Notas iniciais
Apresento-lhes Nick Mosley.

Seja bem-vindo a Arlenville, dizia a enorme placa de madeira no lado da estrada.

—Você só pode estar brincando — murmurou Nick enquanto observava a paisagem monótona da pequena Arlenville pela janela do Chevette preto modificado.

—Não se preocupe querido —Kira, a mãe falou sem tirar os olhos da estrada — tenho certeza que vamos nos acostumar rapidinho com nossa nova casa.

Ele resolveu não responder. Sabia que sua mãe dizia isso apenas para animá-lo, mas que no fundo não acreditava nem um pouquinho nas próprias palavras. Ninguém sai de Nova York, a cidade mais badalada dos Estados Unidos para uma tal de Arlenville no meio do nada e se acostuma rapidinho. Era difícil acreditar que um cara como seu pai passou a infância e a maior parte da adolescência neste lugar esquecido do planeta. Tudo era verde ali: da fachada das casas até as caixas de correio. Parecia que a população queria se disfarçar em meio às árvores.

—Olha! — a voz de Kira soava animada — é aquela casa ali!

Nick acompanhou o olhar da mãe e deu uma boa checada no lugar: mais uma casa verde ou algo que devia ser verde, pelo menos. Para o garoto parecia apenas que um duende tinha vomitado.

Kira estacionou o carro e abriu o porta malas seguida pelo garoto que a ajudou a pegar a bagagem e levar para dentro. A situação da casa no interior era um pouco melhor que o exterior. O único problema eram as teias de aranhas e a enorme camada de pó que cobria todos os móveis.

Os dois puseram as malas no chão e passaram a verificar o local.

—Só precisa de uma boa faxina — disse a mulher enquanto andava pela sala.

Nick disse nada. Seus olhos estavam fixos numa fotografia na parede que mostrava um idoso e um garoto que devia ser um pouco mais velho que ele.

—Devíamos ter quase a mesma idade aqui — comentou tristemente. Naquele momento aquela casa era extremamente desconfortável para ele. Uma lembrança constante de que o seu pai se fora.

Kira o ouviu e colocou uma mão no seu ombro.

—Eu lamento que tenhamos que vir justamente para cá Nick. Sei que vai ser duro estar tão perto das coisas dele assim, mas precisamos ser fortes. Não havia mais nada para nós em Nova York. Pelo menos aqui temos uma chance de ter uma vida melhor.

Apesar de não gostar, Nick sabia que essa era a verdade. Desde que seu pai, Robert Mosley morrera naquele estranho acidente de carro, a vida dos dois se tornara uma bagunça. Kira teve que vender o apartamento em que eles viviam para saldar todas as dívidas da família e se não fosse esta antiga casa que havia ficado de herança eles não teriam sequer onde morar.

—Eu sei — Nick acenou.

Kira passou a mão pelo cabelo do filho bagunçando-o.

—Agora que tal ajudar a mamãe a limpar tudo isso?

********************

Robert caminhava pela casa, passos aflitos e ansiosos como quem procura por algo. Já passava da meia-noite e apesar dele estar se esforçando para não acordar a esposa e o filho, não demorou muito para que Nick abrisse a porta de seu quarto chamando-o ainda sonolento.

—Pai, é você?

—Eu só estou procurando umas plantas que guardei Nick. Pode voltar a dormir.

O garoto caminhou até a sala enquanto esfregava os olhos.

—Quer ajuda?

O semblante aflito do homem suavizou um pouco e ele sorriu enquanto mexia no cabelo do filho que ficou ainda mais bagunçado do que já estava.

—Não, obrigado. É melhor você ir dormir ou vai se atrasar para o colégio e sua mãe não vai ficar nada feliz.

Nick fez uma careta fazendo o sorriso de Robert se ampliar. Sua esposa era muito gentil, mas ficava furiosa quando o filho demonstrava desleixo em relação aos estudos.

—Tudo bem — concordou — boa noite.

Porém antes que Nick entrasse no quarto Robert o chamou.

—Hum?

O homem pareceu pensar rapidamente em algo e enfiou uma mão no bolso retirando de lá um objeto brilhante. Um anel.

—O que é isso? — indagou o menino curioso.

—É algo muito importante. Eu preciso que me prometa que irá cuidar muito bem dele.

Robert estendeu o anel para o filho que o observou cuidadosamente. Um belo anel de prata adornado com um rubi e alguns símbolos gravados.

—Pode fazer isso por mim, Nick?

********************

Nick abriu os olhos quando sentiu a claridade adentrar no seu quarto. Depois de um dia tão cansativo como o que tivera ele não tinha nenhum interesse em levantar tão cedo. Se não fossem aqueles primeiros raios de sol atingindo-lhe diretamente o rosto, ainda estaria dormindo profundamente. Ou talvez fosse aquele sonho que o deixou completamente tenso e desperto. Estava começando a se acostumar a ter sonhos com aquela noite estranha em que o seu pai lhe deu um anel como se fosse alguma coisa muito importante.

O psicólogo havia lhe dito que era algo natural para uma pessoa que perdeu um ente querido recordar-se dos últimos momentos que tinha vivido juntos.

Mas Nick sabia que isso era mais do que uma simples recordação. Havia algo de muito estranho na atitude de Robert naquela noite, no jeito como vagava pela casa visivelmente perturbado. E depois havia o “acidente“ de carro onde até hoje ninguém havia se responsabilizado. Um motorista bêbado que se desesperou e fugiu, foi o que lhe disseram.

