A Terapeuta.
1 Terapia.
Felipe estava deitado na cama com os braços cruzados e o lençol puxado ate a cintura. Estava com uma cara emburrada enquanto observava a garota a sua frente. Ela desfilava em um conjunto de calcinha e sutiã rendado, na cor preta. Passeava pelo quarto, recolhendo suas roupas e falando ao telefone.
Não era uma garota qualquer. Jéssica pertencia a uma das famílias mais tradicionais da cidade e seria herdeira de uma grande fortuna. Haviam se conhecido a 6 meses e nesse pouco tempo havia feito cair por terra todas as certezas de Felipe.
Ela era uma criatura esguia e com uma pele de quem raramente tomava sol. Todo seu corpo era de uma perfeição absurda; pernas longas, cintura de pilão e uma bunda redonda e empinada que distraia qualquer um. Os olhos eram grandes e verdes, a boca sempre com brilho labial de morango. Tinha voz de menina e trejeitos infantis que normalmente seriam irritantes, mas ficava adorável nela.
Era dona de uma franquia de Lingeries importadas, e quase sempre consumia o estoque. Naquele momento estava irritada com a pessoa que lhe falava do outro lado da linha.
– De o seu jeito! – Ameaçava ela. – Já dei todas as instruções e entreguei o projeto mastigado. Agora assuma as rédeas e mostre algum serviço.
E dizendo isso desligou. Massageou suas temporãs e se voltou para Felipe, já com a expressão modificada. Ela sorria e se movia em sua direção. Subiu ao pé da cama e engatinhou para ele, aproximando seu rosto e beijando-o.
Quando se separaram, suspirou alto e terminou de se vestir. Felipe também se levantou e andou por seu quarto até o banheiro, tomou um banho rápido e também se vestiu. Foi a sala encontrando Jéssica sentada vendo o jornal da manhã. Quando o viu sorriu satisfeita.
– Vou te levar pra tomar café e depois te deixo no trabalho, tudo bem? – Felipe a encarou desconfiado e não disse nada, se encaminhando para a porta.
Os dois tomaram café em uma padaria cara do centro, em meio a tantas opções Jéssica escolheu bolinhos de chuva e cappuccino. Era um gosto simplista para uma garota rica e Felipe sempre se contrariava com aquele jeito dela.
Aquele foi mais um dia comum de trabalho. Felipe pegou seu carro na oficina na hora do almoço e correu para encontrar seu melhor amigo, Marcio que trabalhava a alguns quilômetros dali.
– E então? Já esta namorando a patricinha ou desistiu da alta sociedade?
Ele não respondeu e mais uma vez se perguntou o que aquela garota poderia querer dele. Por varias vezes havia percebido uma expressão diferente em Jéssica e sempre quando tocavam em algo sobre namoro e compromissos. Era quase como se ela esperasse que ele lhe propusesse algo. Ele estava apaixonado, confuso e amedrontado.
Felipe era um desses rapazes tímidos e com cara de menino. Com 1,90 de altura e mais de cem kilos, nunca havia namorado ninguém e poucas vezes se dava bem com uma garota. Ele não era feio, mas acabava por se tornar o melhor amigo das garotas pelas quais se interessava. Elas não viam nele um homem disponível, mas um ombro pra chorar.
Mas com Jéssica havia sido diferente. Tinham se conhecido em uma festa fina em que os convites haviam sido sorteados no jornal em que trabalhava. Toda a noite ele ficou na mesa a conversar com algumas meninas entediadas. Jéssica estava sentada a seu lado e era a mais quieta.
– Parece cansada. – Felipe não tinha nenhuma intenção com aquela garota, ela era bonita demais. – Algum problema?
– Não, só que tenho comparecido a jantares demais. Eu não queria vir aqui hoje. – Disse ela, surpreendendo Felipe.
– Então porque veio? – Jéssica ficou olhando para ele sem qualquer expressão no rosto. Ela nada respondeu e ficou quieta novamente. Algum tempo depois Felipe se mostrou irritado.
– O que foi? – Era Jessica que havia se levantado.
– Eu estou com um amigo que é fotógrafo e pelo jeito ele vai ficar até o ultimo convidado ir embora. Talvez tenha que chamar um taxi.
– Venha comigo, eu te levo pra casa. – Ela o olhava daquele jeito inexpressivo novamente e sem esperar resposta foi indo em direção a saída.
