A Vida do que não Vive Mais

2 Posso viver com isso, certo?


Alivio. A dor se vai em um momento qualquer, e eu consigo parar de me contorcer. Minha cabeça ainda dói, e meus olhos custam para ficar abertos, mas estou vivo, pelo menos é o que parece. Não consigo pensar em muita coisa, estou fraco demais para conseguir me mover muito. Onde estou? Pai! Onde ele está? Ele acordou também? Ali, deve ser aquele corpo caído. Me aproximo com certeza dificuldade.

- Pai, acorda – falo balançando seu corpo.

Viro-o para minha direção e aqueles olhos arregalados me encaram. Seu pulso está parado, e ele está completamente frio.

- Não, não, não, por favor... Você não pode morrer pai. – falo pegando seu pescoço quando um cheiro totalmente novo parece me hipnotizar. Sangue. Passo meus dedos pelo corte aberto e não consigo mais pensar em nada, somente que preciso beber daquilo. É o que faço. Um pouco estranho no começo, mas logo acustumo e é impossível parar. Eu já bebi tantas coisas na vida, mas nada se compara a isso. A força voltando pra mim, minha cabeça para de doer, meu corpo parece ter vida novamente. Está acabando, não, agora não, preciso de mais...

- Ei, pare! – alguém me puxa para trás e eu bato em alguma arvore derrubando-a, o engraçado é que isso só me causou um desconforto, mas realmente eu poderia ter morrido.

- Tio John? – pergunto assustado depois de reconhecer a careca e a barba inconfundível do amigo do meu pai, e meu professor.

- Acalme-se – ele diz estendendo a mão para me ajudar alevantar.

- O que está acontecendo comigo? – pergunto confuso.

- Eu explico depois, agora vem aqui me ajudar com seu pai.

- O que aconteceu com ele?

- Morreu, me desculpe – ele diz me abraçando.

- Eu tomei todo o sangue dele, eu não queria, eu juro! Mas foi mais forte que eu... Desculpe – eu falo sentindo a dor da perda, meu pai se fora, pra sempre.

- Não foi sua culpa, confie em mim, eu sei, eu sei, vai passar. – ele foi afagando meus cabelos, e isso acalmou a dor. – Prometo – diz isso olhando dentro dos meus olhos, e eu acredito, mesmo sabendo do tamanho da mentira.

- Me diga o que está acontecendo? Onde eu estou? Onde está todo mundo? Minha namorada está bem? Há quanto tempo eu tenho estado aqui? Eu morri? – a confusão é ainda maior, e sinto que posso explodir.

- Acalme-se Caio... Eu explico tudo quando chegarmos em casa, ok? Mas pra não te deixar muito confuso, estamos na fronteira com o Canadá, e faz três dias que você esta aqui. Agora vamos me ajude com isso.

- Eu preciso saber o que aconteceu comigo! – falo apertando meus punhos, ficando nervoso.

Será que ele não entende? Eu acordo depois de dias queimando, dreno o sangue do meu pai, e ele quer que esteja tudo bem? Meu pai está morto, minha mãe ninguém sabe onde anda, eu ainda tenho uma casa? O que vai acontecer agora? A minha vida vai se resumir a que? É melhor ele falar algo logo, estou me sentindo melhor agora, posso facilmente brigar aqui, na verdade é isso que tenho vontade de fazer, pegar e atira-lo pra longe, matá-lo.

- Controle-se – ele diz um pouco temeroso. – Eu vou falar, sente-se.

Faço isso hesitando.

- Eu na verdade nem sei como te dar uma notícia dessas, mas agora você é um vampiro.

- O que? Não pode ser – olho para minhas mãos procurando uma diferença, mas aparentemente está tudo igual.

Devagar ele vai me explicando tudo sobre meu novo eu. Super força, sede incontrolável por sangue, visão incrivelmente melhor e de maior alcance, ouvidos mais aguçados, consigo ouvir pessoas falando á distâncias inimagináveis, velocidade maior que a de um carro novo, veneno em minhas veias, não consigo ser quente, emoções á flor da pele. Ao que parece sou uma rocha agora. Meu coração não bate, não preciso respirar, consigo pensar em várias coisas ao mesmo tempo, meus dentes podem ser mais afiados que uma lâmina super fina. Posso viver com isso, certo?

Notas finais
logo, logo, as coisas vão ficar mais claras