A Vida Acontece
1 Gia
Em algum ponto da sua breve existência você vai se ver paralisado tentando entender. Entender aquela parte de sua vida em que as coisas começam a fazer sentido. Lembrando-se daquele olhar que te fez perder o sentido, sumir com a sua respiração e saber que sua vida seria mudada, você querendo ou não. E então quando vê tudo pegando fogo, imagina se teria feito algo diferente.
Teria? Teria mesmo? Eu quase sempre penso que quando as coisas parecem estar muito ruins, algo muito bom está por vir. Se eu não tivesse vivido todas essas coisas ruins, não seria a pessoa que sou hoje. E, sinceramente, não posso reclamar dessa pessoa. Imagino que sou muito sincera comigo mesma. Não sei esconder quem sou para agradar os outros. Passei maior parte de minha vida andando por corredores cheios de pessoas desesperadas para se esconderem atrás de algo, tentando mostrar que se encaixavam, mesmo se precisassem fingir ser tudo o que não eram, com todas as suas forças. Na maior parte do tempo me contentava em observar e sentir pena. Até o dia que não me contentei mais. Se você parar para pensar, a história e o enredo são sempre iguais, o que muda é o roteiro, os personagens e o cenário. De resto, vai apenas parecer que está vendo o mesmo filme várias vezes. Descobre que já decorou as falas e o que vem a seguir nem chega mais a ser emocionante ou interessante. Era só andar, observar e planejar o que eu poderia fazer para tornar a vida dessas pessoas em algo melhor e, pelo menos um pouco, mais feliz. Ao olhar para esquerda observa-se o casal agarrado, que, provavelmente, no fim do ano letivo, vai ganhar uma foto no anuário como casal do ano. Ao continuar andando e olhar, agora, para o lado direito, vê-se os garotos do time principal da escola, usando suas jaquetas grandes e se achando muito melhores do que as outras pessoas. Muito melhores do que, na verdade, são. No fim do corredor têm os nerds, conversando baixinho, quase sussurrando, mesmo com a certeza de que ninguém ao menos notava que estavam ali. Mas então chegava a pior parte. A parte em que eu, finalmente, encontrava a garota metida a rainha. Aquela com as melhores roupas, com o cabelo mais bonito, com quem todos os garotos sonhavam em dormir e que eu sabia que me odiaria. Nas primeiras vezes que isso aconteceu eu até achava que era um ódio sem motivos. Mas agora, entendo o fato de que, como eu, ela é uma garota, faz mais sentido. Garotas são extremamente sensíveis e se sentem ameaçadas com muita facilidade. Então eu sabia que era assim que ela se sentia quanto a mim, sem nem ao menos precisar ver seu rosto. Já sabia que, em algum ponto da história, alguém com quem ela se importava e por quem tinha sentimentos acabaria tendo sentimentos por mim. Não importa o tipo de sentimento. Sabia que, qualquer que fosse, seria o suficiente para ela querer transformar minha vida em um pequeno inferno. – Hey, sapatão! Aquelas palavras, saídas de trás de mim, atravessam meus ouvidos e eu sorria, antes de fechar a cara outra vez para encará-la. Já havia escutado de tudo, mas ninguém tinha chegado à conclusão de que eu era um sapatão tão rápido. Talvez ela fosse uma daquelas raras rainhas que além de deslumbrantes e más, também tinha um cérebro dentro da cabeça. Eram duas. Claro que eram duas. Para que manter uma rainha, se você poderia manter duas? A primeira com altura mediana, um bronzeado artificial, olhos azuis, cabelos tingidos de loiro. Usava um vestido florido até a altura das coxas e salto, para tentar parecer um pouco mais alta, como a amiga. A outra, consideravelmente, maior. Cabelos longos e ruivos, olhos muito escuros e considerando o jeito como ela havia me chamado de sapatão, tinha uma boca fina e até que muito bonita. Estava com uma calça de couro azul marinho, uma regata colada no corpo, de cor branca e sapatilhas pretas. – Saia da minha frente enquanto ando por aí! Ruivos não deveriam ser adoráveis? Fazia sentido ter duas rainhas. Uma má, defendendo a ideia de popularidade e de amizade incomparável, já que a outra pretendia ser a boa moça, colocando limites nas atitudes da melhor amiga. Ou seja, precisava defender o conceito de que mesmo tendo ideias tão diferentes, podiam ser perfeitas juntas, como um time.