Felipe ficou em dúvida por uns segundos, mas acabou seguindo a garota. Ela dirigia devagar e em um farol vermelho massageou as temporas de olhos fechados.
– Voce se importa se eu parar para tomar um café? Não estou bem acordada. – Ela ainda mantinha os olhos fechados e Felipe começou a se preocupar.
– Quer que eu dirija? – Disse ele.
– Não. – O sinal abriu e ela arrancou.
Ela parou em um posto de gasolina e os dois se dirigiram a loja conveniência 24 h. Jessica foi direto a maquina de café e esperou seu copo ficar cheio. Sentou-se em uma mesinha e bebericou o liquido fumegante. Felipe também sentou e observou enquanto o humor da garota parecia melhorar.
– Me desculpe. Não seria uma boa companhia para ninguém hoje. Talvez em outra ocasião pudéssemos ter rido um pouco mais. – Ela sorria sem entusiasmo.
– Sinceramente? Estou um pouco cansado de fazer as garotas rirem. É bom saber que pelo menos uma vez eu não fui o palhaço de alguém.
– O palhaço? – Ela pareceu confusa. – Olha, não foi isso que eu quis dizer.
– Tudo bem. Sente-se melhor? – Perguntou sem olhar para ela.
– Um pouco. Voce trabalha em um jornal? – Jessica o observava com um interesse genuíno agora e ele começou a falar de seu trabalho e dos leões que tinha de matar todos os dias. Falou de seus amigos, de lugares bons para se divertir, das férias que havia passado fora do país. Jéssica apenas ouvia e fazia pequenos comentários vez ou outra, mas parecia estar gostando da conversa e por isso Felipe continuava a falar e contar piadas e quando se deram conta já estava amanhecendo.
Quando ela o deixou em casa pediu o telefone dele e disse que telefonaria para marcar alguma programação. Felipe lhe deu atenção, mas no fundo tinha certeza de que alguém como ela tinha a mesma memória seletiva que todas as outras. Elas se lembravam dele quando precisavam de um ouvido, mas ele seria sempre o colega gordinho ao qual não viam como um homem.
No dia seguinte, um sábado de sol e a folga de Felipe, seu telefone tocou as 8 hrs em ponto. Ele não atendeu imediatamente e quando o fez quase caiu de costas. Uma vozinha infantil e risonha o convidava para um passeio. Jéssica parecia outra pessoa quando ele chegou. Estava de short curto e regata rosa, não parecia usar sutian. Nos pés uma rasteirinha com strass.
Ele não soube o que fazer quando ela correu e o abraçou. Onde estava a garota quieta e cansada que vira na véspera? Talvez ela fosse bipolar.
Saíram pouco tempo depois em direção a praia, onde Jessica possuía um pequeno chalé de madeira tratada. Assim que chegaram, todas as janelas foram abertas e aquela criatura saltitante em forma de mulher começou a puxar Felipe para fora.
– Vamos para a água! – E tentava puxa-lo, mas Felipe oferecia resistência. – O que foi?
– Eu... não trouxe calção. – Felipe achou que ela desistiria, mas para sua surpresa ela entrou dentro de casa e voltou minutos depois com uma bermuda nas mãos.
– Usa essa. É nova, eu sempre tenho, caso alguém esqueça. – Ela sorria enquanto Felipe segurava a peça nas mãos. Ele olhou para ela e não se moveu, não sabia que expressão estava fazendo, mas Jéssica com o olhou com avidez e baixou o tom de vóz. – Não precisa ter vergonha do seu peso. Eu gosto dos cheinhos.
Felipe ficou sem palavras. “Mas que diabos esta havendo aqui? Eu perdi alguma coisa?” pensou ele. Não queria fazer papel de idiota, mas aquela deusa parecia estar dando mole. Ele foi ao banheiro e voltou pouco tempo depois de bermuda e camiseta.
Jéssica gostava do mar e não saiu da água pela meia hora seguinte. Felipe ficou sentado na praia observando aquele vai e vem nas ondas, os mergulhos, as risadas e o corpo dela se movendo. E mais uma vez chegou a conclusão de que não se parecia em nada com a garota triste e cansada que ele havia conhecido na véspera.
Começaram a se ver frequentemente depois daquele dia, almoçavam juntos e iam ao cinema. Felipe gostava da situação, pois pela primeira vez conquistara uma amiga realmente, que gostava de sua companhia e que o escutava. Na verdade, era ele o centro das atenções, quem falava, que contava seus problemas, quem recebia incentivo. Jéssica era discreta sobre sua vida, seus problemas e nunca mais havia demonstrado aquele humor depressivo do primeiro dia. Ela estava feliz.
