A Vida aos Olhos de Seddie
17 Sem Fortes Emoções: Ordem Desobedecida.
Notas iniciais
— Acorda, Sam! É um novo dia! – Sam ouviu a voz de Cat. Ainda não estava acostumada com o timbre, então assustou-se e abriu os olhos rapidamente. Lembrou-se da noite anterior e queria que tivesse sido um pesadelo, mas duvidava da possibilidade. Tinha que se levantar e arranjar um teste de gravidez, mas não estava pronta pra isso, portanto, puxou o cobertor por cima da cabeça e ignorou a garota ruiva.
— Vamos, Sam! Levanta! – Cat abraçou Sam por cima do cobertor e em seguida o puxou de cima dela – MEU DEUS, SAM! – Cat gritou e Sam virou-se para saber o motivo.
— Cat, o que você... – E então percebeu que os lençóis de sua cama estavam tingidos de vermelho – Caralho! – Sam gritou e levantou-se rápido, alegre – Isso! Eu sabia que era um engano!
Sam dançou pelo quarto inteiro.
— Sam... Isso é sangue... – Cat murmurou, chorosa.
— Sim! É o sangue mais lindo que eu já vi! – E olha que Sam já havia visto muitos sangues na vida.
— Por que você está feliz em sangrar? Temos que ir ao médico – Cat passou a mão na testa.
— Não é um sangue qualquer, Cat – Sam agarrou-a pelos ombros – Isso é a minha menstruação.
— Ah – Cat suspirou, aliviada – Mas por que você está tão feliz em estar menstruada?
— Bem, porque... Porque eu gosto de menstruar, por isso – mentiu.
— Nossa! – Cat deu um pulinho – Eu pensei que eu fosse a única.
Provavelmente é mesmo, Sam pensou e fez uma careta.
— Em fim. Isso merece uma comemoração! – Sam riu – Vista-se para sairmos.
Cat foi cantarolando até o closet e Sam foi tomar um banho. No chuveiro, não pôde deixar de notar que aquela menstruação não estava assim, tão normal. O sangue estava mais escuro que o habitual e o fluxo estava forte como nunca antes. Mas era uma menstruação e isso que importava, certo? Sam acreditou que sim e prosseguiu o banho, feliz da vida.
— Está pronta? — perguntou, na porta do closet e ouviu Cat responder sim. Logo ela saiu de lá e as duas estavam na moto de Sam, prontas para ir.
Sam aquiesceu o motor e sentiu uma forte pontada no ventre. Jogou o corpo pra frente e grunhiu.
— Está tudo bem? – Cat perguntou, preocupada.
— Está, sim – suspirou, recuperando-se – É só cólica.
— Eu posso fazer uma massagem para melhorar.
— Não. Não precisa. Vamos logo – Sam abaixou o visor do capacete e, assim, saíram.
Era 1H00 da tarde quando chegaram ao 25 Degrees em Los Angeles. Segundo Cat, o lugar oferecia o melhor Hambúrguer da cidade e, logicamente, era preciso passar pelo teste de qualidade de Samantha Puckett para se ter plena certeza do fato.
— Realmente – Sam concordou, com a boca cheia de molho – Isso aqui é do caralho.
Cat gargalhou e limpou o molho da bochecha de Sam, voltando a comer o próprio lanche.
— Eu te disse.
O ambiente era agradável, a comida estava ótima, mas havia algo errado. Sam franziu o cenho e tentou descobrir o que era. Não precisou pensar demais, seu próprio corpo a avisou o que não estava certo. Abaixou o sanduíche e levantou-se devagar.
— Eu já volto – Disse para Cat e saiu da mesa.
O banheiro estava vazio, então Sam não se importou de gritar. Entrou em uma das cabines e sentou-se na privada. Sua respiração acelerou-se e ela sentiu o cubículo girar a seu redor. Não sabia o que estava pior: seu estômago, seu ventre ou sua cabeça. Ajoelhou-se no chão e pensou no lanche desperdiçado enquanto o regurgitava no vaso. Diferente das outras vezes naquele mês, vomitar não fez Sam sentir-se nem um pouco melhor. Apertou a descarga e abaixou as calças para conferir a origem da dor baixa que estava sentindo. O que viu a deixou ainda mais tonta. Isso não pode ser menstruação. A calça de couro que estava usando ajudou a encobrir a situação, por isso não havia sentido antes a quantidade de sangue que estava perdendo.
Poucas coisas no mundo deixavam Sam assustada. Aquela coisa era uma delas. Sam tentou se segurar nas paredes, mas sua respiração estava acelerada demais, seu corpo suava e sua cabeça latejava. Quando pensou que ia desmoronar de vez no chão daquele banheiro de lanchonete, ouviu a voz que ia se tornando cada vez mais familiar.
— Cat – murmurou. Ao menos sabia se saíra algum som de sua boca, mas chamou de novo – Cat, aqui...
— Sam? – Ouviu Cat perguntar e dar uma leve batida na porta – Você está aí?
