A Velha Baronesa
1 As Crônicas de Outono | "A Velha Baronesa"
Quando criança Filipe ia direto ao antigo palacete que outrora fora a residencia de sua família. Uma residencia antiga que abrigou o antigo monarca que ergueu sua casa. O Rei Hernan foi quem liderou os exércitos contra os Simicae na guerra que hoje é intitulada "Os Últimos Dias da Magia" naquela que foi a batalha mais sangrenta; "A Batalha da Planície Desolada" que muitos foram mortos em prol de um futuro de paz.
Hoje "A Velha Baronesa" é residência da Família Wolffman. Aliados antigos da Família Hernandez que ajudaram na guerra. A única casa que não pediu terras do Continente de Novae, preferindo ficar fora e cuidando das regiões adjacentes. Mais de cinquenta anos se passaram e a Família Wolffman foi fiel ao Rei de Novae e, portanto, um refugio da casa real para com o resto do mundo.
Tudo isso estavam nos livros de histórias, hoje nas raras bibliotecas que poucas casas possuíam. Elas ditavam a verdade, ou pelo menos a verdade daqueles que a escreveram. Era nesses livros que o pequeno Filipe de oito anos lia atentamente junto de sua amiga — E princesa — Vitoria Wolffman.
— Nossas famílias então são aliadas? — Perguntou o filho mais novo do Rei.
— Sim, por mais de cinquenta anos e ainda somos aliados fieis da coroa de Novae. Meu antepassado ajudou o seu antepassado a vencer a guerra. Somo família praticamente...
— Mas o que famílias aliadas fazem... Exatamente?! — Perguntou ainda cheio de duvida, o jovem príncipe.
— Fazemos alianças, né... Se um dia surgir novas guerras, o Rei Eduardo III... — "Meu pai?" Pensou Filipe" — Irá pedir ajuda ao meu pai, o Barão Vagner e daremos nosso exercito pela aliança que temos a cinquenta anos.
— Como você sabe tudo isso?
— Porque eu tenho aulas com meu professor de história. Ele disse que eu serei Rainha um dia e devo saber dessas coisas para desposar o herdeiro ao trono de Novae...
Naquele instante, Filipe percebeu que nunca teve aulas de história em casa e que apenas aprendia o básico das coisas, e que essas aulas e muitas outras apenas seu irmão mais velho as tinha. Eduardo , o IV de sua família, além de seu pai, seu avô e trisavô. Todos os herdeiro ao trono mantiveram os nomes parecidos desde que o primeiro Rei; Hernan deu ao seu filho o nome de Eduardo.
Eduardo não era exatamente o mais velho de seu pai. Tinha uma irmã, Aline de vinte e dois anos de idade, filha apenas de seu pai com sua primeira esposa, a Rainha Nora que morreu no parto ao dar a luz a Aline. Mas de acordo com as leis, somente homens podiam assumir a coroa e, portanto, apernas seu irmão Eduardo, o quarto de seu nome poderia ser rei.
— Você irá se casar com meu irmão? — Perguntou o jovem de oito anos.
— Minha mãe diz que a aliança deve continuar. Nossas famílias tiveram uniões ao longo dos anos. E é pelo casamento que isso ocorre.
Muitas daquelas palavras o jovem príncipe estava descobrindo apenas agora. Seu pai nunca lhe contara nada daquilo. Ele não sabia qual seria então o seu destino. Se apenas seu irmão seria Rei para o que então ele estava destinado? — Naquela noite, após um jantar ele foi falar com sua mãe; a Rainha Miriam Hernandez, que outrora foi uma das filhas do Capitão Emílio Martinez, Duque da província de Novae, seu avô que ganhara esse titulo após o casamento de sua mãe com seu pai.
— Mamãe, porque o Edu será rei?
— Um dia, ele será rei. Quando seu pai não estiver mais aqui — Disse sua mãe, um tanto curiosa com a pegunta séria de seu filho de oito anos.
— O que eu serei, quando crescer?
Uma pergunta que ela nunca imaginária que o garoto perguntasse. Filipe ainda era uma criança e suas brincadeiras eram aquelas de meninos sobre guerras e heróis de armadura com espadas em punho.
— Você pode ser um cavaleiro. Um herói que luta por um ideal. Você ama isso e quando crescer pode ser um cavaleiro.
— Mas a vivi me disse que ela está aprendendo muitas coisas sobre as antigas guerras, para casar com o Dudu e se tornar rainha. Porque eles dois aprendem isso e eu não?
