A Um Ausente
1 Capítulo Único
Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.
Carlos Drummond de Andrade
Houve um dia em que Lílian recebeu uma carta.
Naquele mesmo dia, ainda na escola, as duas passaram o intervalo juntas, ansiosas para assistir a nova animação da Disney, que estrearia naquela tarde. Apesar de ser dois anos mais velha que Lílian, Petúnia gostava de exercer perfeitamente o seu cargo de irmã mais velha, desde os pontos mais banais como tomar cuidado para que Lílian não ligasse o fogo ou mexesse com facas, até ceder sua preciosa pré-adolescência para assistir filmes infantis com sua irmã.
Mas naquela tarde, elas não foram para a estreia do filme, porque Lílian recebeu uma carta.
— Assim que eu chegar lá, eu vou dar um jeito de te matricularem também! Tem que haver um jeito, certo? Sev me disse que não, mas ele não pode saber de tudo no mundo... — Lílian sentia uma necessidade quase física de repetir e reforçar o quão desconfiada ela estava de tudo aquilo.
Por mais que não estivesse.
O quanto ela detestaria a tal Hogwarts.
Por mais que ansiosa que estivesse.
— Deve ser horrível, faz muito frio nesse lugar onde você vai... — concordava Petúnia, sentindo um gosto amargo na boca. Ambas sabiam que estavam mentindo, mas não conseguiam parar de viver naquele pequeno universo paralelo onde o mundo ainda não tinha desabado. Petúnia rezava para que Lílian odiasse aquele lugar mágico para onde ela iria, mas tudo que desejava era ir junto. Estar lá também.
E Lílian lhe confortava com mentiras, atuava um desinteresse fingido em Hogwarts, guardando sua excitação apenas para si mesma, sentindo uma pena quase sólida da irmã que deixaria para trás.
E Petúnia estava acostumada com aquele sentimento, os irmãos mais novos são necessitados de mais atenção e cuidado, ela estava habituada com a preocupação de seus pais sendo direcionadas para Lílian, em não ter suas conquistas tão louvadas quanto as de Lílian. Petúnia sabia lidar com isso, claro que sim.
Entretanto, agora, ela teria que lidar com outro tipo de competição. Pois elas estavam em níveis diferentes. Lílian era especial, e ela, não.
Em Setembro, Lílian apertou Petúnia em um abraço longo o suficiente para que durasse até o Natal, a irmã mais velha sorriu, sentindo um pânico engoli-la. Olhou para sua mãe, sentindo-se traída. Como a magia tocou Lílian e não a ela? O que ela fez de errado que não podia ir também? Por que Deus a escolheu para ser deixada para trás?
Por que Lílian?
Por que Lílian e não ela?
— Eu sei que disse que voltaria no Natal, mas eles têm um banquete gi... — Petúnia só voltou a ver sua irmã no ano seguinte, falante e incontrolavelmente animada, cheia de novidades, novos amigos, novas matérias, coisas que Petúnia precisava se concentrar para conseguir entender: Vassouras que voam, fantasmas, bichos que nunca foram vistos, feitiços e poções... Ela força um sorriso, fingindo estar animada, mas Petúnia sentia uma inveja que quase a impedia de respirar.
Ela olhava as madeixas ruivas da irmã, escondendo seu ódio, recriminando seus sentimentos para com a irmã, que nada fez para merecê-los. Ela não tem culpa de ter herdado aquelas madeixas ruivas tão bonitas, de ter uma beleza tão única que nem mesmo ela sabia direito o que fazer com aquela dádiva. Lílian não tinha culpa de ter herdado o sangue mágico de sua família.
— Fico feliz que esteja gostando... — força Petúnia, guardando seu ódio para socar seu travesseiro e morder a toalha em um berro sufocado no banheiro, enquanto o chuveiro abafa sua frustração. Queria destruir cada artefato mágico, cada novidade que ela trazia, queria que Lílian sumisse de sua frente. Não conseguia suportar os minutos em que a diferença entre as duas era exposta.
Os únicos momentos em que Petúnia tinha paz, era entre os normais.
Porque lá, Lily não podia ser especial, ela tinha que ser a aberração que precisava vestir uma máscara para não ser excluída. Neste mundo, Petúnia era quem mandava, ela era a superior e Lílian sua subordinada. Mas isso não adiantava, não importava o quanto Petúnia se arrumasse, ou o quanto se esforçasse, por mais que Lílian aparecesse como uma mendiga em reuniões de amigos, ela continuaria sendo a mais bonita.
Porque sua beleza se reforçava mais e mais nos detalhes. Na forma como ela jogava o cabelo para trás, ou como ela te olha, com um sorriso que acredita tanto em você, com um riso pronto, por mais sem graça seja o que você tenha dito, ela irá achar graça.
Ela vai te fazer se apaixonar por ela, e quando você ver, já foi deixado.
Petúnia conhece seu jogo.
