A Vida de Elizabeth Ashfield
12 Capítulo 12: Confissões
O delegado, cujo nome era Phillip, se instalara no escritório da mansão a fim de interrogar todos os presentes um de cada vez e solucionar o caso de uma vez por todas, como costumava fazer com assassinatos desse tipo. Era uma pessoa bem famosa na cidade, capaz de revelar qualquer caso possível, inclusive de assassinatos, principalmente os mais difíceis.
A primeira pessoa a ser interrogada pelo homem fora Elizabeth, por ser a proprietária do local onde o crime tinha acontecido. De cabeça baixa, a advogada adentrava o cômodo, nervosa com o que seria perguntado, mesmo sendo inocente no crime.
- Sente-se, srta Addams. Sou o tipo de homem que não gosta de brincadeiras e de enrolações. Responda somente o que eu perguntar e não fuja do assunto...
- Certo. – respondia assustada. O assassino poderia estar à solta naquela sala. Todos estavam correndo sério perigo, porém, Phillip deixava os dois policiais de guarda no cômodo.
- Pois bem... O que a senhoria fazia enquanto o crime acontecia?
- Fui a um jantar com meu noivo no início da noite. – gaguejava, soluçando aflita. – Cheguei em casa quando era cerca de meia-noite e caminhei imediatamente ao meu quarto, mas a porta estava encostada e a luz acesa. Quando entrei no quarto, vi a Carlotta morta. Foi assustador!
- Imagino... – dizia Phillip após alguns segundos em silencio, refletindo sobre o que a mulher dissera. – Isso é tudo o que tem a dizer? Não sabe mais nada que... que possa ser uma pista para descobrirmos a identidade do assassino?
- Desejava muito saber e solucionar isso de uma vez por todas, mas infelizmente não sei de mais nada, senhor.
- Ótimo. Obrigado, a srta está liberada. Faria o favor de chamar a sra Wilkinson para depor?
...
Victoria adentrava o escritório nervosa, como se temesse algo que pudesse acontecer. Provavelmente o fato de o assassino puder ser um dos presentes e estar tão perto de todos. Temia se decepcionar com alguém que amasse e confiasse.
- Sra Wilkinson, onde a senhora estava quando o crime acontecera? Escutou o tiro?
- Não sei dizer quando o crime foi executado, justamente por não ter ouvido o tiro. Mas creio que fui a última pessoa a conversar com Carlotta.
- Conte-me como tudo isso aconteceu antes da tragédia.
- Era quase onze horas da noite e meu marido ainda não tinha chegado. Ele não atendia meus telefonemas, eu estava desesperada! Não dava nenhum sinal de vida para mim, qualquer mulher enlouqueceria sozinha em casa naquela hora da noite preocupada com o marido. Tomada pelo impulso, corri até a casa de minha irmã, mas ela também não estava. Fui atendida pela própria Carlotta, que já estava usando aquele pijama e a trança já tinha sido feita. Ela me disse que Elizabeth iria chegar muito tarde, mas eu não voltaria para casa e ficaria sozinha lá. Estava exausta, portanto, fui me deitar no antigo quarto que dormia antes de me casar. E... senhor delegado, gostaria de comentar uma coisa que percebi a pouco tempo. Pode ser importante.
- Pois não?
- Sabe, elas não são parentes, mas eu, particularmente, acho Carlotta muito parecida com minha irmã mais velha, Elizabeth.
- Você tem razão. Realmente... Agora que você comentou isso comigo pude ver com meus próprios olhos. Como não pude ter percebido isso?!
- Do que o senhor está...
- Você está liberada, srta Wilkinson! Faça-me o favor de chamar James Black, o jardineiro.
Pouco depois, o homem chegara de forma tranquila e calmamente, como se não devesse e temesse nada. Tinha uma audaciosa expressão estampada no rosto. Utilizava um chapéu de coloração bege, uma camisa desbotada da mesma cor, uma apertada calça e largos sapatos, ambos marrons.
James sorria para o delegado de forma provocante, de modo que chegara a irritá-lo profundamente. Qualquer um se sentiria ridicularizado naquela situação.
- O senhor trabalha a muito tempo na mansão? – perguntava impaciente Phillip.