Aquelas semanas estavam sendo cheias de novidade, mas Felipe não estava preparado para o que viria. Em uma tarde em que ele estava saindo do trabalho, recebeu uma ligação de Jéssica. Ela queria vê-lo e disse que iria até seu apartamento naquela noite.
Quando a campainha tocou, Felipe foi atender sem pressa. Havia preparado pipoca de micro-ondas e pego um filme para verem. Mas ao abrir a porta chegou a conclusão de que não conseguiria se concentrar em mais nada.
Jéssica parecia uma daquelas personagens Hentai. Branquinha, com os cabelos bem escovados, saia curta e uma camisa branca com gravata. Estava maquiada e cheirava a morangos. Tinha uma expressão meio estranha de quem estava aprontando. Felipe se curvou para beija-la e teve o rosto segurado com delicadeza enquanto era beijado na bochecha. Assim que ela entrou no apartamento, Felipe soube que algo estava acontecendo.
Conversaram um pouco enquanto o filme não começava, mas Jéssica parecia não conseguir prestar atenção em mais nada a não ser no rosto de Felipe. Em dado momento, ele sentiu os dedinhos frios dela tocarem sua mão e por reflexo ele a afastou. Foi nesse instante que ela se aproximou e tocou seu rosto de novo. Felipe a encarou espantado, mas fechou os olhos quando sentiu aqueles lábios macios tocarem os seus.
Era estranho ser beijado por uma garota daquelas, mais que isso, era excitante e seus pensamentos estavam em disparada.
Porque ele? O que ela planejava? Estava certo de que aquela garota poderia ter quem ela quisesse e quando quisesse, não era exagero dele. Então porque ela estava ali? Com um cara gordo, com um trabalho medíocre e que não tinha metade da cultura que ela demonstrava?
Não sabia a resposta e esqueceu as perguntas quando ela se pos a abraça-lo e acaricia-lo. Começou a corresponder e quando a abraçou, percebeu o quanto ela era pequena. De alguma forma sentiu algo emanando dela, uma carência e uma necessidade que ele não conseguia compreender. A levantou em seus braços e a levou para a cama.
A partir daquela data eles se viam todos os dias. Faziam todo tipo de programação e Jéssica parecia nunca se cansar de estar com ele. Felipe continuava se perguntando até onde iria aquilo. Adorava cada instante que passava com ela, mas no fundo não conseguia entender aquela linda criatura.
A situação estava começando a ficar insuportável para ele. Eram tantas dúvidas que ele andava nervoso com aquela relação. Já havia sido rude algumas vezes, perdendo a paciência quando ela o tocava do nada e em ambientes movimentados ou quando acordava sendo chupado. Quando isso acontecia, ela se recolhia em si mesma e ficava em silencio, mas sempre era ela quem se aproximava dizendo algo engraçado e superando o ocorrido.
Felipe precisava de ajuda para entender o que vinha ocorrendo, por isso procurou uma terapeuta. Ela pediu que ele abrisse a mente e dissesse de forma direta o que o incomodava, como haviam sido suas relações até então. Foi difícil definir o que ele estava sentindo, mas sua insegurança era notável. Tantas vezes fora colocado de lado por garotas egoístas, que tinha aprendido que não merecia nada mais do que indiferença. E ser o centro das atenções de alguém tão acima de suas expectativas era incompreensível a ele.
– Eu queria que ela fosse sincera e dissesse o que quer de mim. Se você a visse ao meu lado também iria se perguntar a mesma coisa. – Felipe estava nervoso.
– Só um instante, não vejo nenhum problema nisso. Voce me parece um rapaz inteligente, maduro e extremamente agradável. E pelo que me contou ela não faz nada para alimentar sua insegurança. Já parou para pensar que ela possa estar apaixonada?
Felipe pensava nessa possibilidade, mas parecia inaceitável. Ele estava apaixonado, ele estava encantado e não queria ver seus sentimentos serem arrasados por aquela menina.
Agora quando se viam, ele tentava não demonstrar o que sentia, procurava se manter a distancia e trata-la com mais frieza e quanto mais fazia isso, mais ela tentava agrada-lo.
– Eu queria que ela parasse de agir assim. Ela merece alguém muito melhor do que eu. – Dizia ele a doutora.
