Hermione experimentava o verdadeiro sentido da palavra “tédio”, sentada naquela cadeira e ouvindo Harry e Rony repassarem o plano pela centésima vez. Eles não sabiam que ela podia simplesmente entrar pela porta da frente do Gringotes e pedir para entrar no cofre da família Black, então ela tinha que aturá-los falando e falando sem parar. Regulus já cochilava no seu canto, mas Harry e Ron estavam tão absortos em seu plano que nem notaram. Ela poderia fazer o mesmo, sim, mas eles olhavam para ela de dois em dois segundos para verificar se ela compreendera ou tinha alguma mudança para fazer.

E ela tinha. O plano era, para ser direta, horrível. Não que a qualidade do plano fosse alterar no sucesso da missão, de modo algum! Hermione poderia entrar no Gringotes cheio de duendes e Comensais com uma placa de néon na cabeça dizendo: “EU VOU ROUBAR UMA HORCRUX DE LORD VOLDEMORT PARA DESTUÍ-LO” e todos iam agir como se fosse a coisa mais normal do mundo.

—Não acham que seria melhor eu simplesmente entrar, com vocês cobertos pela capa e com o Regulus usando um feitiço para mudar a aparência? Seria mais simples.

—Não, Hermione, é muito arriscado – Ron respondeu sem tirar os olhos do mapa do Gringotes que eles tinham feito. –Além do mais, alguém poderia reconhecer Regulus.

—Todos pensam que ele está morto. E eu acho que é muito bom. Simples e objetivo. Entramos, pegamos e saímos antes que alguém se dê conta – ela concluiu prendendo o cabelo. – Além do mais...

—O que é isso roxo no seu pescoço? – Harry perguntou assim que Hermione terminou de prender os cabelos.

A mão de Hermione foi automaticamente para onde Harry olhava. Ela não sentiu nada, mas mesmo assim fez uma leve careta de dor.

—Pensei ter ouvido um barulho durante a noite, pesadelos, sabem? Então eu me levantei no escuro e acabei batendo na quina de uma prateleira. Não foi nada de mais – ela os assegurou.

Pensar naquela marca em seu pescoço a lembrou da noite passada com Tom e um leve sorriso apareceu em seus lábios. Ela tinha passado a noite fora, escondida como uma adolescente, e tinha se sentido completa de novo quando ela e Tom se amaram depois de semanas.

—Mas voltando ao assunto – continuou -, eu ainda acho melhor entrar pela porta da frente com vocês invisíveis e Regulus disfarçado. Qualquer coisa vocês podem lançar um Imperio em quem quer que esteja causando problemas. Somos bruxos, afinal.

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Ela sentia os olhares dos duendes e de alguns Comensais em suas costas e ouvia os passos de Harry coberto pela capa da invisibilidade, ao seu lado, Regulus, loiro e bronzeado, olhava para todos e tudo com fascínio. Às vezes ela esquecia que ele realmente se fez de morto por vários anos e, embora tivesse uma certa liberdade, não podia sair andando pelas ruas e lojas. Pensou em como se sentiria no lugar dele.

Mas logo deixou de pensar nisso. Tinha uma missão e deveria se concentrar inteiramente nela naquele momento. Aprumou-se em um dos infinitos vestidos verdes de Walburga e dirigiu-se até um duende com Regulus a seguindo e os meninos ao seu lado; ela podia ouvir a respiração descompassada de Harry.

Ron tinha ficado na casa dos Black, guardando o forte e servindo de possível reforço externo caso fosse necessário. Ele não ficou muito feliz com a ideia, mas ao longo das duas semanas que tinham passado aperfeiçoando o plano e criando problemas e como resolvê-los, todos viram que a capa não seria o suficiente para cobrir Harry e Ron de modo seguro, sem o risco de alguém ver os pés deles ou algo assim.

—Eu desejo entrar no cofre de minha família – ela disse petulante, com todo o desdém que podia. – Certamente sabe quem eu sou, espero.

