A Vida de Elizabeth Ashfield
16 Capítulo 16: Abrigo
Notas iniciais
Margareth tinha arrastado Caroline a fim de revelar para a jovem amiga o terrível passado que a atormentava.
- Sabe, o James não é o pai dos meus dois filhos. – revelava, prendendo os cabelos loiros em um coque. – Eu já tinha me casado com um homem antes de tudo aquilo acontecer...
--- Flashback ---
Uma pequena garotinha, de vestimentas simples e um longo cabelo ruivo preso em um rabo-de-cavalo, perambulava solitariamente por um depósito de lixo, à procura de alimentos. Sua busca fora interrompida por uma jovem muitos anos mais velha, que corria aliviada, como se estivesse procurando há tempos pela criança.
- Megan, por que você está aqui?! Venha comigo... Você não precisa passar por toda essa humilhação, esse inferno. Não já basta o que eu passo. Você também não vai passar. – ordenava, puxando a irmã pelos braços.
- Mas irmã, a gente precisa. Não temos comida em casa...
- Diga a verdade. Foi ela, não foi? Foi a mamãe que te obrigou a vir aqui.
Megan, inocentemente, assentiu, causando mais ódio e revolta na irmã mais velha, que lutava para que a caçula tivesse uma vida melhor do que a sua. Uma vida de uma pessoa normal.
- Venha comigo. Vamos acabar com toda essa palhaçada de uma vez.
...
As duas, depois de uma longa e árdua caminhada pelas ruas da cidade, chegaram ao pequeno casebre onde residiam com os pais.
- Mamãe, quero conversar com a senhora. – e virou-se para a irmã. – Megan, vai brincar em algum lugar que o papo aqui é sério!
A pequena obedeceu, se retirando do cubículo que era a sala de estar, se dirigindo ao pequeno quarto que dividia com a irmã mais velha.
- Pode falar. – respondia secamente a mãe, fitando o relógio que se encontrava no pulso de uma de suas mãos. Tinha os cabelos louros quase grisalhos e era uma mulher baixa e corpulenta.
- Me responde uma coisa. Que história é essa de fazer a garota catar lixo, mamãe? A senhora passou dos limites dessa vez! Já te disse que com a Megan não se faz nada. Faça comigo se for o caso. Ela vai estudar, se formar e ser alguém na vida, diferentemente das inúteis que nós duas nos tornamos.
Molly se levantou, fitando seriamente a mais velha filha.
- Margareth, quem é a mãe da Megan sou eu. Você tá grandinha o suficiente para entender as coisas. Eu sou uma frágil e doente mulher, e seu pai está de cama há meses e não melhora de jeito nenhum! – deixou algumas lágrimas de crocodilo escorrerem de seus olhos, cinicamente. – Preciso dos favores de alguém. Não é sempre que posso sair fazendo faxina. E, como você mesma disse, é uma inútil, diferentemente de sua irmã, que com toda dedicação sempre me obedece quando dou uma ordem que deve ser cumprida.
- Não já basta o meu trabalho para ajudar vocês? Ainda precisam explorar a garota? ISSO NÃO É JUSTO!
- O seu trabalho? Faxina de porta em porta? É para rir, não é? Você fala como se conseguisse uma grana preta pra sustentar tua família, mas a única coisa que sabe fazer direito é arrancar dinheiro de homem, e muito mal ainda por cima. Não consegue fazer nada que preste! Tive que esperar nove meses para isso?
Margareth, surtando de ódio, depois de todas as cruéis palavras proferidas pela mãe, esbofeteou a mulher tão forte que esta caiu sobre o sofá com o forte impacto.
- Me desrespeitar eu já estou até acostumada, porque você faz isso desde que era uma pirralha rebelde, mas bater em mim, é a primeira vez que você faz isso! Saiba bem. Minha casa, minhas regras. Quem manda aqui, nessa casa, sou eu. Se não tá te agradando, a porta da rua é a serventia da casa.
- Sendo assim...
Margareth caminhou até o quarto que dividia com Megan, sem querer escutar mais daquelas ofensas proferidas por aquela maldita mulher. A irmã mais nova se encontrava sobre a cama, distraída, porém escutava toda a discussão que vinha da sala.
- Megan, a maninha vai precisar ir embora... Eu juro que queria te levar junto, mas por enquanto não dá. Eu não tenho lugar nenhum pra ir. Por enquanto você precisa aguentar esse inferno.
Beijou emocionada o rosto da irmãzinha, retirou suas poucas vestimentas do armário, as dobrou de qualquer jeito e arremessou no interior de uma bolsa de couro desbotada e rasgada e retirou-se do casebre, ignorando os berros de Molly. Megan, na porta, ao lado da mãe, observava aos prantos a irmã partindo. Sabia que aquele seria um dos últimos momentos em que veria Margareth.
