A Vida Como Ela É
4 Capítulo 4
Notas iniciais
— Então sua casa fica para esse rumo também? — Dei um pulo de susto quando desci do trem e vi Matsumoto rindo da minha cara.
— Você não deveria assustar as pessoas assim — Falei respirando fundo. Como eu vi que ela ainda estava sorrindo, respondi a sua pergunta. — Moro.
— Então não tem problema né? Se formos juntas?
— Porque teria?
— Por nada não — Disse caminhando ao meu lado. Andamos por um bom pedaço até chegarmos em uma rua bifurcada. — Eu moro pra esse lado.
— Eu desse — Falei apontando para a esquerda. — Se cuida.
— Nos vemos amanha? — Perguntou.
— Claro — Respondi balançando a mão enquanto andava. Matsumoto é legal, na real, ela foi a única que me apresentou a escola devidamente. Minha casa ficava a uma estação de trem e 2 quarteirões da escola. Na verdade não era muito longe, pelo menos não quando você esta acostumada a pegar metro e andar em NY. Cheguei na frente de casa, soltei um suspiro de decepção só de pensar em subir 3 lances de escadas para poder finalmente entrar em casa. — Isso é um saco.
Finalmente terminei de subir e respirei fundo, quando olhei para frente havia algumas pessoas lá. Fiquei um pouco confusa, mas depois entendi que era os alunos da casa, passei por eles rapidamente, atravessei o corredor e entrei em casa.
— Cheguei !!
— Charlie seu avô e seu pai estão lhe esperando para começar o seu treinamento — Reconheci a voz da Vovó vindo da cozinha.
— Certo eu vou me trocar! — Entrei no meu quarto, larguei minhas coisas no chão e comecei a trocar de roupa. Vesti um Short preto de malhar,regata branca e botei o kimono, amarrei o cabelo em um rabo de cavalo e sai.
— Charlie — Disse papai surpreso quando saiu de uma sala. — Você fica legal de kimono, essa aqui que é a sua sala, a sala dos iniciantes.
— Humm, valeu. Não faz junto comigo? — Ele deu mostrou um sorriso feliz.
— Bem eu sou mais velho e sei algumas coisas — Apontou para uma sala mais a frente — Vou ficar naquela de lá, se precisar de algo fale com o seu avô. — Me deu um beijo na cabeça e me empurrou para a minha sala.
Quando entrei vi os outros alunos que tinham quase a minha idade me encarando e senti meu rosto ficar vermelho. Caminhei sem jeito para perto deles, foi então que vi um rosto familiar entre eles.
— Matsumoto? — Perguntei quando eu vi uma garota que se parecia muito com ela, se bem que todo japonês se parece, segurei um riso com esse meu pensamento.
— Hã? — Então a garota se virou pra mim e me deu um sorriso. — Ah Tanaka-san.
— Poderia ter me dito que estudava aqui.
— Queria fazer uma surpresinha.
— Se alonguem bem — Disse meu avô interrompendo, ele estava sentado no chão observando.
Não demorou muito e a aula começou, ele ensinou alguns movimentos básicos para gente, vi que Matsumoto não sabia nada como eu e fiquei até feliz por saber disso. Mas finalmente quando terminou a aula eu estava exausta. Sentei no chão ao lado de Matsumoto e encostei minha cabeça na parede.
— Isso cansa muito — Falei respirei fundo, ela acenou com a cabeça.
— Tanaka — Disse meu avô, vindo em minha direção. — Fez uma amiga?
— Estudamos juntas — Disse Matsumoto antes de mim.
— Ótimo, fico feliz que tenha feito amizade — Disse, então estendeu as mãos pra nos levantarmos. — Acompanhe Matsumoto até em casa então.
— OK — Falei quase morrendo. Ele deu um sorriso como se tivesse se divertindo com a minha cara. Formos até o vestiário, esperei ela trocar de roupa e saímos logo em seguida. Caminhamos em silencio até chegar à frente da sua casa. A casa dela era quase normal, se não fosse o telhado com pontas, era de uma cor verde clara, havia uma pequena cerca de madeira na frente.
— Quer entrar? — Perguntou já na frente da porta.
— Não, deixa para próxima. Tá ficando tarde — Respondi, na verdade eu estava era morrendo de fome e cansaço.
— Certo, até amanha então — Disse dando um xauzinho com a mão e entrando em casa.
No meio do caminho eu estava quase me arrastando. Vamos logo acabar com isso, pensei e comecei a correr.
— Só acho que se eu tiver que fazer isso todos os dias, vou acabar ficando um palito de dente — Falei pra mim mesma enquanto corria. Subi as escadas correndo, quase cai, mas cheguei em casa. — Cheguei!
— Vem jantar querida — Mamãe chamou. Tirei os sapatos e fui ate a cozinha, a comida estava com um cheiro ótimo, peguei um prato e me servi, comi que nem uma draga. — Nossa que fome — Então ela olhou para o papai, que estava comendo no mesmo ritmo que o meu — Bem, acho que vamos ter que aumentar o estoque de comida por um tempo.
Papai e eu caímos na risada. Ajudei a limpar a louça e fui tomar um banho, entrei na banheira com água morna e relaxei. Fui direto pro quarto, vesti minha roupa de dormir, fiz a minha cama e deitei. Acordei com minha mãe me cutucando pra ir para escola.
