A Trouxa
2 A Varinha
Notas iniciais
Acordei logo ao amanhecer com o sol em meu rosto. Aquele seria o dia que eu conheceria o mundo bruxo, o qual eu pertencia, aparentemente. Levantei da cama, me arrumei e corri ao encontro de meu pai que já me esperava ao pé da lareira com as coisas prontas para a viagem.
Pegamos um pouco de pó na mão, atiramos na lareira e nos vimos rodopiando rapidamente, com lareiras e mais lareiras passando por nós. Nunca havíamos feito isso antes e, ao invés de pousarmos com suavidez, como todos deveriam fazer, caímos em um baque, estalados ao chão.
Todos que passavam por nós pareciam saber que não nos encaixávamos lá, mas quem não perceberia? Era uma novidade atrás da outra diante de meus olhos. Bruxos e bruxas passando por nós com chapéus e capas, meninos correndo de uma loja para a outra, animais inesperados, como sapos, corujas e ratos soltos pela rua, guiados pelos seus donos.
As lojas eram estreitas e altas e no final da rua, o Gringotts me esperava. A mulher da livraria me avisou que o banco era liderado por duendes, criaturinhas rabugentas e de difícil conversa, mas muito inteligentes e capacitados.
Assim que entrei no prédio, me dirigi a um dos gabinetes. A voz do duende me causou arrepios e foi difícil não encarar o grande nariz e a fina boca que possuíam, mas logo retiramos a quantidade que precisávamos e nos dirigimos para o Beco Diagonal novamente.
Com a lista de livros na mão, meu pai resolveu entrar na livraria para pedir todos os necessários, enquanto eu entrava algumas lojas adiante para experimentar meu uniforme. Entreguei a lista ao homem no balcão, que me olhou precisamente.
“Mais uma nascida trouxa, não? Bom, bem vinda! Agora vamos provar algumas roupas que eu as ajusto para você.”
A loja estava cheia com umas duas ou três crianças experimentando vestes por todos os lados. Senti-me deslocada por não pertencer a esse mundo, a maioria das pessoas naquele lugar já haviam percebido que eu não tinha afinidade com aqueles hábitos. Não sabia o que fazer na maioria do tempo!
Experimentei minhas vestes, minhas luvas, um chapéu e minha capa. Quando estavam sendo dobradas e calculadas, meu pai entra pela porta me informando que havia encontrado tudo, mas que a varinha deveria ser experimentada. Não entendi o que isso significava, a varinha como eu conhecia era um pedaço de madeira, apenas, que canalizava sua mágica.
Entrei no Sr. Olivaras, que haviam me indicado na loja de vestes, e encontrei um homem jovem estava atrás do balcão. Perguntei se ele não seria muito jovem para ser o Sr. Olivaras e a resposta que eu recebi não era a que eu gostaria de ter recebido.
“Sou sim. Na verdade, Garrick Olivaras era meu pai. Ele adoeceu alguns meses atrás e eu achei que seria inapropriado me desfazer da loja que ele batalhou tanto para abrir. Além disso, quando eu era pequeno, meu pai me ensinou tudo o que podia sobre varinhas e quando saí de Hogwarts, participei de caçadas e do preparo de algumas varinhas.”
Quando ele falou que havia participado de caçadas com seu pai, um enorme ponto de interrogação se abriu em minha cabeça. Porque ele precisaria caçar para preparar uma varinha? Meu pai estava logo atrás de mim e pareceu tão confuso quanto eu.
Quando o questionei a respeito do preparo de varinhas, o filho do Sr. Olivaras me explicou como funcionava. Além da casca da varinha ser preparada com madeira de árvores, o que lhe dá a flexibilidade ou inflexibilidade, havia o núcleo. Esse era composto por pedaços de animais mágicos, como fibra de coração de dragão, por exemplo, o que canalizava a mágica dos bruxos e a transformava em feitiços.
Era por isso, ele complementou, que cada bruxo tem uma varinha específica. Cada bruxo tem suas especificidades, o que faz a mágica ser exigente com relação a sua varinha. Por esse motivo, também, que a varinha escolhe o bruxo; se sua mágica for compatível com sua varinha, eles entrarão em harmonia e funcionarão com perfeição, caso contrário, será muito difícil fazer com que todas as mágicas sejam realizadas com sucesso.
Nesse momento, achei interessante a história das varinhas e não conseguia ver a hora de encontrar a minha eterna companheira. Enquanto o jovem rapaz tirava minhas medidas, o que julguei ser completamente necessário para encontrar a varinha perfeita, fiquei imaginando como seria saber, realmente, que fazia parte desse lugar. Seria a afirmação que eu precisava para me considerar uma bruxa de verdade.
Assim que as medidas foram tiradas, ele me olhou com um sorriso no rosto e anunciou saber a varinha exata a qual me dar. Nesse momento me senti a pessoa mais sortuda do mundo. Ele me entregou a varinha e pediu para eu experimentar, apontando para algum objeto e fazendo algum movimento com meus pulsos. Nada aconteceu, literalmente nada!
Como pode? Aquele não deveria ser a varinha perfeita para mim? Como poderia ter dado errado? O jovem Olivares me olhou com uma cara confusa, entrou em seu estoque para buscar mais uma e, não tão confiante, voltou com uma linda varinha branca em suas mãos, dizendo que aquela pode funcionar.
Assim que a toquei, senti um formigamento em meus dedos e um pequeno calor percorreu meu corpo. Aquela poderia ser a minha varinha! Com um sorriso no rosto e com toda a minha confiança, balancei meus pulsos e esperei, mas nada aconteceu, novamente.
Mais algumas varinhas passaram pelas minhas mãos, na verdade quase a seção inteira das varinhas próprias para meu tamanho, mas nenhuma serviu. Naquele momento, todas as minhas esperanças estavam concentradas em apenas duas delas. Quando tentei a penúltima e não consegui, eu soube que lá não era meu lugar, que eu não pertencia ao mundo bruxo.
A última varinha parou em minhas mãos, eu balancei e nenhum feitiço saiu, por menor que ele fosse. O homem que apareceu em casa na noite anterior estava errado sobre mim e sobre a escola, Hogwarts tinha cometido um erro, talvez o primeiro em muitos anos, mas ele ocorreu. Eu não era uma bruxa, não possuía mágica e, naquele momento, eu soube que nunca pertenceria a nenhum lugar, nunca traria orgulho aos meus pais.
O homem da loja me falou que nunca ouviu nenhuma história parecida que seu pai poderia conhecer. Todo bruxo possuía uma varinha e toda varinha experimentada produzia algum efeito sobre uma tentativa de magia, por mais que ela seja falha. Isso só me deixou pior do que estava e, enquanto utilizava o Pó de Flu para voltar para casa, pensei em meu futuro. Eu não conseguiria ir á uma escola a qual não pertencia, mas também não conseguiria entrar em alguma no mundo sem mágica, meu histórico era muito ruim para tal feito.
“Quem sabe você seja como aquele homem em nossa porta falou ontem. Sua mágica provavelmente está atrasada, mas ela aparecerá em algum momento, querida. Você precisa acreditar no seu potencial.”
Quem sabe o que me aguarda? Quem sabe o que eu farei? Havia muito a que pensar e considerar. Todo o dinheiro bruxo que meu par pegou emprestado do banco Gringotts e toda a sensação de fazer parte de algo maior do que o usual deveria ser levado em conta. Eu me senti tão bem no pouco tempo que eu passei com os bruxos que eu quase me senti livre.
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