A Vida de Elizabeth Ashfield
4 Capítulo 4: Retalhos
Chegando à residência, Elizabeth saiu do veículo rapidamente, abrindo a porta do carona e puxando Christopher à força.
- Chegou nossa hora de agir, cara. É bom você não me decepcionar.
- Pode deixar, irei fazer o serviço completinho. A senhorita terá orgulho de mim
...
Elizabeth subia as pequenas escadas da entrada do casarão e tocava a campainha, enquanto Christopher se dirigia aos fundos do casarão para cumprir o que prometera. A porta foi aberta com impaciência por ele, Andrey Thompson, o ex-namorado que tinha destruído a vida da jovem.
- O que você quer? Não foi você mesma que disse que não iria mais me ver? – ironizava, gargalhando ao fitar a expressão irritada de Elizabeth.
- Você vai pagar caro pelo que fez! – e transferiu um forte soco no rosto de Andrey, que se enfureceu e a empurrou pelos pequenos degraus da entrada.
- Sai da minha casa, sai da minha vida! – e adentrou correndo o casarão, antes que Elizabeth conseguisse se levantar e correr atrás dele.
- Christopher, pelo amor de Deus, não vacila comigo!
...
Andrey voltava para o interior do casarão enquanto, com expressão curiosa e ao mesmo tempo sonolenta no rosto, descia as escadas um jovem de aparência parecida com a de Andrey. Os cabelos loiros e a pele branca, porém, tinha barba e os olhos eram pretos.
- O que aconteceu, irmão? Quem esteve aqui?
- Adivinha?! Elizabeth. Essa garota tá me tirando a paciência. Ela está passando de todos os limites. Ainda bem que aquele pirralho bateu as botas. Agora ele tem dinheiro, mas na época provavelmente iria me dar um golpe utilizando aquela criança. – dizia secamente, recordando-se com ódio dos momentos que passara com a jovem. – Vou tomar um pouco de água para me controlar. Joseph, vem tomar o teu café da manhã que aí te conto mais daquela moça que disse que estava apaixonado.
- Você, apaixonado? Ainda não engoli essa. – respondia o irmão, rindo debochadamente. Os dois se dirigiram À cozinha soltando altas gargalhadas recordando de várias situações divertidas entre eles. Percorreram o imenso corredor e chegaram ao cômodo escuro.
As janelas da cozinha estavam fechadas e cobertas com mini cortinas escuras. Andrey pressionou o interruptor. Repentinamente, devido ao impacto de uma grande explosão, os corpos dos dois jovens voaram para fora da cozinha e em pouco tempo as chamas incendiaram toda aquela parte da casa. E a primeira vingança de Elizabeth tinha se cumprido.
...
Dirigindo o veículo, Elizabeth rumava à casa de Christopher, pois ele havia feito o serviço todo conforme o planejado e merecia uma simples carona.
- Obrigada, Christopher, e tenha muita sorte em sua vida! – após se despedir do homem-bomba, partiu para sua mansão, chorando cada vez mais, deixando as lágrimas escorrerem.
- Não posso me arrepender agora. Ele teve o que mereceu! – pensava, decidida a manter a farsa e jamais se revelar a assassina de seu primeiro amor. Mal sabia ela que, juntamente com Andrey, seu irmão mais velho também tinha sido assassinado.
Chegando à mansão, Emily, que jazia em um dos elegantes sofás de coloração escarlate folheando as páginas de um novo livro que havia comprado para passar o tempo, ao ver a expressão de preocupação da filha mais velha, abandonou o livro, colocando-o delicadamente sobre uma mesinha de canto situada no centro da sala sobre um tapete de coloração mais clara que o sofá, se levantando assustada.
- Filha, o que aconteceu?
- Não foi nada. Eu preciso ficar sozinha por um tempo, por favor.
E subiu as escadas, se dirigindo a seu quarto. O cômodo era decorado com desenhos e pinturas de vampiros e outros tipos de criaturas e monstros mitológicos, histórias favoritas de Elizabeth desde a infância. De noite costumava ser iluminado à base da luz de velas, aparência gótica do jeito que Elizabeth gostava, porém, de dia era suficientemente claro e iluminado pela luz do sol que adentrava o cômodo através de uma grande janela colonial.
Pulou sobre a confortável cama e tomou o travesseiro em seus braços. Tinha tirado a vida de uma pessoa e se aterrorizava cada vez mais consigo mesma. Ficava perguntando se realmente tinha sido capaz de cometer um ato terrivelmente cruel como aquele.
...
