A bem verdade, Kammi não se sente nem um pouco preparada para dar o seu depoimento ao delegado, pois se sente presa em um pesadelo, do qual simplesmente não consegue acordar. Para ela, ainda é um pouco difícil acreditar que toda esta tragédia de fato está acontecendo em sua vida...! Que tudo isto é mesmo real...!

Um policial abre a porta de sua cela, para que possa sair e ser escoltada até a sala do delegado, onde deverá prestar o seu depoimento.

O corpo de Kammi treme de forma compulsiva enquanto ela caminha ao lado de Laureen para a sala do delegado, a fim de prestar o seu depoimento para que, com um pouco de sorte, o delegado possa compreender que ela é inocente. Atrás dela, o policial que a chama de “assassina” sem qualquer consideração, como se ela fosse um monstro capaz de assassinar o pai do bebê que ela espera.

Mas, ela precisa manter a calma...! Precisa de toda a calma do mundo para conseguir explicar com clareza o que aconteceu na última noite e deixar bem claro quem é a verdadeira assassina. Nunca matou ninguém...! Mark era o homem que amava e com quem iria se casar e, é isso que ela precisa deixar bem claro para o delegado em seu depoimento, para que acreditem em sua inocência.

Percebendo o nervosismo de Kammi, Laureen segura a mão de sua prima enquanto caminham, em sinal de apoio.

― Não se preocupe, Kammi. – Laureen tenta tranquiliza-la – Vai dar tudo certo.

O pequeno trajeto até a sala do delegado termina de ser percorrido no mais absoluto silêncio. E, ao entrarem na sala de Ramsey, Kammi repara que, além do delegado, só mais uma pessoa está presente na sala, sentada em frente a um computador. No mesmo instante, Kammi percebe que ele é o escrivão. E, em frente à mesa do delegado, estão duas cadeiras. O delegado ordena que o policial que as estava acompanhando deixe a sala e, em seguida, faz sinal para que Kammi e Laureen ocupem as duas cadeiras a sua frente, e, elas ocupam seus lugares no mais absoluto dos silêncios.

― Sua cliente está pronta, Doutora Ambler? – questiona o delegado Ramsey, querendo ir direto ao assunto.

― Sim. – responde Laureen, de forma prática e objetiva.

― Muito bem. – a voz do delegado volta a ecoar – Vamos começar logo este depoimento. Kammi Ambler, vinte e dois anos e três meses, confere?

― Sim. – responde Kammi, a voz um pouco trêmula.

― Senhorita Ambler, qual a sua relação com a vítima? – pergunta o delegado.

― Ele era meu noivo. – responde Kammi, sem pestanejar.

― Quanto tempo de relacionamento?

― Cerca de dois anos.

― E como era o cotidiano de vocês?

― Normal, senhor. Durante a semana, nos víamos praticamente todas as noite e durante os finais de semana passávamos o dia inteiro juntos.

― Vocês brigavam com frequência?

― Não senhor.

― Qual era a ligação da vítima com Richelle?

― Ela era a ex-namorada dele.

― Qual era a relação entre vocês duas?

― Não existia uma relação entre nós duas. A bem verdade, nós mal nos falávamos, e, por alguma razão Richelle sempre me considerou culpada pelo término do relacionamento dela com o Mark.

― E você foi realmente a culpada por este término de relacionamento?

― É claro que não! Quando eu conheci o Mark, ele e Richelle já haviam terminado há meses, só que agora eu percebo que ela nunca aceitou isso.

― Conte-me exatamente o que aconteceu na noite de ontem.

E Kammi faz exatamente o que Ramsey pede, começando a narrar, nos mínimos detalhes, todos os acontecimentos da noite anterior. Desde sua saída do trabalho, o encontro com Richelle no caixa do Hipermercado, quando teve a infelicidade de esbarrar com ela e, até mais tarde, quando a encontro na esquina do barzinho em que marcara de se encontrar com Mark.

A partir daí, não conseguiu mais seguras as lágrimas e, chorou copiosamente enquanto narrava como seu fatídico encontro terminou. O modo como Richelle apareceu na frente dela e de Mark com aquela arma em mãos e como o noivo se jogou na frente dela para protegê-la no momento em que a mulher havia atirado, perdendo a vida a fim de salvar a dela.

O delegado escuta, sem nem ao menos piscar, tudo o que Kammi tem a dizer.

― Então, de acordo com a senhorita, Richelle estava com a arma e tinha como alvo a senhorita, e seu noivo se jogou na sua frente para protegê-la dos tiros. – fala Ramsey, sem qualquer emoção.

― Isso. – continua Kammi – Foi exatamente isso que aconteceu.

