A Vila

2 A viúva de Mátalaz Callando


Em um navio da Marinha mexicana, já em alto mar, o capitão Mortimer realizava uma cerimônia não muito comum naquele convés: um casamento. Seu subordinado, o capitão-tenente Federico Mátalaz Callando, pedira-lhe que realizasse seu matrimônio com a bela Florinda Corcuera y Villalpando a bordo do navio Cuauhtémoc. Como capitão de um navio e já em águas internacionais, Mortimer pôde atender ao desejo de seu capitão-tenente.

– E eu os declaro marido e mulher! — Assim, selava-se a união entre um capitão-tenente da Marinha e uma jovem da alta classe mexicana.

Os dois se encontraram numa festa do pai de Florinda, o empresário Hector Corcuera, grande amigo do capitão Mortimer, que convidou seu subordinado a acompanhá-lo. Como num romance Shakespeariano, o amor brotou no coração do capitão-tenente Federico assim que ele pôs seus olhos na doce e delicada filha do anfitrião, que acompanhava a mãe. Ao virar-se e avistar Federico, Florinda encantou-se pelo rapaz, que a admirava de longe.

A oportunidade de se conhecerem veio mais tarde: o senhor Hector puxou o capitão Mortimer e seu subordinado para apresentá-los à esposa e à filha.

– Emília, Florinda. Estes são o capitão Mortimer e o capitão-tenente Mátalaz Callando.

Os dois apertaram as mãos das duas e Federico demorou-se um pouco ao cumprimentar Florinda, que timidamente sorriu para ele. Nascia ali uma paixão que concretizaria-se depois de muitas cartas de Federico enviadas a Florinda, declarando-lhe seu amor e sua devoção.

A moça, a princípio, não respondia por medo dos pais. Mas, depois de algum tempo, seu pai chegou em seu quarto dizendo-lhe que sabia das cartas e que aprovava seu relacionamento com o capitão-tenente, uma vez que o rapaz era de boa índole e com uma carreira promissora. Florinda abraçou o pai com muita alegria e logo entregou-lhe as cartas que escrevia às escondidas para enviar a Federico quando chegasse um momento como aquele.

Assim, algumas semanas depois, quando Federico desembarcou em terras mexicanas e recebeu em suas mãos as cartas de Florinda, correu para o palacete da família Corcuera y Villalpando para pedir a mão da jovem em casamento. Reuniu-se com o senhor Hector Corcuera em sua grande sala de estar e fez a proposta.

– Recebi muitos elogios a respeito do senhor, capitão-tenente, por parte do capitão Mortimer. Vejo em você um pretendente digno de minha filha. É honrado e com uma carreira promissora na Marinha. Porém, é justamente o seu ofício que me preocupa.

– Garanto-lhe, senhor Corcuera, que, mesmo estando longe, proporcionarei o melhor para Florinda e para a família que constituiremos e jamais deixarei que nada lhes falte.

Depois de muita conversa e deliberação, o pai de Florinda concedeu a mão de sua filha ao capitão-tenente, provocando uma grande alegria em todo o palacete. Logo que soube da decisão do pai, Florinda desceu as escadas e correu para abraçar o pai. Timidamente, limitou-se a sorrir para seu futuro marido e permaneceu ao lado do pai enquanto discutiam os detalhes do casamento. Federico pediu a permissão de que a cerimônia fosse feita a bordo do navio Cuauhtémoc e que o capitão Mortimer a realizasse.

E assim, Federico Mátalaz Callando e Florinda Corcuera y Villalpando casaram-se e fizeram de um pequeno palacete, presente do senhor Hector Corcuera, o seu lar. Pouco tempo depois, tiveram um filho, a quem deram o nome de Federico, em homenagem ao pai.

A vida da família Mátalaz Corcuera era tranquila e feliz. O capitão-tenente Federico passava meses fora de casa, em missões pela Marinha mexicana. Contudo, cumprindo a promessa feita ao pai de Florinda, nunca deixava faltar nada à esposa e ao pequeno filho e sempre enchia-os de regalias ao voltar para casa depois de tempos no mar.

Porém, a situação começou a mudar quando a empresa do senhor Hector Corcuera veio a falir, deixando-o doente e, posteriormente, causando seu falecimento. Este acontecimento deixou Florinda triste e desamparada, pois seu marido estava em alto mar à época. Ao regressar, encontrou sua esposa desfigurada pela tristeza e inconsolável. Procurou ser o mais solícito e carinhoso possível para com Florinda naquele momento de forte tristeza e dificuldade, mas logo foi convocado para nova missão no mar. Apesar dos esforços de Florinda para impedi-lo de ir, pressentindo algo de ruim para aquela viagem, Federico partiu, deixando-a com o filho pequeno.

Meses depois, os temores de Florinda se concretizaram. Ao atender a porta e ver ali dois agentes do governo fardados, não pôde conter o pranto e seus joelhos cederam. Um dos agentes ajudou-a a se recompor e entraram na sala, colocando-a em uma das poltronas. Com muita cautela e fazendo pausas periódicas, os dois homens contaram a tragédia a Florinda.

– Senhora, recebemos notícias de que a embarcação conhecida como Cuauhtémoc afundou em meio a uma tempestade em alto mar e não há notícias da tripulação. O governo garante que a senhora e seu filho receberão o amparo financeiro de uma pensão mensal e que, caso haja novas notícias, nós prontamente a informaremos.

Contudo, a pequena quantia não seria suficiente para mantê-los na condição econômica com a qual estavam acostumados, e isso fez com que ela tivesse de procurar um lar mais modesto, que coubesse em suas finanças. Encontrou um lugar simples no subúrbio da cidade, onde ela e seu filho poderiam viver com certo conforto, mas longe do luxo e da vida social costumeira.

Foi assim que a viúva de Mátalaz Callando teve de aprender, de uma delicada e mimada dama da alta sociedade, a ser uma mulher forte e independente, protegendo e cuidando de seu filho a qualquer custo. Foi assim que o número 14 de uma singela vila recebeu como moradores Dona Florinda e seu filho Quico.

Notas finais
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.