Acordei de manhã com um leve sorriso no rosto. Não sei por quê, mas sempre ficava feliz com o primeiro dia de aula. Era um novo ano, e as pessoas podiam me ver de um jeito diferente. Mas isso nunca deu certo: até o quinto ano eu era "a garota muda", no sexto eu passei para "a garota nerd" e no sétimo, eu fui "A nerd muda que só lê livros", com "A" maiúsculo. Não posso nem imaginar o desse ano.

Meu nome é Jane. Gosto muito de ler, minhas matérias favoritas são ciências e matemática, não tenho amigos e gosto de escrever. Bom, já deve dar para imaginar por quê eu ganho aqueles apelidos indiscretos.

Sempre gostei de ler, tanto que uma vez até fiz um trabalho para a aula de informática que tinha tema livre, e escolhi livros. Quando terminei de apresentar, todos perguntaram quem me obrigava a ler. Eu respondi que gostava de verdade, tanto que sou eu quem peço livros para meus pais: de aniversário, natal, páscoa (não gosto de ganhar chocolate na páscoa)... e assim vai. Sempre que uma oportunidade de presente aparecia, a minha primeira opção era: livros.

Eu simplesmente amo matemática e ciências. Para mim, são as melhores matérias de todos os tempos. Porém, todas as outras pessoas no mundo INTEIRO acham o contrário: "matemática e ciências são chatos, o que eu gosto mesmo é de festas e dormir tarde!"

Não tenho amigos. É, nenhum verdadeiro. Servem apenas como faixada. Para ter uma ideia, as únicas festas que eu fui este ano foram a minha e a do meu pai, e as únicas pessoas que compareceram pertenciam à minha família. Eu não sofro muito com esse meu probleminha social, mas de vez em quando fico um pouco deprimida por não ter ninguém para conversar. Por isso fico levemente feliz no primeiro dia de aula: um novo ano, uma nova vida.

Pelo menos essa é a expectativa.

Além de tudo, gosto de escrever. Não para as pessoas, mas para mim mesma. Tenho absoluta certeza de que ninguém iria gostar de meus trabalhos, até porque nem sei mais se quero ser uma escritora. Ultimamente ando muito alegre, e por incrível que pareça, isso não é bom. Dizem que as melhores inspirações aparecem nos momentos de tristeza, raiva ou até depressão. Levantei de minha cama e fui ver minha mãe, já acordada:

— Bom dia, mãe!

— Bom dia, filha. O que quer para o café da manhã?

— Não quero nada, muito obrigada. Preciso me arrumar para a escola!

Saí correndo em direção ao meu quarto e coloquei o uniforme. Era apenas uma camisa polo branca com o símbolo do colégio e uma calça azul escura (para meninos e meninas) ou saia azul e preta xadrez (para meninas). Existiem três jeitos diferentes de usar esse uniforme:

1- "O jeito dos normais": As meninas usam a camiseta e a saia um pouco acima da cintura, com uma sapatilha preta (geralmente), e os meninos usam a calça e a blusa normalmente com um tênis preto.

2- "O jeito dos populares": As meninas usam a camiseta super apertada e com três botões desabotoados. Elas dobram suas saias para ficarem mais curtas, e usam sapatos de salto alto. Já os garotos, nunca usam o uniforme. Sempre usam bonés e bermudas.

3- "O jeito Da nerd muda que lê livros": É o meu jeito de usar uniforme: o jeito correto. Sempre, no começo de cada ano, os professores nos passam instruções de como vestir civilizadamente nossos uniformes, mas parece que eu sou a única pessoa no mundo que segue essas regras. Camisa polo completamente abotoada, saia não muito acima dos joelhos e uma sapatilha confortável. Bom, me vesti do "jeito 3" e fui para a escola. "É, né... seja o que Deus quiser!", pensei.

Chegando lá, vi minha sala de aula: oitavo B. Ótimo, que seja. Fui direto à quadra, já que não tinha nada para fazer. Pensei até em pegar o meu livro para ler, mas me esqueci de colocá-lo na mochila. Além disso, ainda estava muito cedo, e não havia ninguém para conversar, nem mesmo os meus "amigos de faixada". Bom, agora tudo o que me restava era ficar observando as pessoas normais andando pela quadra e fazendo coisas que normalmente pessoas normais fazem, como conversar. Puxa, que divertido. Ironicamente, é claro.