Margareth Wargrave virou-se para trás pela última vez. Uma lágrima escorreu de seu rosto. E partiu.
...
Caminhando vagamente e solitária pelas ruas da cidade, Margareth tinha o rosto completo de lágrimas. Não tolerava o modo como os pais tratavam as filhas, como escravas. Havia sido Margareth que, desde a infância, cuidava da irmãzinha quando os pais trabalhavam, porém, com o passar do tempo, foram se tornando cada vez mais exigentes, querendo que a filha trabalhasse em dobro. Tudo aquilo estava se repetindo com Megan, e Margareth não suportava ver a irmã daquele jeito.
- Eu tenho que esquecer tudo isso e dar um jeito de conseguir um emprego pra ajudar a tirar a Megan daquele ninho de cobras. Ela não merece passar por todo aquele inferno que eu passei.
Algumas horas depois, o dia chegava ao fim e Margareth ainda não tinha conseguido nenhum emprego. Não tinha local onde pudesse dormir, portanto, sentou-se em uma das calçadas e ali se alojou, deitando sobre o solo gelado na espera do sono.
Seu cochilo fora interrompido por um veículo que passara por ali durante a noite. O homem que estava dirigindo, ao reparar a presença de uma belíssima jovem que dormia na rua, retirou-se do carro e caminhava na direção de Margareth, que cochilava trêmula.
- Está com frio? – se abaixou e cochichou em seu ouvido. Seus olhos demonstravam generosidade e bondade, o que de certa forma a tranquilizou.
- S-Sim... Não tenho para onde ir, moço. Acabei de deixar minha casa...
- Venha comigo. Sei o lugar ideal para uma menina como você, sem lar, sem o apoio de ninguém e sem emprego. – o homem estendia a mão, esboçando um pequeno sorriso. Margareth a segurou e ele a levantou, colocando a mão sobre seu ombro, a guiando ao veículo.
A trajetória fora imensa e no início da madrugada desceram do veículo. Margareth se desesperou ao descobrir aonde se encontrava. Estavam de frente a uma imensa casa grande pintada de lilás, com um grande letreiro, que dizia: “Bordel da Mafalda”
- Sou Arthur Hoffman, filho de Mafalda Hoffman... Ela é uma boa pessoa e você vai gostar dela. Lembrando que não obrigaremos você a nada.
--- Fim do Flashback ---
- E assim eu fui parar naquele bordel...
As duas foram novamente interrompidas por Esther, que não perdia a chance de infernizar a vida de todas as detentas, como se elas fossem as culpadas pelo mísero salário que recebia mensalmente.
- Andem, trabalhem! Bando de preguiçosas. – ordenava, apontando para as duas amigas que conversam num dos cantos do pátio. Margareth revirou os olhos, voltando a atenção para a amiga.
- Outro dia, quando estiver mais segura, eu te conto mais, Carol. Obrigada por me ouvir.
...
Na manhã seguinte, Elizabeth despertava de um pesadíssimo sono após passar a noite inteira e uma boa parte da madrugada passeando pela cidade, conhecendo suas maravilhas. Retirou a venda colorida, abrindo os olhos, reparando que se encontrava sozinha na elegante suíte do hotel.
- Ué, aonde está o Hector? – perguntava, até reparar que na cabeceira da cama de casal ao lado em que Hector dormira se encontrava um bilhete.
“Acordei cedo e não consegui dormir mais... Você dormia como um anjo, portanto, não a acordei. Fui dar uma volta por aí.
Hector”
- Bem a cara dele fazer isso. – resmungava, deixando o papel onde se encontrava antes. Deitou-se novamente sobre a cama, na tentativa de adormecer até a chegada do marido, como se não tivesse acordado e nem sequer reparado sua falta.
Durante a hora do almoço, Hector retornava do passeio, com uma sacola repleta de itens de todos os tipos.
- Ei... Já dormiu demais... Acorda! – exclamava Hector, retirando a venda dos olhos da mulher.
- Aonde você foi? – perguntava cinicamente, fitando a grande sacola de produtos que se encontrava nas mãos do homem.
- Fui comprar umas coisinhas por aí... Olha o que me aconselharam a comprar para você. – retirou da sacola um grande frasco em formato de semicírculo de coloração rosa-choque, com uma tampa em formato de rosa branca.
Elizabeth abraçou fortemente o marido, apanhando o perfume de suas mãos, abrindo o recipiente da fragrância. Despejou um pouco do líquido em uma de suas mãos.
- Que cheiro gostoso... Seja lá quem tenha lhe aconselhado a comprá-lo, este perfume é divino!
- Tem mais alguns aqui... Venha ver!
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