Notas iniciais
o/

FADE IN

CENA 1 – Interior; Quincas com a família.

ZOOM NO ROSTO DE JOAQUIM SOARES (bem vestido, sentado com a família e tomando o café da manhã) – NARRAÇÃO:

Este é Joaquim Soares da Cunha. Respeitável cidadão, casado, pai de família. Um homem cuja vida pacata é regida pelo trabalho como funcionário público e à extrema dedicação para com a família.

CENA 2 – Interior; Quincas no bar.

TELA PRETA SEGUIDA DE ZOOM NO ROSTO DO QUINCAS (mal vestido, sentado em uma mesa de bar e tomando uma pinga) – NARRAÇÃO:

Este é Quincas Berro D’Água. Vagabundo nato, trajando velhas roupas e o seu clássico chapéu. Com vícios mundanos, a PITÚ está sempre em mãos e assim ele vive uma vida desregrada – sendo um exímio conhecedor de botecos e mais botecos da cidade de Natal.

INICIA MÚSICA (a escolher) – QUINCAS – (ergue o braço, tossindo).

Traz outra, Geraldo! (Tela é dividida ao meio, mostrando o Quincas bêbado e o Quincas trabalhador).

NARRAÇÃO:

Acreditem ou não companheiros: estes dois são o mesmo homem.

TELA PRETA (música continua a tocar e atinge o ápice) – SURGE O TÍTULO: “A VERDADE SOBRE A MORTE DE QUINCAS BERRO D’ÁGUA” – TRANSIÇÃO PARA O BAR ONDE ESTÁ QUINCAS (música se encerra) – Diálogo:

SEU GERALDO — (sorrindo)

É pra já, Seu Quincas. Tá aqui a sua cachaça! (Coloca a bebida na mesa).

QUINCAS

Saúde! (Ergue a bebida e vira de uma vez, deixando derramar um pouco na camisa).

(Seu Geraldo enxuga alguns copos quando um dos seus ajudantes chega ao seu ouvido).

GARÇOM — (chamado Júlio)

Então quer dizer que esse é o “véio” imortal?

SEU GERALDO – (solta uma risada e confirma com a cabeça)

É esse mesmo, Julião! Pense num homem quente... Esse Quincas!

(Câmera foca em Quincas, que continua se embebedando).

JÚLIO – (desconfiado)

Num sei não hein, patrão. Já ouvi falar que esse sujeito dá prejuízo pra qualquer bar de Natal. Dizem nas redondezas que ele já criou altas confusões! (Sussurrando).

SEU GERALDO – (encara Júlio)

Quem, o Quincas? Bom... Toda a história tem a sua verdade. Mas posso te garantir: esse daí não é capaz de fazer mal pra uma mosca!

(PAUSA) – Júlio volta a varrer o chão e Seu Geraldo o encara por alguns segundos.

SEU GERALDO

Quer saber, rapaz? Você é novato e parece ter escutado alguns exagerados sobre o nosso querido freguês. (Olha para os lados). Já que o bar tá vazio, senta aí, que eu vou ter contar quem de fato é Quincas, e mais, qual é a sua verdadeira história. (Eles se sentam).

Antes de tudo, vou começar por te contar o porquê do apelido. A façanha por trás do famoso Berro D’Água.

TRANSIÇÃO

Pula para a cena de Quincas não tão mal vestindo adentrando pela primeira vez o bar de Geraldo.

NARRADOR – (SEU GERALDO)

Tudo começou em um dia comum, Quincas – ou melhor – Joaquim Soares, como era chamado antes da perdição, entrou pela primeira vez no meu bar e o seu pedido foi curto e grosso:

CENA 3 – Interior; Quincas no passado.

QUINCAS

Quero uma cachaça da boa.

NARRADOR – (SEU GERALDO)

Espantando com o pedido direto, eu mesmo preparei a pinga e – não me pergunte como – mas me embananei e troquei os líquidos! Olhe só que coisa! Pus água no lugar de cana! (Decorre a cena). (Geraldo deixa a bebida na mesa, Quincas pega e a bebe sem hesitações. Seus olhos começam a virar, ele cospe e grita).

