A Vida de Kira
1 1° Episódio
Jovem, de pele clara, cabelos ruivos curtos e um olhar sempre adiante. Seus olhos estavam voltados para a rua de sua casa, observava alguns pedestres passarem curtindo aquele domingo, um dia que ela costumava não gostar por ser extremamente parado. Ela se negou a passar mais um minuto naquele silêncio entediante, pegou do chão o controle do som, várias caixas espalhadas pelo seu quarto mas com volumes moderados para que não incomodassem ninguém, ela apertou o botão vermelho e cantou junto a música.
—Carry on my wayward son
There'll be peace when you are done
Lay your weary head to rest
Don't you cry no more-
Ninguém poderia dizer que ela não era uma fã daquela série maravilhosa cuja a 12° temporada fora confirmada a pouco tempo, todos seus amigos tinham conhecimento do quanto ela amava cada um dos atores, e sua voz trazia ainda mais melodia a música, ela incorporava o sofrimento dos personagens e soltava a voz, era muito boa cantando.
—Carry on my wayward son
There'll be peace when you are done
Lay your weary head to rest
Don't you cry
Don't you cry no more!
No more!-
Ao final da música desligou as caixas de som e olhou para a porta, antes que a pessoa pudesse bater a porta para chamar sua atenção, era sua mãe que como sempre estava lhe convidando para o jantar, lhe dando sempre duas opções, jantar em família ou sozinha.
—Sabe minha resposta, mãe.- Kira já se adiantou.
—Certo, certo.- A mulher não deixou de entender.
A boa mulher já foi deixando um prato de comida numa mesinha onde ficava os eletrônicos da filha, deu uma ultima olhada na menina e foi embora. O motivo dessa exclusão social? A mais ou menos 8 meses ela perdeu o pai em um acidente, em 5 sua mãe conheceu um rapaz da mesma idade, em 4 começaram a namorar, em 2 se casaram. Nada contra, Kira gostava do padrasto mas não ao ponto de conviver socialmente, era sua obrigação gostar dele, e não iria deixar sua mãe infeliz. Antes de pensar em jantar seu celular vibra, indicando uma nova mensagem, ela coça a cabeça enquanto lê a mensagem, enviada pela amiga de infância que atualmente estava em outro país.
"Todos, Kira. Todo mundo tende a ter duas forças, uma positiva e uma negativa, sobre o controle de suas ações." Uma excelente resposta, deduziu. Ela deixou a conversa por um breve momento e foi até a mesa aproveitar de sua janta, saboreando cada mastigada do frango com molho de pimenta, do sushi que ficavam no canto de seu prato, do arroz com molho de carne, era sempre apetitoso o jantar.
—Kira, precisamos conversar.-
A voz vinha da escada que ligava os dois andares da casa, era do seu padrasto e pelo tom de sua voz a conversa viria a ser bem severa, ela largou seu prato e desceu a escada alguns minutos depois, e viu o homem sentado em uma cadeira na mesa. Alto com pelo menos 1,89m de olhos e cabelos castanhos, uma pele não muito clara porém também não muito escura, uma formação de duas cores raciais, ela já tinha visto o pais de seu padrasto, um negro e uma branca, a combinação fora perfeita, seu cabelo era liso sem falha alguma, mas ela conhecia seu segredo, ele passava meia hora na chapinha todos os dias, ele não era dotado de músculos mas também não era forte, não era magro mas também não estava acima do peso necessário, não fumava e muito menos bebia, usava como sempre uma camisa escura e por cima uma jaqueta vermelha e calça jeans com um tênis qualquer, seu boné com o próprio nome "John" estava na mesa, ele saboreava um café. Ele largou a xícara e ambos se encaram por breves segundos, necessários para a mãe de Kira notar a troca de olhares e convidar a filha para sentar.
—Eu agradeço mãe.- Kira rejeitou a oferta.
—O.K- A mulher aceitou.
—Você vai fazer 16 anos amanhã.- John iniciou. -E eu conheci seu pai, como você deve saber.
—Claro, amigos. Você no passageiro com ele, sofreram o acidente, ele morreu, você sobreviveu. E aqui estamos nós.-
—Kira, não começe.- A mulher fez seu primeiro pedido.
