A Vila
1 Os Barriga y Pesado
Em uma pequena casinha do terceiro pátio de uma vila modesta do subúrbio de uma grande cidade no México, a senhora Elia Barriga y Pesado costurava debruçada à mesa da cozinha enquanto o pequeno e magricela Zenon brincava com um carrinho feito com um caixote de madeira que a mãe arranjara-lhe. Não era nada pomposo, mas fazia a felicidade do menino, que desenhara com muito capricho as rodas e as lanternas do carrinho com carvão. A mãe de Zenon suspirava a intervalos regulares, e a cada vez que o fazia o menino levantava a cabeça, preocupado. Sabia que a mãe trabalhava duro para pagar todas as contas, costurando dia e noite. A mulher olhava para o relógio com frequência, e, em uma das vezes, comentou para si mesma em voz alta:
– O senhor Gonzáles está para chegar.
E voltava a costurar, agitada. Zenon sabia o que aquilo significava. A mãe estava desesperada com a perspectiva de não poder pagar o aluguel com o pouco dinheiro que eles estavam ganhando. O marido falecera há menos de um ano, e eles lutavam para se manter. A pensão que o governo fornecia mal dava para completar os ganhos da mãe com as costuras. O menino não se importava em ter aquela vida simples. Sabia que a mãe não tinha condições de dar-lhe regalias, como brinquedos bons e roupas novas. Contentava-se com os brinquedos de sucata e as roupas que Elia remendava. Sempre que tinha de fazer algum remendo, a mãe desculpava-se com o filho. "Zenon, querido, me desculpe por não poder dar roupas novas para você. Quisera eu que pudesse te dar sempre coisas novas e boas, mas não está fácil para nós..." O menino recebia a roupa com um sorriso no rosto e abraçava a mãe. "Não se preocupe, mamãe. Tudo o que precisamos é do amor um do outro. E estes remendinhos são pra mostrar que, enquanto você estiver aqui, eu não tenho nada a temer."
Elia se emocionava com as palavras carinhosas do filho e o abraçava, reprimindo as lágrimas para não mostrar fraqueza. Rezava sempre à Virgem de Guadalupe pedindo para que o seu filho tivesse uma vida melhor do que aquela, que ele crescesse e tivesse oportunidades melhores que as dela. Um menino tão puro e de coração tão grande merecia muito mais do que aquela casinha pequena que mal podiam pagar, brinquedos improvisados e roupas cheias de remendo. Orava pedindo que conseguissem pagar o senhor Gonzáles, para que ao menos tivessem onde morar.
Não pôde conter o frio no estômago ao ouvir as quatro batidas na porta que tão bem conhecia. Zenon olhou para ela, preocupado.
– Está tudo bem, filho. Atenda a porta e vá brincar no pátio, sim? — disse a mãe, procurando transmitir calma e segurança em sua voz, sem desgrudar os olhos da roupa que costurava.
– Certo, mamãe — respondeu o menino, expressando pena pela mãe. Foi até a porta e a abriu. — Boa tarde, senhor Gonzáles. Veio cobrar o aluguel?
– Não faça perguntas tolas, garoto. Não venho à esta pocilga suja para tomar café, não é?
O senhor Gonzáles era um homem franzino que sempre usava terno e calça marrom, camisa branca e uma gravata bolo tie. Ostentava um farto bigode preto que chegava até o queixo. Parecia fazer questão de ser grosso e mau, talvez para amedrontar os inquilinos e, assim, impedi-los de tapeá-lo.
– Olha como fala da minha casa!
– Cale-se, moleque insolente. Se é que pode se chamar isto de casa. Sua mãe está me devendo dois meses de aluguel. E se continuar com esta insolência, não hesitarei em pôr os dois na rua.
– Zenon, meu filho, vá brincar no pátio. Deixe mamãe conversar com o senhor Gonzáles — disse Elia, ainda sem deixar de olhar para a costura.
O menino saiu para o pátio levando seu carrinho de madeira, olhando feio para o senhor Gonzáles enquanto passava por ele. Antes que a porta fosse fechada, Zenon pôde ouvi-lo dizer:
– Precisa limpar este chiqueiro. Está fedendo.
