Notas iniciais
Essa fanfiction foi escrita para o concurso do grupo "Fanfictions OUAT", no Facebook.

Após cumprido, enfim, o objetivo de levar a magia até aquele mundo, Rumpelstiltskin – sentindo-se muito feliz por poder pensar livremente em si mesmo com aquela identidade – se voltou para a jovem que ele pensara ter perdido tanto tempo atrás, Belle. Ela estava muito pálida, seus cabelos desgrenhados e no fundo de seus olhos havia um sofrimento que ele tinha profunda convicção de que nunca desapareceria completamente.

O Senhor das Trevas a encarou longamente, pensando em tudo o que ela provavelmente passara nas últimas três décadas em que os dois haviam estado separados. “Sua culpa,” a sua consciência gritava, “sua tolice e sua sede de poder provocaram esse sofrimento.” Novamente, ele machucara alguém que amava. Sempre os mesmos erros.

– Conte-me o que aconteceu com você, Belle.

Belle o encarou, o sofrimento muito bem escondido – embora Rumpelstiltskin tivesse absoluta certeza de que ele ainda estava lá – quando ela respondeu que fora sequestrada por Regina e contou como a Rainha a prendera em sua torre até lançar a maldição e, depois, encarcerara-a em um asilo.

Rumpelstiltskin se sentiu feliz por finalmente ter algo que o distraísse de seu sentimento de culpa. Ele deixou que sua raiva pela Rainha Má – e aquele título nunca fizera tanto sentido para ele – o preenchesse completamente.

– Durante longos vinte e oito anos…?

Ela assentiu, já incapaz de esconder a dor que aquelas lembranças evocavam, o que provocou ainda mais a raiva em relação à Rainha Má. “Como Regina ousou machucar uma pessoa tão doce e inocente quanto Belle? Como ela pôde destruir essas características maravilhosas dela até que só restasse, em seu lugar, a dor.” Mas ele conhecia os motivos da Rainha: ela sabia que, enquanto tivesse Belle, tinha uma arma contra uma das criaturas mais poderosas da Enchanted Forest.

– Durante todos esses anos, você esteve em Storybrooke? Viva?

Belle enfim percebeu o tom de raiva na voz dele e a dor abandonou quase completamente os seus olhos, dando lugar ao sentimento de preocupação. Mesmo após tudo o que ela passara, ainda havia algo da jovem que se apaixonara pela besta, ainda restava o seu coração generoso capaz de perdoar até mesmo o seu mais terrível inimigo. Embora aquilo não fosse o bastante para aplacar a sua raiva, Rumpelstiltskin se sentiu aliviado.

– Foi… foi por isso que você trouxe magia até este mundo? Por vingança?

– Não, eu nunca seria capaz de prever isso, mas pode vir a calhar!

– Não… não!

Rumpelstiltskin não via razão para não se vingar naquele momento. Regina já cumprira sua função ao lançar a maldição para levá-los ao mundo sem magia, ao mundo onde se encontrava Baelfire. Não havia um motivo pelo qual não eliminá-la, simultaneamente vingando Belle e destruindo uma rival que, embora não fosse tão poderosa quanto ele, podia acabar se tornando um problema.

Uma parte do Senhor das Trevas – que lhe parecia muito insignificante naquele momento – sabia que ele também era responsável pelo desaparecimento da inocência e da pureza de Belle. Primeiramente, havia o fato de que ele as havia visto partindo quando a mandara embora, quando mostrara a ela que finais não eram necessariamente felizes. Depois, era incontestável que, caso houvesse mantido a jovem em seu castelo, Belle jamais teria sido capturada por Regina.

Ela segurou a mão de Rumpelstiltskin com firmeza, embora delicadamente. Isso o retirou de seus pensamentos – ele já calculava como ele mataria a Rainha, procurando dentro de si um modo terrivelmente doloroso e simultaneamente rápido – e o levou de volta à realidade:

– Prometa-me que não se renderá à sua raiva, e poderemos ficar juntos.

Ele a encarou nos olhos e percebeu que neles havia algo mais do que a preocupação e a dor que vira anteriormente: também havia algo de uma profunda felicidade – que ela parecia sentir por tê-lo encontrado, finalmente – e do amor verdadeiro que ela nutria pelo homem-besta. Observar aquilo acabou por aplacar a ira do Senhor das Trevas, e Rumpelstiltskin não pôde responder outra coisa senão “eu prometo”.

Então, eles se beijaram. Não um beijo tímido e inocente como aquele que haviam compartilhado tanto tempo atrás no castelo dele, mas algo muito mais profundo, dotado de uma urgência que o Senhor das Trevas sequer sabia que sentia.

Então, ele percebeu algo significativo mudando dentro de si. Por um momento, Rumpelstiltskin se sentiu perdido, incapaz de identificar o que ocorrera; então, repentinamente, ele se recordou de que o beijo de amor verdadeiro podia quebrar a maldição da adaga.

“Idiota!” Ele não conseguia compreender como não se lembrara de que o beijo de amor verdadeiro começara a torná-lo humano novamente, e fora a razão pela qual ele afastara Belle. Como pudera se esquecer disso?

