sabe mais o que pensar, ou o que fazer para ajudar a prima. De forma quase que involuntária, Alcir se aproxima de Laureen e a abraça de forma que chega a ser quase protetora, a fim de consolá-la. Se esta mulher é importante para Kammi, significa que ela é importante para ele também.

― Olha, perdoe-me a grosseria. Mas, eu acabei perdendo a cabeça. Estou preocupado com a Kammi, assim como também estou preocupado com a filha dela. É uma situação perigosa, você sabe. A Richelle tem a menina em seu poder e, não pensará duas vezes antes de fazer mal a Belinda, se isso prejudicar a Kammi.

― Eu sei...!

― Por mais que você não goste de mim, você tem todo o direito, porque ninguém é obrigado a gostar de ninguém. Mas primeiro, vamos ajudar a Kammi, está bem? Vamos nos unir pelo bem da Kammi e da filha dela, e depois você pode me odiar e me culpar o quanto você quiser.

Laureen olha impressionada para aquele homem e, se afasta dele, apenas para examinar o rosto do homem a sua frente. Sempre fora muito boa em ler expressões faciais, até por conta de sua profissão. Sabe ler nos olhos das pessoas o que elas tentam esconder e, o que vê nos olhos deste homem é que ele verdadeiramente ama sua prima Kammi, embora o tenha assumido em uma situação para lá de tempestuosa quando ela tentou jogar ele uma culpa que, talvez, não pertença a ele.

― Tudo bem. – Laureen se dá por vencida – Vamos nos unir pelo bem da Kammi.

― Ótimo, porque ela vai precisar muito de você.

― Por que diz isso?

― Porque eu coloquei meu pessoal na cola da Richelle, de modo que ela não dará um passo sem que eu saiba. E, assim que eu descobrir onde esta mulher está escondendo a filha da Kammi, eu, assim como Melody e todo o meu pessoal iremos atrás dela, a fim de trazer a jovem Belinda de volta. E, durante este processo, você deverá estar ao lado da Kammi, para impedir que ela faça qualquer tipo de besteira. Compreende o que eu digo, não é?

― Compreendo. Mas, será difícil segurar a Kammi, você deve saber disso tão bem quanto eu. Até me atrevo a dizer que você sabe disso mais do que eu mesma sei.

― Provavelmente. Mas não é hora para discutirmos agora. Posso contar com você? Vai ficar ao lado da Kammi e impedir que ela faça alguma besteira no momento em que eu precisar sair para agir?

― Pode. Ficarei com a Kammi para impedir que ela faça alguma besteira. Mas por favor, faça o impossível para trazer a filha dela de volta.

― Quanto a isso, você pode ficar despreocupada.

*****

Richelle, ao lado de Sebastian, deixa seu prédio e adentram o carro de Sebastian, que não perde tempo e dá a partida, começando a andar em alta velocidade pelas movimentadas ruas da cidade.

Richelle não fala uma única palavra durante o percurso, mas, em seus lábios, está o claro sorriso da vitória. O sorriso de quem tem certeza de que já é a grande vencedora deste grande jogo, no qual a idiota da Kammi ousou a desafiar.

Mas não tem problema! Mostrará a essa idiota o quão caro é mexer com ela! Já que vinte anos não foram suficientes para ela aprender, irá mostrar da pior forma possível! Irá mostrar usando a pessoa com quem ela mais se importa no mundo: a filha!

Por conta do trânsito da cidade, levam quase uma hora para chegar a seu destino, um galpão abandonado no porto. Os dois descem do carro e, olham atentamente para todos os lados, a fim de notarem alguma movimentação suspeita e, ao verem que está tudo tranquilo, que não ninguém suspeito pelas redondezas, Sebastian segue seu caminho, seguido por Richelle.

Os dois andam um pouco e chegam à entrada dos fundos do galpão, uma pequena porta que está trancada com um cadeado. Sebastian tira de seu bolso uma chave, e, abre o cadeado, para que os dois adentrem o galpão e, após eles entrarem, volta a trancar o galpão, só que dessa vez por dentro.