- Comecei semana passada. O outro jardineiro desapareceu no mundo e fui chamado para substituí-lo. – respondia James, apoiando o cotovelo sobre o braço da poltrona, bocejando preguiçosamente.
- Era íntimo de Carlotta Sanches?
- Não... Para falar a verdade, a gente nem se falava direito. – dizia secamente, recordando-se dos poucos momentos em que estivera com a empregada.
- O que fazia nesta noite, quando o crime tinha acontecido?
— Fiquei cuidando das muitas plantas aqui da mansão até tarde, pois não pude vir de dia por causa de alguns imprevistos que tive.
- Que tipo de... imprevistos? – Phillip erguera uma das duas sobrancelhas, desconfiado. Contos de carochinha não funcionavam com esse delegado.
- Mamãe esteve muito mal nesses últimos dias. Ela tem uma saúde muito fragilizada, coitadinha... – fingia estar prestes a chorar, mas Phillip o ignorava.
- Voltando ao assunto. Escutou o tiro que atingira Carlotta no peito?
- Não escutei nenhum tiro. E estive aqui desde o início da noite. Tive tempo de ver Carlotta viva, quando ela abriu o portão para a dona Victoria.
Os dois ficaram em silêncio por alguns breves minutos.
- Não há mais nada a dizer?
James balançou a cabeça negativamente.
- Liberado. Chame para mim o Dr. Brent.
...
Hector chegou ao cômodo também tranquilo, porém sem ironias como o irritante James. Acomodou-se à poltrona.
- O senhor conhecia a vítima desse cruel assassinato?
- Somente de vista, por ser a empregada que me recebia quando eu visitava aquela que hoje se tornou minha noiva, Elizabeth. Pobre mulher, morreu tão jovem...
- Hum... Compreendo. Pelo que parece, lá na sala ficou claro que você, após trazer a srta Addams de volta, mais tarde voltou à mansão. Poderia me dizer o motivo de ter retornado aqui?
- Ah, claro! Meu carro bateu num poste numa praça aqui perto... No meio do caminho! Tive que voltar andando, por isso demorei. Mas, quando estava prestes a tocar a campainha, reparei que havia um molho de duas chaves próximo ao portão, do lado de dentro, mas consegui apanhá-lo. Por isso entrei sem ninguém me ver. Isso é tudo, senhor Phillip.
...
Teddy Wilkinson fora o último a ser interrogado. Phillip estranhara a desesperada reação de Victoria ao ver o marido chegar à mansão da cunhada naquela hora da noite. Nada mais estava fazendo sentido naquela história, no entanto, o homem começava a juntar as pistas e compreender o que existia por trás do mistério do assassinato de Carlotta obtidas nos depoimentos dos suspeitos.
- Sr. Wilkinson, o que te trouxe aqui a esta hora da noite?
- Minha mulher, preocupada com minha demora, veio pedir ajuda à irmã. Acho que ela já deve ter explicado tudo em relação a essa parte... Assim que cheguei em casa e não a vi, já imaginava em que lugar ela poderia estar. Por isso vim para cá!
- Então o sr e a srta Carlotta não eram íntimos? Digo, próximos um do outro?
- Não, senhor.
...
Após o último depoimento, que fora o de Teddy Wilkinson, Phillip estava prestes a revelar tudo que tinha descoberto sobre o assassino de Carlotta para todos os que se encontravam no interior da grande sala.
- O que aconteceu esta noite foi um assassinato bem planejado, mas tenho quase certeza de que sei como tudo aconteceu.
- Por favor, nos diga! Essa pessoa merece pagar pelo que fez. Ninguém pode sair matando as pessoas assim! – vociferava Elizabeth, como se o ato de matar fosse algo que jamais se quer tivesse passado pela sua cabeça.
- O que ocorreu foi o seguinte: Bom tempo depois de se despedir da patroa, Carlotta abrira o portão para uma outra pessoa. Essa pessoa, como foi revelado em dois depoimentos, era nada mais nada menos que Victoria Wilkinson.
- Mas ela tem as chaves! – protestou Elizabeth, interrompendo a revelação pela segunda vez, sem compreender o rumo que tudo estava sendo levado. O delegado, como sempre, a ignorou.