Duas meninas pulavam corda, enquanto dois professores conversavam sobre como as aulas eram curtas, e que deveriam aumentar o tempo para período integral. Dois garotos vestidos do "jeito 2" conversam sobre alguma coisa que não entendi, muito provavelmente sobre como a escola era idiota. Duas pombas estavam sendo expulsas da quadra por uma dupla de inseparáveis amigos seguranças. E uma garota (no caso eu) observava o que todas as duplas faziam e se perguntava: "Por que só eu estou sem uma dupla?"

Porém, no meio dos dois garotos do "jeito 2", apareceu uma excessão: UM garoto, sem outro de seu lado, apenas ele! Não era uma dupla! Mas o mais estranho:

Ele estava vestido do "jeito 3", MEU jeito. Na verdade ele não estava vestido necessariamente do meu jeito, era diferente. Me deu a ideia de generalizar o jeito 3:

3- "O jeito dos excluídos": Usávamos o uniforme conforme os coordenadores mandavam, civilizadamente. Acho que já dá para imaginar por que somos os excluídos.

"Esquece, Jane. Ele deve ser só um aluno novo que se vestiu com a ajuda da mãe", pensei.

Bom, o garoto do "jeito 3" chegou na dupla dos garotos do "jeito 2" e começou a falar alguma coisa. Ele tagarelava muito rápido, e falava muito, sem nem parar para respirar. Não sei o que ele disse, mas um dos garotos populares ficava mais frustrado e desconfortável à medida que ele falava. No final, os garotos começaram a brigar com ele, gritando coisas que eu não me orgulharia de repetir aqui. De verdade, não sei o que ele disse para merecer isso.

O sinal tocou e todos fomos para as salas de aula. Sentei na fileira do fundo (que era minha preferida), mas sabia que aqueles lugares eram provisórios.

Para variar, ninguém se sentou ao meu lado. Tudo bem, já estava acostumada, o problema era quem havia se sentado na minha frente: Brian Carsten. Ele era, ninguém mais, ninguém menos, do que o cara mais BURRO que eu já havia conhecido em toda a minha vida. Ele achava que era inteligente, só porque seu nome era Brian, e se trocassem as letras "a" e "i" de lugar, virava "Brain", que é "cérebro" em inglês.

O pior é que ele queria se exibir, só porque EU era inteligente. Ficava querendo fazer competições de "quem era mais inteligente" toda hora, e sempre estava confiante de que iria ganhar. Claro, isso não poderia ser considerado um problema se ele fosse um POUCO inteligente, o mínimo que fosse, mas era impossível. Eu SEMPRE ganhava de 1.000.000.000 à 0 dele, e no final o Brian ficava triste.

Mas eu não gostava disso, por mais gratificante que fosse ganhar alguma coisa. Eu meio que... gostava dele. Pronto, falei!

— Oi!

— Oi, Brian.

— E aí, menina inteligente? As férias foram boas?

— Sim, tudo normal. E as suas?

— Foi maneiro! Eu viajei para a Europa!

— Legal. Que lugar da Europa?

Brian hesitou alguns segundos, e depois finalmente disse:

— Hãã... Canadá?

Fiquei boquiaberta. Canadá na Europa? "Em que planeta você vive, Brian?!", tive vontade de perguntar. Ele não sabia nem meu nome, me chamava de "menina inteligente".

— Tem certeza que foi no Canadá?

— Sim, tenho. Por quê?

— Canadá na Europa? Isso não existe.

— Tem razão, deve ter sido na Austrália.

— Desisto... — sussurrei para mim mesma.

Por incrível que pareça, o garoto do "jeito 3" estava na mesma sala de aula que a minha. Ele chegou e se sentou ao meu lado, provavelmente porque estávamos vestidos do mesmo jeito. Não sabia seu nome, já que provavelmente era novo na escola. Eu estava muito curiosa sobre isso, mas resolvi esperar até que a professora pedisse para ele se apresentar para o resto da turma.

Uma professora entrou na sala: a de história. A única professora que nunca pedia para os alunos se apresentarem. Não aguentei a curiosidade, então quando o sinal bateu anunciando o fim da primeira aula, aproveitei meu intervalo para perguntar:

— Oi, qual é o seu nome?

