A Vida Alheia
3 III - Novidade
Depois de algumas horas lendo e resolvendo os problemas do pessoal da área de marketing da empresa, Clarisse afasta-se da mesa e retira o óculos de grau e fecha os olhos tentando relaxar ou apenas não surtar, respira fundo e gira sua confortável poltrona, virando-se de costas para sua mesa e de frente para a enorme vidraça que lhe proporcionava a visão dos prédios que pareciam não ter fim. Ela olhou para cima procurando nuvens branquinhas como as que via quando era criança e deitava na grama fofa da fazenda de seus avós, entretanto só viu nuvens cinzas que deixava claro os poluentes presentes ali.
Evitando lembrar-se de como era antes, ela voltou sua atenção para o trabalho que ainda tinha a fazer, mas naquele momento o telefone em sua mesa tocou, ela atendeu rapidamente para não irritar-se com o barulho estridente.
—Senhor Felipe está aqui, posso deixa-lo entrar?_ Ana perguntou evitando mostrar insegurança em sua voz.
Antes que Clarisse respondesse a secretária Felipe entrou na sala com seu sorriso sarcástico, Ana entrou na sala alguns segundos depois com uma expressão um pouco assustada.
—Pode deixar Ana._ Clarisse disse fingindo não se importar com a entrada de seu sócio.
—Mal humor? _Ele perguntou sentando em frente a mesa de Clarisse, e antes que ela dissesse qualquer coisa ele continuou._ Ana só fica desse jeito quando sabe que você está mal humorada... Já te disse para mudar-se para o prédio perto daqui, um prédio no centro, onde tudo acontece; você mora muito longe.
—Não preciso estar onde tudo acontece, eu preciso saber qual é o problema do setor de marketing e do de arte, aliás, eu sei qual é o problema deles: Eles não estão criando._ Ela disse gesticulando.
—Você quer uma reunião com eles, mostrar nossos gráficos e chamar o pessoal das estatísticas?_ Felipe perguntou já com a expressão mais seria.
Clarisse respirou fundo e pensou em fazer uma reunião, mas era só uma decaída no processo de dois setores.
—Não, vamos esperar um pouco, já temos algumas coisas em processo de criação e a já temos alguns contratos fechados; podemos nos permitir atrasar um pouco..._ Ela falou um pouco alheia, refletindo sobre tudo que havia para ser feito.
Felipe animou-se com a resposta de Clarisse, ele odiava reuniões, mesmo quando eram necessárias, era um fardo para ele. A maior parte de seu trabalho era fora do escritório, em campo, como preferia dizer. Ele ia aos jantares de negócios, eventos beneficentes, e qualquer outra coisa que exigisse um sorriso educado e um manear de cabeça.
Clarisse não suportava os eventos sociais empresariais, preferia expressar todo seu mal humor quase patológico e por mais estranho que pareça, ela gostava de trabalhar em meio a todos aqueles papéis, de sentir o cheiro do café que era como uma droga para as pessoas naquele prédio e adorava mandar os estagiários procurarem documentos antigos que sequer seriam usados; só para vê-los desesperados.
Lembrava-se bem de quando teve que estagiar, de como aquela fora a pior época de sua vida, de como tinha que pegar cafezinho para todo mundo, incluindo secretárias. Mas quando se formou foi contratada pela empresa na qual havia sido estagiaria, permaneceu lá por mais algum tempo até conseguir ter dinheiro para poder investir em sua própria empresa. Acabou tendo mais três sócios (incluindo Felipe que na época já era seu namorado), os dois sócios investiram quantias maiores, mas preferiram ficar longe do trabalho, sendo assim Clarisse e Felipe que se encarregaram de mandar em todos e decidir tudo...
— Lembra que eu disse que tinha uma novidade?_ Ele perguntou olhando-a com os olhos azuis brilhantes .
—Vagamente._ Clarisse respondeu voltando a ler os papéis em sua frente.
—Vou me casar._ Felipe informou observando Clarisse e esperando ansiosamente a reação dela.
—Você está falando sério?_ Ela perguntou cética deixando a bela caneta dourada que ganhara de seu pai cair em cima dos papéis, estava realmente surpresa por seu amigo que era um exímio conquistador decidir casar-se.
—Nunca falei tão serio._ Ele confirmou com veemência.
—Alice está te obrigando?_ Perguntou desconfiada, pois sabia que Alice, a namorada dele era capaz de cobrar um casamento.
Alice era uma estilista que já tinha seu lugar em meio aos melhores no ramo, e a filha de um famoso jornalista. Mas mesmo com uma carreira formada e com todo o talento que tinha, ainda era um tanto quanto insegura quando se tratava da amizade de Felipe com Clarisse, ela sabia que os dois tiveram um relacionamento e via que a sócia de seu namorado era muito bonita; em quanto ela contentou-se com o mundo da alta costura, tecidos e croques por não ter sido boa o bastante para ser modelo. Já Clarisse com sua altura, seu corpo escultural e seus cabelos castanhos com tons mais claros que eram visivelmente naturais, poderia ser modelo facilmente.
—Não, ela não está me obrigando._ Felipe disse rindo da expressão de Clarisse.
—Então por que você vai fazer isso?_ Ela perguntou como se ele estivesse planejando cometer um crime.
—Acho que está na hora de ser um homem serio, ter uma família, talvez ter filhos..._ Ele favava lentamente em meio aos seus devaneios, até que viu a cara de medo de sua sócia._ Eu já tenho trinta e cinco anos Clarisse, sei que não parece, mas tenho. E sem querer te ofender, eu nunca tive um relacionamento serio e pela primeira vez quero isso.
—Não estou ofendida..._ Ela sussurrou tentando entender o que ele estava querendo fazer, aquilo parecia muito irreal aos seus olhos.
Felipe sorriu.
—Sabe... Acho que você deveria seguir meu exemplo.
—Não fode, não é porque você não tinha nada para fazer e decidiu se casar que eu cometerei o mesmo erro, tenho muito o que fazer._ Clarisse reclamou franzindo o cenho.
—Existe um mundo lá fora, devia tentar visita-lo e esquecer um pouco seu trabalho._ Ele comentou.
—E você devia visitar seu escritório e me ajudar a fazer essa empresa funcionar, em vez de me dar conselhos dos quais não preciso._ Ela rebateu rispidamente, em quanto voltava-se para seus papéis, por sentir que aquele assunto precisava terminar logo, antes que ele decidisse leva-la para uma festa e tentar empurra-la para cima de algum se seus milhares amigos.
—Já entendi, mas só estou te avisando que está ficando velha, é meu dever como amigo e como homem te avisar isso._ Felipe justificou-se dando de ombros.
Clarisse não pode conter o riso cheio de ironia.
—Estamos no século 21 Felipe, não preciso me casar por estar ficando velha._ Ela falou perplexa pelo que o amigo tinha dito, e concluiu._ E não estou ficando velha! Tenho vinte e sete anos... E você tem trinta e cinco, a faixa dos trinta é a faixa do sucesso, mas você não liga e jogará isso pela janela.
—A maioria dos homens de sucesso são casados, mas você não sabe disso por ficar aqui dentro enquanto eu vou para todos os eventos com os mais ricos, velhos e gordos empresários._ Felipe rebateu.
Depois de mais algum tempo conversando, Felipe voltou para sua agenda de eventos, em quanto Clarisse continuava dentro de seu escritório terminando de ler os relatórios, mas não deixou de pensar no que seu amigo havia lhe dito sobre, sobre o tal "senhora" e o "dona".
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