A Terceira Eu
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Oi. Aqui quem fala é a Mordidinha. Isto aqui é real, ou quase, já que se trata de um sonho. Bem... você chamaria de pesadelo, mas... eu não me importo. Minha vida está mergulhada numa monotonia sem fim, então eu acabo preferindo sonhar com essas coisas, sabe?
A última coisa de que me lembro antes de sonhar foi um comentário em tom de espanto de um colega meu de um curso que faço a noite. "Meu, cê tá muito branca". Algum momento depois de ter lembrado disso, eu apaguei.
Posso dizer que haviam três de mim.
Eu, no sonho. Mais normal impossível, dentro do normal. Eu, apenas uma consciência, acho... como se eu estivesse flutuando sobre a cena do sonho, apenas observando.
E a terceira eu.
Eu a reconheci assim que a vi, os mesmos traços que eu, o mesmo cabelo difícil preso num coque alto, a mesma palidez e os lábios rachados... só que pior. Olhos fundos, avermelhados, com os olhos completamente negros e brilhantes. Eu parecia uns dez quilos mais magra também, mas meu corpo não estava assim legal como eu achava que estaria se perdesse uns quilos... Era um corpo decadente, cadavérico, de ossos aparentes e aparência quebradiça e pegajosa.
A terceira eu ficava o tempo todo ao meu lado. Me seguia onde quer que eu fosse. Quando eu passava muito tempo num cômodo da casa, ela sentava-se ao meu lado, sempre no chão, meio curvada, deixando os ossos da minha coluna bem salientes sobre a roupa. Era dolorido de ver.
A eu "normal" via a terceira de nós o tempo todo. E a terceira eu, quando olhava pra mim, tinha um profundo interesse no olhar. Conversávamos. Sobre os deveres do curso, sobre as chateações da minha mãe, sobre banalidades da TV ou da internet. Completávamos frases uma da outra.
Eu me sentia totalmente confortável na presença daquele monstro.
Minha mãe não notava a terceira. Mas me via conversando com ela, e não perguntava com quem eu estava falando. Na verdade, não falei com a minha mãe no sonho, somente com a terceira.
E senti que se passaram dias daquilo. Me via indo ao curso, voltando, circulando pela casa, fazendo as mais cotidianas tarefas... sempre acompanhada dela. De certo modo, não tinha como desconfiar que era um sonho. A minha consciência achava estranho, mas somente o fato de ter duas de nós no mesmo espaço... não a coisa de a outra eu parecer um demônio, ou mesmo isso de conversarmos amigavelmente. Parece que só podia assistir.
A estranha harmonia que existia entre nós acabou, em algum momento durante o dia, com uma discussão boba. E a noite, quando eu fui dormir, por um curto momento em que fechei os olhos, comecei a ouvir gemidos de agonia, ganidos, e sussurros demoníacos por todo o quarto, especialmente aonde a terceira costumava ficar quando eu ia dormir, ao lado da cama, no chão. No sonho.
Abri os olhos e vi a minha própria face demoníaca enraivecida próxima a mim, sua saliva ácida caindo sobre a minha testa e me queimando. Suas mãos gosmentas de dedos longos e finos apertando com força o meu pescoço, me sufocando, gritando de ódio.
Enquanto aquele demônio me sufocava, eu tentava desesperadamente me soltar, com um sentimento de raiva no peito, como se aquele ser, em quem eu confiava, tivesse me traído. Lembro que no sonho eu pensei "está tentando trocar de lugar".
Quando consegui me soltar, empurrei com força a criatura pra fora da cama e ela se chocou contra o guarda-roupa, quebrando-o. Começou a se mexer desengonçada, como quando se esmaga uma das asas de uma borboleta e ela fica tentando voar. Uma mistura de raiva e pena tomou conta de mim.
Ela ficou por longos segundos tentando se reerguer, mas estava ferida demais. De repente ela teve uma crise de tosse e começou a se debater, como numa convulsão. Eu estava paralisada na cama, sem me mexer, chamava minha mãe, mas toda a vez que eu gritava por ela, aquele demônio gritava de dor e se esvaía em sangue.
E então ela parou, mas eu sabia que não havia acabado. Voltou a face bruscamente para mim, e foi rastejando, coberta de sangue e daquela gosma, e eu ouvia seu grunhir e seus ossos quebrando. Não tentei escapar. Em momento algum a que assistia tentou fazer algo. Sentei na cama e fiquei esperando que ela viesse, me preparando para o ataque dela.
E então acordei. Sem gritar, sem me desesperar, olhei ao redor do quarto, como que procurando, com a sensação de que o sonho não tinha acabado.
Pensei, por um instante, que ela estava lá sim. De alguma forma. Todas nós.
Levantei e fui beber água, ir ao banheiro... acho que poucas pessoas fariam isso depois de um sonho como esse. Era exatamente três da manhã. No espelho do banheiro, escutando o piar da coruja que costuma ficar em cima da nossa casa, examinei com cuidado cada traço meu, os que eu gosto e os que eu não gosto tanto assim... realmente, eu estava muito branca. "Talvez eu e a terceira estamos ficando parecidas" sorri comigo mesma.
Mas alguma coisa ali não sorriu de volta. Foi quando me assustei.
Voltei para a cama e agradeci a Deus por ter caído rapidamente no sono e por ele ter sido normal e ter durado toda a noite. Nunca mais voltou a se repetir, mas parte de mim acha que deveria. Porquê? Taí. Nem sei.
E aí? O seu pior pesadelo foi mais aterrorizante do que o meu? Conte aí, nos coments.
Notas finais
http://www.youtube.com/watch?v=9kSDO3uiaho
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