A Verdade Através do Sangue
8 A Fênix de Hope
Notas iniciais
Ele abriu os olhos lentamente, evitando saber o que tinha acontecido com ele. Olhou a sala cinza ao seu redor. Não havia nada além de seus setenta quilos de carne e uma toalha furada debaixo dele. As manchas e os furos de bala o fizeram se sentir em casa. A bombinha de asma tinha ficado na viela na noite em que ele tomou os tiros. Não havia nada restante em seus bolsos. Sabia que não era um lugar amigável, se estivesse em casa, Hope estaria ao seu lado, esperando que ele levantasse.
Os buracos das balas estavam costurados. Ele testou as pernas, colocando-se de pé. Ainda conseguia derrubar uns três antes de cair. Andou até a porta e abriu. Poderia ver a mesa de jantar da mãe a sua frente. Estava lotada de comida e bebidas. Não ousou avançar, mas não havia outro caminho. Seguiu pelo corredor até a ampla sala, sabendo que não encontraria ali nenhuma palavra ou gesto acolhedor.
— Vejam só, o favorito acordou – Victor comia como um porco. Tirando o impressionante tamanho, não havia motivo para a mãe ter dado o trabalho de tutor a ele.
— Oi Victor, estava com saudades de você. Agradeço por ter me recolhido do beco, mas se não se importa, eu preciso ir encontrar Hope – mancando, Caled se pôs a andar na direção oposta do inimigo de Hope.
— Eu me importo. Mandei fazerem esse banquete para nós comermos. Não esperava que você acordasse agora, ainda assim, nosso outro convidado vai adorar te ver. Por favor, sente-se a mesa, eu insisto – um dos guarda-costas dele puxou a cadeira onde o menino deveria se sentar. Victor não era fácil de derrubar, por isso tinha sobrevivido tanto tempo nas gaiolas. Hope o odiava pelo jeito como ele agia. Seguia ordens da mãe, tinha senso e não um cérebro. O porco foi colocado para treinar as crianças, antes que Hope pudesse escolher os melhores. Ele não tinha técnica e não podia ensinar os pequenos como ser grande o suficiente a ponto de ninguém te derrubar.
— Hope vai ficar chateada conosco se eu não mexer meu traseiro até lá. Espero que seu convidado não fique chateado com isso – Victor retribuía o ódio por Hope e seus pupilos. Os seus protegidos não duravam malditos cinco minutos com os prodígios dela. Ele não conseguia ensinar, então colocava outras pessoas para dar aula, porém seus alunos não subiam de nível tão rápido quanto os dela.
— Ele veio atrás de você quando soube da sua possível morte. Eu o acolhi, é claro. Ele não foi tão gentil, então esperei que você pudesse convencê-lo a falar. Tragam o menino – o tutor largou o osso do frango no prato. Caled se sentou, sabia que tinha que cooperar para que soltasse o outro. Teria que ceder as rédeas a Victor, em consciência de que Hope o faria pagar por tudo aquilo.
De algum lugar no mesmo corredor em que Caled saiu, dois lutadores de gaiola tiraram Luca. O garoto foi jogado com força no chão, em frente os pés de Caled.
— Aí está, o pequeno negrinho vai me falar tudo o que quiser agora. Eu te trouxe o seu maldito herói, cumpri minha parte do trato. Sua vez.
Caled levantou o amigo. Luca era o menor entre eles. Tinha os dez anos nas feições e nas cicatrizes, entretanto seu esquio tamanho permitia que ele cumprisse algumas tarefas mais rápido que qualquer outro. Ele nunca escondeu a admiração pelo parceiro de crimes. Os dois olhavam Victor na ponta da mesa. Essa era distância que separava Caled do pescoço do seu torturador. Havia mais do que ódio nos olhos do garoto.
Não diga nada soou da boca de Caled até os ouvidos de Luca.
— O que você quer saber? – todos os prodígios de Hope carregavam o mesmo tom de desprezo por Victor. Talvez por todos.
— Quero saber como sua tutora faz para ter os melhores lutadores dentro da gaiola e como ela treina vocês. Tudo muito simples – o lutador limpou as mãos na toalha e apontou para a cadeira, na qual Caled tinha se sentado antes. – Eu me apressaria, só um de vocês vai ocupar essa cadeira daqui a pouco.
