A Vida aos Olhos de Seddie
8 O Mestre da Patinação
Notas iniciais
Carly fez o que prometeu. Numa tarde de início do inverno, lá estava com Sam, na sala de espera da Doutora Veneza.
— Qual é desses pais que dão nome de lugares pros filhos? – Sam bufa, entediada, enquanto folheia uma revista sobre decoração.
— Eu acho bonito. Eu até chamaria minha filha de Itália, ou meu filho de Moscou.
Sam desvia o olhar da revista e encara Carly de maneira sórdida.
— Não faça isso com meus afilhados.
— Qual é, Sam? Eles vão se achar especiais com nomes diferentes.
— O que eles vão achar é “tantas mães no mundo e eu fui cair logo no útero dessa que acha legal ter nome de lugar”.
— Você acha que eles seriam zoados na escola?
— Claro que não. Antes de ter idade pra ir á escola, eu me certifico de fazer muito bullying com eles.
— Sam!
— Não me agradeça.
— Srta. Puckett?
Uma mulher alta, em jaleco branco e um corte chanel um tanto infantil para a idade, saiu da porta ao lado e chamou, com uma ficha nas mãos e um sorriso acolhedor no rosto. Sam fingiu que não conhecia a Srta Puckett e permaneceu indiferente, até Carly lhe cutucar e levantar-se, apontando:
— Olha ela aqui.
A suposta doutora Veneza sorriu ainda mais e a convidou para entrar.
— Carly... entra comigo?
— Sam! Você já tá grandinha pra isso.
— Você me obrigou a vir. O mínimo que pode fazer é entrar.
E, assim como acontece com razoável freqüência, Carly cedeu ao pedido de Sam e a seguiu para dentro da sala.
A Dra. Veneza fez á Sam perguntas um tanto cabulosas e Carly sentiu-se desconfortável por estar ali. Por um momento, pareceu que estava novamente vendo aquele vídeo que lhes causara transtorno algumas semanas antes e Carly sentia que em seu rosto a expressão era do meme “Mother of God”, mas qualquer esforço de tirar da cara aquele franzido ridículo era em vão.
Tentou parecer indiferente, mas tudo naquela sala era intimidador. De um lado haviam vaginas, de outro haviam bocetas, na sua frente, atrás da médica, o quadro renascentista era de uma mulher nua. Pousou as mãos no colo e, decidida a não deixar levar-se pela cúria, prendeu a atenção nelas e esperou a conversa terminar.
Por fim (e para a sorte de Carly), a Dra. Veneza não convenceu Sam a fazer alguns exames e esta, aborrecida com o pedido, fez com que a pobre doutora perdesse aquele sorriso meigo, mas seus olhos continuavam brilhando de satisfação. Era necessário algum tempo para adquirir a confiança de Sam e um diploma de medicina não a compraria facilmente. Percebendo esse fato sobre sua nova paciente, doutora Veneza marcou uma segunda consulta para o ano seguinte e despediu-se das garotas. Lá estava aquele sorriso encantador de volta.
— Podemos marcar uma consulta para você também, Carly! – a doutora acenou da porta.
Nem fodendo. Como você sabe meu nome?
Carly soltou um sorriso falso e acenou de volta.
Já fora do prédio, sentiu-se melhor ao deparar-se com o frio do inverno. O que foi aquilo? Carly nunca imaginou que a função dos ginecologistas fosse essa, fazer aquelas perguntas. O que ela diria caso as perguntas fossem dirigidas à ela? Não notou que Sam a estava chamando.
— Hã, o que foi?
— O que deu em você? Não tava interessada no que a médica falou?
— Na verdade, não...
— Mas por que?
Bem que Carly gostaria de saber a resposta. Avistou uma lanchonete á frente e percebeu que estava com fome, o que significa que Sam já devia estar enxergando um bacon ambulante ao invés de sua amiga Carly. Então sugeriu que parassem para comer e Sam logo esqueceu-se da pergunta que ficara sem resposta.
***
Freddie jogava o lançamento de Star Wars com Spencer quando Sam e Carly chegaram. A neve acumulada em seus casacos caiu quando estes foram jogados no chão, atraindo a atenção de Spencer.