― Então a senhorita teria a bondade de me explicar por que não foram encontradas marcas das digitais de Richelle na arma do crime?

― Ela estava usando luvas. – Kammi volta a responder.

― E, se, segundo se depoimento quem atirou foi Richelle, como é que a senhorita foi pega em flagrante com a arma do crime em suas mãos?

― Na hora eu não pensei...! Fiquei em choque...! Tentei correr atrás de Richelle mas ela havia fugido...Q Então fui tola e acabei pegando na arma, ainda meio em choque por tudo o que eu havia acabado de viver...! Aquela mulher havia tentado me matar...! E Mark dera a vida dele pra salvar a minha...! A última coisa que eu conseguia fazer ali, naquele momento era pensar com clareza, e então a polícia apareceu do nada, me prenderam e começara a me chamar de assassina, mas eu não matei ninguém...! Eu não sou capaz de matar ninguém...! Muito menos a pessoa que eu mais amei em minha vida...! O senhor tem que acreditar em mim...!

― A questão não é eu acreditar ou não, senhorita Ambler. A questão é que a senhorita foi presa em flagrante na cena do crime e com a arma em mãos, e, segundo a lei, isso é mais do que suficiente para incriminá-la.

― Eu vou provar a inocência da Kammi! – fala Laureen, batendo com toda a sua força na mesa do delegado – Detesto injustiça e ela é inocente! Vou colocar a verdadeira culpada atrás das grades!

― Mas enquanto isso, sua cliente continua presa. – diz Ramsey, com indiferença.

― Por enquanto! – rebate Laureen – Porque eu já entrei com um pedido de Habeas Corpus no fórum.

― O depoimento acabou. – anuncia Ramsey, de forma fria e indiferente – Vou chamar um policial para acompanhar a sua cliente até a cela dela.

― Tenho que ficar presa? – pergunta Kammi, com desespero em sua voz.

― E o que você esperava? – questiona o delegado, com escárnio – Como eu já disse, a senhorita é culpada até que se prove o contrário.

― Calma, Kammi. – fala Laureen, querendo acalmar a prima – Essa situação vai ser por pouco tempo, conseguirei o Habeas Corpus para que você responda ao processo em liberdade e possa sair daqui o mais rápido possível.

O escrivão imprime o depoimento de Kammi e, dá as folhas impressas para que a jovem assine, enquanto Ramsey levanta-se de sua cadeira, vai até a porta de sua sala e chama um policial, para que ele conduza Kammi de volta a cela dela.

Kammi volta a sua cela para enfim derramar todas as lágrimas que segurou na frente do delegado e, embora tenha chorado um pouco enquanto dava seu depoimento, até que conseguiu ficar bastante calma, ante a terrível situação que está vivendo.

Agora, deposita todas as suas esperanças em Laureen, para que ela consiga com que o juiz da Comarca concorde com um pedido de Habeas Corpus e possa sair desta horrível prisão, um lugar que, apesar de ter passado apenas uma noite, já não aguenta mais...!

Por quanto tempo terá que passar por isso? Quanto tempo mais terá que suportar? Quanto tempo mais terá de ser tratada como uma criminosa? Seu maior temor é que esta situação perdure por mais tempo, principalmente por conta do bebê que carrega e seu ventre...!

Sente seu estômago embrulhando e, tem quase certeza de que vai vomitar. Com pressa, leva as duas mãos a boca e corre para uma pequena pia em sua cela para vomitar o escasso café da manhã que um dos policiais havia lhe oferecido mais cedo.

*****

Laureen dirige na maior velocidade permitida em direção ao fórum, quer saber exatamente como está indo o caso de Kammi, e se o ministério público já fez a acusação contra ela.

Quanto antes conseguir que o juiz assine o Habeas Corpus para Kammi, pois sabe que ela é inocente, e que nunca seria capaz de matar ninguém. E, se alguém tem que apodrecer atrás das grades por este crime, este alguém com toda a certeza é a Richelle.

Porém, infelizmente sabe que mesmo que consiga a ordem para que Kammi responda ao processo em liberdade, não será nada fácil para a prima provar a inocência nos tribunais, principalmente por conta da arma que, estão cheias de suas impressões digitais.

Não demora muito para chegar ao fórum e, estaciona seu carro na primeira vaga livre que encontra, pega sua pasta e vai direto para a sala da promotoria, onde encontra o promotor e amigo sentado com alguns papéis em mãos. O homem sorri ao notar sua presença.

― Imaginei que você apareceria assim, Laureen. – fala o homem, de forma descontraída – Isso é bem o seu estilo.

― Imaginou mesmo, Adrian? – questiona Laureen, ainda na porta da sala.