As luzes do galpão estão completamente apagadas, deixando o local totalmente às escuras. Sebastian anda um pouco no tato e, encontra um interruptor de luz. Ele o ascende e, imediatamente, o local é iluminado. Ele faz sinal para que Richelle o siga e, eles atravessam o galpão, encontrando sentada no chão, com os pulsos e os tornozelos fortemente amarrados e um capuz na cabeça, impedindo que ela enxergue.

Sem perder tempo e com um sorriso vitorioso em seus lábios, Richelle retira o capuz da cabeça da jovem e, os olhos repletos de lágrimas e desesperados de Belinda encaram Richelle, seu rosto ficando completamente branco ao ver a mulher a sua frente.

― Você...?! – a voz de Belinda é carregada de medo.

― E quem você esperava, idiota? – fala Richelle, a voz fria – A Kammi? Bem se vê que você só podia mesmo ser filhinha daquela idiota!

― Por que está fazendo isso comigo...?! – Belinda pergunta aos prantos – O que foi que eu fiz pra você...?!

― Para começo de conversar nasceu, e é filha daquela ridícula da Kammi, isso já é motivo mais do que suficiente para que eu não te suporte!

― Se nunca me suportou, porque então me criou?

― Você era o meu escudo contra aquela ridícula da Kammi, se é isso que quer saber! Ao contrário de mim, aquela idiota sempre te amou! Sempre te desejou! Você é o ponto fraco dela! Por isso fiz questão de mostrar pra ela que eu iria criar você! Para que ela não ousasse se aproximar de mim!

Belinda escuta cada palavra de Richelle enquanto as lágrimas insistem em cair de seus olhos, inundando sua face que é o puro reflexo do terror. Sempre tivera um relacionamento complicado com Richelle, cada uma vivendo em seu mundo. Mas, mesmo assim, ela ainda era a sua mãe...! Ainda era a pessoa com quem ela podia contar.

Mas agora, de uma hora para a outra, isso ruiu...! Veio abaixo da pior forma possível, porque a pessoa com que ela deveria contar em qualquer situação, mandou a sequestrar só para provocar a pessoa que lhe trouxe ao mundo...!

E isso é cruel...!

Isso é cruel demais...!

― Por que está chorando, idiota? – a voz de Richelle é de puro descaso.

― E você ainda pergunta...?! – fala Belinda, a voz carregada de dor – Eu não conheço você...! Como pode ser capaz de algo tão cruel...? Como pode ser capaz de sequestrar a própria filha...?!

― Em primeiro lugar porque você, graças aos céus não é minha filha! Eu jamais seria capaz de gerar uma criatura tão patética quanto você, tenha certeza disso! E, como já falei, é tudo para tirar a idiota da Kammi da minha vida! Esse fantasma que deveria ter sido exterminado vinte anos atrás!

― O que pretende fazer comigo...?!

― Essa é uma pergunta inteligente, Belinda. E mostra que, apesar de você ser filha daquela idiota da Kammi, aprendeu alguma coisa comigo. Vou matá-la, mas só se a Kammi for burra o suficiente para seguir as minhas ordens e vir sozinha aqui te resgatar! E, como eu tenho quase certeza de que ela é sim, burra, pode dar adeus a sua vida, Belinda. Mas não se preocupe. Depois que eu te matar, pretendo matar a Kammi, e, vocês duas poderão se encontrar no fogo do inferno!

― É VOCÊ QUEM VAI PARA O INFERNO SUA BRUXA...!— Belinda grita em meio às lágrimas.

― Pode até ser. – Richelle gargalha de prazer – Mas pode ter certeza de que você e sua mamãezinha biológica irão primeiro do que eu, Belinda. Porque a idiota da Kammi não pensará duas vezes em vir aqui sozinha achando que poderá te salvar!

― Se ela fizer isso vai provar que tem coração, ao contrário de você!

― Vocês duas são iguaizinhas, não passam de sentimentais idiotas, e, é por isso que estão à beira da morte! Agora faça o favor de calar a boca ou serei obrigada a mandar o Sebastian amordaça-la. Tenho um trabalho muito importante a fazer.

Dizendo isto, Richelle se afasta de Belinda, e, ela é seguida por Sebastian que, a encara com seu sorriso irônico, entregando a ela um aparelho de telefone celular.

― Você descobriu o número? – pergunta Richelle, sem conter a ansiedade em sua voz.

