A Vida Alheia
5 V - Ana, a garota do almoxarifado
Clarisse olhou por todos os lados, em todas as pastas, mas não encontrou a ata da ultima reunião com todos os sócios, tentou chamar Ana pelo telefone, mas não conseguiu e lembrou-se que era horário de almoço. E que ela era a única que não respeitava essa tão amada pausa, ela continuava fazendo tudo que tinha que fazer sendo movida a café.
Olhou o relógio em seu pulso, não fazia muito tempo que a pausa tinha começado, então ela decidiu ir atrás de sua secretária que não devia estar muito longe; andou rapidamente pelos corredores e encontrou Elise, a secretária de Felipe, que na concepção de Clarisse era a secretária que menos trabalhava e que só aparecia no escritório carregando papéis para manter a aparência de secretária ocupada e estressada. Entretanto, Felipe só precisava de alguém para dizer o evento do dia, a lista de convidados e o tipo de traje apropriado.
—Elise, você viu a Ana?
—Ela almoçou comigo e disse que voltaria para preparar uns papéis..._ Elise falou lentamente, como se pensasse muito bem no que responder._ Mas talvez ela esteja no sétimo andar..._ Ela concluiu com a cara de sorridente mais falsa que Clarisse já tinha visto.
—Obrigada Elise._ Ela falou entrando num elevador para descer até o sétimo andar, mas ainda se perguntava o que Ana estaria fazendo no sétimo andar, lá não tinha nada além das grandes salas cheias de documentos antigos que já tinham até sido digitalizados e eram guardados apenas por segurança ou por Clarisse ser um pouco paranóica e não deixar ninguém se desfazer daqueles papéis, e também tinham as máquinas que estavam no prédio quando foi comprado e ela não teve coragem de joga-las no lixo.
Todos os setores eram bem distribuídos em cada andar, e o sétimo não fazia falta.
Clarisse já estava com sua pequena ruga no meio das sobrancelhas mostrando sua curiosidade, ela não entendia o que sua secretaria podia estar fazendo naquele andar e estava pronta para chamar atenção dela quando a encontrasse, mesmo sendo horário de almoço, aquele andar não era para todo mundo, se uma pessoa começasse a frequentar aquele andar cheio de documentos e máquinas que distribuíam energia para o prédio logo algo errado aconteceria.
Quando a porta do elevador se abriu, ela andou pelo corredor tentando ouvir algum barulho, olhou para os lados e abriu cada uma das salas tomando cuidado para não fazer muito barulho, queria saber o que Ana estava fazendo e não daria tempo para a secretária guardar todas as provas incriminadoras, inconscientemente olhou para as câmeras vendo a luzinha vermelha piscando.
Clarisse sempre gostou do jeito que Ana trabalhava, foi a melhor secretária até então, mas se tivesse que demiti-la não hesitaria em fazê-lo.
Ela andou abrindo cada uma das portas do corredor, até que chegou a sua temida sala de processos, os antigos processos arquivados em ordem numérica, abriu a porta e assim que entrou já pode ouvir alguns barulhos, surgiu um sorriso cruel em seu rosto digno de uma vilã, foi andando a passos lentos pelos arquivos e pelas pilhas de papéis, quase não podia enxergar o final da sala por causa da quantidade de pilhas a sua frente, mas podia ouvir um murmúrio que vinha de lá.
Ainda sorrateiramente Clarisse andou até uma os arquivos que estavam um ao lado do outro, e abaixou-se um pouco, nesses momentos sua altura não ajudava muito. Naquela posição desconfortável ela ouviu uma voz que não era de sua secretária, ela sequer sabia de quem era aquela voz, mas sabia que era de um homem. Sua curiosidade aumentou ainda mais, e se forçou a ouvir o que eles murmuravam, ela não estava entendendo nada.
Ela começou a ouvir sons de batidas, elas se seguiam e depois veio o que lhe deu a certeza do que estava acontecendo; os gemidos...
Clarisse abriu a boca sem acreditar no que sua secretaria estava fazendo no que era praticamente o almoxarifado, nunca pensou que a garota que parecia tão delicada e até certinha, estaria transando numa sala com cheiro de mofo. Sem nem pensar, ela ergueu-se um pouco para poder ver quem era o homem que estava com ela. Então viu a imagem; sua secretária nua em cima da mesa em que provavelmente os papéis jogados no chão estavam antes dela tomar o lugar deles, em cima dela estava um rapaz que já tinha visto algumas vezes pelos corredores, ele era do setor de marketing...
"Quer dizer que ele tem disposição para transar no meu prédio e não tem para criar, e além do mais vem com seu grupinho de publicitários estagiários pedindo para sair mais cedo!", ela pensou irritada.
Clarisse olhou o relógio em seu pulso e viu que faltava pouco tempo para que o horário do almoço acabasse, então decidiu fazer aqueles dois funcionários sem um pingo de respeito pelo lugar em que trabalhavam. Ela saiu de trás dos arquivos e aproximou-se um pouco deles, dando-lhes um enorme susto.
Ana ficou vermelha como uma pimenta e correu para pegar suas roupas que estavam espalhadas por ali. Já Thiago vestia-se em quanto tentava se desculpar ou explicar dizendo palavras soltas sem nenhum sentido, ele não conseguia formar uma frase inteira e Clarisse não lhe deu atenção, queria apenas que eles ficassem nervosos e com medo de serem demitidos.
—Ana, quando seu horário de almoço terminar encontre a ata da ultima reunião e a leve para mim._ Ela falou como se nada estivesse acontecendo.
Não iria demitir os dois, até podia demiti-los e por justa causa, mas não achou necessário fazer isso por dois motivos: os dois não repetiriam isso e por Elise provavelmente estar esperando que ela os demitisse...
"Elise contou-me onde a Ana estava para que eu visse-os, detesto essas intrigas entre as secretárias.", ela pensava em quanto entrava no elevador .
Suspirou lembrando-se de quantas vezes já havia discutido com colegas de trabalho ou até, durante toda a sua trajetória sempre houveram pessoas que não gostavam do jeito que agia ou em como trabalhava. Lembrou-se dos dias em que passou em frente a tela do computador fazendo projetos para as novas campanhas quando era uma estagiária... Sempre se destacou não só pela beleza e destacar-se foi uma decisão dela, então aceitou tudo que viria junto com os olhares.
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