A conversa estava indo para outros lados que agora Miriam não saberia responder. Ela sabia que seu marido estava ensinando apenas um de seus filhos a governar e sabia que a aliança com a família Wolffman deveria ser continuada. Quase acabou uma vez, pois os Barões da da Velha Baronesa não tinham filhas mulher durante muito tempo e portanto, os Hernandez eram obrigados a encontrar outras esposas para se casar. Foi assim que Miriam tornou-se rainha e também a primeira esposa se seu marido.
Ela não sabia o que responder para seu filho, quando a Baronesa levantou-se, foi até o menino, abaixou dando um sorriso terno para ele.
A Baronesa Dafne Wolffman era a esposa do Barão. Muitos acreditavam que ela mandava até bem mais do que seu marido. Alguns ainda acreditavam por certa coscuvilhice de que ela era a Velha Baronesa renascida; Uma lenda que contavam por baixo de seu nariz. Era um palacete bem velho, um aparecido na vida daquelas duas famílias e que hoje é um simbolo.
— Você é o segundo na linha de sucessão ao trono. Não estamos mais em guerra, pequeno príncipe, seu pai não acredita ser importante ensinar seus dois filhos a governar. Você pode ser outra coisa, qualquer coisa que você quiser.
— Eu posso ser um cavaleiro — Disse Filipe, imitando as palavras de sua mãe.
— Claro, um cavaleiro ou um Duque, Barão, qualquer coisa. Um rei é apenas um rei e aquela será a sina dele. Você terá o direito da escolha, jovem Filipe.
Aquelas eram palavras que o príncipe jamais esqueceria. Ele teria direito de escolha e tudo mudaria quando crescesse.
Ele continuou ali, na Velha Baronesa e brincava com Vitoria. Apesar de toda manhã ela ter aulas de como tornar-se uma Lady, um espaço para que aprendesse como ser uma rainha. Ela era muito observadora e via como sua mãe e até a própria Rainha Miriam se comportava. Filipe achava aquilo curioso, pois via a pequena garota de dez anos tentando comporta-se como uma adulta. Mas quando brincavam, ela voltava a ser uma criança. Apesar de ser mais velha que ele, ambos tinham o mesmo jeito e gostavam de "ser" o que quisessem.
Naquela tarde, ele era o grande cavaleiro que derrotou um temível dragão resgatando a rainha, que era ela mesma, para depois descobrir que não estava sendo mantida e sim escoltada pelo dragão. Ela era uma feiticeira e jogou uma maldição para que todos a seguissem sendo a única rainha daquele povoado. O feitiço não pegava no nobre cavaleiro que desafiou a feiticeira em combate singular.
— "Eu pensei que você fosse uma princesa em perigo" — Disse Filipe, passando-se pelo grande herói das lendas, Artur Hernandez, um de seus antepassados, responsável pelo cerco à edificação de Gibraltar. Era ele seu maior herói ao ponto de "ser" ele na brincadeira.
— "Eu não sou uma donzela em perigo que nada faz. Sou uma feiticeira poderosíssima. Mereço mais do isso" — Disse entre risadas e "poderes conjurados".
— Você é poderosa sim — Disse o "cavaleiro" — Por isso, não quero lutar com você. Quero que sejamos aliados e você pode junto a mim conquistar os reinos dos meus... Nossos inimigos.
Por um breve momento, Vitoria parou de "atuar" e percebeu que aquela frase dita por Filipe, veio um pouco da conversa que tiveram e também da conversa que ela viu dele com sua mãe. Ele estava fazendo algo que geralmente é aprendido por ela em suas aulas. Algo feito pelas duas famílias há muito tempo. Mesmo sem aprender diretamente, ele havia assimilado aquele ensinamento.
— Os nossos inimigos... — Ele repetiu para ela, perdida em seus pensamentos — Feiticeira, junte-se a mim.
Ela então deu por si, sorrindo como a feiticeira dela sorria e aceitou segurar a mão que agora o cavaleiro erguia para ela.
Em seguida ambos fizeram uma aliança e se "casaram" para unificação entre o cavaleiro e a feiticeira. Ela usava um longo vestido branco de sua mãe que parecia um vestuário de casamento e ele um gibão do pai da garota. estavam no bosque e repetiram palavras um para o outro; Essas que eram palavras que ele também sabia, por ter visto nos templos em cerimonias de casamento
"Em nome da Mater Orbis, mãe de todos nós e geradora do Mundo. Una eu a ela/ele e ela/ele a mim em sagrada união. Em nome dos quatro pilares; Aquam et Ignem Aera et Terram e em toda a criação de Qui Fecit. Eu sou dela/dele e ele/ela é meu, desde esse dia até o fim dos meus dias".
