A Trama da Bruxa
8 Um casal improvável
― Não vamos fazer isso! ― Disse o homem agitado.
― Vamos sim! Eu não vou mais ficar aqui escondida enquanto aquela vagabunda faz o que quer com nossa casa! ― Teimou a jovem com um tom enérgico.
― Nossa casa?! Você esqueceu que o nosso glorioso rei colocou nossas cabeças a prêmio a pedido daquela bruxa? E que só escapamos graças ao aviso de Hinahoho? Acha mesmo que iríamos ter alguma chance sozinhos contra o país todo e contra a ira de Sinbad que acredita em tudo que a bruxa diz pra ele? ― Disse o o homem em tom mais enérgico ainda.
― Mas… ele é nosso amigo, nós podemos convencê-lo se tentarmos. Nós precisamos. Olha eu adoro viver aqui com você. Eu nunca fui tão feliz, mas se continuar assim em algum momento ela vai destruir o país que tanto lutamos para construir e não vai terminar aí. O mundo todo estará em risco e não vai haver lugar para nos escondermos da nossa própria consciência e nem daquela mulher depois disso. ― Pisti agora falava em um tom choroso. O que cortava o coração de Masrur.
― Você sabe que eu não suporto ver você chorar. ― Disse o fanalis robusto enxugando as lágrimas da garota. ― Mas o plano que Ja’Far propôs não vai dar certo. É quase um ataque frontal contr aum reino todo. E mesmo que dê certo, como vamos fugir de lá? Ou você acha que Sinbad vai vir e nos abraçar depois de matarmos a mãe da filha dele? Olha, eu entendo que você queira ajudar e eu também quero. Mas não quero te perder assim. Dificilmente Ja’Far e os outros vão ter algum sucesso. São eles contra um país inteiro e nada de bom vai vir disso. É suicídio. Já está tarde. Eu tenho que trabalhar amanhã e você também. Se Ja’Far me apresentar um plano mais sólido do que simplesmente invadir o palácio cheio de guardas e assassinar uma rainha na frente de todo mundo, eu topo. Amanhã conversamos novamente com ele a respeito disso. Está bem?
― Mas... Tá bom… Ele disse que vai ficar mais um tempo por aqui mesmo. E realmente eu achei muito estranho esse plano. Ja’Far sempre foi cauteloso e agora resolveu partir direto pra pancadaria. Isso não combina com ele.
Há uma semana atrás Ja’Far os havia visitado e contado seu plano para eliminar Gyokuen e resgatar Síndria das garras da bruxa. Pisti concordou em ajudar, porém Masrur era contra. Ele não queria que ela corresse riscos. Já havia três anos que os dois moravam juntos e nesse tempo eles acabaram se tornando muito mais do que velhos amigos. Eles agora compartilhavam a mesma casa, a mesma vida, a mesma cama. E o fanalis não queria perder aquela garota tão animada que agora era seu motivo de viver, mesmo que isso significasse sacrificar Síndria.
O casal foi dormir. Tinham que descansar para um longo dia de trabalho. Ambos trabalhavam juntos em uma loja de tapetes do mercado de uma vila próxima a Balbadd. Ja’Far demorou três anos para encontrá-los. Durante todo esse tempo ambos levaram uma vida discreta e a única coisa que chamava a atenção no casal era a diferença de estatura entre os dois. Todos ficavam surpresos ao ver como o grandalhão era gentil e sempre educado, tanto com os clientes da loja quanto com sua colega de trabalho e esposa. Ninguém imaginava que aquele homem gentil era na verdade uma fera adormecida.
Ninguém nunca notou nada de especial em relação ao casal até que um fato ocorreu duas semanas antes da chegada de Ja’Far. Dois ladrões invadiram a loja de tapetes e levaram todo o dinheiro juntamente com Pisti como refém. No momento do ocorrido, Masrur não pôde fazer nada por conta da segurança da jovem. Mas ele seguiu os ladrões pouco depois e libertou sua amada. O grupo contra o qual lutou era grande e possuía pessoas muito fortes e habilidosas em luta corpo a corpo e também com espadas. Eram ladrões conhecidos por cometerem assaltos e assassinatos em diversos mercados na região. Mas isso não os salvou da fúria do fanalis. Pouco depois ele voltou para o mercado com Pisti e com os ladrões amarrados uns aos outros. A fila de homens mais parecia um bando de escravos prontos para serem vendidos. O dono da loja deu uma generosa recompensa a Masrur e entregou os bandidos as autoridades. Aquele acontecimento chamou a atenção nas redondezas e Ja’Far logo ficou sabendo de tudo. Isso o levou ao encontro de Masrur. Mesmo assim o fanalis se recusou a ajudá-lo e ele não teve escolha a não ser ficar mais alguns dias para tentar convencê-lo.
Eram sete da noite. Pisti se preparava para fazer o jantar. Ja’Far os encontraria a noite para tentar convencê-los de que sua ajuda. Enquanto isso Masrur ainda não havia chegado já que havia prometido ao dono da loja que ficaria até mais tarde para que sua mulher pudesse ir para casa mais cedo preparar o jantar para as visitas. Mas aquela noite convidados desagradáveis chegaram antes. Dois magos adentraram a casa depois de arrebentar a porta. Ambos trajavam túnicas brancas e utilizavam cajados de madeira. Ao se aproximarem de Pisti, um semblante anormal e sádico era exibido em seus rostos. Os dois eram membros da Al Thamen. A organização também havia ficado sabendo do tumulto envolvendo um homem forte o bastante para derrotar uma gangue inteira de bandidos desarmado e partiram para investigar conforme as ordens de sua líder. Mas ao invés de encontrarem Masrur, o que acharam foi Pisti completamente desprotegida em casa. Ao mesmo tempo o fanalis já estava quase chegando ao se deparar com os homens levando Pisti.