SEU GERALDO – (preocupado)

O-O que foi! Qual o problema senhor?

QUINCAS – (se debatendo no chão)

É ÁGUAAAAAAAAAAAAAAAAA!

NARRADOR – (SEU GERALDO)

A partir desse dia, Quincas ficou conhecido como o Berro D’Água. E foi no meu bar que ele se fez. Vinha diariamente (Mostra vários quadros de cenas de Quincas virando cachaça; gargalhando; soltando piadas) e quando trazia seus amigos, a diversão era maior ainda! Curió, Negro Pastinha; Cabo Martim e Pé-de-Vento! Os quatro, juntos do grande Quincas, bebiam a noite inteira! (Mostra cenas deles na mesa, se divertindo).

Os dias com Quincas eram certamente bem divertidos e memoráveis, mas teve certa ocasião... Certa ocasião que nunca me esquecerei... (Mostra cena de Quincas desmaiando e sendo arrodeado por uma multidão). Aquele foi o dia da morte.

TELA PRETA – (silêncio)

A notícia rodou rápida e Pastinha – grande conhecedor – foi o primeiro a ficar sabendo; Chegando à mesa do bar, informou a todos a triste notícia:

CENA 4 – Interior; Pastinha conta a notícia.

PASTINHA – (chorando)

O painho da gente... Morreu. (Música triste e todos da mesa se espantam, choram, berram).

CENA 5 – Exterior; Subida da ladeira.

NARRADOR – (SEU GERALDO)

Os quatro amigos se amparavam e com força de vontade, caminharam juntos rumo à casa do defunto. (Os quatro sobem a ladeira soluçando, se erguendo um no outro e, por fim, adentram a casa).

CENA 6 – Interior; Visita ao defunto.

CABO MARTIM – (batendo na porta)

Ô de casa! Abre isso aqui, pelo amor de Deus! (A porta se abre; é Vanda que atende).

VANDA – (triste; escorando-se à porta)

O que querem?

CURIÓ – (pensando)

Eita muié bonita.

PÉ-DE-VENTO – (gaguejando)

Oxe, eu sei quem é tu. É filha do nosso paizinho, que morreu. Eu me lembro de tu, pequena ainda.

VANDA

Vocês eram os amigos de papai, certo? Podem entrar... Ele está naquele quarto.

CABO MARTIM

Com toda a licença viu, dona. (Os quatro entram na casa e dirigissem-se ao quarto).

NO QUARTO: Quincas está deitado no caixão e à sua volta estão os familiares, entre eles Vanda, Leonardo (o genro), e Eduardo e Marocas (os irmãos).

(Leonardo se assusta com os quatro amigos se lamentando ao verem Quincas morto).

PASTINHA – (exagerado, jogado ao chão, se agarrando a Quincas)

AH MEU DEUS, POR QUÊ?! LEVARAM O PAIZINHO DA GENTE! QUINCAS, NÃO, POR FAVOR! Diz que é mentira! (Os outros tentam afastá-lo, incluindo Leonardo).

LEONARDO – (empurra Pastinha para longe)

Larga daqui, peste! Cuidado pra não estragar o defunto! (Pastinha o encara e volta a chorar).

LEONARDO – (chega para junto de Vanda e dos outros)

Vanda, que absurdo é essa? Como você deixa esses sujeitos entrarem aqui?

MAROCAS – (olhando com desprezo)

Como são sujos, fedorentos. Não é a toa que Joaquim morreu, e morreu como eles: bêbado!

VANDA – (estressada)

Cala a boca, sua velha, nunca gostei de você. Não te dou o direito de falar assim do meu pai. (vira-se para Leonardo) E quanto a você, quero que fique bem claro que a casa também é minha, e por isso deixo quem bem quiser entrar por aqui. (Marocas se afasta indignada e sussurra fofocas com Eduardo). (Leonardo fica espantado com o nervosismo de Vanda e volta para falar com os amigos de Quincas).