Ele apenas olhou para mim, com uma expressão que meu deu até medo. Depois se levantou e foi sentar em outro lugar. Não gosto nada desse tipo de comportamento grosseiro e rude, então apenas o ignorei durante as aulas de inglês e português.

Passei o intervalo inteiro sozinha, como de costume, só observando todas as pessoas se divertindo. Ou pelo menos, quase todas.

O garoto provavelmente novo arrogante estava lá, sentado, sozinho. Já era de se esperar que uma pessoa como ele ficasse sozinha no intervalo, na escola, no trabalho, na família, no mundo, na vida, mas enfim, todos temos amigos e pessoas com quem nos relacionamos, ainda por cima no primeiro dia de aula em uma escola nova. No meu primeiro dia em Cleverland, fiz mais ou menos sete amigos. Porém, não consegui mantê-los como melhores amigos, pois se relacionaram com outras pessoas e me deixaram para trás.

Bom, enfim. Lá estava ele, sentado, imóvel. Sei que EU não seria a pessoa mais indicada para virar uma amiga dele, devido ao nosso "histórico ruim", mas queria encontrar algum jeito de ajudá-lo. "Será que ele é mesmo tão malvado assim? Ele poderia estar apenas um pouco envergonhado...", pensei.

Estava quase considerando a ideia de tentar conversar com ele de novo, quando ouvi o sinal que anunciava o término do intervalo.

Eu sempre era a primeira a chegar na sala de aula depois do recreio, mas dessa vez uma certa pessoa arrogante havia chegado antes. Não sei por que, mas ele havia mudado de lugar DE NOVO: sentou-se ao lado de Brian.

Andei silenciosamente até meu lugar, quando o senhor indelicadeza em pessoa falou:

— Olá.

— Oi — disse, depois de hesitar por alguns segundos.

— Me desculpe pela minha arrogância. Não deveria ter te ignorado.

— Tudo bem. Agora vai responder minha pergunta?

Tudo ficou em silêncio durante mais ou menos cinco segundos.

— Talvez depois.

Dessa vez, EU me mudei de lugar. Não acredito! Primeiro me ignorou, e agora isso? Minha expressão era de uma pessoa completamente irritada e frustrada. Achei que ele iria se desculpar ou ficar mal com isso, mas ele apenas ficou me olhando com um sorriso sarcástico.

— O que foi?! — perguntei.

Outra vez, ele apenas me ignorou. Continuou olhando para mim, continuou com o sorriso sarcástico. Quando acabei de fazer a pergunta, ele deu uma RISADA sarcástica. Resolvi o problema apenas ignorando aquele novato irritante.

A poróxima aula foi a de álgebra. Achava que o professor apenas se apresentaria, mas ele fez uma revisão da matéria do ano passado. Não lembrava de absolutamente nada, como dizem, as férias causam aminésia, mas tentei fazer. Depois de um tempo, o professor disse:

— Quem gostaria de resolver na lousa?

Silêncio absoluto.

— Ninguém? Bom, então eu acho que vou ter que escolher alguém. Hum... Amy.

Amy estava pálida como um papel e tremendo muito. Sem contar que, naturalmente, ela já era a pessoa mais tímida daquela galáxia. Arrastou- se até a frente da sala, pegou o giz e começou a resolver. Sua escrita era vagarosa e indecisa, como se ela estivesse tentado escrever em chinês. Depois de muito esforço, Amy finalmente largou o giz e voltou para seu lugar.

— Desculpe Amy, você errou. Alguém sabe concertar o erro?

Dois segundos depois, o garoto misterioso levantou a mão. Foi até a lousa e, com traços rápidos e decididos, reescreveu a expressão algébrica perfeitamente correta.

— Muito bem. Mas pode me dizer onde aprendeu isso?

Como assim?! Naquele momento, a classe inteira ficou com "cara de ponto de interrogação", como dizia o professor de geografia.

— Caros alunos — disse o professor -, vocês ainda não aprenderam isso. Era só um teste, e eu aceitaria duas respostas: 1- a conta certa ou 2- "nós ainda não aprendemos isso". Agora pode nos dizer como conseguiu fazer?

— Bom... — começou o novato. Não sei se estava ficando paranoica, mas jurava que ele estava olhando para mim — tenho meus contatos.