—Nick, levanta logo e vai se arrumar! Eu não quero que se atrase logo para o primeiro dia! — gritou Kira do outro lado da porta.

Ótimo, pensou desafortunadamente o garoto. Já tinha até esquecido que hoje era seu primeiro dia na nova escola.

—Qual é mãe! Só mais cinco minutinhos ok? Aposto que ninguém vai sentir a minha falta.

—Nick, eu não vou falar de novo!

Ainda reclamando, o garoto jogou as cobertas de lado e se levantou. Arrumou-se rapidamente, mas antes de descer foi até a sua mala que ainda não estava completamente desfeita, pegou o anel e pôs na corrente que usava murmurando para si mesmo.

—Pode deixar, pai.

Ao chegar à cozinha encontrou Kira sentada terminando de tomar café enquanto lia um jornal.

—Bom dia Belo Adormecido! Achei que ia ter que te resgatar da cama — brincou, sem tirar os olhos da leitura.

—Haha, muito engraçado — respondeu Nick sem humor.

—Olha — disse ela mudando de assunto —eu tenho um entrevista de emprego daqui a pouco, então se quiser uma carona, vai ter que comer rápido.

—Não precisa, eu não quero te atrapalhar — respondeu o menino — além do mais eu prefiro ir a pé e fazer o reconhecimento da área.

Isso era verdade pelo menos em parte, pensou Nick. O resto da verdade era que sua mãe provavelmente faria uma cena na porta da escola com direito a beijinho e tudo e ele não queria ter o filme queimado logo no primeiro dia. A primeira impressão é a que fica, é o que todos dizem.

—Bom, se você diz... — ela concordou a contragosto — mas tome cuidado ok? Você pode se perder já que não conhece a cidade.

—Mãe, relaxa, essa cidade é um ovo. Eu não poderia me perder nem que eu tentasse.

—Tudo bem, tudo bem. Mas de qualquer maneira — Kira abriu a bolsa retirando um papel de lá. Aqui tem um mapa, se precisar.

Nick revirou os olhos enquanto respondia.

—Se isso faz com que se sinta melhor.

—Faz sim —acenou ela —boa aula, Nickizinho

—Mãe! — repreendeu o menino diante do apelido de infância usado.

Kira saiu rindo.

Terminando seu café, Nick pegou sua mochila e tomou o caminho do colégio. Ia devagar tentando prestar atenção nos nomes das ruas e em outros detalhes no caminho que diferenciasse aquele lugar tão pateticamente parecido quando uma solitária construção imponente e misteriosa no final de uma rua chamou sua atenção.

—Nossa, dar de cara com a casa monstro logo no primeiro dia na nova cidade — comentou enquanto ainda observava o imóvel que se destoava completamente de todo o resto com sua enorme torre e as ervas daninhas crescendo em volta.

Apressou o passo para sair daquele lugar que lhe causava arrepios quando algo que parecia ser uma sombra humana passou na janela mais alta fazendo-o parar instantaneamente. Haveria alguém morando naquele lugar?

Deu alguns passos em direção a casa para espiar pela grade um pouco enferrujada. Quando uma voz irritada cortou o silêncio do local.

—O que você está fazendo aí, seu moleque!

Nick não pôde ver quem era o dono daquela voz e assustado saiu correndo, parando somente quando viu a enorme placa com o nome Arlenville College gravado em letras brancas e legíveis.

Era uma construção enorme, toda de pedra. Parecia muito com aqueles antigos conventos onde os seminaristas passavam toda a vida dedicando-se as questões religiosas.

—Ei você! —uma mulher idosa e muito alta com os cabelos presos num coque frouxo se aproximou rapidamente com um dedo impiedosamente apontado na direção do garoto — porque não está na sala de aula?

—Me desculpe — o jovem apressou-se em responder — eu sou novo aqui e não sei direito para onde ir.

Ela estreitou os olhos, fazendo com que seu rosto ficasse ainda mais enrugado. Depois de um instante seus olhos castanhos brilharam em reconhecimento e curiosidade.

—Hum, você é o menino de Nova York, não é? Venha comigo. O diretor quer vê-lo.

Sem outra alternativa, Nick seguiu aquela mulher até o interior do colégio. O lugar parecia ainda maior por dentro, com seus pavilhões circundando um gigantesco pátio. Era estranho um colégio tão grande numa cidade tão pequena. Provavelmente todos os jovens da cidade estudariam ali e mesmo assim ainda deveria ter vagas o suficiente para encher várias salas.

Curioso, o garoto parou em frente a uma delas e olhou para dentro. Havia uma pessoa lá, uma garota. Seus cabelos eram castanhos mel e seus olhos azuis cor de gelo estavam voltados para o livro que estava lendo. Nick sentiu um vento frio lhe atingir a nuca.

—Posso saber por que parou de andar mocinho?

Era aquela mulher de novo, fitando-o como se ele fosse um rato de laboratório ou algo do tipo. Constrangido por ser pego espiando, ele apressou-se em acompanhar a mulher olhando fixamente para o chão até chegar a uma sala com uma placa na porta escrito Direção. Então a mulher se virou para ele e disse.

—O que está esperando? Entre logo!

Notas finais
Fico no aguardo de seus comentários.
Beijocas
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.