– Calma Cassie! – a menor disse e revirou os olhos. Era engraçado ver o quanto as pessoas se esforçavam, em volta, para fingir que não estavam vendo o que estava acontecendo. Que não estavam vendo o que, na verdade, estavam vendo. Mas era isso o que elas queriam. Era isso que elas sempre queriam. Um show onde todos fingiam não ver e não se intrometiam, mas mostrava que quem mandava eram elas, pois assim que saíssem dali, todos iriam comentar sobre isso. Eu saí da frente para que passassem. Enquanto continuavam a andar eu não podia deixar de sorrir e quando estavam, finalmente, passando ao meu lado, fiz o que sabia que devia.– Hm, loura que não se chama Cassie? Elas me olharam. Agora ambas estavam irritadas. Mas com motivos diferentes. Cassie odiou o fato de eu me dirigir a sua amiga e não a ela. Mas a amiga odiou que eu fizesse Cassie ficar irritada de propósito.
– Jasmine. Meu nome é Jasmine! A garota que não se chamava Cassie chamava-se Jasmine. Outra coisa interessante: Jasmine sabia que estava à sombra de Cassie e odiava isso. Era algo para se explorar, com certeza. Além do mais, era óbvio que Jasmine não era lésbica, pelo jeito que se vestia e se portava. Mas Cassie me deixava com sérias dúvidas.– Sim, desculpa... Jasmine! Você deveria sair comigo qualquer dia. As reações podiam ser engraçadas e era a melhor maneira de saber. Mas Cassie era um desafio. De fato, eu não queria nenhum tipo de relação com alguém como ela. Queria apenas chegar fundo o bastante para mostrar que de rainha ela não tinha nada. – Nojento! – Cassie caçoou.– Desculpa, mas eu não te conheço e... Eu namoro! Namoro um garoto. Porque gosto de garotos – ela pareceu confusa. Confundi Jasmine. Mas mexi com Cassie? Vai saber. Porém, Jasmine era heterossexual. Totalmente. – Okay – sorri largo. Elas continuaram andando. As pessoas em volta recomeçaram a conversar mais alto e até rir. Provavelmente, rir de mim. Grande coisa. Imaginar o que as duas estariam pensando ou até falando agora era complicado, mas era provável que estavam zombando da ideia de que eu achasse mesmo que Jasmine poderia sair comigo. Mas eu não achava isso. Sabia que ela jamais aceitaria. Mexer com Cassie era a questão. Cassie é quem iria me odiar. – Eu tenho tentado ficar com ela também, mas acho que não sou funcional! O garoto a falar comigo parecia chateado com aquilo.– Ah, eu não estava tentando sair com ela. Era a verdade, afinal. Ele e o garoto ao seu lado riram. Nerds.– Ainda bem, sou Kol! – o garoto ao lado me passou a mão de um jeito sútil e quando lhe dei a minha mão, ele quase nem apertou – Esse é meu amigo, Henry. Ele é apaixonado pela Cassie desde... Sempre – ele deu um pequeno sorriso.– Chegue nela! – eu disse para Henry e depois olhei para Kol – Você é gay? Ambos arregalaram os olhos e fizeram sinal para que eu não falasse nada.– Não fale algo assim tão alto! Kol parecia um pouco desesperado demais.– Por que não? – era confuso. Ficar no armário em tempos assim era um tanto... Brega. Mas isso era o que eu achava. – Por que... Aqui é meio que proibido ser gay! Ninguém nunca saiu do armário. Nunca. Henry parecia estar em uma posição de proteger o amigo. Mas aquilo era sério? Porque parecia ridículo. Mesmo? Sério mesmo?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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