A Vida De Uma Garota Estranha
6 Despedida
Notas iniciais
Andamos mais alguns minutos até que chegamos na casa da Bia. Eu não tinha a mínima ideia se estava sendo seguida ou coisa assim, só sabia que tinha que andar.
Quando chegamos na casa, eu vi o Kadu no jardim. Oh droga, eu esqueci totalmente ele. Como pude?
Eu pulei a mureta que separava a calçada do jardim e o abracei. Ele se surpreendeu mas aos poucos retribuiu o abraço.
- Duda! Caramba, eu tava super preocupado! Cadê a Bia?
A Bia vinha logo atrás. Ela estava em estado lastimável. A maior parte de sua roupa tinha se sujado de barro e folhas no caminho que pegamos mata fechada e acho melhor nem falar do cabelo...
Ela passou por mim e pelo Kadu e entrou em casa. Eu pude ouvir os gritos da mãe dela:
- Bia! Meu Deus, que bom que chegou! Sabia que você andar com aquela garota não ia dar certo!
Pô, eu salvei a filha dela e ele ainda me chama de má influência? Não creio...
- Onde te levaram? — o Kadu perguntou, me tirando de meus pensamentos.
Eu contei toda a história resumidamente para ele. No fim, eu não consegui definir se ele me olhava com admiração ou com medo.
- Sociedade é? Que daora... você pode encomendar a morte da qualquer um! — é, o Kadu sentia admiração.
- Isso não seria legal! Eu vou acabar com isso de assassinos e sequestradores, não é uma fama que eu queira ter.
- Mas é a que você tem... — Leo apareceu atrás do Kadu. Aquele garoto era esquisito...
- É que quem é você? — Kadu se virou e fitou Leo.
- Ele é um amigo que também foi sequestrado! — eu disse. Leo abriu a boca para falar mas eu pisei no pé dele.
Instantes depois, a Bia saiu pela porta. Ela estava carregando uma bolsa simples e andou até nós.
- E então, vamos?
- Como assim "Vamos?"? Você decidiu ir? — eu perguntei.
- Bem, acho que você tinha razão. Se eu ficar aqui, vou fazer falta alguma hora, e isso vai comprometer a missão de vocês e então uma bomba vai matar 7 bilhões de pessoas.
Já disse que a Bia é dramática? Então, ela é.
- Bem, já que você diz... — dei de ombros.
- Eu também vou! — Kadu gritou — Preciso proteger vocês, já que são sucetíveis a ataques!
Até parece que foi ele que escapou de uma mansão cheia de inimigos...
- Eu acho que também vou, já que agora sou visto como um traidor... — Leo deu de ombros — e também não tenho para onde ir.
Eu assenti e sorri para eles.
- Então somos uma equipe! Mas, antes de ir, acho que também preciso me despedir de certas pessoas.
- Se despedir de quem? — a Bia perguntou.
- Dos meus avós.
Bia e Kadu me olharam como se eu fosse louca. E eu parecia. Meus avós não deviam estar nem ligando se eu não tinha voltado para casa, deviam estar até felizes... mas eu sabia que era meu dever dar notícias.
Minha equipe (yeah, é gostoso falar assim) concordou e andamos até a minha antiga casa em silêncio. Acho que aqueles foram os vinte minutos mais constrangedores da minha vida.
Quando cheguei lá, bati na porta de leve. Ouvi Bruna miando impaciente e arranhando a porta. Até que alguém a espantou e abriu a porta. Era minha vó.
- Duda? — ela parecia duvidar que era eu ali, batendo em sua porta — Você não morreu?
- Por que eu morreria? Não, eu ainda tenho muito para viver...
Eu entrei e peguei Bruna no colo. Meu vô estava sentado, mas levantou os olhos quando eu cheguei.
- Por que demorou tanto para voltar para casa? — ele perguntou.
- Anh, melhor você se sentar vó...
Eu contei a história devagar, fazendo o possível para que eles entendessem.
No fim da narrativa, eles se levantaram e andaram até o armário. Por favor, vão tomar chá agora? Hello, tem uma garota líder de uma sociedade super foda aqui, querem prestar atenção nela?
- Bem, finalmente isso aconteceu — minha vó disse. OMG, ela sabia de tudo?!
- Você sabia? — perguntei — Sabiam de toda essa história?
- Sim — disse meu avô, pegando alguma coisa no armário — Esse é o motivo de todas as regras, afinal você seria um alvo fácil se vivesse como uma garota normal.
Agora tudo parecia tão óbvio. Eu fui uma tonta, julgando meus avós errado. Fiquei a vida inteira alimentando uma raiva sem sentido, enquanto eles apenas faziam aquilo por amor a mim.
Meu avó me entregou um maço de cartas amareladas.
- Escute minha querida — minha avó começou — isso foi mandado a nós pela sua mãe. Ela explica muitos detalhes que você ainda não sabe, então as leia com carinho. São importantes.
Eu as olhei. Estavam amareladas e fediam a mofo, mas deviam ser importantes para serem guardadas por tanto tempo.
Eu abaxei os olhos ao perceber que estava quase chorando. Eu nunca fui boa com despedidas, além de odiar coisas dramáticas.
- C-certo, eu vou ler.
Eu dei as costas para eles e subi as escadas devagar, deixando as lágrimas caírem. Entrei no meu quarto e fechei a porta.
Fitei as paredes cheias de postêres e fotos das minhas amigas e eu. Sorri para aquilo.
Peguei uma mochila velha e coloquei as cartas, os planos de guerra e as fotos que eu consegui tirar da parede sem rasgar dentro dela.
Ao meu lado, Bruna miou frustrada.
- Desculpe Bruna, mas você não cabe na bolsa.
Eu a peguei no colo novamente e acariciei suas orelhas. Beijei sua testa e a coloquei na cama.
- Sinto se fui uma dona ruim, mas não sou muito boa para cuidar das coisas...
Abri o armário e peguei algumas calças jeans e duas camisetas, além da minha única jaqueta de couro.
Olhei para o quarto uma última vez enquanto fechava a bolsa. Fechei a porta e desci a escada.
Meus avós me esperavam na sala. Eu os abracei.
- Sinto muito por não ter entendido vocês... mas agora está claro. Me desculpem.
- Não foi nada — minha avó também estava chorando — Vá com Deus e acabe com essa briga de família que dura há anos.
Eu assenti e saí para o jardim. Meus amigos me esperavam lá.
- Seus avós estão ok? — Bia perguntou.
- Estão. Vamos logo...
Começamos a andar. Mesmo sem ter a menor ideia de aonde ir, eu sabia o que tinha que fazer: acabar com aquela guerra. Pelos meus avós, pelos meus pais, pelos meus amigos... por mim.
Porque eu não suportaria dizer adeus para sempre.
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