O duende tomou um susto quando se deparou com ela ao levantar a cabeça. Eles a esperavam, mas mesmo assim era uma surpresa ver a Lady das Trevas em pessoa, mesmo que no momento ela ainda empenhasse o papel de amiguinha do Potter.

—A s-senhora... – ele começou gaguejando, sabia que era para deixá-la entrar sem causar problemas, junto com qualquer pessoa que a estivesse acompanhando-a, incluindo Harry Potter que ele sabia que estava coberto por uma capa da invisibilidade. Tudo, aparentemente, fazia parte de um complicado e importante plano do Lord das Trevas para derrotar Potter.

—Sim, eu. Poderia levar-me logo até o cofre de minha família? – Depois se virou para Regulus e comentou, como se o duende não estivesse presente: — Estás vendo, Euphemio, como esses duendes ficam mais estúpidos com o passar do tempo.

—Sim, minha senhora – Regulus concordou, mas ela notou a faísca nos olhos dele. Certamente estava se perguntando da onde Hermione tinha tirado aquele nome.

—E, como me parece ser um estúpido, acho bom informar-lhe que quero entrar no cofre da Família Black e não da Família Lestrange. E é bom ir rápido, estou com pressa.

O duende se desculpou e logo os levou para um vagonete vago. Hermione sentou o suave roçar do tecido da capa ou sentar-se no canto do banco. Regulus sentou-se do outro lado, aparentemente dando um respeitoso espaço para ela. Hermione nunca se acostumara com o ritmo alucinante em que as conduções do banco bruxo se moviam e o fato do cofre dos Black ser um dos mais profundos não ajudava nada, então quando finalmente chegaram ao destino, Hermione estava verde e um pouco tonta e demorou-se para sair do vagonete, ela se perguntava se Harry também se sentia tão mal como ela. O duende, no entanto, não demonstrava estar nem um pouco afetado.

Quando se levantou, pronta para seguir o duende e Regulus que já estavam em frente a uma porta, sentiu algo segurar seu pulso, impedindo-a de levantar. Soltou um arquejo de surpresa que atraiu a atenção de Regulus e do duende.

—Está tudo bem, senhora? – O duende perguntou se aproximando, mas parou quando Regulus postou-se a sua frente e seguiu até Hermione.

—Não se preocupe comigo, duende – Hermione disse com arrogância e desdém para o duende, ignorando-o assim que Regulus ajoelhou-se na sua frente, verificando se estava bem. – Euphemio, eu estou bem. Foi só um enjoo, essas coisas que não se movem direito e meu atual estado não contribui, você sabe... Vamos pegar o que quero logo e sair daqui o quanto antes.

Ela fingiu que estava se recuperando do falso súbito enjoo e Harry começou a sussurrar baixinho para que só eles ouvissem:

—Está muito fácil. Possível armadilha.

Regulus concordou com um rápido aceno de cabeça, sendo seguido por Hermione que se levantava. Foram até o duende, os garotos apreensivos e alertas, procurando por uma possível armadilha. Não trocaram nenhuma palavra entre si, nem com o duende e entravam rapidamente no cofre dos Black.

O cofre dos Black era enorme. Gigante e cheio de joias, mobílias antigas, quadros de antepassados e amigos, galeões todo o tipo de tesouro imaginável. Nem se Regulus e Sirius tentarem gastar tudo iriam conseguir. Hermione se perguntava como iria achar um colar em meio àquilo tudo.

Regulus foi à frente por ser o único que sabia onde a Horcrux estava, e para disfarçar, Hermione enchia uma bolsa que tinha encontrado com algumas joias e galeões distraidamente e parava para observar alguns retratos. Todos eram um pouco parecidos com ela, sua mãe, Regulus e Sirius. Os traços Black se mostravam presentes em cada pintura, os mesmos cabelos negros, os mesmos olhos escuros.

—Eles são assustadoramente iguais a nós, não são? – Ela ouviu a voz de Regulus atrás de si e se virou rapidamente.

Ele carregava a Horcrux pela corrente e ela logo enfiou na bolsa, ignorando o constante olhar de vigia do duende sobre si.

