A Trágica História De Um Homem Louco
5 she's so sweet with her get-back stare
Notas iniciais
O anestésico corria por minhas veias me entorpecendo levemente, não tão poderoso como eles haviam me prometido que seria, talvez meu corpo já tivesse adquirido resistência, graças aos fortes calmantes que me eram aplicados na época que frequentei o manicômio. Por tanto, o máximo que a droga me causou foram pensamentos nublados, sensações bem semelhantes àquelas que me consumiam no início de setembro, evoquei as lembranças escuras de meu grande surto, quando a sanidade se tornava dia após dia mais escassa.
De cabeça abaixada e olhos úmidos permiti que um turbilhão de pensamentos corressem livres em minha mente, tomei um tempo para reavaliar minhas concepções sobre Camille, pensando profundamente sobre o assunto, lembrei-me de seu sorriso, é, aquele sorriso sobre humano que eu julgara como divino, agora eu via como demoníaco. A garota que eu colocara em um altar de adoração agora nada mais tinha do que meu desprezo.
Camille ainda era um anjo – não podia negar isso, não com sua aparência e modos –, mas só agora eu notara, ela era um anjo caído, um anjo mal.
Sendo sincero comigo mesmo, embora eu não quisesse admitir isso na época, hoje eu sei que a intensidade de meus sentimentos pela francesa não se alteraram uma fração sequer, porque, citado um clichê ridículo, mas inegavelmente verdadeiro, a linha entre o amor e o ódio é demasiada tênue. Minha obcecação permanecera inabalável, talvez até mais intensa.
– Conn? – Ouvi chamarem meu nome e dessa vez a voz não vinha de dentro de minha cabeça, o timbre era menos agudo, mais conhecido, sem aquele ar de deboche que a voz de minha mente tinha. Virei-me para Camille, seus olhos quentes me encaravam repletos de falsa condolência, mas como devo ressaltar: todas as ações boas de Camille naquele tempo em que eu a culpava pareciam-me falsos. Se eram ou se não eram, não cabe a mim julgar.
– O quê? – Perguntei seco.
Ela tomou um tempo para se sentar ao meu lado, virada em minha direção, sob a árvore que nos fazia sombra, e me passar sua oferta de paz, um pacote de biscoitos de polvilho que ela carregava nas mãos. Em minha raiva não quis aceitar nada que vinha dela, mas eram meus biscoitos favoritos, afinal, então apanhei uma rodela ou duas.
– Eu não deveria ter sido tão grossa com você, me desculpe. – Pediu ela, acariciando os cabelos em minha nuca, Camille quase me enganou com seu sorriso sincero.
– Não devia ter flertado com Sean, em primeiro lugar. – Acusei, analisando como ela reagiria. Libertaria sua maldade ou manteria a postura de boa moça?
– Eu não estava! – A francesa começou, se descontrolando, mas cortou sua própria fala. – Não vamos brigar por isso, certo? – Pediu ela, usando seu demoníaco poder de persuasão em mim, sua mão massageando meu pescoço, tão doce e tão confortável de se estar por perto.
– Não se deixe enganar, ela só quer destruir você. – A voz feminina alertou, fria e calculista.
Eu assenti, para voz e para Camille. Ela me sorriu, aquele sorriso bonito e envolveu meu pescoço, voltei-me para ela e a beijei.
Os beijos me pareciam amargos e insossos e eu tinha certeza que Camille podia sentir também, como a magia que nos envolvera desde o primeiro olhar havia se quebrado, o encanto que a francesa exercia sobre mim findara e eu agora a via, os truques do mágico revelados. E ela sabia disso, Camille Roussel soube antes de mim que eu estava louco e eu a odeia por agir naturalmente.
Ouvimos ao longe o sinal soar, avisando o fim do horário de almoço, levantei-me bruscamente, desequilibrando Camille no processo que soltou algum palavrão em Frances que eu não consegui decifrar, eu simplesmente não pude conter minha risada para sua expressão infantilmente irritada.
Ela se levantou, sem esperar para que eu prestasse ajuda e mostrou a língua pequena e rósea, enlacei sua cintura e a puxei para um beijo repentino, para acamá-la sem ter de fazer muito, ela correspondeu meio violenta ao princípio e se acalmando no final.