Em uma tentativa de não assustar sua amada com um movimento brusco – Belle provavelmente se esquecera, como ele; afinal, ela sabia que ele não queria retornar a ser humano, embora não conhecesse os seus motivos –, ele começou a se afastar lentamente. A garota, entretanto, abraçou-o com mais força, recusando-se a interromper o beijo.

O Senhor das Trevas sentiu a magia se esvaindo gradativamente de seu corpo, todo o seu poder deixando-o. Ele tentou, novamente – e com mais urgência –, interromper o beijo, mas se descobriu fraco demais para lutar contra Belle, que ainda o segurava com força contra ela.

Então, quando achou que a ausência de poder o faria desmaiar, ele sentiu algo despertando dentro de si, uma força simultaneamente nova e antiga. A princípio, Rumpelstiltskin acreditou que era o pavor do ser humano que se ascendia dentro dele lhe dando forças para sair daquela situação, mas percebeu quase instantaneamente que não era um sentimento – e, mais importante, não era algo negativo.

“Magia!” Ele a sentiu fluir novamente através de seu corpo, transcendendo-o para alcançar a mulher que ele amava. Rumpelstiltskin percebeu – sentindo um enorme peso sendo descarregado de seu coração – que poder da adaga não o abandonara completamente, parte dele apenas se modificara. A percepção desse fato fez com que ele ficasse sem reação.

Por fim, eles se separaram. Belle deu um passo para trás e o encarou com um olhar simultaneamente preocupado, travesso e curioso. Rumpelstiltskin se sentiu despido de sua pele e todas as suas barreiras, como se ela estivesse analisando a alma dele. Aquilo, entretanto, não o deixou encabulado, apenas com medo de decepcioná-la.

– Você não parece muito diferente nesse mundo, para ser sincera, mas eu não consigo mais ver a escuridão que sempre ficava em seu entorno, — disse ela, por fim, com um sorriso em seus lábios.

Ele a encarou, ainda incapaz de esboçar qualquer reação. Rumpelstiltskin sabia, devido ao modo como a jovem o segurara durante o beijo, que Belle tinha por objetivo quebrar a sua maldição e se encontrava confuso a respeito de como se sentia a respeito da atitude dela. Por um lado, ele sabia que ela fizera aquilo visando o seu bem – Belle era incapaz de desejar o mal para qualquer um, mesmo para a mulher que a prendera por três décadas –, por outro, ele realmente não gostava de não estar no poder da situação.

– Quando você me expulsou de seu castelo, eu viajei pelo mundo, como sempre havia sonhado. Conversei com certas pessoas dotadas de conhecimento a respeito de magia, de modo geral, e descobri algumas coisas importantes. Há muito o que preciso te contar, Rumple, espero que não fique com raiva e me expulse novamente. Eu sabia… sabia que você não perderia os seus poderes completamente.

Rumpelstiltskin deu um passo em direção a Belle, ainda sem saber se gritaria com ela ou a abraçaria, quando sentiu algo surpreendente: sua perna machucada estava completamente curada. Aquele que anteriormente fora o Senhor das Trevas encarou a sua amada com um olhar inquisitivo, mas um sorriso nos lábios:

– De fato, há muito o que conversar, minha Belle.

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Rumpelstiltskin levou Belle até a sua casa, onde ela finalmente tomou um banho quente e trocou as velhas roupas do hospital por roupas que ele emprestou a ela – a jovem quase não acreditou quando ligou a torneira, e aquela fora apenas a primeira das muitas maravilhas do mundo sem magia que ela experimentaria. Depois, os dois se sentaram para conversar na sala.

Ela contou a ele tudo o que se passara depois que ele a expulsara de seu castelo, de suas viagens: os reinos que visitou e as pessoas que conheceu. Então, enquanto estivera no reino do rei Midas, que diziam transformar ferro em ouro com um simples toque, ela ouvira falar a respeito das minas dos anões, onde era fabricado o pó das fadas.

Belle disse que nunca desistira completamente dele, embora repetisse constantemente para si mesma que o esquecera. Quando ouvira a respeito dos anões, entretanto, ela não pudera conter suas expectativas: talvez, apenas talvez, os anões pudessem lhe explicar o que era o beijo de amor verdadeiro e dar uma pista a respeito do que aconteceria de fato com Rumpelstiltskin caso eles se beijassem. “Ele não pode estar certo, o amor verdadeiro não deveria deixá-lo mais fraco, ele deveria ser força!”

Então, ela rumara para as minas, a sul do reino de Midas, onde acabara por se meter em muitas confusões tentando convencer alguns anões a lhe dar informações, o que chamara a atenção da Blue Fairy.

A fada ficara muito surpresa diante do que Belle lhe contara a respeito de Rumpelstiltskin, mas concordara em lhe dar as informações que ela pedia insistentemente. A magia do beijo de amor verdadeiro, segundo a fada, era uma bênção mágica enviada de uma pessoa para o seu verdadeiro amor, algo tão poderoso que seria capaz de romper qualquer maldição lançada.

