Notas iniciais
Espero que gostem, bjos.

Sabe? Eu admiro aqueles que conseguem sorrir com os problemas, que conseguem reunir forças no medo, que mesmo com tudo desmoronando, jamais perdem a esperança. Eu queria ser assim, eu tentei ser assim. Mas como a ordem natural da vida, eu não nasci para ser assim. Quem sou eu? Eu sou aquela que deu inicio a Tristeza e também ao Sofrimento. Eu sou a Angústia.

Eu sou uma emoção que precede algo, um acontecimento, uma ocasião ou circunstancia. Também pode se chegar a mim através de lembranças traumáticas que dilaceraram ou fragmentaram o ego. A angústia também é considerada uma sensação psicológica que se característica pelo sufocamento, pelo peito apertado, pela ansiedade, insegurança, falta de humor, e com sentimentos aliados a alguma dor. Em outras palavras, eu sou considerada uma doença que precisa ser tratada.

Para muitas pessoas eu sou considerada uma visão extremamente pessimista da vida. Para eles, viver é necessariamente sofrer. Por mais que se tente conferir algum sentido à vida, na verdade, ela não possui sentido ou finalidade alguma. A própria vontade é um mal. As pessoas desejam vencer, querem vencer. Mas a vontade gera a angústia e a dor. E até os mais ternos momentos de prazer, por mais profícuos que possam vir a ser, são apenas intervalos frente à infelicidade. Alguns até dizem que eu surjo no momento em que o homem percebe a sua condenação à liberdade, por isso se sentem angustiados, já que sabem que são os senhores do próprio destino. Mas quer saber? Em partes eles estão certos. O ser humano é um ser imperfeito, aberto e inacabado. Foi lançado ao mundo sem o seu consentimento ou querer. Sua existência é determinada pelas contingências da vida e pelas circunstâncias históricas e sociais. O ser humano é também um ser marcado pelas adversidades e por uma certa quantidade de sofrimentos: dor, injustiça, medo, insegurança, fracassos, lutas, catástrofes, envelhecimento, doenças e morte. Desse modo, a existência humana não é plena e feliz. Cada qual age no mundo superando ou não as dificuldades e obstáculos que a existência lhes impõe. Nesse sentido a vida humana é marcada pela angústia.

A angústia é uma característica fundamental da existência humana. É na angústia que percebemos o nada como essa sombra que paira sobre todas as coisas. O nada que tudo aniquila, que está sobre e além de nós. Na angústia todas as coisas se nivelam. Tudo se torna efêmero, tudo se torna igual. O mundo perde sua cor. Tudo caminha para seu ocaso. Tudo caminha para seu fim e decadência. Na angústia percebemos que somos um ser para morte. É a morte que retira todo o sentido da vida, certo?

Mesmo sendo um sentimento raro, fugaz, é na angústia que o ser se desvela em sua plenitude. Experimentamos a angústia quando nos sentimos farto das coisas, tudo se torna igual, tudo perde sentido. O que caracteriza essa experiência é “a fuga do ente em sua totalidade”. O ente nos escapa. Quando o ente foge, nesse instante, apreendemos o nada. É uma experiência de vazio, nos sentimos estranhos. Todas as coisas e nós mesmos afundamos numa indiferença. A angústia “emudece”, nos “corta a palavra”, pois não há nada em que nos apoiar. O ente não mais está lá. Só nos resta o vazio que sentimos. Quando uma pessoa se encontra angustiada e perguntam o que sente; ela geralmente diz: “não é nada não”, “não há nada, vai passar”. Essas expressões mostram que o indivíduo não entende o que o angustia, não sabe o que se passa. É o nada que os assedia. Não há palavras para expressar o nada que sentimos. O nada não pode ser definido. Porque, na maioria das vezes, a angústia é justamente isso, é um nada que você simplesmente sente.