– Te vejo na saída, ok? Agora vá estudar aquelas bobagens do segundo ano. – Belisquei sua bochecha direita, tentando agir naturalmente e esconder o ódio em minhas palavras.
E assim passou-se o dia e depois o outro e mais outros, e meu relacionamento com Camille seguia em frente, tão romântico e superficial quanto possível. Camille fazia tudo ao seu alcance para me agradar, mas a cada sorriso seu eu meu ódio e desprezo cresciam, ia ficando cada vez mais difícil manter a fachada, até que as palavras doces foram sumindo de minha boca e eu passei a tratá-la mal, a voz em minha mente era grande culpada disso, porque cada vez que Camille vinha com alguma demonstração de carinho a voz me alertava sobre a verdade por trás daquilo, e eu acabava por ser rude e vago e ela ainda se atrevia a me perguntava o que tinha de errado comigo, como se ela não soubesse, como se ela não fosse a culpada, por vezes vi uma expressão de pura tristeza brotar em sua face, então eu controlava o ácido em meu estômago e pedia desculpas, prometia que melhoraria e ela comprava minhas mentiras, como eu fingia comprar as dela.
Eu só precisava esperar pelo momento certo, o dia certo de agir e dar um fim naquilo, para que eu pudesse de uma vez por todas voltar para meu cotidiano, para a vida antes de Camille Roussel, o furacão.
Escolhi, portanto uma promissora noite ventosa para fazer meus movimentos, o vento batia forte nas janelas altas do prédio e eu podia imaginar Camille sentada em sua cama, fitando o ar entrar por sua janela e deixando-o mais gélido do que já fora desde que ela chegara ali, e esperando por mim, eu apenas sabia que ela estaria ali, a voz havia me dito.
Não gastei muito de meu tempo ponderando as consequências ou como faria o ato em si, me armei com um facão afiado que encontrei na cozinha e só enquanto percorria o corredor até seu quarto decidi que carregaria seu corpo pelas escadas, onde não havia câmeras, e a tiraria do prédio pelos fundos. Em alguma pequena parte de mim, uma sã e quase inexistente parte àquele ponto, me alertou do horror que eu estava prestes a cometer, mas ignorei, eu precisava fazer aquilo, precisa me livrar de Camille, essa era a chave para eu voltar à normalidade, ou assim me convenci, porque era inaceitável ouvir vozes e ver coisas que não existiam pelo resto de minha vida.
Parado a soleira de sua porta, escondido pelas sombras da noite, preparei-me para entrar, ela chorava eu podia ouvir, mas sinceramente não me importei, no entanto a voz de meu pai me fez recuar, ele estava no quarto de Camille, apurei meus ouvidos para entender a conversa.
– O que foi, minha querida? – Eu o ouvi perguntar, podia imaginar sua falta de tato, tentando descobrir uma boa forma de consolá-la e não tendo sucesso.
– Connor. – Ela murmurou, como se isso explicasse tudo, sua voz soando abafada, supus que ela estivesse com o rosto escondido nos joelhos, seu velho mecanismo de defesa.
– Eu temi por esse dia. – Sr. Walker pronunciou. – Deus sabe o quanto rezei para que ele não tivesse a mesma sina de minha Lucy, pobre garoto, você tinha que tê-lo visto antes, sabe? Ele, Sean e Julian, eram um trio e tanto. – Meu pai riu curtamente, saudoso.
– Ele está sempre pelos cantos, falando consigo mesmo e quando fala comigo nunca sei se está me respondendo ou respondendo sua própria mente. – Relatou a francesa, eu podia quase ver seus enormes olhos implorando por uma solução.
Não se preocupe, Camille, – pensei em minha mente – eu vou dar um fim a isso, logo-logo.
– O que devemos fazer? – A voz dela perguntou, chamando a atenção de meu pai.
Mas não esperei por sua resposta, já ouvira o suficiente, voltei à cozinha e guardei a faca onde a encontrara e sentei-me em uma cadeira qualquer, a mesma onde eu me sentara quando tivera minha primeira refeição com Camille, me lembrei subitamente e sorri.