― Não. – responde o promotor – Para falar a verdade, eu sabia que você viria. Desde que recebi uma acusação do ministério público esta manhã. A acusada tem seu sobrenome.

― Ela é minha prima, se é isso que você quer saber.

― Isso já deixa as coisas mais interessantes. E por ela ser sua prima você acha que ela é inocente?

― Claro que não, Adrian! Não sou tão leviana assim! Acredito na inocência da Kammi e conheço a Richelle, sei que ela fala a verdade e que não matou o noivo. Céus, ela amava o homem! Está esperando um filho dele!

Ao ouvir a última frase da advogada, Adrian a encara com curiosidade, e um sorriso se forma em seus lábios.

― Grávida, é? – questiona o promotor – Isso é um fato interessante.

― Posso ver a acusação do ministério público?

― A vontade, até porque já fui informado de que você é a advogada da acusada. Entre, sente-se e leve o tempo que precisar analisando a documentação.

― Obrigada.

Laureen se senta na cadeira em frente à mesa de Adrian, e este passa para ela uma pasta com o símbolo do ministério público. Ela abre a pasta e começa a olhar detalhadamente o texto escrito ali.

― Devo adverti-la, Laureen, que, não posso fazer nada por sua prima. Meu dever é aplicar a justiça levando em consideração os fatos e as provas e, a maior prova que incrimina Kammi Ambler é a arma do crime, repleta das impressões digitais dela.

― Eu sei. – diz Laureen, se tirar os olhos dos papeis que está lendo – Eu vou provar a inocência da Kammi custe o que custar. E pretendo entrar com um pedido de Habeas Corpus, aliás, só a nível de curiosidade, a perícia já começou a trabalhar?

― Sim. Na própria madrugada de ontem, logo após o momento em que sua prima foi presa em flagrante.

― Isso é bom. Escuta, Adrian, pelo fato da Kammi estar grávida, eu posso tentar conseguir um julgamento o mais breve possível. Certo?

― Provavelmente o juiz não verá nenhum problema quanto a isso, visto o estado da ré. Você só terá de esperar o laudo pericial ficar pronto, e então provavelmente o juiz estipulará uma data para o início do julgamento.

*****

Três dias depois, Kammi espera ansiosamente pela chegada de sua prima Laureen que, com um pouco de sorte, lhe trará uma boa notícia. Finalmente, hoje o juiz vai assinar ou não o pedido de Habeas Corpus e, se as coisas saírem com Laureen diz que sairão, poderá sair da prisão para responder ao maldito processo em liberdade.

Estes três dias, tem vivido um grande inferno, sendo mal tratada, se alimentando mal e pior, se sentindo doente e deprimida por estar presa sem ter feito nada para merecer ser tratada assim.

Não aguenta mais isso...! Não aguenta mais ser tratada como uma criminosa...! Não aguenta mais ser chamada de assassina...! Quer sair desta prisão o mais rápido possível e tentar retomar o que sobrou de sua vida...! Se preparar para a chegada do seu bebê, já que agora não tem mais Mark para vibrar de felicidade a seu lado. Agora, terá o dever de criar um filho sozinha, tudo porque a vida do pai dele foi tirada de forma tão injusta.

Deitada no velho colchão no chão e coberta com um edredom que sua mãe fez a gentileza de lhe trazer, está quase dormindo quando o barulho de um policial batendo com o cassetete nas grades da cela a desperta por completo.

― Acorde, assassina. – a voz do policial soa irritada – Você tem uma visita.

― Visita? – pergunta Kammi, ainda meio sonolenta – Quem é?

― Eu não tenho obrigação nenhuma de te responder, mulher. Agora levante de uma vez, pois a visita será breve.

Mal o homem termina de falar e Kammi vê Laureen se aproximando das grades, imediatamente, ela se levanta e corre para encontrar a prima através das grades que separam as duas.

― Laureen. – a voz de Kammi soa cansada – Não esperava você tão cedo.

― Nem eu esperava vir tão cedo, Kammi. – fala Laureen, tentado controlar suas emoções, fazendo com que sua voz soe bastante profissional – Mas eu tenho duas notícias para te dar.

― Uma delas é sobre o Habeas Corpus? – pergunta Kammi, esperançosa.

― Sim, e a outra também tem ligação com isso. Eu lamento, Kammi, o juiz não assinou o pedido que solicitei.

― O que?! – pergunta Kammi, totalmente surpresa e sem conseguir acreditar no que a prima está dizendo – Quer dizer que eu vou ter que continuar presa neste lugar horrível?

― Não. – responde Laureen, com pesar – Essa é a outra notícia que eu vim te dar. Kammi, amanhã você será transferida para um presídio feminino.