A Vida Da Miss Invisible
5 Ai a minha sorte...
Notas iniciais
Assim que toca o sinal para entrar esqueço-me de mim própria. Esqueço a tristeza, a dor, a solidão, a saudade, todas as minhas preocupações pessoais. Foco-me no que importa agora. As aulas.
Corro pelos corredores cheios de alunos que andam de um lado para o outro em busca da sua sala, que riem e conversam animadamente com os amigos. A minha mente pára um pouco para pensar como é triste eu ser assim, sem amigos, mas logo a palavra “nerd” me vem em pensamento. “Se eles acham que é assim que sou, ou que sou mais perfeita assim, não posso desapontá-los!” penso enquanto pego na alça da mochila para esta não cair a meio da correria, “Todos me vêem como ‘a nerd’ e é isso mesmo que tenho que continuar a ser... uma perfeita, nerd!”.
Ao chegar à sala de aula sento-me na fila da frente mas o fato de me sentir melhor em espaços abertos atrai-me para a cadeira perto da janela. Sento-me e fico ali à espera que todos entrem enquanto apenas observo o movimento lá em baixo através da janela.
Eu tenho saudades do Leo. Saudades da infância, de viver sem preocupações, de ter amigos, sorrisos verdadeiros, saudades das pessoas que falavam comigo de modo divertido, não aquelas que me olham nos olhos e falam mal de mim! Parece que por mais que me esforce nunca consigo ser perfeita aos olhos dos outros, ou pelo menos normal... Parece que por mais que me esforce não consigo ser aceita.
Assim que o professor entra na sala de aula endireito-me na cadeira, dou o meu melhor sorriso (falso) ao que ele retribui o gesto e começo a tomar atenção na matéria.
***
A aula passa depressa. Mesmo com uns idiotas quaisquer a atirarem constantemente pedaços de papel húmidos de saliva. Bleeeeeec! Ai a minha sorte... Mas toca, volta a tocar, toca novamente, e outra vez, mais uma e uma última vez e eu permaneço sempre naquele lugar enquanto observo alunos e professores a entrar e a sair da sala de aula à medida que as horas passam.
Na verdade hoje quase não prestei atenção nas aulas. Os meus pensamentos pareciam um novelo de lã completamente desorganizado e enrolado em que as únicas pontas que se pareciam soltar uma vez ou outra eram a visão da minha irmã doente, o ocorrido hoje de manhã e... algo que sem querer se repetia vezes sem conta na minha mente. Uma professora chegou a notar a minha cara preocupada e confusa e perguntou se eu estava bem, se queria sair para apanhar ar ou ir à enfermaria. Eu disse sempre não.
Deixei todos irem embora. Foram os alunos, foram os professores e eu deixei-me ficar ali, sentada no chão frio sem ter certeza da minha vida e das minhas escolhas. Será que isolar-me foi a melhor resposta aos meus problemas? Levanto-me já dorida de passar o dia inteiro na mesma posição e dirijo-me aos portões da escola. Quando os estava quase a alcançar ouço uma voz atrás de mim:
– Demoraste imenso Mendes! Mais um pouco e desistia de esperar por ti!
Reconheceria esta voz irritante em qualquer lado! Irritante, sarcástica, sombria, convencida...esta morena de olhos verdes conseguiu fazer-me odiá-la com apenas uma frase. E isto não foi pelo que aconteceu hoje de manhã. Este ódio já vem de à alguns anos.
Viro-me e fico a olhar para ela e as outras duas sombras da morena com uma cara inocente e feliz, que, tenho de admitir, foi a coisa mais falsa que fiz hoje. A minha vontade é ignorá-las e sair daqui a correr, mas não. Tenho que fingir ser a nerd boazinha que se importa com os pensamentos até das pessoas que odeia! Mas digamos que bem no fundo sou assim mesmo...
– Mas parece que hoje não tiveste sorte – diz com um sorriso sarcástico.