Eu estava louco, Camille o sabia e meu pai também, e eles falavam sobre isso pelas minhas costas, eu falhara em enganá-los, em parecer normal, teria de ser mais cuidadoso, percebi, se queria matar Camille e acabar com tudo aquilo, eu precisava primeiramente convencê-la de que era seguro estar comigo e também, depois que tudo estivesse feito, convencer meu pai que não fora eu que a matara, pois não era louco o suficiente para isso.
Parei, sentado naquela cadeira desconfortável e fiz meu melhor para analisar tudo que tinha se passado.
– Você é apenas louco como sua pobre mãezinha. – A voz debochou de mim, cantarolando minha desgraça, e eu quis gritar para que ela se calasse, mas ao invés apenas ignorei meu demônio particular.
Geneticamente falando, existia um percentual baixo de chance para eu herdar a doença que fora a ruína de minha mãe, mas havia, encubado dentre de mim o vírus da loucura, que poderia ter permanecido quieto e inofensivo pelo resto de minha vida se eu não tivesse conhecido ela, aquela que disparou o gatilho.
A teoria formada em minha mente doentia fazia perfeito sentido na época, havia algo em Camille, algo que eu não podia explicar, talvez fosse a forma que ela sorria ou como seus olhos eram sobrenaturalmente grandes, que ativara a loucura dentro de mim e eu simplesmente precisava destruí-la, porque longe de seu efeito a loucura ficaria contida, escondida dentro de mim, eu precisava por um fim naquilo.
Então arquitetei um plano em minha mente, e o pensei e repensei por diversas vezes, talvez até um pouco entristecido que uma criatura tão bela como Camille tivesse que ser sacrificada, mas ela era a culpada de tudo, minha raiva estava mais mansa, eu devia admitir, embora meus objetivos permanecessem firmes, um pouco de compaixão por ela havia nascido em mim após ouvir sua conversar com meu pai, me fez lembrar a Camille vulnerável que eu encontrara naquele quarto pela primeira vez, lembrar que ela era real sim, mas não havia pena suficiente em mim para poupá-la da morte, porque a compaixão por mim mesmo era maior.
Ouvi o barulho de passos e ergui o olhar, Camille caminhava até mim, aparentemente recuperada de seu choro de meia hora atrás, ergui meus olhos e sorri solidariamente, como se sorri para um carneiro que está a caminho do abate, ela retribuiu, mas seu sorriso era triste demais para contar como um.
Abri meus braços para ela e a francesa sorriu mais sinceramente, aceitando meu convite e sentando-se em meu colo, seus braços envolveram meu pescoço e em um gesto automático ela começou a brincar com as pontas de meu cabelo, sua cabeça descansando pacificamente em meu peito, acariciei seus fios ondulados, confortando-a.
– Tudo vai ficar melhor amanhã. – Segredei.
– Por quê? – Ela levantou seus olhos úmidos para me encarar.
– Porque amanhã temos um encontro. – Sorri e acariciei seus cabelos até que ela adormecesse, ainda confusa, mas falsamente reconfortada.
Às 18h30min eu estava parado, apoiando-me desleixadamente na soleira da porta, olhando para meu relógio, que combinava perfeitamente com a camisa pólo listrada em anil e branco e minha calça jeans clara, roupas que eu escolhera meticulosamente para agradar a francesa, lavara meus cabelos e me perfumara, mas me negara a fazer a barba.
A francesa pigarreou chamando minha atenção, estava linda, mas isso não era novidade. Vestida com uma blusinha leve de mangas curtas, branca, uma saia rodada e estampada com borboletas coloridas, usava sapatos de salto, apenas para ficar de minha altura, eu sabia, seus cabelos longos caiam em cascatas pelas costas, seus olhos, adornados pela maquiagem pesada, me encaravam, ela estava tão doce com aquele olhar de “vou te pegar”.
– Você está linda, Roussel. – Elogiei, aproximando-me da francesa e envolvendo sua cintura fina.
– Você também não está tão mal, Walker. – Ela desconversou, envolvendo meu pescoço e se inclinando levemente para encostar seus lábios aos meus. – Então, para onde você vai está me levando? – Ela quis saber.
– Surpresa. – Sorri misterioso, a loucura transparecendo só um pouco em meus olhos.
Segurei sua mão e a conduzi até o elevador, o cubículo me deixando instantaneamente claustrofóbico, foquei-me em Camille só para notar que ela me encarava e sorria abobada.