—Ah, que bom, Euphemio! Demoraria eras para achar esse colar! Vovó Druella escondeu-o muito bem, não acha? – Ela sorriu para ele como se fossem velhos amigos. – Estou levando umas joias, tenho certeza que a pequena Scarlett vai gostar.

—Sim, minha senhora. Minha Scarlett é muito vaidosa.

Hermione concordou e andou lentamente até a porta, dando tempo para que Harry pudesse segui-la de onde quer que estivesse, quando sentiu a capa roçar pelo seu braço esquerdo se agilizou.

—Vamos logo, duende.

Ela tinha que admitir que estava gostando de ser arrogante com o duende. Talvez o seu sangue Sonserino estivesse entrando em ação. Sorriu ao sentar-se no vagonete e passou o resto do caminho até a entrada do Gringotes absorta em seus pensamentos.

Quando finalmente chegaram ao hall de entrada, Hermione se levantou com toda a dignidade e seguiu para a saída, ouvindo os passos de Harry ao seu lado. Ignorando novamente os olhares e cochichos se dirigiu para a saída, parando somente na metade do caminho para dizer à Regulus que estava atrás dela:

—Euphemio, sabe o que tem que fazer.

.

—Euphemio? Sério?

Hermione deu de ombros, com a boca cheia da deliciosa comida de Monstro.

Chegaram do banco da hora do almoço e aproveitavam para contar os detalhes para Rony enquanto comiam. O ruivo ainda não tinha superado o fato de ter ficado fora da missão e resmungava coisas incompreensíveis ocasionalmente.

—Em defesa de Hermione, eu achei um belo nome – Harry declarou rindo. Depos de um tempo em silêncio, ele perguntou. – O que você quis dizer para Regulus na saída do banco? O que ele tinha que fazer?

Regulus olhou rapidamente para Hermione, que apressou-se em responder.

—Ele foi apagar a memória dele. Ele viu o Regulus me entregando o medalhão e eu tenho certeza que à essa altura Você-Sabe-Quem já sabe que essa Horcrux não está mais onde ele deixou.

—Foi tão fácil assim? – Rony falou pela primeira vez desde que eles tinham chegado. Ele pensava que tinha perdido uma grande aventura e não acreditara facilmente que tudo ocorrera tão fácil.

—Foi – Harry concordou. – Entramos e saímos, ninguém tentou nos impedir.

—Isso certamente foi um plano maluco do meu amado marido – Hermione disse sarcástica. – De qualquer modo, temos que achar um jeito de destruir a Horcrux.

—Pelo o que eu entendi, Harry destruiu uma no segundo.

—Sim – Harry parecia perturbado com a lembrança. – Usei a espada de Gryffindor que estava coberta de veneno do basilisco. Só que ela está em...

—Hogwarts – os outros três completaram.

—E os dentes? Também estão cheios de veneno? – Regulus perguntou.

—Ainda na câmara, em Hogwarts – Harry parecia desolado ao responder.

—E não podemos entrar lá. Com o Ministério nas mãos de Você-Sabe-Quem, Hogwarts deve estar totalmente protegida e não sabemos quem será o novo diretor...

—Sim, nós sabemos tudo isso, Hermione. Mas temos que conseguir a espada ou os dentes do basilisco, e descobrir onde estão as outras Horcruxes que não fazemos ideia de onde estão.

—E – Ron completou -, saber o que aconteceu hoje. Não foi sorte nada ter acontecido no Gringotes. Você tem alguma ideia de onde possa estar alguma Horcrux, Harry?

—EU NÃO SEI! –Harry explodiu, batendo com as mãos na mesa. – Eu não sei, ok?

Harry se levantou e foi direto para o quarto. Deixando os três sozinhos na cozinha. Olhando bem para Rony, e como ele reagiu àquela nada animadora conversa, Hermione soube que seria uma questão de tempo até ele perder totalmente a fé, supondo que ainda tinha alguma.

—Monstro – ela chamou o elfo gentilmente, sendo a boa menina que ela devia fingir ser -, tire a mesa, por favor. Acho que todos devemos descansar e esfriar a cabeça.