A Vida de Elizabeth Ashfield
38 Capítulo 38: Chamas
Notas iniciais
Eric se sentia a pessoa mais honrada naquele mundo. Sua vida tinha começado a mudar, para melhor. Fruto de uma amizade verdadeira, quase um carinho de irmão, a sorte que muitos não teriam caiu nas mãos do jovem.
Era eternamente grato e sempre se sentiria em dívida com a melhor amiga, conhecida apenas há pouco tempo, por tamanha generosidade. Poucas eram as pessoas no mundo que o ajudariam daquela maneira.
– Eu não sei o que dizer, senhora Elizabeth. Muito obrigado, obrigado mesmo. Tem certeza de que não irei incomodar?
– Mas é claro que não, meu querido. – respondeu Elizabeth, amavelmente. Um amigo de Isabella também seria seu amigo. Se a sobrinha desejava hospedar Eric, que Eric então fosse hospedado. – Seja bem-vindo, a casa também será sua.
– Eu não sei como agradecer
...
Elizabeth começara a se sentir estranha após a chegada de Eric à mansão. Em seu quarto, pôs se a refletir sobre o novo morador de sua casa.
– Esse garoto me lembra alguém... Ele me parece familiar de algum lugar. De onde será que eu o conheço? Que estranho...
Inerte nos esquisitos pensamentos, adormeceu. Quem seria aquele garoto? Ela sentia que o conhecia, ela reconhecera o próprio filho, tirado de seus braços em um ato de crueldade.
...
Na manhã do dia seguinte, bem cedo, Eric se levantara e contemplara a belíssima paisagem no jardim da mansão. Um lugar lindo e calmo, ideal para reflexões e pensamentos.
Enorme, o jardim colorido era composto de todos os inimagináveis tipos de flores existentes no mundo. Uma ponte dava passagem ao outro lado, que era separado com um pequeno rio. Aquele lugar era maior do que Eric pudera supor. Um legítimo palácio, um paraíso.
Ele deveria estar feliz, mas um vazio tomava conta de si. Sentia que algo faltava. Sentia que precisava de uma família, e Isabella atualmente era o que mais se aproximava de tal. Era como uma irmã, a irmã que nunca tivera. Mesmo sendo muito amigo de David, nunca se sentiu como irmão do garoto, não após tudo que passara nas mãos do casal que o criara.
Isabella se juntou ao amigo, segurando sua mão.
– Está triste com algo?
– Eu deveria estar feliz com tudo isso... Com toda sua hospitalidade, mas...
– Mas você não consegue esquecer tudo aquilo, não é mesmo? – Isabella, após o balançar positivo da cabeça do amigo, o abraçou carinhosamente. Ela era capaz de compreender seu sofrimento de tal maneira que este se surpreendia.
– Exatamente assim... Mas isso vai passar. Eu tenho que tocar a vida pela frente e me esquecer daquelas pessoas. – decidiu Eric, disposto a lutar para conseguir o que sempre sonhara em ter: uma vida simples porém feliz, ao lado de quem se importava com ele.
– É assim que se fala.
...
Eric, após a emocionante conversa com Isabella, adentrou a mansão acompanhado da amiga. Os dois eram feito unha e carne, não se desgrudavam por nada.
Elizabeth os aguardava na sala de estar. Os dois se assustaram com a presença silenciosa da mulher, logo em seguida soltaram gargalhadas e se juntaram à milionária.
– Bom dia, meus queridos... Eric, eu gostaria de ter uma conversa com você. Em particular. – Elizabeth fitou Isabella, que, concordando com a cabeça, se retirou, curiosa. Elizabeth, ao observar o olhar assustado do rapaz, se arrependera completamente do modo como tinha notificado os dois. – Não precisa ficar nervoso... Só quero conhecê-lo melhor.
Eric contou toda sua história à Elizabeth, pelo menos tudo que soubera. Seus pais adotivos sempre afirmaram que o bebê fora abandonado na porta de sua casa, e fora isso que Eric revelara àquela que na verdade era sua mãe biológica, a mulher que o dera luz e o amara como uma mãe ama a um filho.
– Mas essa história está muito mal contada, Dona Elizabeth... Tenho a impressão de que meus pais escondem algo de mim sempre que falam disso.