Quando ele acabou de falar isso, quase explodi de raiva. Não sabia absolutamente nada sobre ele, e isso me deixava frustrada! Não sabia sua idade, onde ele estudava, não sabia nem ao menos seu nome! Pessoas muito misteriosas me deixavam irritada, por isso não fui com a cara dele.

Nos últimos vinte e cinco minutos de aula, tive que ficar aturando o professor elogiar o garoto, sem parar. Como já deve ter imaginado, é muito legal ficar ouvindo o professor da sua matéria favorita elogiando o novato mais insuportável da face da Terra.

A próxima aula foi de geografia. Nunca fui excelente nessa matéria (e nunca gostei muito dela, também), mas eu havia prometido para mim mesma que me esforçaria muito para garantir notas boas e ficar orgulhosa, no final.

— Bom dia, turma! — disse o professor.

— Bom dia... — disse a classe, com menos animação do que um bando de zumbis.

— Eu sei que esse é o primeiro dia de aula de vocês, mas eu fui obrigado a fazer isso. Vocês vão ter que fazer um trabalho.

Nesse momento, todos suspiraram.

— Sim, muito divertido. Será apenas uma pesquisa prévia para vocês já terem uma ideia da matéria deste ano. Porém, este trabalho será ainda mais legal: vocês vão fazê-lo em grupos.

Cinco segundos depois, praticamente todos os grupos já estavam formados.

— Mas sou EU quem vai escolher os grupos. E vai ter outra coisa: vocês não vão poder usar internet.

— O QUÊ?! — todas as almas vivas daquela classe gritaram.

— Fiquem tranquilos, existem bibliotecas.

Todos entraram em pânico. Então ele começou a escolher os grupos: Mark com Bette e Lilly, Jack com Brian e Sarah, Amy com Carly e Joseph... E no final, chegou para mim e disse as seguintes palavras:

— Jane, que tal fazer dupla com o aluno novo? Você é inteligente, se ele não for vai poder ajudá-lo. E além disso, vocês estão vestidos da mesma maneira.

— Professor. Eu vou arrancar as suas entranhas se você me obrigar a fazer o primeiro trabalho do ano com aquele idiota.

Na verdade, não disse isso. Apenas imaginei. As minhas verdadeiras palavras, ou melhor, minha verdadeira palavra foi:

— Claro.

Logo após disso, fui até a mesa de meu novo "parceiro".

— Ei, o professor me mandou fazer o trabalho com você. Qual é o seu nome? Me responde. Agora.

— Me encontre na biblioteca no fim da aula. Pode ficar até que horas na escola?

— Qualquer hora.

— Ótimo. Você vai almoçar comigo. Até logo.

— Quem disse que eu quero almoçar com você?

— Parece que seu interesse não é apenas pelo meu nome.

O QUÊ? QUEM ELE PENSA QUE É PARA FALAR QUE EU ESTOU INTERESSADA NELE??!!

— Você é um convencido! Não vou almoçar com você coisa nenhuma!

— Isso é o que veremos.

— Professor, posso mudar de dupla?

— Não Jane — disse o professor -, você mesma disse que queria fazer dupla com ele.

— Não foi exatamente o que eu falei? — disse o novato, rindo.

— Não é nada disso, eu só concordei, mas me arrependi. Que seja! Te encontro na biblioteca.

Virei-me e andei em direção à minha mesa.

— Infelizmente — sussurei para mim mesma.

— Eu ouvi isso — disse o novato.

O sinal bateu e guardei meu material. Enquanto colocava os últimos cadernos em minha mochila, uma pessoa falou comigo:

— Oi, menina inteligente!

— Oi, Brian! Olha, o meu nome é Jane. Já disse isso umas quinhentas vezes.

— Jane? Ok. Então, você pode me ajudar com o trabalho?

— Não sou do seu grupo, mas posso até te ajudar.

— Legal, então quando você me entrega o trabalho?

— O quê? Brian, não vou fazer seu trabalho. Existem livros na biblioteca, posso até te dar o nome de alguns, mas isso vai ser o máximo que eu vou fazer.

— Bom, tudo bem. Eu vejo com o Mark se ele aceita por vinte pratas. Obrigado, mesmo assim.

— Hã... de nada. Então, novato, vamos?

— Vamos.

Pegamos nossas coisas e fomos até a biblioteca. Chegando lá, procuramos alguns livros sobre o tema do trabalho, mas no final só encontramos dois. Inconformada, disse:

— Acho que não vai dar para fazer o trabalho desse jeito. Com dois livros apenas, temos muito pouco conteúdo!