― E você ainda duvida? – a voz de Sebastian é carregada de cinismo – Está gravado na agenda. Pode ligar e se divertir com seu showzinho particular.

*****

Kammi acorda e, com a vista um pouco turva, percebe que está em um hospital. Em sua veia, um acesso, em que ela recebe soro. Seu corpo está todo dolorido, principalmente no local em que recebera aquele ferimento, na vã tentativa de salvar sua filha.

Belinda...!

Só de pensar na filha, seu coração começa a doer e a bater de forma totalmente descompassada. Precisa fazer alguma coisa! Precisa fazer alguma coisa para salvar a sua filha! Não pode simplesmente ficar ali deitada, enquanto aquela maldita da Richelle faz o que quer com sua filha apenas para atingi-la...!

Não...!

Não pode ficar parada...!

Belinda precisa dela e, dará um jeito de ajudar a filha, custe o que custar!

Mas primeiro, ela precisa dar um jeito de deixar este local sem ser notada. Pois sabe que Alcir, bem como Melody e até Laureen devem estar em algum lugar lá fora e, por mais que ela proteste e diga que está bem, eles não a deixarão sair para salvar a filha!

Não...!

Precisa pensar com calma antes de tomar qualquer decisão.

Tenta se mexer, mas sente uma dor insuportável no local de seu ferimento. Pelo visto, parece ser mais sério do que ela havia imaginado. Mas, naquele momento, não tinha como pensar direito. Aliás, naquele momento ela estava sob ação da adrenalina e quase não sentiu a dor.

Só pensava em salvar sua filha! Só pensava em salvar Belinda e tirar ela dessa confusão em que fora metida unicamente porque Belinda é sua filha! Carne de sua carne e sangue de seu sangue!

E ela falhara! Falhara miseravelmente em proteger sua única e amada filha! E precisa fazer alguma coisa para mudar esta situação!

Em uma mesinha de cabeceira ao lado de sua cama, o seu telefone celular começa a tocar e, antes que alguém escute e entre ali para atender, ela imediatamente o faz. Se não estivesse tão pálida por conta do sangue que perdeu, seu rosto certamente perderia a cor ao escutar a voz cínica do outro lado da linha.

― O que você quer para soltar minha filha, Richelle? – Kammi não perde tempo em dizer.

― Não vai nem me cumprimentar antes, Kammi? – a voz de Richelle é puro cinismo do outro lado da linha.

― Me poupe de sua falsa cortesia e vamos logo ao que interessa. Me diga o que quer para libertar minha filha sua mulher maldita!

― Já que faz tanta questão de ir direto ao ponto, queridinha. Me encontre daqui a duas horas no galpão abandonado do porto. E não se esqueça, Kammi, venha sozinha. Se houver uma sombra daquele seu noivinho mafioso eu não pensarei duas vezes em matar a sua filhinha! Venha sozinha, Kammi, não esqueça, ou pode dar adeus à vida de Belinda! Nos vemos dentro de duas horas!

Dizendo isto, Richelle desliga o telefone e, involuntariamente, lágrimas amargas começam a inundar a sua face. Lágrimas de dor, por saber que sua filha está em perigo e, no momento, não pode fazer muito por ela.

Seca suas lágrimas, encontrando dentro de si a coragem necessária para fazer o que precisa ser feito! Não vai mais chorar! Há vinte anos prometera a si mesma que seria forte e nunca mais em sua vida iria chorar!

Há vinte anos deixara de ser aquela garotinha inocente!

Hoje é uma mulher forte e, esta mulher que se tornou vai salvar a filha, nem que isso lhe custe à própria vida!

Com cuidado para não se machucar, tira o acesso venoso com o qual está recebendo soro e, se levanta de qualquer jeito da cama. Ao fazer isso, sente uma leve tontura. Fecha os olhos e, rapidamente volta a abri-los, e, isso faz com que a tontura passe.

Bem devagar, a fim de não fazer qualquer tipo de barulho, tira a camisola do hospital e, ao fazer isso, não deixa de notar uma macha de sangue no local onde fora ferida, e que fora feito os devidos curativos.

