A Trouxa
14 O Corte
Notas iniciais
Na noite que se seguiu, eu não conseguia parar de pensar nos olhos castanhos de Arthur. Ele me olhava com intensidade e feliz por eu estar lá, com ele e ser dele, mas eu sabia dos meus sentimentos durante a festa.
Eu tinha um encontro marcado com um menino que eu nunca havia pensado antes, um menino que era insignificante para mim até o momento que ele me chamou para conversar. Eu havia o observado antes pelo seu porte físico, mas nunca transmiti ou senti algo por ele.
Ele falou comigo e, de repente, me senti atraída completamente por ele. Outros olhos castanhos, outros lábios, outras mãos e outra voz me encantaram e não parecia justo com Arthur o que havia acontecido.
Amanheceu rapidamente e eu não havia tomado minha decisão. Eu queria ficar com Arthur porque eu sabia que Breno não era o certo, não era quem eu realmente queria, mas eu não podia evitar pensar nele.
Com a roupa de corrida e já me aquecendo, quem eu menos esperava se fixou ao meu lado. Breno abriu um lindo sorriso e me chamou para correr com ele.
Arthur não se juntava a mim nos esportes depois de alguns poucos meses de rotina. Toda manhã eu passei a correr sozinha e acabei me acostumando a usar esse tempo para manter meus pensamentos em ordem. Era crucial que, naquele dia, eu ficasse sozinha, precisava tomar uma decisão a respeito dos garotos e não seria justo que eu estivesse acompanhada de um deles.
Como sempre fiz, respondi um sim abruptamente e sem pensar, era como se Bruno se infiltrasse em minha mente e me fizesse responder exatamente o que ele quisesse. Cheguei a imaginar Arthur me vendo correr com ele, praticar atividades com ele e, no final, descobrir meus sentimentos conturbados.
Corremos por muito tempo em silencio, uma simples e inocente caminhada pelos campos de Hogwarts. O ar estava cada dia mais frio, o inverno chegará e a neve começaria a cair dentro de alguns dias, na mesma época em que o natal chegaria.
As festividades do final de ano eram os meus feriados favoritos. Se situavam entre as aulas em um período perfeito de pausa nos estudos, sem dias a mais que, geralmente, me enjoavam e sem dias a menos, que não nos deixavam descansar.
Iria rever meus pais e, apresenta-los a Arthur alguns dias após a noite de Natal, que ele passaria com a família. Infelizmente meus pais não me deixaram viajar para conhecer a adorável família dele, eles me mandam recados e presentes, assim como para Arthur, sendo muito carinhosos comigo.
Nunca me senti acolhida em outra família e, mesmo sem os conhecer, eles me confortaram e me adotaram. Conversávamos mais do que eu coversava com minha família.
Estava tão absorta em meus pensamentos que não percebia onde estava indo. Em apenas um segundo eu estava no chão, toda arranhada e sangrando e Breno se posicionava perto de mim para conferir se eu estava bem e onde havia me machucado.
Em meu braço havia um corte que sangrava intensamente. Aparentemente uma pedra havia perfurado uma de minhas veias e deixado um furo profundo. Breno apertava meu braço com força tentando estancar o sangramento e fazer uma pequena atadura.
Devo admitir, ele não era muito bom no que fazia, mas atingiu seu propósito após alguns minutos de tentativas. Breno não conseguiu cortar a camiseta, então eu acabei ficado com ela pendurada ao lado do meu corpo após um pequeno nó ter sido feito.
Não poderia reclamar, se não fosse por ele eu teria deixado a trilha e visitado a enfermaria na mesma hora, ou poderia pegar uma infecção. Contudo, mostrando preocupação, Breno não permitiu que eu corresse no mesmo instante que a atadura havia sido feita, nós esperamos um poço sentados na grama, olhando para o lago.
A água estava, incrivelmente, cristalina e era possível ver todos os seres que viviam sob as águas. Uma vista não muito comum por quem dorme nas masmorras, uma vez que as janelas não cobertas por musgos e algas.
Conversávamos sobre assuntos diversos, como as aulas e nossas expectativas sobre o futuro. Não conhecia as profissões do mundo bruxo, eu havia sido apresentado a algumas, mas eram tantos nomes e tantas derivações que eu acabei não decorando todos. Naquele momento eu comecei a me interessar pelo assunto, Breno me ensinava cada uma das profissões disponíveis de uma forma tão engraçada e excitante que acabei prestando atenção aos mínimos detalhes.
Estávamos nos divertindo muito com aquela conversa, em frente ao perfeito lago que dominava os campos de Hogwarts. Mas o silencio logo chegou, mantendo um vazio desconfortável entre nós, até que ele trouxe um assunto que eu estava esperando não encarar.
“Não se preocupe, Arthur ainda está dormindo. Ele se atrasou hoje depois de ter chego atrasado para dormir. Além do mais, não estamos fazendo nada de mais, só conversando, não é mesmo? – eu o encarei completamente confusa com o que ele havia me falado naquele momento, até que ele se explicou – Eu achei que estivesse pensando nele, você ficou séria tão rapidamente que deduzi que seria nele que seu pensamento estivesse focado.
Alice, eu queria conversar com você por um momento, na verdade, sem ninguém atrapalhar. Na festa tinha muita gente em volta, então achei que poderia te acompanhar em sua corrida.
Minha intenção nunca foi dar em cima de você ou fazer com que você se sentisse insegura com relação ao seu namoro. Eu só queria iniciar uma amizade porque eu realmente gosto e você. Eu te observava todos os dias na biblioteca, com os olhos vidrados nos livros e acabei me apaixonando.
Não pretendo interferir no seu julgamento e na sua felicidade. Depois que vi você e Arthur na Sala Comunal, tudo o que vocês falaram um para o outro, eu entendi o que vocês sentiam mutuamente, então não vou interferir em suas decisões.
Quero mais momentos engraçados e divertidos com você, como o que acabamos de ter, momentos amigáveis e honestos. Quero me aproximar de você, mas sei que não seria de uma forma amorosa, e eu respeito isso.”
Sim, ele trouxe para a superfície o que eu queria que permanecesse guardado no fundo de nossas consciência. Embora meu coração estivesse com Arthur, meu desejo estava com Breno, eu sabia disso e não negaria, mas gostaria que não precisasse esclarecer para ninguém o que eu ainda estava procurando uma solução.
Uma bipolaridade de sentimentos não poderia ser considerada boa e, muito menos, natural. Eu deveria saber o que eu queria e procurar caminhos para chegar onde quero.
Aceitei a amizade de Breno, não poderia fazer o contrário. Quero ele por perto da mesma forma que o quero longe de mim, gostaria de poder estar com ele da mesma forma que gostaria de poder estar com Arthur nesse momento. Não poderia me desvencilhar do que havia acontecido na noite anterior, minha conversa com Arthur. Eu estaria com ele e somente com ele.
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