— Concordo. Você está com seu iPad aqui?

— Sim. Espera, como você sabia que eu tinha um iPad?

— Não importa. O professor disse que não poderíamos usar internet para fazer o trabalho. Porém, ele não disse nada sobre usá-la indiretamente para pesquisar nomes de livros.

— Legal, boa observação. Agora pode me dizer seu nome?

— Meu nome é Peter. Peter Mason.

— Nossa, finalmente!

Então seu nome era Peter. Uau, nunca fiquei tão aliviada em saber o nome de alguém! Peguei meu iPad e dei para ele, mas só depois lembrei que tinha uma senha. Era "Brane", a junção de Brian e Jane.

— Ah, preciso colocar a...

Não acreditei quando vi. Peguei meu iPad, e ele estava desbloqueado.

— ... senha. VOCÊ JÁ COLOCOU A SENHA?!

— XXXXIU! — todos da biblioteca disseram.

— Você já colocou a senha? Como?! Por acaso você é hacker?

— Claro que não! Isso é óbvio: você é uma garota.

— Não me diga! Eu já sabia disso há anos e mesmo assim, pra mim não está nada óbvio.

— Continuando… Garotas gostam de garotos, e gostam de juntar seus nomes com os deles. Por isso escrevi "Brane", que é a junção do seu nome com "Brian".

— Mas como você descobriu que...

— Você gostava do Brian? Simples, você fica vermelha quando fala com ele. É a única que não fica vermelha de raiva, então é lógico que você gosta dele. Sem falar no jeito como você olha para ele, até parece que suas pupilas vão explodir de tão dilatadas.

— Pupilas di…

— Sim, quando uma pessoa gosta de outra suas pupilas se dilatam. Nunca ouviu falar disso?

— Bom...

— Não importa, vamos fazer o trabalho. Veja só! Já são duas horas da tarde. Está com fome?

— Na verdade, eu...

— Seus olhos dizem que sim. Vamos.

— Será que eu posso terminar uma frase?!

Peter se acalmou depois disse:

— Claro, desculpe.

— Vamos pesquisar mais um pouco? Você pode ver os nomes dos livros. Depois eu os procuro. Pode ser?

— Sim.

Peter pegou meu iPad e começou a pesquisar. Uau, como ele havia feito isso?! Foi incrível! Não sei, mas parece que eu já vi isso em algum lugar…

— Então… Peter.

— Então, Jane.

— Já entendi a sua.

— A… minha?

— Então quer dizer que você… é tipo um Sherlock Holmes?

— Quem é esse?

— É… vocês são iguaizinhos. Mas… não conhece mesmo Sherlock Holmes?

— Não.

— Bom, então vou te contar a história. Ele é um detetive muito bom. Sabe muitas coisas sobre a vida das pessoas pelo simples ato de observá-las. Ele também não sabe nada de literatura, nem de astronomia, tanto que não sabia nem o sistema solar.

— É um livro? Claro que sim, você acabou de falar sobre literatura. Lerei tudo até amanhã e conversaremos sobre esse tal de… Holmes.

— Tudo? Impossível. São quatro romances e sessenta contos.

— Eu leio rápido.

— Se você diz…

Passaram-se vinte minutos. Peter pesquisava, eu procurava. Já eram quase duas horas e meia da tarde, quando eu finalmente disse:

— Não aguento mais. Sinceramente, não sei como você consegue ficar quase sete horas sem comer e não apresentar sinais alguns de fome. Desisto!

— Na verdade, oito horas. Não como nada desde o café da manhã, que foi por volta das cinco. Mas tudo bem, vamos. A propósito, sei controlar minha linguagem corporal, obrigado por reparar.

Pegamos nossas mochilas e fomos até o restaurante do outro lado da rua. Nos sentamos perto da varanda, onde estava calor, por isso prendi meus cabelos em um longo rabo de cavalo. Logo depois, um garçom apareceu e perguntou:

— O que o belo casal vai querer?

— Ah, nós não… — disse.

— Vamos querer duas latas de Guaraná. — Peter interrompeu — Quer gelo, querida?

— Sim, mas…

— As duas bem geladas. Ah, e o cardápio, por favor.

