A Vida de Elizabeth Ashfield

2 Capítulo 2: Desespero


Após o divórcio de um grande casamento que durara muitos anos e anos, a vida das irmãs Elizabeth e Victoria jamais havia sido a mesma. A mais velha, que sempre fora uma menina gentil, alegre, de bem com a vida e simpática, se tornou outra pessoa. Deu lugar a uma adolescente depressiva e bipolar. Seu estado mental estava cada vez pior em decorrência do assassinato que tinha cometido. Sua mãe havia sido presa por sua culpa. E, para piorar mais ainda, o divórcio dos pais ocorrera logo após a liberdade da mãe. Tudo contribuía para que a menina sofresse do pior modo possível.

George Addams, o pai das duas meninas, após se separar da mulher, desapareceu da cidade sem dar absolutamente nenhum sinal de vida para a ex-mulher ou para as filhas. Tinha cumprido somente a promessa de cuidar das pequenas meninas enquanto Emily estivesse presa e, logo após a liberdade desta, abandonou as três e sumiu sem dar notícias.

Emily Addams, com muitas dificuldades financeiras e um árduo e esforçado trabalho, como faxineira em várias casas da vizinhança, conseguira sustentar as filhas e educá-las do melhor modo possível. Durante todos aqueles anos que se passaram, a mãe não pensava em mais nada a não ser a felicidade e o bem das meninas. A mulher ainda tinha que suportar uma depressão por conta do assassinato cometido pela filha, dos maus que sofrera na prisão nas mãos das detentas e do abandono do marido que tanto amava.

Os anos se passaram e Elizabeth e Victoria cresceram, tornando-se o orgulho de sua mãe, as filhas que uma mãe pedira a Deus, a não ser pelo comportamento estranho de Elizabeth, que agora estava no primeiro ano da faculdade, enquanto a irmã mais nova cursava o primeiro do colegial. Ambas passaram em concursos de Instituições Públicas, porém excelentes para que pudessem seguir a carreira que bem desejassem.

Elizabeth estudava direito e passava horas e horas em seu quarto, porém, também tinha outro pensamento.

– Em breve vou me casar com um homem rico e tirar nós três do poço! Tenho que ser esperta. Não posso ser que nem a mamãe que se casou com um pobre ferrado na vida como... ele. – pensava a jovem, enquanto folheava distraída um de seus livros de advocacia, que era a carreira que ambicionava.

...

Em um horário vago, no grande pátio central da escola, jazia Elizabeth, com uma penca de livros na mão, se dirigindo à biblioteca que se encontrava no final de um corredor que se ligava ao tal pátio, que era extremamente belo. Era aberto ao ar livre, gramado, com caminhos de pedra e bancos de madeira. Em seu centro se situava um absurdamente grande chafariz, que jorrava água para todos os cantos. Aquela faculdade era uma cidade universitária!

Elizabeth se encontrava sobre um desses bancos, pois desistira de ir à biblioteca para contemplar a paisagem do pátio que tinha acabado de conhecer e adorado. Apesar do jeito tristonho, arrogante e impaciente de ser, a jovem ainda era a mesma delicada menina de antes, que adorava paisagens, cores, vivacidade. Contemplava o belo jardim, com flores de todos os tipos e cores.

Muitos estudantes universitários rodeavam o pátio, caminhando por todas as direções, perambulando aqui e ali. Cada um com seu grupo de amigos. Elizabeth sorrira ao observar um grupo de pessoas diferentes dos outros: os roqueiros. Uma jovem que liderava o bando tinha cabelos castanhos claros lisos e olhos azuis. Tinha uma blusa preta com uma caveira branca estampada na mesma e uma jaqueta acinzentada. A calça jeans eram rasgadas na região da coxa, como se um leopardo tivesse atacado a jovem. Os outros que a acompanhavam eram resumidamente do mesmo estilo. O grupo se perdeu na multidão.

Um novo grupo chamou a atenção de Elizabeth. Este, por sua vez, era composto apenas de garotos. Os olhos da jovem brilharam especialmente por um, em geral. Seus cabelos eram pretos como os dela e seus olhos eram verdes brilhantes como uma valiosa esmeralda. Os olhares se encontraram.

Elizabeth, sem graça, se apressou a se levantar e recolher a penca de livros que a acompanhava. Em seguida, caminhou em direção à tal biblioteca. O garoto, também sem graça, virou o olhar e continuou conversando com os amigos. Era necessário que, para chegar à biblioteca, Elizabeth passasse pelo tal grupo. E foi o que fez. Nervosa, andou um pouco mais rápido do que o necessário, mas queria sair logo daquele lugar. Escorregou no chão úmido e seus livros pularam, caindo abertos sobre a pequena poça.

O tal jovem se apressou a ajudá-la a recuperar os livros, recolhendo-os, enquanto Elizabeth se levantava. Um fitava o outro, sem reação. Elizabeth interrompeu o silêncio que preenchia todo o corredor.