Deixando o machucado de lado, encontra suas roupas penduradas em um cabide e, rapidamente a veste, pois não tem tempo a perder. Se quiser salvar Belinda, não tem tempo para perder.

Bem devagar, abre a porta do quarto e, percebe que a ante sala está vazia. E, melhor ainda, não vê sinal de Alcir, muito menos de Melody ou de Laureen.

Perfeito!

Pois não vai encontrar oportunidade melhor para sair sem ser notada!

Com passos apressados, deixa a ante sala e, vai para o elevador, em que não perde tempo para apertar o botão do térreo. Quando o elevador chega, o deixa rapidamente, e, tão apressada como nunca antes teve em toda a sua vida, deixa o hospital pegando o primeiro taxi que vê ali na porta.

― Para onde, senhora? – pergunta o taxista,

― Para o porto. – responde Kammi, sem perder tempo.

Assim que o taxista pisa no acelerador, Kammi suspira aliviada. Agora que está indo para o porto, ninguém será capaz de lhe impedir. Alcir não sabe para onde ela está indo e, nenhum de seus homens a viu, o que facilitou tudo.

E, se Richelle quer que esse acerto de contas seja feito somente entre as duas, assim ela o fará! Chegou o momento de acabar de uma vez por todas com este maldito jogo!

Assim que tiver total certeza de que a sua filha está em segurança, então matará Richelle com suas próprias mãos e, fará com que ela se arrependa amargamente do dia em que nasceu, aquela maldita mulher verá!

Se Richelle queria mexer com alguém, que fosse mexer com ela e deixasse sua filha em paz! Belinda não tem nada a ver com isso! Belinda não tem que ser usada para atingi-la, como ela está sendo usada!

Mas Richelle não perde por esperar!

Ela vai pagar por isso!

E vai pagar caro!

******

Enquanto toma um café preto e sem açúcar na cantina do hospital, Alcir está com seu celular em mãos, esperando que ele toque como se sua vida dependesse disso. Aliás, não é sua vida, mas é como se fosse, porque é importante para Kammi e, o que é importante para ela, passa a ser importante para ele também.

Para ele, é assim que as coisas funcionam. O mundo de Kammi é o seu mundo. O que deixa Kammi feliz, consequentemente o deixa feliz e, o que a deixa triste, faz o mesmo com ele!

A diferença é que ele tem cabeça fria para agir com a razão, sempre!

E, é exatamente isso que ele está fazendo agora, agindo com a razão para ajudar a sua bela Kammi!

Para ele, fora extremamente complicado assumir para a prima de Kammi os sentimentos que, ao longo de vinte anos guardou em segredo, bem no fundo de seu coração. Mas aquela mulher o fizera confessar algo que até então ele guardara a sete chaves, o amor incondicional que ele devota a sua bela Kammi.

Sua forma de amar pode ser um pouco egoísta e diferente do que ela está acostumada. Mas fazer o que? Cada pessoa tem seu jeito e, o dele é sim extremamente egoísta, e só o que lhe importa é sim a felicidade de Kammi.

E, é em nome desta mulher extraordinária que irá encontrar a filha dela e devolvê-la em segurança, bem como irá matar Richelle e entregar o cadáver dela a Kammi!

Está muito preocupado com Kammi, principalmente quando o médico disse que a vida dela depende da transfusão de sangue e, como que para piorar a situação, não estão encontrando sangue tipo O em outros hospitais para que ela possa receber esse sangue.

Este jogo, no qual ele é um dos participantes, está se tornando cada vez mais perigoso e, isso só significa uma coisa. E ele, não apenas como um homem experiente, mas como o melhor jogador neste tipo de disputa, sabe perfeitamente bem como termina o jogo, e, ele termina com a morte de uma das duas. Ou Richelle ou sua bela Kammi irá morrer no final e, está disposto a fazer o impossível para que, no final, a vencedora deste jogo seja a sua Kammi. E no que depender dele, ela vai ser!

Começa a sentir uma estranha preocupação em seu interior e estranha, pois, normalmente, não sente este tipo de coisa, uma de suas principais características é a segurança em si mesmo. Sempre foi assim e sempre será.