– Que foi? – Perguntei com um sorriso tímido adornando os lábios, eu estava acostumado a passar longas horas observando à francesa, não o inverso.
– Seus olhos. – Ela sorriu, olhando-me de forma profunda e analítica.
– O que têm eles? – Quis saber.
– As pupilas estão dilatadas. – Ela sorriu para alguma piada pessoal.
– E o que tem isso?
– Dizem que quando estamos apaixonados nossas pupilas ficam dilatadas. – Camille me acusou e pela primeira vez me deixou sem resposta.
Aproximei-me dela e mirei seus olhos, mas com o tom escuro que tinham era quase impossível fazer distinção entre a pupila e a íris, a baixinha riu de minha visível frustração, ignorei-a até que estivéssemos no carro a caminho de sua surpresa.
– Mas eu gosto mais quando seus olhos estão normais. – Camille falou timidamente, tentando retomar nossa conversa e acabar com o silêncio estranho, tentei ignorá-la, mas fui traído por minha curiosidade e acabei por perguntar:
– Por quê?
– Bem, como se já não bastasse eles serem verdes – ela ironizou – ainda tem o fato de não serem verdes comuns, quero dizer, dão uma impressão de solidez, quase ásperos, são meio pálidos, perfeitos numa mistura acinzentada – ela se perdia em seu monólogo, absorvida pela necessidade de procurar palavras suficientes para descrever meus olhos. – Ah, sem contar o tom amarelado peculiar que só você tem em volta das pupilas. Eu nunca vi nada assim. – Ela sorriu vagamente, fitando a estrada, mas parecendo vendo muito além do caminho de terra que percorríamos, ficou quieta por um instante, talvez procurando algo a acrescentar ou como eu tentando processar todas aquelas palavras e por fim, murmurou timidamente:
– Eu amo seus olhos, Connor Walker. – Guardei bem aquele momento e anos depois eu ainda era capaz de me lembrar com exatidão de cada detalhe, como ela parecia acanhada e frágil, entregue; até mesmo de seu fraco sotaque. No momento registrei um sentimento de pena, a cena do carneiro indo para o abate se repetiu em minha mente, mas no fim – meu fim – aquele momento ficou eternizado em minha memória como a primeira vez que Camille Roussel dissera que amava algo em mim.
No entanto, naquela hora não soube como reagir àquilo, se não fosse pelo demônio em minha mente, talvez eu tivesse desistido de meu plano, aliás, nem teria começado ele, em primeiro lugar.
– Eu sabia, você é fraco demais para matá-la, vai ser louco para sempre. – A voz atiçou e qualquer felicidade pela declaração de Camille desaparecera. Ela era uma criatura destruidora, repeti como um mantra em minha mente, capaz de tudo para acabar comigo, até das palavras mais doces, eu iria até o fim com aquilo e não seria nenhuma tentativa falha dela de me ludibriar que me tiraria do caminho de meu objetivo.
Por fim estacionei o carro à beira da estrada, Camille me encarou confusa.
– Chegamos. – Tentei sorrir, mas minha mente encontrava-se perturbada demais para formular um sorriso correto.
Ainda perplexa, Camille saiu do Camaro, esperei alguns segundos para apanhar a faca de sua alcova, onde eu a guardara mais cedo, debaixo do banco, com cuidado escondi-a em minhas costas, entre a calça e a pólo e então sai do carro.
A francesa estava parada, braços cruzados e olhar determinado enquanto procurava ver pelas redondezas alguma lanchonete onde eu pretendia levá-la, mal sabia Camille que eu escolhera justamente aquele ponto da estrada por estar há alguns bons quilômetros de qualquer ser vivo, salvo por alguns pequenos animais que faziam-se ser ouvidos no capim de quase um metro que margeava a estrada.
Sentei-me no capô do carro, tomando cuidado para ficar sempre de frente para a morena, puxei-a e ela colou suas costas em meu peito, apanhei uma de suas mãos e entrelacei nossos dedos e com a outra fiquei acariciando seus cabelos, sua cabeça encostada na minha.
– O que estamos fazendo aqui? – Ela perguntou e eu pude detectar um resquício de medo em seu timbre, fiquei feliz, porque ela sabia o que estava por vir e isso poderia lhe dar uma chance de escapar, porque ainda havia uma parte de mim, a sã, que não desejava a morte da doce criatura em meus braços.