Elizabeth deu de ombros, se comovendo. Ao ouvir o modo como este se referia aos pais, sentiu vontade de chorar. Como poderiam existir pessoas tão ruins na face da terra, a ponto de maltratar uma criança inocente, que não tinha culpa de nada? Elizabeth poderia sim ser uma assassina, uma tiradora de vidas, mas jamais seria capaz de fazer mal a um pequeno ser.
– Eu não sei o que dizer. – afirmara, engolindo em seco.
...
Novamente, em seu quarto, pôs se a refletir e pensar sobre a conversa que acabara de ter com o novo hóspede.
– Adotado... Encontrado na porta da casa onde residiu... Será, meu Deus, será? Não, não pode ser. Seria muita coincidência.
Cassandra, agora uma mulher, adentrou o quarto, à pedido da própria Elizabeth.
– O que houve, senhora? Parece tão nervosa, tão aflita.
– E estou... Você não sabe do que pode estar acontecendo, Cassandra. Lembra-se de quando perdi meu filho, roubado num hospital?
– Claro que sim... – lamentou, tristonha. – Como se fosse ontem.
– Pois bem, a presença desse garoto me fez lembrar de alguém. Inicialmente eu não o reconheci, mas depois, tudo pareceu tão claro, mas ao mesmo tempo tão impossível.
– Não entendo.
– O Eric, o novo amigo da Isabella, ele foi adotado pelos pais, encontrado na porta de casa. Lembrando que ele foi adotado, e não conhece os pais biológicos.
– Então a senhora acha que... – Cassandra finalmente compreendera o que poderia estar se passando, sendo interrompida pela patroa.
– Não sei se estou acreditando nisso em um desespero para encontrar meu filho ou, ou se realmente isso pode ser verdade.
– Olha, dona Elizabeth, precisa ter certeza disso. Um exame de DNA seria o ideal. Com ele, tudo poderia se resolver.
– Ou nada, né. Mas não vou sossegar enquanto não me certificar disso. E ainda há algo que me intriga. Quem seria capaz de roubar o meu bebê e jogá-lo na porta de um casarão?
...
Chamou Eric mais uma vez para uma conversa, decidida. Isabella no momento se encontrava cochilando em seu quarto, ficando novamente fora dos diálogos dos dois.
– Eric, eu preciso desabafar com você. Depois vai entender o motivo.
– Tudo bem... – respondia Eric, erguendo uma das sobrancelhas, sem imaginar o que a milionária teria de tão importante para conversar com um hóspede praticamente estranho.
– Assim que você pisou nessa casa, eu senti que o conhecia de algum lugar, porém, não me recordava de jeito nenhum que lugar era esse, até ter aquela conversa que nós tivemos agora há pouco. A partir do momento em que você afirmou que tinha sido adotado, que não era filho biológico dos seus pais, algo passou pela minha cabeça.
– O que?
– Primeiro me tire uma dúvida... Você tem exatamente a idade da Isabella, mas é um pouco mais velho, certo?
Eric assentiu e Elizabeth continuou a revelação.
– Meu filho, que fora roubado de mim, tem a sua idade. Sei que pode parecer assustador, impossível, improvável, mas eu não posso continuar com essa dúvida, entende? Quando você falou aquilo, Eric, estremeci por dentro.
– Compreendo... – Eric parecia assustado com tudo aquilo. Era muita informação para um único dia. – Então, o que a senhora quer que eu faça?
– Gostaria de realizar um exame de DNA. Não iria custar nada de sua parte, não é mesmo? Precisamos nos certificar disso.
– Tudo bem.
Naquele momento, Isabella descia as escadas, sonolenta, porém, nervosa. Pelo que parece, havia escutado toda a conversa.
– Agora eu começo a entender o laço de irmão que a gente teve desde que se conheceu. Eric, tudo isso faz todo o sentido. Por que eu não tinha pensado nessa hipótese?
...
– Isabella, quero que você saiba que, mesmo após o resultado desse exame, caso ele for positivo e Eric for mesmo o meu filho, você não irá perder seu lugar no meu coração. Todos esses anos valeram a pena e eu não voltaria no tempo para consertá-los de maneira alguma. Você é uma das razões do meu viver.
Madrinha e afilhada se abraçaram emocionadas, prontas para ir com Eric à clínica, a fim de realizar o misterioso exame. A vida dos três dependeria do resultado do mesmo.
Fale com o autor