Mas agora, é tomado por esta estranha sensação, como se estivesse pressentindo que algo muito ruim pode acontecer a qualquer momento. Se lembra de Kammi e, em como ela estava pressentindo o sequestro da filha, mostrando que os pressentimentos dela eram verdadeiros.

E, se os pressentimentos de sua bela Kammi eram verdadeiros, há grandes chances dos seus também serem verdadeiros. E, no momento, seu maior temor é que não encontrem sangue tipo O para que sua Kammi tenha a vida salva.

Termina de tomar seu café sem realmente sentir o gosto da bebida, e, pega o celular, discando e, fazendo a rediscagem. Não demora muito e a pessoa do outro lado da linha atende ao telefone.

Começa a falar com pressa, deixando bem claras as suas ordens, até mais do que já tinha deixado antes e, ressaltando o que acontece com as pessoas que falham com ele. No momento, o que precisa é que seu poder seja mais uma vez evidenciado e, que não faz questão nenhuma de distinguir amigos e inimigos quando alguém falha em cumprir uma ordem sua.

Desliga o telefone no exato momento em que Melody chega ali e se senta a seu lado. A mulher o encara bastante séria, sem dizer uma única palavra, a preocupação estampada em seu olhar.

― Está com cara de quem quer me dizer alguma coisa, mas não sabe como, Melody. – o mafioso quebra o silêncio.

― É bem por aí. – sua irmã confessa – E, imagino que você saiba o assunto que eu quero tratar com você.

― Kammi. – Alcir fala sem rodeios.

― Sim, a Kammi. Mas também o que você disse a prima dela. Mas, necessariamente, a confissão que você fez.

― Imagino que você já soubesse disso há algum tempo, querida irmã. Você me conhece melhor do que ninguém.

― Saber eu sabia. Mas, mesmo assim, foi estranho ver você assumir tão de repente na frente da prima da Kammi. Você há de convir que isso não faz nem um pouco o seu estilo.

― Não, realmente, não faz o meu estilo e eu não tinha pretensão nenhuma de revelar essa verdade dessa forma. Mas as circunstâncias mudaram e, naquele momento, era a única forma de fazer aquela mulher entender que estamos do mesmo lado e que, apesar de pensarmos de forma bastante diferentes, queremos a mesma coisa, e essa coisa é o bem da Kammi.

O telefone de Alcir começa a tocar e, rapidamente o mafioso atende. Escuta com atenção a pessoa falando do outro lado da linha e, em seguida, começa a dar ordens, bastante claras e objetivas.

Desliga o telefone e, encara Melody com um sorriso estampado em seus lábios.

― Encontramos o local onde a filha da Kammi está sendo mantida. – fala Alcir, sem deixar de sorrir de forma demasiado cruel – Agora aquela mulher verá que, comigo não se brinca.

― Ótimo. – um sorriso começa a aparecer no rosto preocupado de Melody – Se não se importa, irmão, acho melhor eu ficar aqui com a Kammi. Tenho a estranha sensação de que a Laureen não será suficiente para conseguir deter a Kammi no momento em que ela acordar.

― É sensato. E, enquanto você fica aqui monitorando a Kammi e esperando pelo sangue que ela precisa receber, eu vou resolver isso. E, a Kammi que me desculpe, mas, vou dar de presente para a Richelle uma bala na cabeça dela, e outra no coração.

Alcir está se levantando quando Laureen chega ali completamente desesperada, o rosto branco de pavor.

― Escutem, a Kammi fugiu! – a voz de Laureen é uma clara expressão de todo seu medo.

*****

Kammi chega ao porto, e, começa a caminhar a passos lentos e vacilantes, procurando o tal galpão o qual Richelle havia dito pelo telefone. Se sente fraca e com um pouco de tontura, talvez por ter perdido um pouco de sangue, ou por ter tirado sozinha o acesso venoso no qual recebia soro, provavelmente o soro fora misturado com algum tipo de medicação.

Mas isso não tem importância agora.

No momento, tudo o que lhe importa é salvar a sua filha, e, é para isso que está ali. Para colocar um fim a esse jogo absurdo de Richelle.

Continua a caminhar pelas ruas vazias daquele porto, vendo o sol começar a se por e seus últimos raios refletindo no mar. Começa a sentir dor e, involuntariamente, leva a mão ao seu ferimento. Sob o curativo que fora feito ali, vê claramente uma mancha de sangue.