– Olhe, Camille. – Apontei para o céu que se estendia a nossa frente, a mais linda obra de arte, minha voz quase tão nostálgica quanto o pôr-do-sol que agora deslumbrava a francesa.
– É lindo! – Ela exclamou, fascinada.
Nada eu disse, aguardei pacientemente enquanto o céu se tingia de laranja, nenhuma nuvem sequer se atrevia a interromper aquele espetáculo, que escurecia gradualmente, o sol baixava lá na frente da estrada e Camille mantinha um sorriso involuntário no rosto, fiquei feliz comigo mesmo por ter tido aquela ideia, meu presente de despedida para Camille fora épico, não poderia acabar de forma mais bela.
– Lindo o suficiente para morrer vendo? – Sussurrei em seu ouvido, quando só restava uma pequena fatia de sol que podíamos ver, seu corpo tremeu em meus braços, mas ela não se afastou.
– O que você quer dizer, Conn? – Indagou a menina, toda inocente.
– Já chega disso, não acha? – Pedi, num tom cético, não queria me exaltar e apressar meus atos.
– Chega do quê? – Camille tentou se afastar sutilmente, envolvi sua cintura possessivamente, impedindo que ela se mexesse e ri em seus cabelos de como ela ia ficando mais e mais tensa, uma risada sonora, seca e psicótica.
– Chega de fingir que eu não estou louco. – Minha voz não passando de um murmúrio no pescoço arrepiado da morena. – E eu sei, Camille Roussel, que você é a culpada. – Acusei desesperado, quase cantando como fazia a voz de minha mente, guardara aquilo dentre de mim por um tempo mais longo do que eu podia, mas agora tudo estava para acabar, podia sentir a adrenalina correndo em minhas veias, o sangue pulsando em meus ouvidos, minha redenção estava próxima.
A francesa então ligou os pontos, entendeu meus passos seguintes e se aproveitando de minha distração causada pela emoção de saber que tudo estava prestes a acabar, escapou de meu abraço, mas antes que ela se afastasse muito mais de um metro lancei-me em sua direção, agarrando seu pulso com força e virando-a de frente para mim, como ela ainda se atrevia a correr? Camille sabia que aquela era a única saída, ela tinha que se entregar ao sacrifício como o bom carneiro que era.
– Você está me machucando, Connor. – Ela ganiu, seus grandes olhos me encarando assustados.
– Você me machucou primeiro. – Gritei e apertei minha mão ao redor de seu pulso, forte o suficiente para quebrá-lo, Camille choramingou e o choro agradou o monstro em mim, era recompensador fazê-la sofrer como ela fizera comigo, ela causara minha ruína, era apenas justo que eu causasse a dela. Eu odiava Camille com todas as minhas forças, a desprezava por ter me enganado, me apunhalado, a francesa me fizera amá-la só para me enlouquecer.
– Por favor, Connor, você precisa ver a verdade. – Ela agarrou meu rosto, tentando me forçar a encarar seus olhos, Camille parecia desesperada, me perguntei como eu parecia naquele momento e a palavra “louco” foi sussurrada em minha mente. – Não é minha culpa Connor, por favor. – Ao começo ela tentara soar convincente, mas ao fim Camille era apenas uma garotinha com medo de morte.
Soltei seu pulso e segurei gentilmente seu rosto corado com ambas as mãos.
– Não tenha medo, Camille. – Eu sorri, a fim de confortá-la. – Vai acabar rápido. – Acariciei sua bochecha, com uma calma que só provinha dos loucos, e com a outra mão apanhei a faca em minhas costas erguendo-a sobre Camille.
– Não, por favor. – Ela choramingou, se afastando a passos largos de costas, que eu cobria sem nenhum esforço. – Connor, por favor, eu não fiz nada. – A esse ponto lágrimas de partir o coração rolavam por seus olhos castanhos e uma expressão de horror destruía seu natural ar infantil.