LEONARDO – (gesticulando)

Olham, vocês podem ficar aqui, sim. Mas a questão é que vamos sair, já está anoitecendo e eu preciso pegar um ventilador, Vanda assinar alguns papéis (ela concorda com a cabeça), e enfim, a casa vai ficar vazia!

MAROCAS – (sussurrando para Leonardo)

Eu também vou com vocês. Sozinho com o povo dessa laia eu não fico.

CABO MARTIM

Não tem problema não senhor. A gente fica aqui, pode deixar senhor.

CURIÓ

É... Não se preocupe não. A gente cuida do velho Quincas.

(Leonardo escuta com um olhar de reprovação e, dessa forma, Eduardo o compreende.)

EDUARDO – (sentando-se em uma cadeira)

Eu fico aqui também. Tô com uma dor de coluna, mas se ficar sentado deve passar.

MAROCAS

É doido de ficar aí.

LEONARDO

Pois então vamos indo. (Eles saem de casa).

CENA 7 – Interior; No bar, de volta a Geraldo e Júlio.

SEU GERALDO – (cena volta para ele conversando com Júlio)

E eles saíram mesmo, Julião. Deixaram o pobre do Eduardo sozinho. (Dá uma risada).

JÚLIO – (interessado)

Bom, e o que foi que aconteceu?

SEU GERALDO

O que aconteceu, meu amigo, é que eles venceram. Anoiteceu. Eduardo não aguentou da dor na coluna e acabou saindo para comprar um remédio.

CENA 8 – Interior; Sozinhos com Quincas.

(Mostra a cena do homem saindo e o Pé-de-Vento trancando a porta).

PÉ-DE-VENTO

“Vamô” aproveitar que a hora é agora, cambada!

PASTINHA

A gente vai levar você pra curtir a noitada, Quinquinhas!

CURIÓ

Como eles foram “capaz” de vestir o homem assim?

CABO MARTIM – (pega um chapéu no armário e roupas mais desleixadas)

Ficou ridículo, o nosso pai. “Vamô” colocar isso aqui nele. (Mostra a roupa escolhida).

TRANSIÇÃO.

PASTINHA

Eita que agora esse é o Quincas que eu conheço, hein.

CABO MARTIM – (levanta Quincas do caixão)

E agora pra dar uma animada, traz a cachaça aí Pastinha! (Martim derrama álcool na boca de Quincas, que engole tudo, arrancando aplausos e gritos dos amigos).

CABO MARTIM

“Vamô” que “vamô” galera! (Abrem a porta e saem caminhando e carregando Quincas nos braços).

NARRADOR – (SEU GERALDO)

Se você quiser acreditar, acredite Julião. Se não quiser tudo bem. Mas você sabe pra onde aquele bando de cachaceiro carregou o Quincas? Onde no planeta eles tinham que vim?

CENA 8 – Exterior; Descida da ladeira.

(Decorre cena dos amigos descendo a ladeira – se divertindo, improvisando, fazendo besteiras – e levando Quincas em direção ao bar de Seu Geraldo).

JÚLIO

Não me diga que...

NARRADOR – (SEU GERALDO)

Exatamente meu amigo. Vieram ao meu bar – e chegaram trazendo nada mais nada menos que maior clima de festa e espanto a todos os que ali dançavam e aproveitavam a noite como filhos de Deus.

CENA 8 – Interior; Noite de festa com Quincas.

(Mostra a cena deles entrando no bar lotado, com pessoas dançando, bebendo e cantando).

CURIÓ – (eufórico)

Minha gente, minha gente, atenção meu povo! (Todos param de dançar e prestam atenção)

PASTINHA

Esse homem que carregamos nos braços, é ninguém menos que o rei da vadiagem, o nosso mestre, o nosso pai, o grande camarada: Quincas Berro D’água! (Gritos da multidão, música reinicia).

MULTIDÃO – (gritando)

Quincas! Quincas! Quincas!