Ignorando o sangue perdido, continua a andar, até achar o tal galpão que Richelle havia dito. Após dar uma volta pelo lugar, devagar, porque está se sentindo demasiado fraca, consegue encontrar o galpão informado por Richelle.

Encontra a porta do galpão aberta e, sem pensar duas vezes, entra ali. Sente medo, mas o medo que sente não é por ela, e sim por sua filha Belinda, que nada tem a ver com isso. Richelle se mostrou ser uma grande covarde no momento em que resolveu colocar Belinda nisso tudo apenas para atingi-la. O local está totalmente às escuras, de modo que Kammi não é capaz de enxergar um palmo a sua frente.

― RICHELLE, ESTOU AQUI E SOZINHA!!!— Kammi grita com todas as suas forças, ao mesmo tempo em que leva a mão ao ferimento – AGORA CUMPRA A SUA PALAVRA E LIBERTE A MINHA FILHA!!!

― Você é mais tonta do que eu pensei, Kammi! – a voz de Richelle se faz ouvir.

No mesmo instante, a luz do galpão se ascende e Kammi se vê cercada por seis homens, os quais ela imediatamente reconhece, pois foram eles que sequestraram sua filha, um deles, foi o responsável pelo ferimento em seu abdômen.

No centro desses homens, Richelle, toda sorridente, e, apontando uma arma diretamente para seu coração. Mas os olhos de Kammi estão fixos em sua filha, que se encontra com os pulsos e os tornozelos fortemente amarrados. Além disso, não consegue deixar de notar o terror no rosto de sua filha, que está completamente encharcado por lágrimas.

― Belinda...! – Kammi não deixa de exclamar.

― Pronta para morrer, Kammi? – a voz de Richelle é de puro prazer.

― Tente me matar se quiser, Richelle. – a voz de Kammi é carregada de ódio – Mas deixa a minha filha em paz! Seu negócio é comigo, não com ela! Deixe a Belinda em paz!

Completamente aterrorizada, Belinda escuta as palavras da mulher que lhe trouxe ao mundo. Ao contrário de Richelle, esta que se chama Kammi parece verdadeiramente preocupada com ela. Pode ver isso nos olhos dela...! Mas, infelizmente, ela vê mais que isso...! Muito mais...! Ela vê claramente que a mulher que se chama Kammi está com uma das mãos fortemente pressionada na lateral do abdômen e, que a mão está encharcada de sangue.

Ao notar isso, percebe que, ao contrário de Richelle, esta mulher sim parece se importar com ela. Mesmo ferida, mesmo sabendo que pode morrer, ela viera...

― Você é muito burra se acha que você e sua filha sairão deste lugar com vida, Kammi! – a voz de Richelle volta a ecoar – Vou matar as duas, e eliminar dois problemas de uma só vez.

― Se acha que vai machucar a MINHA FILHA você está redondamente enganada!

Dizendo isto, Kammi tira do bolso de sua jaqueta uma afiada navalha e, sem pensar em mais nada, começa a avançar de encontro a Richelle, pronta para acabar de uma vez por todas com este perigoso jogo que começou vinte anos atrás!

Mas, antes que possa dar mais um passo, Sebastian aparece e a segura por trás, impedindo seus movimentos enquanto olha completamente branca Richelle apontar a arma para sua amada filha.

Kammi não consegue pensar em mais nada, a não ser no fato de que não pode deixar a sua filha morrer, precisa salvá-la de qualquer forma.

Em um rápido movimento, a mulher consegue atingir um olho de Sebastian com a navalha que tem em mãos, e, o homem grita de dor ao mesmo tempo em que solta Kammi e leva as duas mãos ao olho que começa a sangrar sem parar.

Vendo o que Kammi acaba de fazer, Richelle não perde tempo e, ainda apertando o gatilho contra Belinda, se prepara para atirar.

― Adeus Belinda, encontrará sua mamãezinha em breve no inferno!

E, ao mesmo tempo em que Richelle atira e Belinda grita de pavor, Kammi se joga contra Richelle, fazendo com que ela erre o alvo e o tiro que seria destinado a Belinda voe em outra direção.

