A Vida De Uma Garota Estranha
15 Novo Inimigo
Notas iniciais
Depois que eu atirei em Robert percebi a besteira que tinha feito. Por incrível que pareça, eu torci como nunca para ele não ter morrido.
Bia e Kadu me encararam, também surpresos. Eu andei até Robert e cutuquei ele: morto.
– Vamos sair daqui – eu disse.
Ouvi passos vindos do corredor e a maçaneta da porta girou, abrindo-a. Aproveitamos isso e saímos correndo. Infelizmente, foi Leo que abriu a porta.
Eu estava já no fim do corredor quando um tiro passou zunindo no meu ombro. Senti a quentura do sangue escorrendo quando me virei.
Leo me encarava, e sua raiva era visível. Beirava o ódio. Eu não entendia por que ele tinha ficado tão bravo comigo, já que odiava Robert. Mas uma coisa ficou clara para mim: ele não estava seguindo ordens, estava contra mim DE VERDADE. Ele estava apontando outro revólver para mim.
– O que você está fazendo? — eu perguntei – Está bravo comigo por que eu matei Robert?
– Não – ele respondeu – Mas você não vai sair daqui depois do que fez comigo.
– Só por causa daquilo? Me desculpe – eu disse – Só estava confusa, você tinha dito coisas muito cruéis.
– Não, você só provou que é minha inimiga.
– Não Leo, não sou sua inimiga porque quero! Você que começou com isso!
– Eu?! Você destruiu minha família! Eu... odeio...você!
Eu novamente tive uma onda de raiva misturada a tristeza. Levantei a minha arma e atirei em Leo. Ele foi pego de surpresa e nem teve como se defender, sendo atingido na barriga.
“Eu tenho que pensar mais antes de agir” foi a única coisa que pensei, antes de correr até ele.
Leo estava realmente mal agora. O machucado no ombro ainda estava sangrando e agora também havia um na barriga. Eu apertei a barriga dele, fazendo-o gemer.
– Leo me perdoa – eu disse, chorando – Eu não queria...
– N-não foi n-nada – ele disse, com dificuldade – Você tem que ir embora.
– Não sem você – eu disse – Eu não vou te abandonar.
– Se você me levar vai morrer – ele gemeu – Eu sou o novo líder da Dead Secret, já que você matou o anterior.
– M-mas você é o filho mais novo, como pode ser o líder?
– Eu sou o filho homem, Milena não pode assumir porque é uma garota – ele explicou, resolvendo minhas dúvidas – Vai embora logo.
– … — eu não sabia o que dizer – T-tudo bem, mas eu vou voltar.
– Duda – eu me virei – Desculpe, eu não te odeio.
– Nem eu. Eu... eu te amo.
Eu fui embora sem esperar resposta. Sabia que Leo não ia ser capaz de retribuir aquilo. Eu não tinha coragem para esperar para saber se ele sentia o mesmo.
Eu infelizmente me perdi naquele lugar. Cada curva que eu fazia parecia me levar ao mesmo lugar, mas o meu desespero não permitia que eu pensasse muito naquilo. Todos já estavam em alerta, e por vezes eu via soldados atrás de mim.
Eu me dei por vencida ao chegar em um beco sem saída. Caí de joelhos, sem acreditar no meu azar. Eu provavelmente ia ser executada, mas não havia outra saída.
A escuridão me tomou quando eu desmaiei.
***
Acordei em um lugar macio e branco. Será que era o Paraíso? Essa minha ideia ficou mais forte ao eu ver Leo do meu lado.
Ele estava sentado em uma cadeira, aparentemente dura, dormindo. Espera aí, em uma cadeira dura? E parecia bastante cadeira de hospital...
Eu sacudi ele e Leo acordou assustado. Ele me olhou e sorriu um pouco:
– Você acordou – ele disse – Graças a Deus.
– Onde estou?
– No hospital mais próximo – ele disse – Consegui tirar você daquele lugar antes de te executarem.
Ele se levantou e eu percebi que ele estava sem camisa. Eu suspirei com tudo aquilo e ele percebeu, me encarando:
– O que foi?
– E-eu... me lembro que disse que amava você – comecei – Mas você não respondeu.
– E-eu não sei o que dizer – ele gaguejou – Agora, é uma hora meio complicada para se decidir essas coisas...
Eu ia responder quando Kadu entrou quase arrancando a porta das dobradiças e empurrando Leo para trás. Bia também entrou e me abraçou.