(Começa um empurra-empurra, Quincas cai no chão, é reerguido, todo mundo ri e se diverte).

POLICIAL – (bate na porta)

Abram aqui, é da polícia! (Todos voltam a se calar).

CABO MARTIM – (sussurrando pra Pé-de-Vento)

Eita rapaz, olha aí, enviaram os “homi” atrás da gente.

PÉ-DE-VENTO

A casa caiu.

SEU GERALDO – (chega pra perto da porta e sussurra pro Cabo Martim)

O que vocês vieram arrumar pro meu bar?!

CURIÓ

Calma, calma. Esconde o Quincas, esconde, esconde! (Cabo Martim e Pé-de-Vento carregam Quincas pra dentro).

PASTINHA – (falando pra porta)

O que vocês querem?

POLICIAL

Só conversar.

PASTINHA

Tem quantos de vocês aí?

POLICIAL

Dois.

PASTINHA

Oxe, então conversem entre vocês! (Pastinha começa a rir e Seu Geraldo dá uma tapa nele).

SEU GERALDO

Tá ficando maluco, “caba de peia”?

POLICIAL

É o que? Repita seu vagabundo! Tô avisando, a gente vai arrombar isso aqui!

SEU GERALDO – (abrindo porta)

Não há necessidade senhor. Qual o problema? (Policiais adentram o bar escutando vaias).

POLICIAL

Fomos informados que o corpo do senhor Joaquim Soares da Cunha foi roubado e trazido para esta propriedade. Procede?

PASTINHA – (interrompe com garrafa na mão)

“Procede” é uma tapa na tua cara, rapá! (Empurra policial e começa uma confusão no bar).

NARRADOR – (SEU GERALDO)

Foi com o sacrifício e – ao mesmo tempo – confusão, que Pastinha transformou o meu bar em um tremendo cabaré. E com toda o balburdio gerado, foi mais do que fácil que Quincas pudesse ser levado de volta para casa.

CENA 9 – Interior; Deixando Quincas em casa.

(Mostra cena em que os quatros amigos – todos sujos – fogem do bar e deixam Quincas de volta no caixão, em sua casa).

CURIÓ

Quincas...

PASTINHA – (triste)

Paizinho... É o nosso adeus definitivo? (Os quatro olham para Quincas no caixão e toca uma música triste).

*SIRENE DA POLÍCIA*

CABO MARTIM

Corre galera, corre! E, pra você, Quincas... (Bate continência).

Adeus paizinho nosso!

FADE OUT COM SIRENE DA POLÍCIA DESAPARECENDO

CENA 10 – Interior; Fim do Flashback.

FADE IN – ROSTO DO SEU GERALDO

SEU GERALDO

Pronto Júlio. E era essa a história que eu te queria contar.

JÚLIO

Ué, Seu Geraldo! E o que aconteceu depois?

SEU GERALDO

Ora, como assim?

JÚLIO

Seu Quincas tá vivo! Aliás, vivo como nunca, e bebendo a quinta pinga do dia. Ele não tinha morrido?

SEU GERALDO

E tem pra que explicar isso Julião? Dizem que no outro dia o velho simplesmente levantou do caixão, (começa a mostrar a cena), pôs o velho chapéu na cabeça e saiu de casa, sem ninguém perceber.

CENA 11 – Interior; Quincas acordando e caminhando para fora de casa.

QUINCAS

Sono miserável.

NARRADOR – (SEU GERALDO)

E se um dia você quiser saber mais sobre isso, pode ir lá... Vá, com toda a sua vontade e pergunte o que aconteceu. Pergunte o motivo da sua morte. E quando fizer isso, me chame, pois se realmente perguntar, pode ter a certeza que – com toda a cara de pau do mundo – ele responderá com estas palavras:

CENA 12 – Interior; Frase final de Quincas – sobre o ocorrido.

ZOOM EM QUINCAS — NO BAR

Aquilo foi uma tremenda duma ressaca!

TELA PRETA – (créditos finais)

Notas finais
:)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!