– Um beijo de amor verdadeiro não é capaz de deixar qualquer um mais fraco, Rumple. Se a sua magia das trevas fosse maior do que a do amor que sentimos um pelo outro, um beijo não seria capaz de destruí-la. Ele é um presente mágico dado à pessoa amada. Você não sabe que uma criança nascida de um casal que nutre o amor verdadeiro sempre é especial?

Rumpelstiltskin sabia disso. Embora nunca tivesse o interesse em se aprofundar no conhecimento desse tipo de magia – tão diferente da magia dele –, fora ele quem arquitetara para que Emma nascesse e fosse aquela responsável por quebrar a maldição que Regina lançaria.

Entretanto, do mesmo modo que nunca se interessara em saber mais sobre a magia do verdadeiro amor, ele nunca pensara muito a respeito das implicações de tudo isso em sua vida, nem mesmo quando Belle o beijara. “A ideia de perder a minha magia foi mais poderosa do que o meu amor por ela e minha inteligência. Eu fui um tolo!”

O que anteriormente fora o Senhor das Trevas rompeu a distância que o separava de sua amada e a abraçou com força, ainda incapaz de acreditar que estavam juntos e não havia nada entre eles e que o poder da adaga – odiado pelas pessoas que realmente o amavam – se fora para sempre, embora ele ainda possuísse magia.

Rumpelstiltskin segurou o queixo de Belle, fazendo com que ela o encarasse. Aqueles belíssimos olhos azuis emanando algo que ele ainda tinha dificuldade em acreditar que existia: um amor puro e desprovido de interesse totalmente direcionado para ele.

Ela quem rompeu o último resquício da distância que havia entre eles e o beijou. Sem a sensação de fraqueza que havia se apoderado dele nos dois primeiros beijos que eles haviam compartilhado, Rumpelstiltskin pôde desfrutar completamente: ele sentiu a magia emanando do corpo de sua amada, alcançando-o e, por fim, preenchendo-o completamente – e também era capaz de sentir a magia percorrer o seu corpo e deixá-lo, provavelmente em direção ao corpo de Belle. “Será essa a sensação que todos sentem ao beijar o seu verdadeiro amor? Ou será o fato de ser eu e Belle?”

– Eu te amo, — ele disse quando os dois se separaram, incapaz de desviar os seus olhos dos dela.

Ele reparou, então, algo peculiar brilhando nos olhos da jovem, algo quase mágico. Foi, entretanto, fugaz, de modo que Rumpelstiltskin não tinha certeza se fora apenas sua imaginação.

Belle deitou a cabeça no ombro dele, sorrindo.

~~//~~

Os dois passaram boa parte do tempo conversando abraçados, relembrando os tempos em que estiveram juntos ainda no castelo dele e contando um ao outro tudo pelo que passaram depois que se separaram.

Enquanto Rumpelstiltskin preparava algo para os dois comerem, Belle observou com curiosidade crescente todos os utensílios, especialmente, o microondas – ela estava intrigada a respeito de como algo podia esquentar a comida sem fogo e o pequeno apito sinalizando que a comida ficara pronta a fazia rir.

Durante a refeição, ele contou a ela tudo o que pôde a respeito daquele mundo. Falou principalmente sobre os aparelhos que se encontravam dentro da casa e chegou a ligar a televisão, e quando Belle perguntou como funcionava e ele não soube responder, ela deixou escapar um suspiro, deleitando-se diante da quantidade de coisas que haviam para ser aprendidas a respeito daquele mundo.

Quando Belle finalmente adormeceu já era muito tarde e, embora Rumpelstiltskin amasse a companhia dela e estivesse aliviado por tê-la novamente ao seu lado, havia algo que ele precisava fazer com certa urgência e não podia levar a jovem com ele – afinal, seria dar a ela um conhecimento perigoso, um conhecimento que muitos torturariam e até matariam para ter, algo pelo qual ele desejava que a mulher que ele amava nunca mais passasse.

A torre do relógio, no centro de Storybrooke, era o lugar onde estava escondida a sua adaga desde o dia em que tinha levado Pinóquio – “August,” ele se lembrou –, acreditando que ele fosse o seu filho há muito tempo perdido, até o lugar que havia escondido anteriormente.

Rumpelstiltskin tirou a adaga de trás de um dos ponteiros do relógio e a estendeu para que pudesse enxergar melhor os escritos sob a luz do luar. Um misto de felicidade e alívio brotou em seu coração: o seu nome desaparecera da adaga do mesmo modo como a escuridão desaparecera de seu corpo.

Embora o que um dia fora Senhor das Trevas soubesse que ainda havia um longo caminho a ser trilhado antes que pudesse considerar os seus erros passados compensados, ele sabia que seu corpo e sua alma estavam livres da magia das trevas.

Graças a Belle, aquela jovem mulher que fora capaz de ver através da besta, Rumpelstiltskin tinha a chance de recomeçar, de ser homem novamente.

Notas finais
Então, eu não pude resistir e essa é mais uma fanfiction desse maravilhoso casal que eu tanto adoro.

É possível que exista uma sequência, mas não estou muito certa, portanto, por enquanto, a fanfic permanece como "terminada".

Não deixem de comentar apontando defeitos e/ou qualidades.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!