Suspiro pesadamente. “Parece que até ela percebeu, mas não sei se alguma vez tive sorte.” penso enquanto as gémeas/sombras Strak me empurram contra o muro, fazendo com que eu ficasse encurralada pelas três.
As gémeas Stark (Maya e Evelyn Stark) são as típicas alunas inglesas que mudam de país. Pele clara, cabelos castanhos escuros, embora Maya os traga lisos e curtos e Evelyn longos e ondulados, uns lindos olhos escuros azulados e corpos típicos de patinadoras artísticas (pelo menos fazem algo que não seja ser a líder da claque [N/A: torcida] da escola). Elas são bonitas e boas alunas, com uma quantidade enorme de admiradores secretos, são chamadas pelos professores e pelo próprio director para participar em numerosas actividades como representantes da escola, mas elas negam a tudo isto para dar àquela... coisa! São sombras quando podiam ser estrelas!
– Já sabes o que te espera não é? – pergunta a “coisa” numa pose convencida.
Eu não respondo nada. Não sei o que dizer, não sei o que fazer, não sei o que pensar. Se ficar irei receber O castigo (perceberam o “O” né?), se fugir será pior ainda pois irei sofrer o dobro, se lhe respondo ela dá-me uma chapada (N/A: tapa), se me calo ela grita comigo e adivinhem! Recebo a chapada na mesma.
– Responde sua fingida filha de uma... – ela diz levantando a mão e batendo-me na cara com tanta força que viro o rosto para o lado.
– Sim... – murmuro com a mão na bochecha sem olhar para a garota À minha frente.
– Sim, o que? – pergunta só para me humilhar. – Diz tudo. Quero que digas como deve de ser.
– Sei sim... – faço uma vénia forçada e exagerada, com um sorriso amarelo — ... menina Tali Sousa.
– Acho bem que sim – grita já indo embora com as gémeas Stark atrás enquanto riam escandalosamente – Quero-te em minha casa às 21h00min! Sem faltas e sem atrasos! Já sabes o que tens que fazer e... – vira-se de novo já ao portão — ... não te esqueças do visual! HAHAHA!!!
E vai embora a rir alto depois de entrar dentro do seu BMW onde o motorista esperava pelas três.
“Idiota, idiota, idiota! Aquela Sousa idiota é a pior pessoa do mundo! Mas eu mereço... tudo isto são apenas consequências do passado e eu mereço, mereço, mereço... mereço...? Será que mereço mesmo?” penso correndo desesperada até casa enquanto lágrimas me escorrem pelos olhos, mas ao fazer esta última pergunta abrando e fico a olhar para o nada, “Será que mereço mesmo viver assim...? Não sofri já o suficiente...?” penso inconscientemente mas abano a cabeça negativamente, “Sim, eu mereço. A culpa foi minha!” e depois deste momento de confusão interna, felizmente (ou não), chego a casa.
***
Umas horas depois já tinha recebido dois telefonemas. Um deles era da minha avó, que avisava que a Gabi ia dormir em casa dela para eu não me preocupar com a pequena doente e para a Olga descansar um pouco. O outro telefonema era da minha mãe. Teve uma emergência no trabalho e só vai poder voltar no próximo fim-de-semana (uma semana fora, tendo em conta que hoje é sexta).
“Pelo menos não terei problemas em sair de casa...” penso ao desligar a chamada da minha mãe depois de falar com ela. Mas eu sei que não era isso que eu queria. Eu queria ser proibida de sair de casa, que a minha mãe soubesse que não estou bem ou, no pior dos casos, ter que ficar em casa por causa da Gabi. Infelizmente nada disto aconteceu e quinze minutos antes da hora decidida pela Sousa eu já estava emocionalmente preparada para o que viria a seguir.
É todos os anos a mesma coisa e eu continuo sem entender como é que ela pode rir da desgraça e da humilhação dos outros (e com isto refiro-me a mim)!
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