Sam conseguiu abrir a tranca da cabine, então viu o cabelo ruivo de Cat e em seguida tudo ficou turvo e ela desmaiou.
***
— 58 chamadas perdidas da minha mãe – Freddie disse, saindo da loja no posto de gasolina e entrando no carro com um copo de café na mão. Mandou um sms para Marisa explicando que fora socorrer um amigo e desculpou-se por não ter avisado.
Já eram 3H00 da manhã. Costela vinha atrás dele, com uma lata de energético e porções de batata frita.
— Cara, você ta mesmo muito fodido – Ele riu e entrou pela porta do motorista – E então? Sabe por onde começar a procurar?
— Não. Sam não tem nenhum conhecido em Los Angeles. Pelo menos não confiável.
— Isso quer dizer que podemos começar pelos becos?
Freddie temia que a resposta fosse sim. Mas ainda tinha esperança que Sam estava em um lugar seguro, quentinho e com boa companhia. Era praticamente impossível em circunstancias realistas, mas milagres acontecem.
— Eu sei o que fazer – Freddie respondeu a pergunta de Costela e pegou o celular.
Se nem ele nem Carly sabiam do paradeiro de Sam, só havia mais uma pessoa no mundo que poderia saber. A cópia idêntica de Sam.
— Alô? – Ouviu a voz no outro lado da linha e estremeceu. Parecia Sam tentando ser meiga.
— Melanie? É o Freddie.
— Freddie! Estava esperando sua ligação.
— É mesmo? – Freddie franziu o cenho – Mas por que? Em fim, não vem ao caso. Eu preciso da sua ajuda.
— É claro que precisa – Melanie riu e Freddie ficou sem entender o por quê — pode falar.
— A Sam sumiu.
— Sim.
— Está em Los Angeles.
— Sim.
— E eu acabo de chegar aqui. Vim atrás dela.
— Demorou demais.
— O que quer dizer?
— Ela foi para a Austrália.
Freddie quase derrubou todo o café no carro de Costela. No outro lado da linha, silêncio.
— É brincadeira! – Melanie gargalhou – Ela está sim em Los Angeles.
Freddie tentou mandar seu estômago de volta para o lugar dele e disse:
— Ótimo. Você sabe exatamente onde?
— Sei sim. Posso te passar o endereço do apartamento.
Apartamento? Freddie se perguntou, mas não queria estender a conversa com Melanie. Quanto mais rápido pegasse o endereço, mas rápido estaria com Sam. Anotou os dados em um pedaço de papel e agradeceu a cunhada.
— Ei, Freddie? – Melanie chamou antes de ele desligar o celular.
— Sim?
— Sam o ama de verdade. Vê se não deixa ela escapar de novo.
— Nunca mais.
Prosseguiram pelas ruas que o GPS mandava até o endereço que Melanie passara.
— Chegamos – Costela avisou e estacionou o carro em frente a um prédio – É aqui.
— Melanie disse que o apartamento fica no térreo – Freddie olhou no relógio. Eram 4H00 da manhã – Vamos esperar amanhecer, ela deve estar dormindo. Enquanto isso podemos...
Olhou para o lado e Costela já estava roncando. Pobrezinho, havia dirigido por 15 horas. Freddie o cobriu com o terno preto e abaixou o banco até estar quase totalmente deitado. Passou para o banco de trás, improvisou um travesseiro com a mala e pegou no sono.
8H00 da manhã. O sol bateu no rosto de Freddie através do vidro escuro do carro e ele bocejou. Levantou-se e seu corpo estava dolorido por ter dormido no carro. Diferente de Sam (que, no asfalto ou num colchão d’água dormia feito um bebe) Freddie tinha essa frescura em particular.
— Costela, acorda – Ele cutucou Costela e este murmurou umas palavras sem sentido e virou-se. – Ótimo.
Decidiu deixá-lo dormindo um pouco mais. Pegou as chaves do carro e escreveu um bilhete, caso Costela acordasse antes de Freddie voltar. Caminhou até a fachada do prédio e nela havia um grande portão de ferro, mas nenhum segurança. O pátio do lugar era uma jardim cujo teto era feito de folhas, dando ao ambiente um aspecto acolhedor e natural, com bancos cuidadosamente instalados embaixo das árvores e por todos os cantos rosas se exibiam. Freddie apanhou uma delas, vermelha, e adentrou o hall, que por acaso era a continuação do jardim pelo qual entrara. Se estava mesmo no endereço certo, se Sam realmente estava morando naquele prédio, Freddie tinha muitas perguntas a fazer sobre como ela arranjara um lugar tão encantador para ficar. Conferiu o número do apartamento no papel. Era a primeira porta á esquerda. Ajeitou a gola da camisa e apertou a campainha.
— Ei – Freddie ouviu alguém chamar e virou-se instintivamente. Um menino baixinho de cabelo cacheado vinha em sua direção – As moradoras não estão.
— Você conhece a Sam?