— Humm — Gemi, então fui me espreguiçar, oh maldita hora foi essa, senti uma guinada de dor na mesma hora. — Ai Deus. — Me forcei a levantar, entrei no banheiro se arrastando e tomei banho, depois com muita luta me arrumei e tomei café.
— Você tá com uma cara péssima — Disse Papai me encarando, olhei para ele que estava no mesmo estado lamentável.
— Acho que o senhor não tem o direito de dizer isso — falei colocando a cabeça na mesa. Ele deu um riso e colocou a cabeça na mesa também. Vovô morreu de rir da gente quando viu a nossa cara, serviram o nosso café e sai para escola.
— To acabada — Falei quando cheguei perto do ponto onde Matsumoto se separava de mim. Quando olhei para o lado, a vi encostada na parede com os olhos fechados, parecia que ela estava dormindo. — Pelo visto não sou só eu.
— Hum, que? — Disse tomando um susto e despertando. — Bom dia Tanaka-san.
— Bom dia.
Andamos para a escola em silencio e quando chegamos nos largamos na cadeira.
— Parece que um trator rolo compressor passou por cima de mim — De fato cada parte do meu corpo doía muito. Matsumoto levantou o polegar pra mim confirmando. Não havia aula no clube de Kendô hoje, então Matsumoto me arrastou para o centro da cidade, para ser mais exata, ela me levou para uma restaurante que no fundo era um enorme fliperama.
— Então, você quer comer o que? — Perguntou com a cara no cardápio.
— Nós podemos mesmo comer aqui?
— Sim, afinal nós vamos apenas comer então ... — Ela olhou para mim e vi que eu estava encarando as maquinas de jogos — Ahh, você diz a respeito de lá de trás? Não tem nenhum problema não.
— Humm — Olhei para o cardápio na mesa e tentei escolher algo, só que eu não conhecia nada ali. — O que você vai pedir?
— Acho que um Kakifurai — Disse apontando para a figura do cardápio.
— Oh, parece bom — Falei olhando a foto. — Peça um porção para nos duas.
— Certo — Ela acenou para a garçonete.
— O quê gostariam de pedir — Disse a garçonete tirando a caderneta do bolso e nos dando um sorriso simpático.
— Queremos uma porção grande de Kakifurai, por favor.
— Ok — Disse a garçonete anotando em um papel e logo saindo.
Não demorou muito e o nosso prato chegou, a comida parecia mais gostosa do que no cardápio, ao meu ver se parecia com frango grelhado ou algo do tipo. Matsumoto pegou um e comeu.
— Gostoso — Disse fechando os olhos e fazendo uma cara muito fofa. — Coma, coma.
— Deixa eu provar — Peguei um pedaço e coloquei na boca, na hora que eu mordi senti uma coisa gosmenta e muito ruim sair. — Mas que droga é essa!?
— Tanaka engula — Ordenou. Olhei para ela como se ela tivesse doida, estendi a mão para o guardanapo e ela puxou de mim. — Engula.
Eu não iria engolir aquela droga ali nem que ... Tentei puxar o guardanapo dela, mas foi inútil.
— É pecado desperdiçar comida, então engula!
Botei a mão na boca quando senti que meu almoço estava querendo sair, olhei em volta em busca de um banheiro e no desespero achei um no canto da sala de jogos, levantei-me com tudo e corri. Abri a porta e fui direto pro vaso, cuspir aquilo nele e dei a descarga, coloquei água na boca e fiz gargarejo tentando tirar aquele gosto ruim.
— Matsumoto!!!! — Falei entre os dentes. Lavei as mãos e sai do banheiro, atravessei o fliperama calmamente e entrei no restaurante no modo cara de pau, porque muitos ali provavelmente me viram correndo que nem louca, e me sentei na cadeira. Matsumoto já tinha comido a metade da comida. — Que diabo de comida é essa afinal?
Ela pegou uma faca e partiu no meio, vi um negocio gosmento sair de dentro.
— Isso é ostra a milanesa — Disse ela naturalmente, engoli em seco. Ostra hein. — Nunca comeu ostra antes?
— Já comi sim, só que não entra, só de pensar essa coisa gosmenta na minha boca, Huugg — Cutuquei a comida e senti um arrepio percorrendo meu corpo. — Não, obrigada. Não sabe de algo que eu possa gostar?
— Gosta de que tipo de comida? Porco,peixe,frango? — Disse mastigando.
— Eu gosto de porco.
— Então acho que o Tonkatsu você vai gostar — Disse apontando para a foto do cardápio.
Pedimos novamente e depois de alguns minutos a garçonete veio com o prato. Era bem bonito ele, mas como o outro também era bonito, resolvi não confiar muito. Peguei um pedaço e olhei para Matsumoto, ela me deu um aceno com a cabeça, como se tivesse dizendo vai em frente. Coloquei na boca e mordi.
— Gostoso — Falei quando senti o gosto.
— Eu disse que iria gostar desse — Disse pegando um pouco do meu. Depois disso jogamos um pouco, tomamos sorvete e fomos para o Dojo para mais um dia de aula.
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