– Obrigada, você salvou meus livros antes que se molhassem todos!

– Não há de quê. E você pode me chamar sempre que você precisar. Qual é o seu nome? – perguntava o jovem, esboçando um grande sorriso, encantando a jovem, que logo em seguida respondeu.

– Elizabeth... Elizabeth Addams! – e estendeu a mão ao garoto, num gesto educador de cumprimento. Suas bochechas ficaram rosadas. O garotou também estendeu a sua e os dois se cumprimentaram educadamente.

– Sou Andrey. Andrey Thompson. Prazer em conhecê-la. Agora preciso ir com meus amigos. Tenho uma pesquisa para terminar. Mais tarde a gente se vê!

E despediu-se com um aceno, se juntando aos outros amigos. Enquanto isso, Elizabeth finalmente se dirigira à biblioteca para estudar durante o tempo vago. Suas primeiras avaliações se aproximavam cada vez mais.

– Essa daí jajá cai na minha! Mais uma pra minha lista. – sussurrava para os amigos, que gargalhavam alto.

...

Aquele primeiro ano na cidade universitária tinha se passado e Elizabeth, como esperado, havia sido aprovada, causando orgulho e aprovação de sua família, que se resumia à mãe e à irmã. No final do ano, Andrey havia se declarado para Elizabeth, a pedindo em namoro. A jovem, emocionada, aceitou, e deu a notícia às duas.

– Eu te amo, Elizabeth. E depois da faculdade eu quero me casar com você, ter filhos. Juntos poderemos ser muito felizes. Você só precisa dar uma prova de que também me ama. Precisa provar pra mim!

Elizabeth sabia onde aquele assunto iria parar. Sua mãe sempre a educara dizendo que deveria se casar virgem, que era a honra de uma mulher, e que não deveria perder a virgindade por nada antes de se casar. Se algum namorado pedisse isso, deveria recusar imediatamente. Porém, foi mais forte do que ela. A vontade e o impulso de se entregar para o homem que amava falava mais alto e tudo aquilo acabou acontecendo.

Acordou desesperada ao se dar conta do que tinha acontecido naquela noite. Acordou no elegante carro do jovem. Ambos se encontravam despidos e dormiam abraçados um com o outro. Silenciosamente, se vestiu e se retirou do veículo. Se dirigiu ao ponto de ônibus o mais próximo possível e adentrou o veículo que a conduzia para perto de casa.

Adentrando a porta do casebre, tudo estava escuro. “Que estranho, estão dormindo a essa hora?” pensava Elizabeth, quando acendeu a luz da sala de estar. Assustou-se quando viu a mãe sentada no sofá da sala, acordada, fitando a filha.

– Onde você tava essa hora, filha? Já vai dar nove horas!

Elizabeth sentou-se ao seu lado no sofá, acariciando os cabelos da mãe. Victoria, que agora já era uma adolescente, deveria estar dormindo pois seus dias escolares também são extremamente cansativos.

– Estava com o Andrey. Desculpa por não ter te avisado. Me esqueci completamente.

De certa forma não estava mentindo, mas se sentia mal ao omitir o que tinha acontecido, mas se falasse era capaz da mãe surtar, pois era uma pessoa bem moralista, do tipo que ainda tinha costumes antigos.

Pouco tempo depois, decidiu fazer um exame de gravidez para descobrir se o que fez teve alguma consequência. Inúmeros exames de farmácia resultaram positivo e a jovem se desesperou. Resolveu contar toda a verdade ao namorado, que, pensava ela, sem dúvida iria apoiá-la e amaria o bebê.

– O quê? Um filho?! Nós não estamos preparados para isso, meu amor. Você vai ter que dar um fim nessa criança.

Elizabeth sentiu como se tivesse levado um soco no estômago ao escutar aquilo. O homem que amava recusando um filho de um fruto de amor entre eles?

– Por favor, Andrey. Não faz isso comigo. Eu não vou ter coragem de cometer aborto. Crio essa criança sozinha se for o caso, mas não faz isso, por Deus!

– Ou você tira essa criança ou você não me procura mais.

Sem palavras, Elizabeth não quis ouvir mais absolutamente nada daquele homem e l o namorado na mesma hora. Tirou um lindo anel, que tinha sido um presente do namorado, e o arremessou no chão, pisoteando o objeto.

– Quem não vai me procurar vai ser você. Vai para o inferno.

...

Naquela tarde, caminhando nervosa, aflita e desesperada pelas ruas da cidade, Elizabeth não conseguia prestar atenção no grande trânsito das ruas e atravessava as ruas sem observar os dois lados. Por uma grande sorte, nenhum daqueles veículos extremamente rápidos tinha atropelado a jovem. Chegando à sua humilde residência, quando estava prestes a abrir a porta da frente, desmaiou.