Eu estava com "cara de ponto de interrogação", literalmente. Era como se, na minha testa, estivesse escrito "?!". Peter percebeu minha expressão e disse, sorridente:

— O que foi?

— O QUE FOI?! VOCÊ FALA QUE NÓS SOMOS UM CASAL E DEPOIS SÓ PERGUNTA O QUE FOI?!! VOCÊ É LOUCO, CARA!!! EU ESTOU TERMINANDO COM VOCÊ!!!

Fiquei com muita vontade de falar isso. Mas, no final, disse "apenas":

— EU é que te pergunto: o que deu em você?! O que você tem na cabeça?! O que você acabou de fazer?!

— Resposta da primeira pergunta do questionário: — nesse momento, virei os olhos — apenas fingi que nós éramos um casal, se você não percebeu. Segunda: eu tenho um cérebro. Terceira: eu acabei de conseguir um desconto. De nada.

É verdade! Casais ganhavam desconto de 5%! Não era muito, mas já era um desconto!

— Uau, que raciocínio rápido! Obrigada!

— Aqui está: — disse o garçom — duas latas de Guaraná bem geladas e os cardápios.

Dois minutos depois, já havia me decidido. Então, falei:

— Eu quero um número 5, por favor. E você, querido?

— O mesmo.

— Owm, somos tão parecidos! — disse, ironicamente.

— Quem diria, minha florzinha!

— Meu lindinho!

— Minha princesinha!

Pausa de alguns segundos. Com cara de idiotas, para ficar mais convincente.

— Acho que o garçom já foi!

Rimos muito. Muito mesmo. Rimos tanto que, quando o garçom chegou com nossos pratos, ainda não conseguíamos conter o riso! Por um instante acho que o garçom desconfiou que estávamos curtindo com a cara dele, mas depois ficou mais tranquilo, provavelmente achando que a piada foi boa.

— Então — disse Peter -, eu queria te pedir uma coisa.

— O quê?

— Eu não achei que fosse preciso um pedido formal, mas pode ter alguma chance de você não entender.

— Repito: o quê?

— Bom… você quer ser a minha amiga?

— Hã… claro! Não tenho amigos, então não sei bem como é ter um amigo. Mas se você quiser…

— Ótimo! Você é inteligente, certo?

— Acho que sim.

— Perfeito. Amo pessoas inteligentes. Elas são… inspiradoras.

Lembrei de hoje mais cedo. Ele falou alguma coisa para aqueles garotos, gostaria de saber o que era.

— O que você falou para aqueles garotos hoje cedo?

— Nada, estava apenas tentando afastá-los. Não gosto de pessoas populares. Sabia que eles fumam?

— Fumam? Nossa. Também não gosto muito dessas pessoas…

— Brian.

— Não, ele é uma excessão! Ele é bonito, não usa uniforme, coisa e tal, mas ele é burro!

— Definição de "garoto popular": bonito, não usa uniforme e burro, não sabe nem o nome da garota que gosta dele, mas gosta de vinte garotas idiotas ao mesmo tempo.

— Você sabe de quem ele gosta?!

— Sarah, Lilly, Bette, Amy, Sophie e… qual é o nome daquela líder de torcida que usa óculos de sol na classe?

— Não… a Baley?!

— Sim. Ouça o que eu te digo: não perca seu tempo com ele. Existem tantos outros caras por aí, tão mais bonitos e inteligentes… não faça isso. Eu sou seu amigo, certo? Sei o que estou dizendo.

Por incrível que pareça, não fiquei triste com esse comentário. Achava que Brian era minha única companhia, e me sentia sozinha sem ele. Era o único que conversava comigo, mesmo sem saber o meu nome. Mas agora eu tinha um amigo!

— Claro. Não vou mais gastar meu tempo com bobagens agora que tenho um amigo.

Depois de dez minutos, voltamos à biblioteca. Achei que demoraríamos muito tempo, então liguei para minha mãe e disse para ela ir me buscar só às quatro e meia da tarde, pois já eram três e quinze. Mas no final, o trabalho foi muito mais rápido do que pensávamos: quando terminamos ainda eram quatro horas. Até liguei para minha mãe, mas ela disse que só poderia me buscar às quatro e meia.

— Sua mãe vai vir te buscar que horas? — perguntei.

— Eu vou para casa sozinho. Estava pensando em ir logo depois que sua mãe chegasse.