— Ai meu Deus! Tá nevando?!
— Não – Sam senta-se no colo de Freddie – A gente entrou num frigorífico pra roubar carne.
— Sam – Carly fecha a porta de entrada – Isso é algo que você faria.
— Tem razão.
— Aí gente, ta nevando! Vocês sabem o que isso significa...
Os quatro balançaram a cabeça, com um sorriso maliciosamente comum nos rostos.
Guerra de neve sempre fora o lazer preferido de Carly, Sam e Freddie (e Spencer, é claro) desde quando eles se lembravam. Há vários invernos, comemoravam a aproximação do Natal no parque em frente ao prédio, formando anjos na neve e competindo sobre qual a maior bola de neve construída ou o boneco de neve mais resistente quando Sam atacava-os com ponta pés.
— Quero ver você destruir esse aqui, Sam – Spencer desafiou, ajeitando a cintura do seu boneco – O nome dele é Tomy e ele é o boneco mais resistente que você já viu.
— Veremos, Spencer – Sam respondeu, esticando-se na neve preguiçosamente para levantar-se – Poxa, ele parece tão bom para apoiar uma Samantha cansada... – Ela diz e joga-se com todo o peso do corpo sobre o boneco recém esculpido, o qual junta-se com a neve do chão.
— Sam! Eu não tinha terminado o Tomy!
— O Tomy tomou no cu – Freddie gargalha da própria piada tediosa – ein? Entenderam? Tomy... Tomou...
— Amor – Sam levanta-se do chão forrado de neve – Cala a boca.
— E aí, pessoal!
Os quatro perguntam-se o que tem na maleta que Gibby carrega, mas ninguém se manifesta para perguntar em voz alta.
— Eu subi e não tinha ninguém no apartamento, então achei que podia encontrá-los aqui.
— É, você nos achou – diz Carly.
— Então, eu vim convidá-los pra competição de patinação no gelo.
— E quem vai patinar?
— Eu, é claro.
— Parece que alguém aqui tem piadas mais engraçadas que as do Freddie – Sam escarnece.
— É mesmo? – Gibby endireita-se – Se acha que é uma piada, venha assistir o Mestre Gibby da patinação no gelo.
Ele não precisou dizer de novo e os quatro já estavam o acompanhando até o salão. E como não poderiam? Faltava uma semana para o Natal e queriam estar presentes na noite em que Gibby arrumaria um braço quebrado para passar as festas com estilo.
***
Ao adentrarem o salão, uma maré de gente cumprimentou Gibby de maneira empolgante, diriam até respeitosa, coisa que, tratando-se de Gibby, era surreal. Não pararam os cumprimentos e tapinhas nos ombros dele até chegarem á pista congelada, onde outros competidores estavam se preparando. Estes logo notaram a presença de Gibby e cutucavam uns aos outros. Alguns sorriam ao vê-lo, enquanto outros mostravam estar sentindo nele algum tipo de ameaça (seja lá que ameaça um Gibby é capaz de transmitir). Um dos garotos ali levantou-se, aproximando-se dele ironicamente.
— Gibson – Ele cuspiu o nome com nojo. O nariz franzido deformava as sardas em suas bochechas, conseqüência do cabelo ruivo.
— Baker – Gibby respondeu, parecendo confiante diante do rapaz.
— Esse ano eu acabo com você. – Baker responde secamente.
— Eu duvido muito.
A cada frase, Sam notava os dois aproximando-se e sabia bem o que aquilo significava, então colocou-se no meio.
— Por que vocês não param de discutir feito criancinhas e vão logo, hã... Patinar feito homens?
— Ela tem razão – Baker afasta-se – Melhor se preparar para o segundo lugar, “Gibby”.
Quando o garoto já estava distante, Carly quebrou o silêncio entre eles.
— O que ele estava dizendo sobre segundo lugar, Gibby?
— Há cinco anos eu ganho as competições anuais nessa pista – Gibby explica, enquanto amarra os cadarços dos patins de gelo – Baker era o campeão antes de mim e agora ele faz de tudo pra conseguir o primeiro lugar de novo.
— Campeão de patinação no gelo, Gibby?! – Carly anima-se – Por que nunca nos contou?