– Duda Duda, você tá viva! — ela chorava no meu ombro, de alegria eu espero...
– E vocês? Como estão?
– Bem — Kadu respondeu. Pela primeira vez em dias, ele estava sorrindo — Você escapou por um triz. Mas... — ele se virou para Leo — Acho que tenho que agradecer você por isso.
– Não foi nada. Eu só fiz meu papel de... amigo.
Eu abaixei os olhos. Então tínhamos regredido as estágio de amigos? E minha vida estava ficando cada vez mais feliz né?
– Eu tenho que ir — Leo me tirou dos meus devaneios pré-depressivos colocando a mão no meu ombro — Desculpe, mas agora somos inimigos.
Parece que o próprio Deus conspira contra mim. Primeiro eu me envolvo nisso tudo, depois sou sequestrada e ferida mortalmente várias vezes e agora o garoto que eu amo é meu inimigo. Que coisa demais da conta sô!
– T-tudo bem... — eu gaguejei — Eu sei que você vai ter pena de mim e pegar leve agora.
– A sua certeza é tanta assim? — ele perguntou, sorrindo — Pois a minha é quase nula.
Eu arregalei os olhos: — Então está lutando para me... derrotar?
– Quem sabe — ele andou até a porta — Saiba que eu tenho um plano — e saiu, me deixando com uma baita Poker Face.
Por experiência própria eu podia saber que aquele "plano" do Leo era uma furada. Aliás, todos os planos dele são uma furada... Mas, eu esperava que o plano dele não contasse com me destruir ou coisa assim.
– Nossa... Que misterioso — Bia riu — E então? O que você vai fazer?
– Sobre o quê?
– Sobre um cara doido que acabou de declarar claramente guerra à você — Kadu disse — E eu estou falando do Leo.
– Pensei que fossem amigos! — eu disse — Ele me salvou!
– Sim, e eu agradeci. Em nenhum ponto eu disse que ele é meu amigo.
Então passamos o resto da tarde assim, eu e meus amigos, discutindo e rindo, como se o mundo lá fora não pudesse acabar a qualquer instante.
***
Uma boa notícia: o mundo não acabou naquela noite. Uma má notícia: por incrível que pareça, não há más notícias.
Eu tive alta do hospital algumas horas depois e me surpreendi com um carro esportivo vermelho me esperando do lado de fora. À não ser que meus avós tenham ganhado na loteria eu estava sendo esperada por desconhecidos.
Um homem vestindo calça jeans e camiseta saiu de dentro do carro. Ele aparentava 22/23 anos e sorriu para mim:
– Você deve ser Eduarda Black — ele disse, apertando minha mão.
– É, sou eu. E quem é você?
– Jason Bianco — ah, então ele era italiano.
– E pra quê esse carro?
– Eu vim levar você e seus amigos para a... sua casa.
– Ah, tudo bem — eu ia voltar para a casa dos meus avós. Grande coisa, se levasse em conta que eu ia fugir na mesma noite.
Mesmo assim, eu estava louca de vontade de ver Bruna e os meus avós. A saudade apertou no meu coração e eu entrei no carro assim que pude.
O banco de couro era um pouco duro, e depois de ficar horas deitada em uma cama macia eu estranhei um pouco. Mas a velocidade e aerodinamicidade do carro compensaram tudo.
Eu via arbustos e campos passarem como riscos difusos ao meu redor, e aos poucos saímos da cidade.
– Não estamos indo para a casa dos seus avós — Bia disse.
– Ah, que óbvio — eu ironizei — Para onde estamos indo Jason?
– Qual é sua segunda casa?
– A escola — Kadu riu de mim quando eu disse isso.
– Não né? — ele se virou, me encarando com seus olhos castanhos — Você já vai descobrir, nós estamos quase chegando.
Eu me levantei para me ajeitar melhor no banco e o carro freiou, me fazendo socar o nariz no encosto do banco. Aquilo devia ser meu karma...
– Chegamos — Jason disse — Seja bem-vinda, senhorita Black.
Eu dei de ombros e saí do carro, meu nariz ainda doendo. Aonde quer que eu estivesse, era bom haver gelo.
Então eu tomei a maior surpresa de todas: tinha muita gente (muita mesmo) me esperando. E quando eles começaram a comemorar, eu me lembrei automaticamente do dia que cheguei na base da Dead Secret.
Mas dessa vez havia uma diferença: eles não queriam me capturar, e sim cuidar de mim.
Eu estava na base da Red Vingance.
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