— Não quer uma carona? Se bem que ela só vai vir daqui meia hora…

Silêncio. Trinta segundos ou mais. Então Peter virou e disse:

— Na verdade, quer voltar para casa agora? Eu posso te acompanhar, por mim tudo bem. Ainda quero ler os livros do Sherlock Holmes.

Liguei para ela.

— Oi, filha! O que foi?

— Oi, mãe! Então, eu fiz um amigo hoje!

— Amigo? Sério? Que ótimo!

— Enfim. Eu posso ir à pé para casa? Com ele? Quando você chegar, prometo que já vou estar lá.

— Bom… não sei. Quem é esse seu amigo?

— Mãe! É um aluno novo, ele é confiável. Espero.

— Tudo bem. Está com aquele spray de pimenta?

— Sim, mãe…

— Ótimo, assim fico mais tranquila. Beijos!

— Beijos! Tchau!

Desliguei o celular. Respirei para falar, mas Peter falou primeiro:

— Ela deixou. Que bom! Vamos, pegue suas coisas. Onde você mora?

Expliquei o caminho e começamos a andar. Caminhamos até o portão da escola, que era rodeado por um lindo jardim. Na verdade, poderia ser lindo se aparassem a grama.

— Ah, o ar livre… — disse, inspirando profundamente — tão boni…

Nesse momento uma abelha me picou, um homem do outro lado da rua foi roubado e um carro bateu em um poste.

— Esquece. Onde você estudava antes?

— Na escola.

— Não me diga!

— Eu sei — disse Peter, rindo — era brincadeira. Eu estudava em Nortword Elementary School.

— VOCÊ ESTUDAVA EM NORTHWORD?! Mas essa escola é a melhor! E fica em Londres!

— É, isso mesmo. Sinceramente, gostei mais de Cleverland.

— Ah, já entendi por que você é tão inteligente. E você quis sair de lá porque era igual a todos. Certo?

— Errado. O método de estudo é diferente, mas o conteúdo é o mesmo. Lá eu também era o mais inteligente, mas as pessoas ligavam para isso. E eu te disse que não gostava de pessoas populares, não suportaria ser uma. Meu nome já era conhecido por quase metade da escola, por isso me mudei. Bom, não foi só por isso, tiveram outros motivos, mas não importa. Aqui em Cleverland ninguém liga para os inteligentes.

— Pois é.

Peter ficou olhando para o nada. Naquela escola, a beleza reinava. A beleza e o dinheiro. Se uma pessoa fosse horrível mas tivesse dinheiro, seria aceita pelo grupo dos populares. Se uma pessoa fosse bonita, mas com uma renda não muito grande, provavelmente seria aceita no grupo mais ou menos (um meio termo entre os populares e os normais). Mas se uma pessoa fosse inteligente… podia esquecer. Não seria aceita em nenhum grupo. Na verdade eu era a única realmente inteligente (a maioria das pessoas que se achavam inteligentes eram aquelas que tiravam uma nota um pouco acima da média). Claro, poderiam existir exceções. Peter, por exemplo, poderia se dar bem no grupo dos populares. Ele era bonito, bonito de verdade: seus cabelos eram de um intenso castanho-escuro, que fazia contraste com sua pele macia, sedosa e branca como leite. Seus olhos poderiam ser confundidos com duas grandes esmeraldas, profundos e brilhantes. Resumindo, ele era a definição de beleza. Se você procurar a palavra "beleza" no dicionário, vai encontrar a foto dele. Mas se procurar "monstro", vai ver a minha.

Não me acho a coisa mais bonita do mundo: tenho olhos castanhos, pele áspera e ressecada e meus cabelos opacos precisam de uma bela hidratação.

Voltando a falar de Peter, sua personalidade era muito intrigante, parecia que ele havia saído de um livro de mistérios. Sim, para mim isso e sua inteligência o tornavam mais bonito. Lindo, até. Quando ele me explicou na biblioteca como havia descoberto minha senha, esqueci completamente do Brian. No momento em que ele falou sobre "Brane", me perguntei "quem é esse?".

Por um instante, pensei ter ouvido música clássica. Adoro música clássica, é tão calma, e tão bonita… mas depois de um momento, isso me puxou de volta à realidade. De onde vinha essa música? De repente a música parou e…

— Alô? — disse Peter.

Então esse era seu toque de celular… música clássica. Por que música clássica?