— Mas eu chamo vocês todo ano! É que ás vezes vocês não prestam atenção no que eu digo.
Sam tentou-se a corrigir o “ás vezes” por “nunca”, mas Carly leu sua mente e a beliscou.
— Bem, agora nós sabemos. Então vai lá e faz aquele bocó reconhecer que aquele prêmio é seu. Aliás, qual o prêmio?
— Normalmente é em dinheiro, mas disseram que esse ano vai ser diferente.
Um apito soou ao longe, anunciando o inicio da competição.
— Vou indo nessa. Torçam por mim.
— Vai lá Gibby! – Carly aplaudiu e cutucou Sam.
— É...Vai lá! – Ela acompanhou.
Sentaram-se na arquibancada com um balde de pipoca e esperaram a vez de Gibby. Após algumas eliminações ele apareceu triunfante com sua roupa de patinação. Os movimentos dele eram incríveis, tão leves que nem pareciam pertencer àquele corpo. Agora sabiam o porquê o primeiro lugar era de Gibby há cinco anos e ele merecia isso. Mas, quando Baker entrou, também souberam o porquê o primeiro lugar pertenceu à ele antes de Gibby tomá-lo.
— Sai fedô! – Sam gritou da arquibancada – Seu bosta! Seu ruim!
A cada pirueta perfeita de Baker, Sam gritava mais alto.
— Cai logo de cara no gelo! – Agora ela já estava de pé na cadeira.
— Sam! Senta aí!- Carly puxou-a para baixo e teve de segura-la enquanto Baker apresentava sua performance.
Ao final das eliminações, restaram três competidores no meio da pista, esperando pelo resultado: Gibby, Baker e uma garota graciosa.
— Em terceiro lugar... – O locutor anunciou — Kisha Evans!
A garota fez uma mesura para os jurados, depois para a platéia e tomou seu lugar no pódio, tendo uma medalha de bronze pendurada no pescoço.
— Em primeiro lugar... – O locutor prosseguiu – Depois de cinco anos consecutivos... – Mas nem ao menos terminou o anúncio e Baker jogou-se para cima de Gibby.
— De novo não! O ouro é meu! Você não vai mais roubá-lo de mim! – Baker gritava enquanto chacoalhava Gibby pelo pescoço.
De onde estavam na arquibancada até a pista, considerando o tanto de gente no caminho, o percurso demoraria aproximadamente dez minutos, mas pelas circunstâncias, Sam alcançou a pista em 15 segundos (passando por cima de todos os bancos ou pessoas) e demorou ainda menos tempo para alcançar a cara de Baker. O primeiro soco o atingiu de lado e foi o suficiente para tira-lo de cima de Gibby. O segundo soco o deixou desacordado e Sam não agredia pessoas desmaiadas, portanto levantou-se e bateu as mãos, como que tirando os germes de Baker delas.
— Tá tudo bem, cara?
— Acho que sim — Gibby responde, puxando o ar.
O locutor pigarreia no microfone e uma equipe medica retira o corpo de Baker do gelo. Ninguém pareceu ter dado muita atenção ao garoto desmaiado.
— Dando procedência – Ele diz – o primeiro lugar, depois de cinco anos consecutivos, vai para... Gibson!
Com gritos de vitória, Gibby recebe sua medalha dourada e se põe no degrau mais alto do pódio, com uma garota do seu lado esquerdo e um vazio do lado direito. O locutor justifica a ausência no lugar vazio e em seguida o premio.
— O prêmio especial do campeão desse ano, Gibson, são 6 passagens para New York, mais estadia por toda a semana de Natal!
E, com essa informação, tão rápido quanto Sam havia chegado até a pista, lá estavam Carly, Freddie e Spencer comemorando o prêmio coletivo.
— Espera aí – Freddie pausou o abraço em grupo – Você vai levar a gente, né?
— Freddie, Freddie... – Gibby diz sério – Você acha que eu tenho outros cinco amigos?
— Mas nós somos quatro. Pra quem vai a passagem que sobra?
— Isso nós decidimos depois. O que importa? Nós vamos passar o Natal em NY!
Continuaram se abraçando, até serem expulsos da pista de gelo.
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