— Eu falo. A Hope conversa muito com os apostadores e com os olheiros, assim ela sabe quem comprar e quem ajudar. Quanto a nós, ela nos treina duas vezes por dia e cinco dias por semana, até coloca a gente com alguns mais velhos para aprender como se luta. É assim que ela faz dinheiro e fama, ela sabe como o esquema funciona – Caled estava com a cabeça erguida, mais do que de costume. Ele não hesitou em nenhuma parte de seu discurso.
— O que ela diria quando soubesse que foi traída pelo preferido? Eu adoraria ver essa cena, mas deixemos isso para depois do jantar. O lugar é seu. Meninos, eu ainda vejo um negrinho na minha frente – ele pegou um palito e limpou os dentes. Caled se virou para o amigo e pediu desculpas. Ele se sentou ao lado de Victor, puxou o garfo e começou a comer.
Os dois subordinados se acotovelaram para se divertir com Luca. Ele lutou contra os mais velhos durante alguns minutos, tempo suficiente para que Caled engolisse a comida. Ele se arrependeria quando tivesse que contar o que tinha em mente para a mãe, mas Hope teria orgulho dele.
Victor era difícil de derrubar, duas gerações já haviam que não era impossível. O asmático e a treinadora dele o humilharam na frente da mãe. Eles teriam que pagar um preço, nem que fosse mínimo. O problema é que Victor não passava de um cachorro grande batendo a cabeça na parede, enquanto Hope e Caled estavam mordendo suas patas e arrancando pedaços.
No momento em que Luca caiu no chão e entrou debaixo da mesa, Caled começou a contagem regressiva. Três caras antes de cair, o treinamento tinha que funcionar. O garfo em sua mão ficou fincado na de Victor, prendendo seu braço esquerdo a mesa por algum tempo. Caled só teria que derrubar os outros dois, nada difícil, eram os melhores de Victor, não chegavam aos pés dele. A faca que Victor usou para cortar o jantar foi a mesma que Caled usou para fazer um dos porcos sangrarem. O outro não era um problema, movimentos repetidos. Soco na esquerda, tentativa de gancho pela direita. O menino levantou os braços para se defender, seguindo o ritmo do adversário. Por mais que estivesse só na defensiva, os quatro que sobraram sabiam que quem guiava a dança era Caled. O lutador baixou a guarda, esperando não estar morto assim que aquilo acabasse. Caled moveu-se rápido, os dois braços que estavam levantados para impedir os socos agarram as mãos do oponente. Não havia defensa. A cabeçada veio em seguida, Caled soltou os pulsos do adversário que caiu na sua frente. Era a perna baleada, mesmo assim o prodígio atingiu o rosto do rival com o peito do pé.
— Dois a menos, só falta um – Caled olhou Victor, de pé com a mão sangrando.
— Eu não serei o terceiro antes que você caia – o garfo estava no chão, havia sangue até o cabo.
— Eu já te derrubei uma vez, não vou fazer de novo, dessa vez, Luca vai – o tamanho impedia que o ex-lutador se move-se mais rápido que o outro protegido de Hope. Luca estava agachado atrás das grossas pernas de Victor, que caiu assim que o viu.
— Calcanhar de Aquiles, todo mundo tem, no nosso caso, são dois – Luca entregou para Caled o coturno esquerdo e a faca. Um truque ou um plano B, todos os aprendizes de Hope tinham um.
Os dois saíram de lá, teriam muito o que se explicar. Caled tinha furado a mesa de jantar da mãe com o garfo e Luca teria que contar que Victor não andaria de novo, muito menos lutaria. Estavam vivos e tinham feito estrago, a mãe teria que considerar que tinham feito um bom trabalho. Se não fossem as regras, eles até sairiam limpos. Não sofreriam punições severas, ficariam na gaiola por alguns minutos, ou talvez tivessem que limpar a casa inteira por alguns dias, poderia até ser que recebessem algumas missões e tudo acabaria bem.
Eles só esperavam que fossem os únicos com problemas, depois que a mãe chamou Bryan, eles não eram mais.
Fale com o autor