A Usurpadora
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Notas iniciais
Mexo no cabelo enquanto o sinal de atar os cintos se apaga. O senhor sentado do meu lado levanta-se para pegar sua mala no compartimento acima de nós.
Ouvem-se tiros dentro do avião e quem ainda está sentado usa o procedimento padrão de pouso em mar. Os gritos dos passageiros e da tripulação são se tornam mais altos que os próprios tiros.
Quando levanto a cabeça, vejo que o senhor do meu lado está caído no corredor com a mala sobre seu peito. Morto.
Algumas horas depois estou em uma delegacia, junto com outros quatro passageiros e uma aeromoça. Estamos sendo interrogados, pois tivemos algum contato com o senhor que morreu.
Quando foi minha vez, perguntaram se ele foi ao banheiro, o que comeu, se discutiu com alguém durante o voo. Foi ao banheiro duas vezes, comeu apenas um sanduíche que ele mesmo tirou da bagagem e permaneceu em silêncio durante todas as sete horas de voo.
A minha memória impressionou os novatos, mas o detetive não engoliu minhas verdades.
Não é a primeira vez que o vejo, para ser bem sincera.
Já passei por suas mãos algumas vezes. Três exatamente.
Uma das passageiras que foi trazida para cá era parente do senhor e vem conversar comigo.
-Isso é culpa sua. – ela diz friamente.
Não respondo, mas não finjo que não ouvi. Enquanto ela chora, a encaro. Faço como nos livros e fuzilo-a com os olhos. Ela levanta a cabeça e parece que vai dizer algo. Alarme falso. Ela torna a chorar.
-Ele adorava sentar na janela. – identifico em seus murmúrios e lamentos – Com certeza você deve ter implicado para sentar-se à janela.
Não foi isso que aconteceu. Eu quase perdi este voo por ser a última na fila de embarque. Ele já estava sentado na poltrona do corredor quando eu entrei no avião. Levantou-se para que eu fosse para a poltrona à janela.
-Eu deveria ter insistido mais com a aeromoça para trocar de lugar com você. – ela murmura ainda mais.
Quando sinto que não aguento mais essa conversa patética, sibilo:
-Você não tem um funeral para organizar?
Ela levanta a cabeça subitamente e me encara boquiaberta. Abano a mão para que ela vá embora.
-Vou fazer de tudo pra que você seja presa. – ela diz com os dentes cerrados, enquanto se levanta – Sua vadia!
Puxo a gola de sua camisa e olho no fundo de seus olhos. Sinto-a tremer de pânico. Solto uma gargalhada.
-Olha essa boca. – transformo meu sorriso em um rosto apático e levemente inexpressivo – Ou sua família vai ter que cuidar de dois funerais. – pronuncio “dois” com asco e ignorância.
Largo sua gola e saio da sala. Pelo canto do olho a vejo arrumar o vestido e puxar um IPhone 5 da bolsa e apertar nele botões freneticamente.
Sorrio e continuo andando.
Se ela soubesse com quem está se metendo.
Lembro-me de manchetes que falavam de mim, nos tempos de verdadeira glória. “A Usurpadora continua à solta”
Roubar a vida das pessoas e levar sua juventude. Funcionou nos últimos séculos.
A maioria das pessoas não entende muito bem. Não que eu vá sair por aí dizendo “olá, eu roubo a juventude das pessoas e estou viva há 400 anos!”, mas não sei manter um segredo por muito tempo.
Nasci no dia 13 de Maio de 1643. Enquanto os chilenos aguentavam um terremoto fortíssimo, minha mãe verdadeira estava dando à luz em Cambridge.
Descobri esse poder esquisito aos quinze anos. Meu pai estava caído no chão da sala de estar quando cheguei do colégio. A cena foi muito parecida com a de hoje, exceto que meu pai ainda não estava morto. Com muito medo, comecei a sacudi-lo para que retomasse a consciência, mas nada acontecia. Gritei para que ele acordasse, mas tudo que mudou foi meu corpo.
Senti minhas mãos crescerem e a voz engrossar. Tinha me transformado em meu pai. Depois de me dar conta disto, olhei para onde ele estava morto e vi uma menina de quinze anos jogada no chão. Sem vida.
Rumei por alguns meses no corpo de meu pai e descobri muita coisa. Uma herança imensa que ele havia recebido de minha avó e sobre a qual nunca contou. Peguei a herança e viajei para outro país.
Após alguns anos, mastreei este poder e passei a juntar riquezas. Todos precisam de luxo, de vez em quando. Matar pessoas para ficar com seus corpos é um detalhe. Maquiavel uma vez disse que os fins justificam os meios.
“Em meio à paz, oficiais acreditam no fim d’A Usurpadora” foi a manchete principal no dia 21 de Abril de 1994. Letras garrafais na primeira página de todos os jornais do mundo. Eu não tinha desaparecido.
Estava apenas ocupada “de férias” numa ilha no Caribe, mas, supostamente, ainda estou desaparecida. Só porque parei de coletar essas vitórias e pertences por alguns anos, me consideram desparecida.
É hora de voltar.
Lembro-me desta praça. Estou em Londres.
Tento descobrir em que parte de Londres estou, mas acabo desistindo. Recordo-me de um amigo que mora perto desta praça, apenas preciso lembrar em que prédio.
Enquanto me dirijo a um mapa que está na rua, ouço passos acalorados atrás de mim. Junto com eles uma voz conhecida.
Viro-me e vejo a mulher que estava gritando comigo na delegacia.
-Aonde você vai? – ela pergunta em meio a lágrimas – A investigação não acabou ainda!
Ela tenta puxar meu pulso, mas me solto com um movimento brusco. O frio cortante daqui me faz soltar um vapor dramático pela boca. Ela faz um sinal para que eu a acompanhe.
-Não. – respondo olhando para ela.
Vejo-a levar a cabeça às mãos. Negativamente balança a cabeça. Ela levanta argumentos baratos para que eu volte à delegacia, mas não vai acontecer. Se era para me convencer que está desesperada por respostas, tem que ser melhor que isso.
-Mas a investigação... – ela continua.
-Acabou para mim. – entrecorto. Dou meia volta e continuo andando até o mapa.
Ouço a chorar tão alto que atrai a atenção de todos na rua. Crio um mínimo de compaixão e volto à ela.
-Você não entende... – ela diz soluçando – Sem ele, eu não tenho escapatória... Ele paga o aluguel do meu apartamento e minhas compras básicas. O que eu farei agora? – ela pergunta.
Fico tão indignada com suas palavras que sem pensar dou-lhe uma tapa no rosto. Pensei que ela teria alguma relação afetiva com aquele homem, mas era puro interesse. Vadia. A palavra ressoa em minha mente enquanto me afasto e examino o mapa.
Rio um pouco. Não deveria chamar as pessoas de interesseiras. Olhe para mim. Uma caçadora de riquezas de quatrocentos anos.
Descubro estar nos subúrbios de Londres. Um homem pergunta se preciso de ajuda, mas quando vou dizer que sim, vejo que é exatamente quem eu estava procurando.
-Tyrel! – grito o abraçando.
-Eu conheço você? – ele diz sem responder ao meu abraço.
-Sou eu, Lee. – quando revelo minha identidade, ele sorri e me abraça de volta.
Tyrel é o único que sabe quem sou eu. Da última vez que estive em Londres, usava o corpo de um barbudo beberrão, foi assim que conheci Tyrel. Tornamos-nos grandes amigos desde então.
Ele me convida para tomar um café e aceito humildemente. Qualquer coisa para sair deste frio terrível.
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