E a cada volta de Lílian, mais amigos ela fazia, e chegou um ponto em que ela simplesmente não precisava mais se mascarar. Ela tinha seus amigos e podia ser quem era perto deles.
— Você pode dizer para papai que vou leva-las em casa, né, Túnia? — pediu Lílian, no auge dos seus quinze anos, com suas amigas estranhas. — Digo, você não quer vir com a gente, quer?
— Na verdade, ela não pode. — corrigiu uma loura alta. Petúnia estava se divertindo naquela reunião de amigas de Lily, em seu quarto. Elas eram diferentes, mas os assuntos eram tão semelhantes: Os garotos bonitos, qual o melhor livro do mês, o quão boa é aquela banda que tanto toca no rádio, que batom mais combina com tal tom de pele... Mas sempre, todas as vezes, a diferença entre elas aparecem. — Trouxas não passam na porta do Três Vassouras.
E nunca tarda.
Mary e Lílian tinham um olhar confidente que Petúnia já não conseguia fazer com Lily, seus olhares agora tinham uma parede, onde cada uma dizia algo, mas a mensagem nunca era entregue. A forma como Marlene reagia fisicamente, com uma gritante vontade de proteger sua amiga, e a forma como Emmeline conseguia fazer Lílian sentir-se mais especial do que ela já era.
Petúnia consegue lidar com isso, ela consegue lidar...
Mary, Marlene e Emmeline olharam para Petúnia, num silêncio constrangedor.
A irmã mais velha sorriu, sentindo seu coração doer de forma tão verossímil que ela podia jurar estar tendo algum ataque cardíaco.
— Sim, claro. — confirmou ela.
Assim que Lílian chegou em casa, levou uma longa bronca de seu pai. De alguma forma, ele descobriu que cervejas amanteigadas tem sim teor alcoólico, e que não é nada bonito mentir para onde está indo, e se algo acontece com ela? E que história é essa de que ela está de casinho com um tal de Louis Hoffmann, ele iria escrever para Hogwarts naquele mesmo dia, perguntando das regras daquele colégio.
Uma Lílian chorosa desviou os olhos cruéis do pai durante o sermão, os grudando em Petúnia, sentindo uma traição imperdoável.
“Por que, Petúnia? Por que?”
Mas Petúnia continuou impassível, não sentindo absolutamente nada.
“Não sei, não sei, não sei”
Nem prazer, muito menos remorso.
O relacionamento entre elas virou um reboliço tão confuso de palavras nunca ditas e sentimentos berrados que chegou a um ponto que nenhuma das duas conseguia concertar. Petúnia observava James Potter, sentindo-se mais humilhada ainda.
Um dia alguém a olharia da forma como ele a olha? Quantos garotos ela viu olharem Lily da forma que ele a olha? Seus olhos acompanham a forma como a mão de James aperta sua panturrilha, como seu sorriso perfeito se abre tão facilmente para ela, em como a voz de sua irmã parece um chamado constante para ele, não importando onde ela estivesse.
Ele não precisa dizer que a ama, precisa? Ela precisa dessas palavras sendo ditas em voz alta? Ele estava dizendo a todo momento, cada vez que a tocava, ele dizia. Com as mãos, os olhos, a boca, o roçar do nariz em sua bochecha. Petúnia sente o jantar frustrar seu estomago, a fazendo desacreditar na vida.
Não conseguia conceber a ideia de que a irmã tinha tudo do bom e do melhor, e Deus simplesmente se negou a dar algo a ela. Petúnia encontrou consolo em sua raiva sem fundamentos. Não desesperada, porque ela era muito arrogante para se desesperar, mas um rancor quase aderiu-se a ela como uma planta trepadeira, enraizada demais para ser completamente exterminada.
Lílian fazia as pessoas ao seu redor a amarem de uma forma tão dolorosa que parecia maldoso, pois ela não sentia a dependência de volta. Ela deixou Petúnia totalmente dependente dela, e a matava toda vez que mostrava que nunca dependeria da irmã. Que ela era um individuo... Que conseguiria viver sem a irmã se quisesse, ela não morreria.
Mas Petúnia morre um pouco cada vez que Lílian dá um passo para mais longe.
Mais uma vez, Lílian estava a deixando para trás, sem ao menor agradecer, sem ao menos se despedir. Seu amor por sua irmã se tornou uma tortura na qual ela se perguntava quanto mais duraria. Como vingança, cortou todas as suas relações com a irmã, esperando que Lílian viesse e caísse aos seus pés, implorando por seu amor.
Nunca veio. Não desta forma.
Petúnia abriu a porta em uma manhã, levando um susto com o bebê em uma cesta na sua porta. Ela arregalou os olhos, caindo de joelhos, completamente imersa nos olhos verdes que a fitavam, puxando a corrente da escravidão que era sua ligação com Lílian.
Lílian implorou por seu amor da forma mais cruel que alguém poderia.
Notas finais
Espero que gostem!
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