As duas mulheres vão ao chão e começam uma briga desenfreada, rolando uma por cima da outra. Richelle tenta recuperar o controle da arma, mas a mão de Kammi a segura fortemente e, ela não consegue mirar em sua inimiga, para dar o tiro que irá acabar com a vida de Kammi.

Por sua vez, Kammi tenta desesperadamente acertar aquela navalha em Richelle, quer acabar com a vida da mulher e não mede as consequências para isso. Mas, Richelle também segura fortemente sua mão com a adaga, e, as duas mulheres literalmente rolam no chão neste jogo em que apenas uma delas irá ganhar.

Richelle consegue ser mais rápida e se livra da mão de Kammi, mirando rapidamente no peito de Kammi e atirando, conseguindo atingir de raspão sua maior inimiga, ao mesmo tempo em que Kammi grita de dor e, enfia a navalha no coração de Richelle, dando cabo da vida da mulher que, vinte anos atrás, destruiu a sua vida.

Neste momento, Alcir, Melody e seus homens invadem aquele local, e são recepcionados pelos homens que Richelle contratara, mas, os mafiosos que trabalham para Alcir não demoram nada para tomarem conta da situação e, os homens que trabalham para Richelle são totalmente rendidos.

Alcir e Melody adentram ao mesmo tempo o galpão, Alcir vai até onde o corpo de Kammi está caído e Melody vai até Belinda, desamarrando os pulsos e tornozelos dela. No mesmo instante, a jovem se abraça a Melody e começa a chorar de forma compulsiva e desesperada, como se a sua vida dependesse da proteção dos braços daquela mulher.

E, enquanto Melody tenta acalmar Belinda, Alcir percebe que Richelle está morta, e, tira o corpo dela de cima do corpo de Kammi. Percebe imediatamente o ferimento do abdômen de sua bela Kammi sangrando sem parar, ao mesmo tempo em que o novo ferimento do ombro sangra, também de forma intensa.

Os olhos de sua noiva estão fechados e, ele tenta sentir o pulso dela... Nada! Também não consegue escutar a respiração de Kammi... Percebendo que seu pior temor aconteceu...

E, pela primeira vez em toda a sua vida, Alcir não é capaz de deter uma solitária lágrima que insiste em cair por seu rosto. A única lágrima que derramou em toda a sua vida. A lágrima que derrama pela pessoa que fora capaz de despertar nele o único sentimento bom que já ousou sentir por alguém, o amor.

Rapidamente, trata de secar essa solitária lágrima que caí em seu rosto e, segura o corpo de Kammi, observando, talvez pela última vez, o rosto mais belo que já contemplou na vida.

Belinda, ainda chorando e com o corpo um pouco trêmulo, consegue se desvencilhar do abraço protetor de Melody e, ao lado da mulher, caminha até onde Alcir está, segurando o corpo de Kammi.

― Ela está... Ela está... – Belinda não consegue dizer as palavras.

― Morta. – Alcir completa a frase para a jovem.

As palavras são demais para Belinda e, ela começa a chorar de forma desesperada, tocando o rosto frio e sem vida de sua mãe. Agora entende ela...! Kammi morreu para salvar a sua vida...! Não se importou com a vida dela, mas somente com a sua...!

― Por que...? Por que as coisas tem que ser desse jeito...? Por que ela tinha que morrer...?

― Porque ela te ama, Belinda. – fala Melody, sem conseguir conter as lágrimas ao ver sua melhor amiga morta.

Melody também se abaixa e olha para o rosto sem vida de Kammi. A dor toma seu coração, pois, ao longo de vinte e dolorosos anos, aprendeu a amar Kammi como se ama uma irmã mais nova, enquanto ensinou a ela como sobreviver no inferno.

E agora, Kammi está morta...! Sua melhor amiga, sua irmã, não irmã de sangue, mas uma irmã que ela escolheu ter, está morta...! E morreu em nome do imenso amor que ela sente pela filha.

Agora, a história de Kammi chegou ao fim!

*****

Uma fina chuva caí no cemitério, enquanto algumas poucas pessoas comparecem ao enterro de Kammi. Dentre essas pessoas, Georgina e Damon, bem como Laureen, Belinda, Melody e as companheiras de prisão de Kammi, que foram suas companheiras ao longo de vinte anos.

