A Trouxa
4 O Trem
Notas iniciais
Acordei com Fred dormindo em minha testa. Suas pequenas patas faziam cócegas com cada movimento que ela fazia, suas pequenas garras arranhavam levemente minha pele e seu focinho me cheirava em cada canto do meu rosto. Ele já havia se acostumado comigo, presumi, mas ainda tinha o medo de um ataque de loucura domá-lo novamente.
Tinha completado uma semana desde o incidente da varinha e aquele seria o dia que eu teria que pegar o Expresso de Hogwarts, mas ainda estava indecisa sobre a minha ida. Mesmo com a minha decisão, meu pai tinha entrado em contato com a escola e confirmado minha presença.
Além disso, ele contou à diretora as dúvidas que eu passava tendo a respeito da magia e da escola. Junto com o malão com o brasão de Hogwarts, Minerva me enviara uma carta referente a minha ida. Ela me indicava confiança e calma, pois Hogwarts nunca havia errado um aluno.
Mesmo com minhas dúvidas, apreciei o esforço e a felicidade de meu pai por possuir uma filha bruxa. Ele tinha pesquisado mais sobre bruxaria do que eu mesma e, depois de um tempo, já sabia a formação completa de um tribunal bruxo, o valor das moedas, os jogos mais famosos e a organização política.
Dois dias antes do Expresso, eu havia organizado minhas roupas e meus acessórios, comprara uma gaiola para Fred e comida em estoque, para que nada o falte. Separei algum dinheiro bruxo para caso alguma coisa aconteça e organizei meu quarto da melhor maneira possível. Assim, no dia em questão, eu só tive que me arrumar e guardar meu amigo em sua nova casinha.
Quando estava pronta, meu pai colocou o malão na porta malas e Fred no banco comigo. Ele pegou as chaves para começar a dirigir e minha mãe, de última hora, resolveu ir conosco. Com ela, tudo se tornava mais difícil, até uma simples conversa poderia ser repreendida e ofuscada. Dessa forma, eu e meu pai não conversamos sobre nada, mesmo que a excitação dele, por eu conseguir uma vaga na melhor escola de magia e bruxaria, não conseguiu ser contida.
Chegamos a estação e ainda havia tempo para um lanche; afinal, não havíamos tomado café da manhã naquele dia.Minha mãe escolheu o restaurante e, ao sentar na mesa, ela segurou minha mão. Esse gesto não foi só único e estranho, mas a força com a qual ela o fez o tornou mais simbólico do que qualquer palavra registrada.
Ela sentiria a minha falta, mas estava feliz por mim e sabia que deveria me deixar ir. Por mais que não tenhamos convívio e grandes laços emocionais, é difícil se despedir de um filho, saber que ele nunca estará em casa no fim de tarde quando você chegar do serviço e que, provavelmente, ele só voltará para as festas de fim de ano.
Tenho uma grande dívida para com a minha mãe, ela me criou em seu estado de mai8or depressão, se reconstruiu das cinzas e se estabeleceu financeiramente, finalmente. Meu pai não tinha condições de sustentar minha casa com facilidade e as dívidas estavam chegando cada dia mais rápido, até que minha mãe tomou frente da economia e a reestabeleceu. Se não fosse por minha mãe, eu não conseguiria pegar um empréstimo em Gringotts, não conseguiria ter um carro para me locomover até a estação e não possuiria uma casa para qual endereçar a carta de Hogwarts; eu não teria nem passado pelas minhas três escolas anteriores, a qual fui expulsa duas vezes.
‘Eu sentirei muita falta sua, querida. Eu deveria ter passado mais tempo com você nesses últimos anos, eu sabia que, de alguma forma, você iria embora um dia e esse dia chegou. Saiba que sinto muito orgulho de você.”
Abracei-a forte antes de entrar na estação, ela não poderia atravessar a barreira comigo, assim como meu pai. Além de não mágicos, eles não possuíam o ingresso para garantir minha passagem para a plataforma. Meu pai me ajudou a me estabelecer emocionalmente antes de correr, tirou o medo de mim por alguns minutos, pelo menos até eu correr e atravessar a barreira da plataforma 9 ¾ com meu carrinho.
Quando cheguei ao mundo bruxo, eu me sentia solta, novamente, como se aquele era o lugar a qual eu pertencia. As pessoas estavam com roupas normais do mundo não mágico e, apenas alguns, possuíam capas que iam até os pés. Era uma estação de trem normal, como qualquer outra do mundo não mágico. Um trem estava parado nos trilhos esperando os passageiros, no caso os estudantes, entrarem.
Deixei meu malão na fila, como todos os outros fizeram, e resolvi andar um pouco pela plataforma. As pessoas mencionavam como Hogwarts era, como estavam orgulhosos de seus filhos e como sentiriam falta deles. Algumas crianças da minha idade perguntavam aos pais sobre as casas da escola e o que aconteceria se fossem para a errada.
Com toda a certeza posso afirmar que não entendi nada, no momento. Cada família possuía uma conversa estranha diferente, falavam como se fosse normal e como se todos entendessem. Nesse momento em que me senti perdida, só desejava meus pais ali, para me acalmar. Na verdade, pensava mais em meu pai e em como ele seria capaz de me explicar tudo o que os bruxos estavam falando, uma vez que ele havia pesquisado sobre tudo.
O trem deu um apito repentino e eu entrei no vagão. Adolescentes e crianças corriam para todos os lados com vestes na mão. Algumas olhavam pelas janelas de suas cabines para se despedirem de seus pais e, com um solavanco do trem partindo, acabo caindo no cão.
Não era uma bela forma de começar um dia em uma nova escola. Na verdade eu nem havia chegado a Hogwarts e já havia caído. Fiquei com muita vergonha ao levantar, uma vez que os outros alunos nem pareceram sofrer o baque do trem. Comecei a andar em busca de uma cabine vazia e entrei.
Assim que me sentei, comecei a sentir os ferimentos que havia sofrido pelo choque com o chão, até que ouço alguém ab rir a porta de minha cabine e sentar na minha frente. O menino era loiro e possuía olhos verdes vibrantes como os de uma folha.
“Você está machucada?”
Foi tudo o que ele perguntou enquanto me olhava com seus grandes e vibrantes olhos. Sua voz suave e, ao mesmo tempo baixa, tomou conta de meus ouvidos e meus pensamentos. Foi difícil responder a uma simples pergunta com todas as perfeitas distrações que o garoto possuía.
Informei-o que estava bem e que só precisava de alguns pequenos curativos para um arranhão na perna . O assoalho do trem não havia sido muito gentil com meu joelho durante a queda, mas não era algo tão grave, ao passo que foi apenas uma queda leve e rápida.
Ele me encarou por alguns minutos com um maravilhoso sorriso no rosto. Parecendo ter recobrado a lucidez, estendeu a mão e se apresentou como Arthur Doule, do segundo ano em Hogwarts.
“Alice Kittam, acho que sou do primeiro ano. Bom, estou entrando agora, e suponho que não haja nenhum pré-curso.”
E foi assim que, incrivelmente, conheci meu primeiro amigo. Um garoto lindo e engraçado e que roubou minha atenção desde o primeiro olhar e a primeira palavra.
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