Palavras da união em Novae — Templo de Orbiza, Sacerdote Montevidal
Filipe então colocou sob a cabeça de Vitoria uma coroa de flores e sob a dela ela pôs uma cora de galhos. Eles então usaram alianças improvadas de galhos secos e terminaram a união entre eles com um beijo, simples de suas crianças.
— Estamos casados, agora — Disse a menina, com um sorriso no rosto.
— Você se casou comigo, por mais que fosse uma brincadeira — Ele riu — Somos casados por dizer as palavras da União?
— Não sei... Mas eu gostei e acho que você poderia ser um bom rei...
Filipe sorriu um pouco acanhado e tudo aquilo parecia estranho para ele no momento. Hoje com quinze anos de idade, ele pensa naquele tempo e lembra como a vida era mais fácil quando criança. Queria que aquele momento nunca tivesse acabado. O hoje não é bem o que ele esperava. Não tornou-se cavaleiro, não será Rei e não esposara a mulher que ama...
— Para onde você vai? — Perguntou a jovem e bela Vitoria — Seu pai sabe que você está aqui?
— Não, mas logo mandara seus homens a minha procura aqui. Não posso ficar muito tempo, eu vim por sua causa. Eu vim até aqui por você.
— Porque? — perguntou a princesa — Eu sou prometida do seu irmão, serei Rainha.
— Você não o ama. Você não quer fazer isso, faz porque é obrigada por conta dessa maldita aliança entre os Hernandez e os Wolffman.
— É o meu dever acima de tudo. Você sabe disso. Fui criada a minha vida toda apenas para isso...
— Não é o que você quer. Você é como a feiticeira das nossas brincadeiras, quer ser livre para construir o seu próprio destino, junto de quem quiser. Junto de quem você ama de verdade.
Ela então deu as costas para Filipe, abaixou a cabeça e uma lagrima escorreu de seu rosto. Ele então foi até ela lentamente colocando ambas as mãos em seus ombros, virando-a para ele. Ergueu seu queixo e viu aqueles lindos olhos verdes marejados com suas lagrimas. Encostou um dedo próximo ao seus olhos como se tentasse parar as suas lagrimas.
— Vitoria... Fuja comigo, vamos para longe e ninguém irá nos achar. Podemos ser o que quisermos.
Ela nada disse, olhou para ele ainda com lagrimas em seus olhos e afundou seu rosto no peito do jovem príncipe. Ele então a abraçou fortemente, com medo de perde-la. Mas ele já sabia o que iria acontecer.
— Não posso... Você sabe que eu não posso. Sou a única filha de Wagner e Dafne Wolffman e eles precisam de mim para que a aliança entre nossas famílias continue.
Filipe deu um sorriso meio irônico. Saiu dos braços de sua amada e começou a andar rumo a saída. Quase ela, ele ouve sua voz: "ESPERE!".
Ele voltou-se para ela que carregava algo em sua mão. Ao abrir, lá estavam as alianças deles, feito de galhos secos naquele dia que brincaram e casaram-se.
— Você ainda as tem? — Perguntou Filipe, sorrindo.
— Sim, jamais deixei de pensar em nós. Me lembro das palavras que usamos, foram as palavras da união. Mesmo que apenas uma brincadeira, foi naquele dia que eu me apaixonei por você, Filipe...
Ele então segurou seu rosto com as duas mãos e a beijou apaixonadamente e ambos se entregaram aquele beijo por alguns minutos. Nada mais ao redor deles existia, apenas eles como se fosse naquele dia no qual se casaram em brincadeira. Eles então pararam e ele disse:
— Eu te amo, Vitoria... Sempre vou te amar — Deu as costas para ir embora.
Mesmo sem dizer mais nada, Vitoria sabia que ele entendeu que eles não podiam ficar juntos, apesar de ambos se amarem. Ele iria embora, em busca de um proposito para sua vida. Não seria rei, não seria cavaleiro e muito menos apenas o príncipe mais novo.
Sua jornada começava agora. Em busca de algo concreto no qual o fizesse sentir-se ele mesmo e não aquilo encomendado pelo seu pai. Não queria uma vida de gracejos, muito menos a mando de um Rei. Iria viajar por toda Novae e conhecer novos povos, culturas e conhecimento que até aquele dia seu pai, Rei Eduardo, o III havia lhe negado até então.
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