Chegamos em casa ainda rindo e mamãe estava almoçando, pela cara que aparentava teríamos uma notícia ruim.

- Oi meus amores — mamãe disse vindo nos abraçar — como foi a aula?

- Mãe, você não acredita com quem eu estou estudando. — Pedro disse entusiasmado.

- Quem, meu filho?

- O Marcos — mamãe o olhou com cara de interrogação — Marcos Silva, mãe. O filho do Carlos.

- O Marcos que não saia de casa? — Pedro assentiu. — Meu Deus a quanto tempo eu não vejo aquele menino. Como ele está?

- Bem e Juliana e eu já fomos convidados para a festa que terá na casa dele sábado.

- Que bom e você Juliana?

- Eu conheci duas meninas da minha sala, uma é irmã do Arthur que anda com o Marcos e o Diego, lembra? O Diego que uma vez ligou pra mim — mamãe assentiu — e as duas andam com eles todos, ou seja, molengo, você gostando ou não, seremos do mesmo grupo de amigos agora — falei animada dando pulinhos pela cozinha.

- Mas e você, mãe? — Pedro disse — Chegamos e a senhora estava com uma cara tão ruim, aconteceu alguma coisa?

Nesse momento, mamãe começou a chorar, Pedro e eu ficamos confusos e quando ela conseguiu acalmar-se foi direto ao ponto.

- O pai de vocês — soluçou — ele, ele... — enxugou as lágrimas — ele morreu, meus amores.

Assim que ouvi aquilo, senti uma pontada em meu coração. Meu pai, senhor Alberto Mendes havia morrido? Ele morreu sem o meu perdão? O perdão que ele tanto desejava? Quer dizer que ele morreu e eu nem se quer pude me despedir? Tudo bem, ele fez uma coisa horrível comigo e com nossa família. Ele a destruiu, mas ele era o meu PAI, o meu rei, o meu guardião, uma das pessoas que eu tinha certeza que me amava e que eu, amava descontroladamente. Agora ele havia morrido, estava no céu, estava com os anjos. Mas ele morreu sem o perdão que ele tanto sonhava em ter. O meu perdão. Mas não, eu fui fútil, hipócrita e orgulhosa demais, a ponto de não perdoar uma das pessoas que eu mais AMAVA nesse mundo. Naquele momento, eu só sentia ódio de mim, ódio por ser quem eu era. Ódio por querer perdoar meu pai, mas estar "magoada demais" pra fazer isso. Eu era uma criança, eu era infantil, eu era um lixo.

2 anos antes.

Hoje enfim é o meu aniversário de 14 anos, a idade que eu tanto sonho em ter. Por que? Porque eu estaria entrando na adolescência, eu não era mais criança. Papai estava viajando, mas prometera me ligar e me desejar os parabéns. Estava magoada. Afinal, papai viajava muito e Lara, minha amiga me disse que seu pai viajava muito também, mas não era pra negócios e sim, por traição. Meu pai não seria capaz de trair minha mãe... ou seria? Não lógico que não.

Mas eu estava enganada, na noite do meu aniversário, na minha festa ainda, papai chegou bêbado e com uma mulher loira em casa.

- Quem é ela pai?

- Ela, ela É MINHA AMANTE — papai gritava e falava totalmente enrolado.

Mamãe chorava.

- E essa vagabunda que você chama de mãe, Juliana, é uma chifruda, C-H-I-F-R-U-D-A. E essa loira aqui, outra vagabunda, é a sua madrasta, sabe porquê?

- Não. — eu chorava muito.

- Porque, ela esta grávida e eu irei largar da sua mãe, pra ficar com ela.

Aquele dia, que era pra ser um dos melhores de minha vida, estava sendo o pior, Pedro chorava comigo em meu quarto, enquanto mamãe ligava para a vovó, que já estava chegando em casa. A festa havia sido cancelada, todos os meus amigos foram embora. Mas dois dias depois o meu pai, veio me pedir perdão, que era pra eu entender o lado dele, aquela mulher com quem ele estava era pobre e ele tinha que sustentar o filho que iria vir ao mundo, cujo, não tinha culpa das burradas de meu pai. Mas eu não havia entendido, disse na cara dura que não iria perdoa-lo. E hoje, bom, hoje era tarde demais pra querer perdoa-lo e dizer o quanto eu o amava.

- Filha, minha linda, pare de chorar. Seu pai está num bom lugar agora — mamãe dizia tentando me acalmar.

- CALMA? CALMA? VOCÊ ESTÁ PEDINDO PRA EU TER CALMA? O MEU PAI MORREU MÃE, MORREU. E FOI EMBORA SEM O MEU PERDÃO, O PERDÃO QUE ELE TANTO QUERIA.

- Eu sei meu bem — mamãe chorava comigo — mas temos que ser forte, ajudar a mãe do seu irmãozinho que só tem 2 anos, afinal ela é realmente pobre e precisava de seu pai.

- Tá vendo, mãe? Ele me falou a verdade a 2 anos atras e eu não acreditei, E HOJE ELE MORREU COM CULPA, MESMO NÃO SENDO CULPADO. O homem que eu mais amava nesse mundo morreu e em partes a culpa foi minha. — eu chorava desesperada, não queria e não iria entender nada que mamãe dissesse. Aquele era um momento meu, só era eu e minha tristeza e remorso, nada mais.