― Essas roupas! Al Thamen. Eu preciso fazer algo, mas se atacar de qualquer maneira posso acabar ferindo Pisti. Vou seguir esses dois. ― Disse Masrur para si mesmo desesperado.
Os dois magos eram muito precavidos e tomaram o caminho mais perigoso através da vila. Um local cheio de ladrões, prostitutas e pessoas da pior espécie. Ali ninguém se metia nos problemas alheios e dificilmente seriam parados mesmo se estivessem raptando alguém. O nervosismo de Masrur crescia cada vez mais conforme o grupo ia deixando a vila e ao mesmo tempo era cada vez ficava mais complicado seguí-los sem ser visto. Quando saíram da vila, não houve outra escolha a não ser atacar o grupo. Não poderia acontecer nada pior a Pisti do que ser entregue a a Gyokuen para sofrer torturas e terminar morta nas mãos da megera.
O ataque de Masrur foi rápido e violento. Os magos mal tiveram tempo de reagir. Um deles sofreu ferimentos graves e morreu quase instantaneamente. Tudo que restou foi uma boneca conforme sempre acontecia com os membros da Al Thamen depois de morrerem.O outro não foi havia sido atingido pelo golpe já que o fanalis não podia atacá-lo sem ferir Pisti.
― Vejo que você quer sua namoradinha de volta. Ha ha ha ha. Venha comigo e eu te deixo fazer companhia a ela na masmorra. Vocês com certeza devem saber onde os outros generais estão. Minha senhora Hakuei vai receber vocês muito bem. ― Disse o homem em tom de deboche.
Masrur queria atacá-lo mas não sabia o que fazer em relação a segurança de Pisti.
― Eu irei com você, mas só se você deixar a garota livre. O que acha? Um prisioneiro com eu é melhor do que uma garotinha, não?
Pisti queria protestar mas sua boca estava amordaçada.
― Eu aceito, mas preciso que você me prove que sua cooperação é verdadeira. Aqui, pegue. ― O mago jogou uma faca em direção a Masrur ― Eu não preciso de muita coisa. Corte seu olho direito fora e eu acreditarei em você.
O sangue escorria pelo chão e se misturava as lágrimas de Pisti. Ela estava livre e Masrur estava ileso. Um amigo os havia salvo.
― Vocês me dão muito trabalho, sabiam? Agora ainda acham que eu estou exagerando ou sendo precipitado ao achar que temos que invadir Síndria e eliminar aquela vadia de uma vez? Ela não vai nos deixar em paz nem se estivermos no próprio inferno! E agora, graças a vocês dois ela sabe que eu ainda estou vivo e que estou atrás dela! ― Ja’Far estava furioso, mas ainda assim era uma visão muito agradável a Pisti e Masrur em meio a toda aquela situação.
― Como assim? Que história é essa de saber que você está vivo?! Não estamos entendendo nada― Perguntou Pisti confusa.
― Venham comigo. Vou explicar tudo a vocês. ― Disse Ja’Far enquanto esmagava na poça de sangue a boneca remanescente do mago que havia sido derrotado. ― Vamos logo. Não tenho tempo pra salvar vocês o dia todo.
O casal acompanhou Ja’Far que explicou tudo a eles.
― Eu sabia que esses ratos percorriam as ruas de onde vocês moram. Eu dificilmente seria o único a ficar sabendo das habilidades extraordinárias de um fanalis enorme ao salvar uma garotinha loira. Vocês são muito inconsequentes. Deviam ter ido embora daqui depois de toda aquela confusão. Enfim, vocês topam ou não? As garras da bruxa alcançam distâncias cada vez maiores e precisamos dar logo um jeito nisso.
― Eu topo! ― Disseram os dois juntos.
― Ok, mas você não vai, Pisti. ― Disse o jovem asssassino.
― Como não?
― Você se esqueceu do que me contou em segredo da primeira vez que fui a casa de vocês? ― Pressionou Ja’Far ― Não me diga que ele ainda não sabe?
― Não sei de que? Me falem logo. ― Disse o fanalis curioso e ao mesmo tempo cheio de ansiedade.
― Eu… estou esperando um filho seu, Masrur. ― Respondeu a garota.
― E é por isso que eu a estou enviando para o mesmo paradeiro onde estão Drakon e Spartos. Além de não poder arriscar a vida dessa criança que ainda nem nasceu, existe outro motivo. Se falharmos, eles serão os últimos que podem se opor a Gyokuen e que sabem de tudo. Sabem como é, dizem que não é bom colocar todos os ovos na mesma cesta. ― Complementou Ja’Far.
Enquanto isso Masrur tentava ouvir o coração de seu filho ainda na barriga da mãe.
― Ele ainda é muito pequeno. Mas você vai poder passar bastante tempo com ele depois de eliminarem a bruxa. ― Disse Pisti sorrindo.
― Pelo nosso futuro e pelo futuro de Síndria, aquela mulher não viverá nem um dia a mais que o necessário então! ― Disse Masrur determinado.
E assim o fanalis partiu junto a Ja’Far com o objetivo de selar o destino de Gyokuen.
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