Zenon teve vontade de voltar e socar o homem de bigodes, mas lembrou-se que sua mãe não gostaria disso. Procurou distrair-se brincando com seu carrinho, mas a discussão calorosa entre Elia e o senhor Gonzáles podia ser ouvida a metros de distância. Este gritava com a mulher, insistindo que a despejaria sem piedade se não pagasse o aluguel em dia. A mãe do menino implorava, aos prantos, que tivesse compaixão e compreendesse a situação em que estavam: o marido morrera recentemente e as costuras que ela fazia para aumentar a renda não davam muito lucro. Ela tinha um filho para criar e muitas contas para pagar. Pedia, desesperada, que não a botasse porta afora pois não teria onde morar com o filho pequeno.
O impiedoso Gonzáles interrompia a fala chorosa de Elia, dizendo que não se importava nem um pouco com a situação da gentalha, e que seus problemas não eram problema dele, desde que pagassem o aluguel em dia, e que pusesse o menino para trabalhar, se realmente precisavam de dinheiro. Elia chorava ainda mais e continuava a implorar por compaixão. De repente, Gonzáles deu o ultimato:
– Dou-lhe um mês, senhora Pesado. Ou me paga os aluguéis atrasados ou rua.
Em seguida, bateu com força a porta ao sair. Rosnou para Zenon, que fingia estar brincando com seu carrinho do outro lado do pátio. O menino entrou em casa e deparou-se com sua mãe, ainda sentada na cadeira da cozinha, escondendo o rosto entre as mãos e soluçando em meio ao choro. Aproximou-se devagar de Elia e acariciou seus cabelos.
– Não se preocupe, mamãe. Vou arrumar um emprego e ajudarei nas despesas.
– Não diga bobagens, menino. Você é muito novo para trabalhar. E mesmo se não fosse, não permitiria que fizesse isso.
– Não temos outra escolha. O senhor Gonzáles ameaçou nos pôr para fora se não pagarmos o aluguel. E, mamãe, não temos para onde ir... Eu vou cuidar de tudo.
– Ah, meu filho — disse Elia, abraçando o menino com força. — Se você soubesse o quanto é especial! Quero que estude bastante e seja inteligente e esforçado, para não ter que passar por isso.
– Eu prometo, mamãe. Vou me esforçar, trabalhar e estudar pra ser alguém. Vou ser rico, mamãe, e não vou ser mau como o senhor Gonzáles. Vou ser tão rico que comprarei esta vila! Eu prometo!
Elia riu mas não contrariou o filho. Pegou a cabeça do filho com as duas mãos e o fez olhar nos olhos dela.
– Eu sei que vai, meu filho. Eu sei que vai.
Alguns dias depois, Zenon Barriga y Pesado, contrariando o desejo da mãe, conseguiu um emprego como faxineiro de um açougue. Não ganhava muito, mas conseguiu pagar o aluguel para o senhor Gonzáles e pôde ajudar com as despesas de casa. Depois de alguns anos, arrumou outro emprego em um restaurante como lavador de pratos. Com seu carisma e simplicidade, Zenon ascendia sempre mais no trabalho. Juntava tanto dinheiro quanto podia para cumprir a promessa feita à sua mãe.
Décadas depois, Zenon voltou à vila em que nasceu e descobriu que o senhor Gonzáles havia morrido e que o cortiço foi posto à venda. Visitou a mãe em uma das casas, não mais aquela em que crescera, pois o tempo a desgastara e fora demolida, contou-lhe de seus planos. Um sorriso encheu o rosto envelhecido de Elia, que recebeu o filho deitada em seu quarto, sem forças para levantar-se, antes que ela fechasse os olhos pela última vez. Entendendo que sua mãe partira ao ver no filho um homem de sucesso e realizado, Zenon cumpriu sua última promessa à mãe. A vila foi comprada pelo mais humilde de seus antigos moradores, que seria conhecido pelos seus futuros inquilinos como o Senhor Barriga.
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