— Mas… como assim? — continuou. Houve uma longa pausa — Sim, claro… entendo. — outra pausa — Hã… não, não vou. Obrigado, mesmo assim. — pausa — Eu sei, eu sei. — breve pausa — Não, não tenho, e daí? Pare de gritar comigo!

Peter desligou o telefone furiosamente. Tantas perguntas que até havia me esquecido do toque de celular incomum.

— Peter… o que aconteceu? Está tudo bem?

— Nada, nada de mais. Não se preocupe.

Sua expressão dizia o contrário. Na verdade, berrava.

— Por favor, conta. Posso te ajudar… eu sou sua amiga agora, lembra?

Ele parecia triste… fiquei preocupada. Porém, dois segundos depois, parecia novo em folha: endireitou a coluna, arrumou a blusa, limpou a garganta e disse, tão rápido que quase nem consegui acompanhar:

— Bom, se insiste… minha avó morreu. Foi encontrada em cima da cama, estava dormindo quando faleceu. Morte natural. Morava sozinha. Os policiais não sabiam para quem ligar, então apenas pegaram o papel em cima do telefone em que meu número estava escrito. Às vezes ela queria ligar para mim para conversar, mas nunca se lembrava do número. Então eu o escrevi em um papel, que ela deixava sempre por perto. Disse que não ia ao velório, não gosto dessas coisas. Ela morreu, acontece. Pessoas morrem. O homem disse que eu não tinha sentimentos, e respondi que não mesmo. Ele se irritou, e começou a gritar, por isso apenas desligueio telefone. A propósito, percebi sua expressão quanto ao toque. Música clássica. Sim, eu gosto, é tranquilizante.

— Nossa, Peter… e-eu… eu sinto muito…

— Não sinta. Era idosa, já tinha idade avançada. Fique feliz! Ela nem deve ter sentido nada. Estava dormindo!

Fiquei horrorizada… como ele poderia não sentir nada? A avó dele havia morrido… e ainda por cima ela gostava dele!

— Peter… se você precisar de alguma coisa, qualquero coisa, pode contar comigo.

— Não se preocupe, já disse que está tudo bem.

— Quer que eu vá ao enterro com você? Você vai ao enterro, não é?

— Bom… não. Já disse, não se preocupe, por favor.

— Como? Você tem que ir ao enterro, Peter. Por ela… por favor. Por mim, sua amiga! Eu quero muito que você vá à esse enterro. Ela gostava de você… não gostava?

— Sim, ela gostava muito. Adorava quando eu tocava piano… sua música favorita era Lago dos Cisnes.

— Que tal tocar essa música no enterro?

— Por mim, tudo bem. Ela ficaria feliz em saber que eu estou lá. E gostaria de ouvir pela última vez Lago dos Cisnes.

Nesse momento, comecei a chorar. Isso era tão triste… não conheci sua avó, não sabia nem seu nome, mas já podia imaginar como ela era. Devia ser uma pessoa tão boa…

— Ei… está chorando? — disse Peter — já disse três vezes, não se preocupe. Ela era uma ótima pessoa, e agora foi para um lugar melhor. Bom, é o que eu espero.

Comecei a rir.

— Agora eu não entendi… você estava chorando há dois segundos!

— Não, é que a sua avó faleceu e você está me consolando, sendo que eu nem a conheci! — disse, rindo.

— Melhor rir do que chorar. Essa é sua casa?

— Sim… obrigada. Não sei, mas acho que esse é o começo de uma grande amizade. Gostei de você.

— Sério mesmo? Achei que tinha me odiado.

— Sim, mas isso foi antes. Por que não me falou seu nome logo que te perguntei?

— Queria ver sua reação. Você não desistiu, queria mesmo saber meu nome! Por isso gostei de você: inteligente e persistente. Vai ficar brava se eu me sentar ao seu lado na classe amanhã?

— Por que ficaria?

— Não sei… bom, até amanhã!

— Até amanhã!

E Peter foi embora. Fiquei observando meu novo amigo até desaparecer no horizonte… estava com pena dele. Eu sei, já estava fazendo minha parte sendo amiga dele, mas queria fazer mais. Queria me sentir útil! Agora ele já fazia parte de minha vida, e não conseguia mais me imaginar sozinha. Finalmente, depois de treze anos, me sentia realmente feliz.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.