Alcir não foi ao velório, muito menos ao enterro.

Após o triste enterro, as pessoas começam a se dispersar e a ir embora, ficando ali apenas Georgina, Damon, Laureen e Belinda.

A jovem filha de Kammi não para de chorar, suas lágrimas se misturando a chuva fina que não para de cair.

― Belinda, você precisa ir embora, querida. – a voz de Georgina é gentil, enquanto ela segura o braço da neta, tentando tirá-la dali – Ficar aqui não vai trazer a Kammi de volta. Sei que está sofrendo, querida. Ela era sua mãe, mas também era minha filha. Minha única e amada filha. E, do mesmo jeito que você está sofrendo por perder sua mãe, eu também estou por perder, novamente, minha única filha. E, desta vez, eu não a terei de volta, nunca mais.

Belinda permanece em silêncio, escutando com atenção as palavras de sua vó. Não fora ao enterro de Richelle, aliás, não queria nem saber o que foi feito daquela maldita mulher, que fora a responsável pela morte de sua verdadeira mãe.

Após aquele fatídico dia, em que sua verdadeira mãe dera a vida para salvá-la, escutara, de Melody e de Laureen toda a triste história de Kammi, e, como ela pagou por vinte anos por um crime que ela não cometeu. Escutou como Melody a trouxera ao mundo, em condições pra lá de precárias, e, como fora arrancada dos braços de Kammi da forma mais cruel e dolorosa possível.

Para Belinda, essa fora a história mais triste que já escutara na vida e, a partir daí, conseguiu compreender, perfeitamente bem, todos os sentimentos que se faziam presentes no coração de sua verdadeira mãe.

Foi capaz de entender o ódio desmedido de Kammi por Richelle, e, passou a odiar da mesma forma a mulher que lhe criou. E, mesmo que Richelle esteja morta, vai odiá-la enquanto ela viver.

Richelle, assim como fora a responsável por tirar tudo de Kammi, também foi a responsável por tirar tudo dela!

Ainda chorando, Belinda se deixa levar por seus avós e, Laureen é a única a permanecer naquela lápide. Tanta coisa se passou e, no fim, Kammi não fora capaz de sobreviver. No fim, Kammi não pensou duas vezes em dar a vida pela pessoa que para ela lhe era mais importante do que a própria vida, a filha.

Um sorriso triste estampa os lábios da advogada, enquanto ela lima as lágrimas que insistem em cair por seu rosto.

― Kammi, minha querida prima. Saiba que eu nunca, jamais irei lhe esquecer...! E, para honrar sua memória, estarei a partir de agora ao lado de sua filha, para ajudá-la e apoiá-la em tudo o que eu puder.

Laureen deposita uma rosa branca naquela lápide e vai embora, ainda secando as lágrimas que inundam sua face. Dar adeus é difícil. Kammi se foi, mas, estará viva, para sempre, em seu coração e em sua lembrança.

*****

Uma noite sem lua encobre o céu da cidade e, em um quarto de hospital, Alcir está sentado em um banquinho, segurando firmemente a mão de uma paciente, que permanece inconsciente naquele CTI.

Os aparelhos indicam que a pessoa ainda está viva. Mas até quando, nem mesmo os médicos sabem.

O mafioso beija delicadamente a mão daquela paciente, enquanto uma única lágrima desce em seu rosto.

Ficará ao lado dela sempre!

Porque ele sabe que ela irá acordar...!

Leve o tempo que levar, ela irá abrir os olhos e voltar para ele...!

Leve o tempo que levar...!

FIM...?!

Notas finais
Foi muito bom este tempo que eu passei escrevendo esta fiction e, agradeço imensamente a cada comentário e cada favorito que eu ganhei aqui. Este foi o final mais diferente que eu já escrevi na vida, e, mesmo já sabendo como seria o final da Kammi, foi difícil dar vida ao que tinha em minha mente. Eu espero sinceramente que vocês tenham gostado e, agradeço, do fundo do meu coração, por acompanharem a trajetória da Kammi durante todos estes meses. Beijinhos de chocolate e nos vemos em minhas outras fanfics!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!