— Conheço. Sou Dice, amigo dela e da Cat. Mas quem é você?
— Sou Freddie, namorado da Sam. Você sabe onde ela está?
O menino Dice pareceu tentar engolir um porco espinho. Seu rosto ficou vermelho e ele tentou esconder entre os cachos de seu cabelo.
— Cara... Como eu te digo isso? A Sam está no hospital.
— Como? – Freddie segurou a rosa com força e os espinhos perfuraram sua mão, mas ele ao menos reparou o fato. A dor que sentira no peito fora bem pior – Por que?
— Pelo que eu sei, elas saíram para almoçar ontem à tarde e a Sam passou mal na lanchonete. A Cat não entrou em detalhes, mas...
— Onde?
— Cara, se acalma. – Dice tentou tocá-lo no ombro, mas Freddie se afastou.
— Me diz onde.
— Tudo bem. O hospital que ela está fica na Beverly Blvd.
— Obrigado – Freddie respondeu e correu para a saída.
— Costela, acorda – Dessa vez não foi sutil. Bateu forte a porta do carro e sacudiu Costela.
— O que foi?
— Nova missão. Liga o carro. Rápido.
***
Desde quando o sangramento?
Acho que desde manhã cedo. Ela pensou que fosse menstruação.
Sofreu alguma queda? Bebida alcoólica?
Eu não sei...
Temos um problema aqui... não vai resistir...
Sam ouvia vozes ao longe e uma luz branca muito forte martelava seus olhos, mas ela não conseguia manter-se acordada. As vozes vinham como um Flash rápido, nada fazia muito sentido, estava sem o poder do raciocínio.
Alguns séculos depois (para ela pareceu realmente anos), Sam finalmente conseguiu abrir os olhos. O quarto estava silencioso, ela ouviu somente um “pi. pi. pi.” constante e uma televisão ligada ao longe. Olhou para o lado e uma garota ruiva estava distraída no celular.
— Cat? – Tossiu – O que houve?
— Sam! – Cat saltou da poltrona como um ninja e pegou na mão dela – Finalmente!
— Onde estamos? – Sam perguntou, mas ao olhar para os braços e deparar-se com as agulhas e fios, já sabia a resposta.
— No hospital... – Cat acariciou a mão dela.
— Então aquilo não era...
— Não, não era menstruação.
— Me diz logo. O que aconteceu?
— Você cambaleou até o banheiro, então eu pensei em verificar se estava tudo bem e aí, puf, você desmaiou em cima de mim e agora estamos aqui.
— Isso explica tudo mesmo – Sam levantou uma sobrancelha.
— ahn. Eu vou chamar a sua médica e ela vai te explicar melhor – Cat levantou-se e saiu pelo corredor.
— Olá – Uma mulher sorridente bateu na porta e entrou, seguida por Cat, que permaneceu relativamente distante enquanto a médica aproximava-se – Como se sente?
— Um lixo. Só quero saber o que houve, então, se puder dizer logo...
— Samantha – a médica sentou-se na poltrona e apoiou os braços na cama – Você está bem agora, mas a gravidez vai prosseguir muito arriscada...
— Espera. O que disse? Gravidez?
— Sim, Samantha. Você está grávida de dois meses e meio.
Sam não sabia o que pensar. Refletiu sobre o sangramento. Não não não. Não pode estar falando sério.
— Se aquilo não era menstruação — (com certeza não era) — e eu estou grávida, então, como o bebe ainda está vivo? – Sam fez a pergunta á mulher ao seu lado e esta respondeu:
— O bebe sobreviveu por pouco ao sangramento. Daqui em diante você vai ter que se cuidar muito bem. Sem esportes radicais, sem bebida, sem fortes emoções...
— Eu ainda não entendi direito – Sam sentou-se melhor na cama – Você está me dizendo que eu estou grávida? Que tem um ser dentro de mim roubando a minha comida e crescendo ás minhas custas há dois meses?
— Basicamente, sim – A doutora deu um tapinha na perna de Sam e se levantou – Bem, vou deixá-la com a sua amiga. Sem ela você podia ter morrido, sabia?
Cat corou com o comentário e voltou ao posto ao lado de Sam.
— Tcharam! Você vai ser mamãe!
— E por que está dizendo isso com essa cara de felicidade? Isso é péssimo, terrível, é o fim.
— Na verdade é um começo.
— Não vem com essa. Você não sabe nada sobre mim – Sam cruzou os braços e virou o rosto.
— Então me conta – Cat sorriu e suas covinhas instigaram Sam a confiar nela. Alguma coisa naquela garota ruiva estranha amolecia o orgulho de Sam aos poucos.
— Olha, o pai dessa criança me deixou – Sam explicou, com raiva na voz – Ele nem sabe onde eu estou. Ele deve estar em Seattle com uma loira, gostosa e não-grávida nesse momento.
— Na verdade, eu estou bem aqui – Freddie disse, encostado no batente da porta.
"Sem fortes emoções", disse a médica.
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