- Victoria, depois de ficar um tempo aqui na sala, resolveu se deitar em seu antigo quarto, antes de se casar, enquanto Carlotta, por um motivo que jamais saberemos qual, se dirigiu ao assombroso quarto de sua patroa. Nesse meio tempo, o assassino, cuja arma possuía um silenciador, cometera o crime, atirando no peito da vítima, que caiu imediatamente morta. Tudo acontecera de modo silencioso, sem que ninguém ouvisse nenhum barulho. Porém, ao contrário de tudo o que vocês estão pensando, a pessoa que matara Carlotta não estava dentro da casa, mas sim do lado de fora, e bem longe, nos arredores do gigantesco jardim da mansão.
- Isso é loucura! – interrompia James, surtado. – O senhor não está insinuando que...
- Por favor, cale-se, insolente! – gritou o homem. – Você já falou demais por hoje. Deixe-me continuar. O assassino, diferente do que muitos devem pensar, não é o nosso jardineirinho. O assassino teve a ajuda de alguém de dentro de casa. É aí que James entra na história. James copiara secretamente a chave do portão e de uma das entradas da mansão. Não é mesmo, James?
Todos os olhos se voltaram para o homem, que reagia assustado, provavelmente desesperado com a ligeira descoberta de Phillip. Seus olhos, que antes debochavam do delegado, agora demonstravam pavor, terror, medo.
- Gente, por favor, não duvidem de mim! Este homem está louco, completamente louco! Ele fala coisa com coisa, acho que vocês já repararam isso, não?!
- Vamos parar com a palhaçada aqui. Deixem o delegado falar! – reclamava Teddy, aflito para saber imediatamente quem havia matado Carlotta.
- James copiara as chaves e as dera a alguém. Vocês devem estar me perguntando como sei disso, não é mesmo? Pois bem, acho que nenhum de vocês reparou ou sequer se preocupou em saber como Hector Brent adentrou a mansão, ou estou enganado?
Elizabeth e Victoria se entreolharam, arregalando os olhos, se virando ao mesmo tempo para Hector. Ninguém pronunciara absolutamente nada.
- De acordo com o depoimento de Hector Brent, ele encontrara as chaves enquanto estava retornando à mansão por causa de seu carro que tinha batido e quebrado.
Ou seja, antes disso o assassino havia deixado as chaves caírem, do lado de dentro da mansão, porém próximas o suficiente para serem pegas por alguém do lado de fora. Faço mais uma pergunta, retoricamente, a vocês: Essas chaves foram derrubadas antes ou depois do crime acontecer?
O silêncio se aprofundou no cômodo. Ninguém soubera responder a pergunta, ou simplesmente não se atreveram a responder, pois a cada hora o delegado os surpreendia de uma maneira cada vez mais assustadora. Olhos nervosos se encontravam.
- Eu digo a vocês: foi antes! Porém, fora depois da chegada da sra Victoria Wilkinson. A srta Elizabeth e o sr Teddy tinham cópias das chaves, portanto nem repararam nas que estavam próximas ao portão, pois não tinham motivo para isso. Logo em seguida, como eu acabei de comentar, o último a adentrar a mansão, até mesmo depois de mim e dos meus policiais, fora o sr Teddy Wilkinson. – e ficara alguns segundos sem falar. – Ah, uma coisa que quase me esqueci de comentar! No depoimento com a senhorita Victoria Wilkinson, juntos reparamos que existia uma grande semelhança entre Carlotta Sanches e Elizabeth Addams.
- É verdade... Então isso significa que...
- Que Carlotta pode ter sido assassinada por engano. E o assassino não se encontra aqui na sala, pois não é nenhum de nós! Mas ainda se encontra na mansão, pois não poderia escapar sem as chaves e sem o auxílio do cúmplice que também está aqui. Seja lá quem for essa pessoa, é muito perigosa e precisa ser detida antes que possa fazer mais maldades e cometer mais crimes.
Sem os presentes terem tempo para reações de vários os tipos, imediatamente após encerrada a revelação da descoberta do delegado-detetive, alguém adentrava a elegante sala de estar da mansão de Elizabeth, com o revólver em uma das mãos. O revólver que tinha sido utilizado para matar Carlotta, porém, era para ter matado Elizabeth.
- Que delegado inteligente! Nunca vi uma pessoa como o senhor em toda a minha vida. Pena que matei a pessoa errada!
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