“Explosão em casa situada em Summerlight deixa dois mortos:
Uma grande explosão, ocorrida em uma residência que se situava em uma das ruas mais vazias da cidade deixou duas pessoas mortas. Acredita-se que foi provocada por um vazamento de gás. Os corpos dos mortos foram identificados através de muitos exames: pertencem a Joseph e Andrey Thompson, dois irmãos que viviam juntos. Nenhum morador próximo da região foi afetado pelo atentado.”
Finalizando a leitura da notícia, um grande arrepio tomou conta de Elizabeth que, gaguejando, conseguiu pronunciar para si mesma:
- O irmão também?! D-d-e qualquer jeito, o plano ocorreu conforme o planejado...
...
Com a finalidade de ocultar para todos o que tinha acontecido, que era a responsável do assassinato de Andrey e Joseph, Elizabeth Addams se oferecera para quitar os pagamentos do funeral dos irmãos, já que nenhum dos dois tinha nenhuma família ou alguém que realmente se importasse de verdade com eles. Com isso, a jovem teve também a grande oportunidade de mostrar para todos da cidade que era a maior vítima de toda aquela história e, pelo seu ponto de visão, por um lado acabava se sentindo realmente como a vítima. A Elizabeth que sofrera demais nas mãos do cruel namorado e apenas estava fazendo justiça com as próprias mãos.
Seu estado emocional piorava cada vez mais. Quando não passava de uma criança pré-adolescente, tinha se envolvido em um assassinato e vira uma pessoa morrer na sua frente, diante de seus pés. Todos esses fatos contribuíam para que Elizabeth se comportasse e pensasse daquela maneira. Uma maneira distorcida de como a vida de cada ser humano deveria ser.
Mesmo assim, apesar de tudo que Elizabeth fizera para se livrar do empecilho, os policiais suspeitaram da jovem, pois era a única que todos sabiam que tinha alguma ligação com os Thompson.
- A senhorita tem certeza de que está falando a verdade? – erguendo as sobrancelhas, o investigador anotava tudo o que conseguia obter, todas as informações sobre o suposto crime.
— Absoluta. Quem não deve não teme, senhor. – cínica, Elizabeth se sairia extremamente bem em um teatro ou até mesmo em um dramalhão, uma novela, enfim, era uma excelente atriz. – Mamãe e minha irmãzinha vão dizer a mesma coisa sobre isso...
Elizabeth fora liberada do interrogatório e o inspetor, separadamente, interrogou Emily e Victoria. As duas, que, em uma excelente estratégia de mestre de Elizabeth, se deixaram enganar por um falso álibi bem elaborado e, mesmo sem ter a intenção, confirmaram a versão da advogada, que foi inocentada. Com isso, a polícia concluíra que a morte tinha ocorrido devido a um terrível e trágico acidente.
...
Semanas se passaram e Elizabeth, tranquilamente, dedicava sua vida à carreira de advogada, obtendo cada vez mais sucesso. Sua vida estava cada vez melhor, pois, além de tudo isso, Emily finalmente se curara da terrível depressão que sofria por anos.
Em um exaustivo dia de trabalho, durante aquela noite fria e densa, Elizabeth chegava em casa extremamente cansada. Tinha ido buscar de carro a irmã mais nova, que ficara mais tempo na universidade e não vira a hora passar, preocupando a família.
Victoria Addams subia as escadas e sua irmã mais velha, Elizabeth, esgotada, se jogou no grande sofá, com preguiça de subir a escadaria da mansão. Emily já tinha subido para dormir e o cômodo se encontrava deserto.
Pouco tempo depois, a campainha tinha sido tocada. Carlotta, a empregada da mansão e fiel escudeira das três mulheres que ali residiam, se prontificava a abrir a porta, porém foi interrompida com um aceno pela patroa, que, em um piscar de olhos, já estava recebendo a tão adorada visita.
- Você?! – gritou, porém não tão alto, evitando assim que chamasse a atenção das outras que se encontravam no segundo andar. Tudo o que não queria agora era arrumar mais um problema, que elas vissem o cúmplice do grande crime que tinha cometido.
- Sentiu saudade? Eu também senti. – e invadiu a mansão, adentrando a grande sala.
- O que você quer de mim? Não tá satisfeito de ter saído daquela ratoeira imunda? – Elizabeth se descabelava nervosa com a presença daquele homem, que poderia arruinar sua vida para sempre com apenas uma confissão.
- Acho que você deve saber. Não tenho nada a perder mesmo. Levo uma vida de lixo... Quero dinheiro!
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