O homem não tem uma natureza determinada, não existe uma natureza humana pronta e acabada. Ele é um ser inacabado, sempre aberto ao futuro. É na angústia, portanto, que ele percebe essa indeterminação, esse vazio que é a existência. É nesse vazio que o homem encontra a si mesmo. A natureza humana é essa abertura para as coisas, é esse vazio que busca ser alguma coisa. O homem é projeto. A necessidade de viver é uma necessidade de preencher esse vazio, de projetar-se no futuro. É o anseio de ser o que não é. É o anseio de continuar sendo. O homem só pode transcender se for capaz de projetar-se. Assim, ele sempre busca um sentido para sua vida. A angústia contém na sua unidade emocional, sentimental, essas duas notas ontológicas características; de um lado, a afirmação do anseio de ser, e de outro lado, a radical temeridade diante do nada.

A angústia é, dentre todos os sentimentos e modos da existência humana, aquele que pode reconduzir o homem ao encontro de sua totalidade como ser e juntar os pedaços a que é reduzido pela imersão na monotonia e na indiferença da vida cotidiana. A angústia faria o homem elevar-se da traição cometida contra si mesmo, quando se deixa dominar pelas mesquinharias do dia-a-dia, até o autoconhecimento em sua dimensão mais profunda.

Mas, vocês sabem como eu surgi? Não? Muito bem, vou lhes contar essa triste e angustiante história. Há milhares de anos atrás, quando Deus criou o universo e tudo que o compõe, ele também criou dois seres. Na verdade, dois irmãos, que apesar de serem completamente opostos, ainda assim, não se desgrudavam. Um se chamava Vida, aquele que se comparava a luz, aquele que deu sua graça ao homem para que populasse a terra. E o outro se chamava Morte, aquele se comparava a escuridão, aquele que era responsável por levar as almas ao descanso eterno. Um dia, em uma tarde fria de inverno, uma bela jovem conheceu um rapaz. O Amor, feliz por aquele encontro, logo os acolheu. E aqueles dois jovens viveram na plenitude da vida. Mas graças a um acidente, a Morte foi obrigada a levar a alma do pobre rapaz, deixando assim, o coração da moça transbordar em dor. Com o passar dos meses, aquela dor que a consumia nos primeiros dias de perda, deu lugar a saudade. Mas quando a saudade também se foi, ela se sentiu vazia, sozinha, e naquele momento um sentimento novo cresceu em seu interior, um sentimento que ela não conseguia explicar com palavras, somente sentia. E foi exatamente ali onde eu surgi. Foi em uma mesclagem de dor e Saudade que a Angústia foi gerada.

Essa sou eu. Aquela que surge quando você perde um ente querido. Aquela que muitas vezes surge sem explicação. Aquela que, juntamente com a Solidão, acaba se tornando sua maior companhia nessa longa estrada chamada de Vida. Mas, não quero que se sintam angustiados, pelo contrario, quero que se sintam felizes. Então, quando a angústia bater em suas portas, não deem espaço para ela entrar. Vão atrás daquilo que lhes faz bem. Seja ouvindo uma música, ou simplesmente assistindo ao por do sol. Conversem, façam amigos, porque aí sim, não sobrará espaço para a angustia e ela então irá embora. Mas isso não quer dizer que ela não volte algum dia. Acreditem, ela vai voltar, sem explicação, simplesmente chegará e se apossará de vocês novamente. Mas vocês conhecem a Amizade? Pois é, ela estará do lado de vocês para fazer de seus dias mais suportáveis. Mas querem saber? Vou dar-lhes um conselho e espero que o sigam, ou pelo menos tentem: Recomecem... Se puderem, sem angústia, sem pressa e os passos que derem, nesse caminho duro em direção ao futuro, busquem a felicidade, enquanto não alcançarem não descansem, pois de nenhum fruto deve querer-se só a metade.

“O teatro é o primeiro soro que o homem inventou para se proteger da doença da angústia.”

— Jean Barrault