—Seu pai também não era dos melhores, no dia do acidente acha que ele não bebeu? Que ele não se alterou? Quando bebia ele falava mal de vocês.- John não deixou barato.
—Não fale do meu pai assim!-
Kira socou com toda as suas forças a mesa, o barulho que os três escutaram era da madeira se quebrando, o golpe foi forte, porém ela aguentou a dor, seu olhar era de odio para John e as palavras que sujavam a imagem de seu pai, a luz do ambiente começou a piscar, o homem já tinha visto a menina com raiva mas não chegava a aquele ponto, até mesmo a mãe se intimidou um pouco, porém ao ver o sofrimento da filha tentou se aproximar para um consolo, mas ela a rejeitou.
—Se aquiete, menina.- John ordenou. -Seu pai me disse coisas antes de morrer, e sua mãe me confirmou, mas ela não tem coragem de dizer.-
Kira tentou se acalmar mas a raiva não estava diminuindo, respirou fundo e foi soltando devagar o ar, ela não deixou de olhar para a mãe quando a mesma foi mencionada, o que quer que fosse deveria ser sério.
—Só para saber, não me mande me acalmar.- A menina pediu. -E prossiga.-
—Certo.- John coçou sua nuca. -Não sei exatamente como falar isso, já sei porque não falou antes, Sara.- Ele procurou por palavras certas. -Seu pai, ele era um anjo, literalmente um anjo, daquele tipo com asas....- Já era um começo, ele pensou. -...certa vez conheceu sua mãe e se apaixonaram, amor a primeira vista, e a engravidou...- Era realmente difícil encontrar palavras certas.—...mas ai descobriram e ele teve que fazer uma escolha: Continuar como um anjo, com a imortalidade, ou ser um mortal e viver com sua mãe....- Ele olhou para a esposa.—...já deve imaginar a resposta que ele deu.-
—...e um acidente de carro levou ele.- Sara, a mãe de Kira, falou entristecida.
Kira estava quieta, muito quieta. Ela já tinha visto John sério daquele jeito, mas não acreditava naquela história. Ela olhou em volta procurando por apenas uma coisa: câmeras. Alguém deveria estar fazendo uma pegadinha muito mal feita. Se permitiu deixar um riso escapar, estragando aquele clima meio tenso no ambiente.
—Possuo uma teoria de que você seja uma mestiça, seus poderes ainda estão dormentes, mas podem se revelar a qualquer momento, imortalidade, regeneração celular, habilidades incríveis, tudo isso por causa de seu pai.- John terminava finalmente o que tinha a dizer.
—Minha vez. — Kira anunciou. -Eu também tenho uma teoria.- Ela coçou graciosamente o cabelo. -A primeira é que você é um babaca, apenas um mecânico dessa cidade muito bem conhecido, e a minha segunda teoria, é que vou te matar caso pronuncie em vão o nome do meu pai, ou se refira a ele de qualquer jeito.-
Ela falava a verdade. Se aproximou dele enquanto dizia friamente aquelas palavras e tocou-lhe firme o ombro esquerdo, e sem nem um pingo de dó apertou aquela região, usando toda a força contida em seu braço, direcionada para sua mão. Se deliciou com o grunhido de dor que ele fez, e após seu recado ela se retirou subindo as escadas mais uma vez, retornando ao seu quarto e terminando seu jantar. Passou o resto do tempo conversando com a amiga que havia se mudado, não deu importância quando sua mãe e o padrasto foram dormir, o tempo realmente avançou. Quando percebeu já eram três e meia da manhã, e teria aula no mesmo dia, a conversa se encerrou e ela foi para sua cama, exausta tanto mentalmente quanto fisicamente, apenas queria esquecer daquele dia. Não tinha ideia mas grandes mudanças iriam ocorrer, o que John falou era verdade, e naquele momento enquanto dormia, seu sangue fervia intensamente, suas habilidades estariam pela primeira vez se manifestando, e a jovem estaria se tornando parcialmente humana. Seu caminho já tinha sido escolhido por uma força maior.
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