A Unificação Greco-romana
8 Sétimo Capítulo: Kaito e Miku
Notas iniciais
Dormir em uma improvisada barraca pode não ser tão ruim quanto parece.
Pulamos do avião (se é que aquilo não poderia ser chamado de depósito de estátuas que não havia sido limpo há alguns milênios), já que não havia outro jeito de descer. Caso uma poça de água/lago ali não estivesse, nossos ossos estariam totalmente triturados pela queda. Depois que Garruk desceu (o último a pular do avião, já que estava com tanto medo que tremia da cabeça aos cascos), passamos por baixo da aeronave para chegarmos até o outro lado, aonde se localizavam malas esparramadas e a porta do bagageiro escancarada.
Deixei os mantimentos que havia trazido sobre um cobertor que encontrei dentro de uma mala enorme e pesada e fui andar um pouco pelo local. Mais ou menos cinco minutos depois, um pequeno filhote de águia caiu na minha frente. Ele já estava com a penugem praticamente completa, e parecia que estava tentando aprender a voar. Era tão graciosa! Peguei-a com cuidado e aconcheguei-a dentro de um bolso situado em meu agasalho, já que estava demasiado frio. Fora esse encontro com a majestosa ave, nada de mais aconteceu de interessante nessa pequena caminhada para registrar.
Voltei para perto de Olive, Duda e Garruk. Olive estava tentando acender uma fogueira, provavelmente para nos aquecermos, já que havia água quente o suficiente e todas as comidas que lá encontrei não precisavam ser levadas ao fogo. Já Garruk e Duda estavam a construir uma barraca que eles haviam encontrado em não sei aonde. Havia uma barraca já montada, e várias partes de assento (daquelas que flutuam, conhece?) estavam dentro dela. Kaito e Miku descansavam lá, então decidi não incomodá-los.
De repente me senti culpado por sair caminhando enquanto meus companheiros trabalhavam arduamente. Cheguei até Olive e me ofereci para ajudar:
–- Ei, Olive? Posso ajudar em algo?
–- Ah, olá Argo! Já voltou? – respondeu Olive, surpresa — Acho que se viesse a calhar, você poderia ajudar Duda e Garruk a construir a barraca. Eles estão tendo um pouco de dificuldade.
–- Certo! – respondi animado.
Montar uma barraca não é tão difícil quanto parece. Duda e Garruk não estavam conseguindo armar a barraca, pois não estavam lendo o manual de instruções.
–- Manuais são para manés! — respondeu Garruk, acertando um tapa no manual de “Como construir sua XY270, a barraca mais resistente já inventada!” que eu segurava em mãos – Conseguimos montar a primeira sem ajuda de nada nem de ninguém, por que precisaríamos disso para a segunda?
–- Na verdade fui eu quem construiu – interrompeu Olive – E eu já li esse manual, já que no acampamento, nós sempre armamos barracas.
–- Cale essa sua boca imunda, Olive! – gritou Garruk.
–- E você depile essa sua perna horrenda, Garruk! – respondeu Olive, o que arrancou risadas de nós todos, exceto Garruk, que parecia se sentir injustiçado por ter nascido desta maneira.
Peguei o manual do chão e comecei a montar nossa XY270. Em menos de quinze minutos a fogueira já estava acessa, a segunda barraca erguida, Kaito e Miku acordados e Garruk e Duda dormindo. Acordei-os e chamei-os para comer. Miku e Kaito pareciam extremamente nervosos e envergonhados, mas estavam com muita fome, e por isso se sentaram juntos a nós. Agora, todos os sobreviventes sentados em volta da lareira.
–- Então – disse Garruk – Miku, Kaito... Vocês conhecem os deuses gregos, não conhecem?
–- Sim! – respondeu Kaito
–- M, mais, mais ou me, me, me, menos... – disse Miku.
Dava para perceber que Kaito tinha estatura de 17, mas mentalidade de 40. Homem sério, seu único dever no momento era proteger Miku.
–- Vocês embarcaram com quem? – perguntou Olive.
–- E, e, e, eu? – perguntou Miku, trêmula – Ka, Ka, Ka, Kaito...
–- Embarcamos com nossa mãe – respondeu Kaito, firme e confiante assim como aparentava ser.
–- E seu pai? Onde ele está? – perguntou Garruk.
–- Nosso pai morreu em um incêndio de um museu... – disse Kaito. Uma lágrima foi visível em seu rosto. Ele parecia sofrer muito com a morte do pai.
–- Vocês chegaram a conhecê-lo? – perguntei de curioso que sou.
–- Não – respondeu Kaito – Se me dão licença, vou para a barraca...
–- Você não pode! – disse Garruk, em tom desesperado – Temos que lhes contar algo.
–- Pode chorar Kaito, fique tranqüilo – disse, tentando acalmá-lo, o que parece que não funcionou, mas sim o motivou a ficar cada vez mais deprimido.
–- Voltando ao assunto dos deuses – disse Olive – Cremos que tanto vocês, Miku e Kaito, como Argo e Duda, são semideuses, ou seja...
–- Filhos de deuses com seres humanos – disse Miku, chocada assim como seu irmão Kaito – Estudei isso na escola.
Eu mesmo ainda não havia superado esse choque, e imagino o quão difícil seria de acreditar que a vida inteira fostes enganado por sua própria mãe, dando seu pai como morto, sendo que na verdade ele é um ser imortal? Ou pior: Saber que seu pai estava vivo e não foi te visitar por todos esses anos apenas por questão de comodidade?
Ficamos quietos por mais ou menos três minutos, e, para quebrar toda essa tensão, Olive começou a explicar-nos o que deveríamos fazer:
–- Bom, seus pais deuses sempre gostam de bater um rango de vez em quando – isso, por mais bobo que pareça, arrancou risadas de todos nós, quebrando a tensão pós-descoberta semideusástica – Por isso, devemos agradá-los levando oferendas a eles. Portanto, peguem ou preparem algo que vocês gostam em cima daquele enorme cobertor no chão estendido e coloquem na fogueira, e como agradecimento, você pode falar com seu pai olimpiano. Quem quer começar?
Kaito levantou a mão. Era estranho, já que ele havia acabado de chegar a um lugar totalmente estranho, com pessoas totalmente estranhas e com coisas totalmente estranhas. Mesmo assim sendo, Kaito se levantou e se dirigiu até o cobertor e pegou um sache de chá de erva doce. Pegou um pouco de água quente e o preparou. Logo depois o despejou na fogueira, que por incrível que pareça não apagou, e, muito pelo contrário, suas chamas passaram a arder ainda mais fortes.
Depois que todos foram até a fogueira, finalmente tomei coragem e decidi falar com meu pai/mãe olimpiano. Dirigi-me até o cobertor, peguei um pacote de balas de chocolate e despejei-o em cima da fogueira e pensei: “Pai, ou mãe, sei lá. Se você realmente existir, mande um pequeno sinal. Só um sinalzinho, por favor?”
A noção de sinalzinho que eu tinha era totalmente diferente da de minha mãe, Deméter.
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