– Você tem de entender, Camille, eu não posso continuar assim. – Uni minhas sobrancelhas, indignado por ela não compreender um fato tão óbvio. – Você precisa morrer para que eu possa voltar a ser eu mesmo, não complique as coisas. – Pedi e num ato atrevido golpeei o ar com a faca, errando por centímetros o rosto de Camille, ela soltou um grito aterrorizado e simplesmente desistiu de buscar por minha sanidade, virou-se e começou a correr em direção ao campo que nos cercava.
– Não fuja de mim, querida! – Gritei como se o motivo de sua correria fosse algo completamente banal. – Você não me ama mais? – Eu ri, achando-me estupidamente cômico.
Camille era pequena e fraca, não era páreo para mim, por isso não me preocupei, por mais que ela corresse não conseguiria achar ajuda, ela sabia disso, eu sabia, a morte dela era um fato óbvio, se ela queria brincar de gato e rato um pouco eu não negaria isso a ela, não era como se eu não estivesse me divertindo também.
– Socorro! – Sua voz embargada ecoou pelo breu soturno e foi seguido de mais uma de minhas risadas.
Apressei meu passo para poder alcançá-la, puxei-a de costas para perto de mim.
– Ninguém vai ouvi-la. – Sussurrei em seu ouvido e a virei bruscamente de frente para mim, seu rosto se repuxou e ela fechou os olhos, se preparando para a dor e a morte, se rendendo.
– Abra os olhos – ordenei e ela assim o fez.
Preparei-me para encarar aqueles olhos castanhos pela última vez, olhei intensamente nos orbes profundos de Camille, os olhos místicos, sedutores, etéreos, brutais, que eram tanto minha benção como minha ruína, e de repente, assim como se eu tivesse acordado de um pesadelo, me doeu, como nada me doera antes, nem a ideia de ser louco me machucara como a tristeza que havia nos úmidos olhos da francesa.
Tendo o céu lúgubre como testemunha de minha vergonha cai de joelhos sobre a relva, joguei a faca para longe aterrorizado com o que eu estava prestes a fazer, porque ao olhar em seus olhos, seus tão belos olhos, percebi:
Camille não era um anjo, sequer um demônio, era apenas humana, repleta do bem e do mal, como o resto das criaturas que povoavam a terra, como eu também era, exceto que eu tinha um lado a mais, o louco, e não era culpa dela.
A faca que antes serviria para matar Camille agora tinha uma nova função, me punir, apunhalei algum lugar próximo de meu umbigo e joguei a faca ensanguentada para longe, senti uma dor terrível, algo se partira dentro de mim, fosse um órgão ou minha ligação com a realidade, eu não sabia dizer, rezei para que a morte viesse, para acabar com minha vida patética e realmente acreditei nisso quando minha visão ficou turva e o sangue sujou minhas mãos; era minha loucura afinal, minha sina, nunca teve nada a ver com a francesa.
Eu não amava Camille e ela não me amava, mas fiquei grato por ainda haver brandura suficiente em minha pequena para que ela afagasse meus cabelos enquanto eu encharcava sua blusa branca com meu pranto arrependido e meu sangue impuro.
Tive uma vaga consciência da morena falando com alguém no telefone, ela chorava ao sussurrar coisas boas em meu ouvido, também notei que a hora já era tardia e que estava quente e molhado, mas talvez a umidade provesse unicamente de meus olhos, nada mais me doía, um consolo que alguma força maior me proporcionara, chorei por algum tempo, tão são eu estava pelo fim da noite, tão arrependido e consciente de que eu era louco e não havia nada que eu pudesse fazer para mudar aquele fato.
Minha última memória daquela noite foi ouvir de Camille que eu ficaria bem e ter a inquestionável certeza de que ela estava errada. Eu estava morrendo.
Notas finais
Agora, sobre o capítulo: Eu gostei do resultado, mas estou de TPM então não sou capaz de julgar nada direito. q A Bia Machado (que fez o desenho da Camille) me disse que eu tenho uma forma muito afobada de escrever, as coisas acontecem muito rápido, o que você acham? É que eu simplesmente não consigo encher linguiça, além disso esse começo é na verdade a parte mais sem importância da história, então quero ir logo pro vamos ver, o próximo capitulo é o que eu mais estou querendo escrever então creio que saia rápido, MAS não prometo nada. u_u
Não custa nada deixar um review meigo, né? Só dizendo. rs
Beijos gordos de uma escritora necessitada de chocolate e atenção, D.M.
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