– Bem, eu acho que esta levando suas incertezas longe demais. Mas se quer resolver a situação de uma vez por todas, converse com ela. Diga como se sente e se acha que vai ajudar, peça um tempo. Apenas diga o que sente.
Ele seguiu o conselho e naquele dia mesmo resolveu conversar com Jéssica. Comprou um vinho e comida para o jantar. Quando Jéssica chegou teve certeza de que a amava, mas não podia continuar com aquelas dúvidas. Eles jantaram e quando pareceu propicio a abordou.
– Eu gostaria que fôssemos sinceros hoje. – Ela o olhou sem entender e por um instante ele pensou em deixar pra la, mas era tarde. – O que nós somos afinal?
– Do que esta falando? – Ela tentou se aproximar mas ele a impediu.
– O que temos? O que somos? O que representamos um para o outro?
– Por acaso esta querendo namorar? – Ela sorriu com a ideia.
Ele ficou nervoso com aquele riso. Estava tentando resolver a situação e colocar as coisas em ordem, mas ela ficava fazendo piadas.
– Por acaso esta tirando sarro de mim? – Ele falava alto e seu rosto estava vermelho. – O que pensa que eu sou? Voce entra na vida dos outros e bagunça tudo e ainda fica rindo! Mas que droga Jessica. Porque é tão egoísta?
Ele levantou de onde estava tentando se acalmar. Olhou para a garota sentada a sua frente e notou sua palidez, os lábios trêmulos, ela não parecia estar sorrindo agora. Ela se levantou e andou até ele. Segurou seu rosto e gaguejou ao falar.
– O que eu fiz a você? Em que eu te magoei? Me diga e eu corrijo!
– Voce não pode corrigir nada. – Felipe se afastou e deu as costas a ela. – Olhe pra você; tão linda, de boa família, rica, viajada, tão cheia de possibilidades que chega a ser absurdo. Já parou para pensar em como eu me sinto com tudo isso? O que eu posso te dar que você já não tenha? Porque fica me constrangendo e sendo patética?
Jéssica havia escutado tudo aquilo. Ficou se perguntando em que era patética e quais eram essas inúmeras possibilidades as quais ele se referia. Ela não sabia o que dizer a não ser a verdade.
E a verdade é que ela estava cansada. Cansada de sua família esnobe e daquele estilo de vida, cansada das festas chatas e do jantares aos quais era obrigada a comparecer, cansada dos relacionamentos vazios e sem nenhuma sinceridade. Há muito tempo ela vinha enfrentando momentos de solidão e tristeza, mas todos que a cercavam viviam naquele mesmo mundo. A única diferença é que se contentavam.
Mas Jéssica queria mais, ela já sabia o que significava a normalidade a qual tinha acesso. Não era uma privilegiada como Felipe pensava e as possibilidades as quais ele se referia não interessavam a ela.
– Sabe, é confuso tentar entender as pessoas. Por que a gente sempre analisa de uma forma pessoal e não adianta dizer que é diferente do que se imagina. Não adianta...– Ela falava devagar, parecia novamente a garota que Felipe vira no dia em que se conheceram. – Olha pra você... nem ao menos se da conta do quanto é especial.
Ela massageou as temporas e deu um sorriso amargo para Felipe.
– Voce diz que eu tenho tudo. Mas desde que me tornei adulta, você foi a primeira pessoa que me perguntou se eu estava bem. Todos me olham e veem a garota rica e bonita que pode ter o que quiser. Só que ninguém realmente se aproxima, abraça, protege, cuida. É o como eu me sinto com voce . – Ela se dirigiu ao sofá pegando sua bolsa e olhando diretamente nos olhos de Felipe. – Será que eu sou realmente patética por te amar? Eu... não sei e sinceramente não me importaria se fosse. Eu só consigo pensar que tudo o que voce precisava fazer era aceitar meu amor. Mas você não quer... isso é mais que egoísmo. É crueldade.
Jéssica alcançou a porta devagar, mas quando ia saindo Felipe a segurou e a abraçou.
– Perdão! – A apertou entre os braços, sentindo que ela tremia. – Me desculpa, mas eu não entendo você. Eu só aprendi a não receber nada e sorrir. E você é tão diferente de mim. Perdão!
Felipe ouviu os soluços e sentiu as lágrimas dela. O que havia sido a vida dela? Em que momento ela se tornara tão sozinha? Agora queria realmente proteger e cuidar dela. Se tudo o que tinha de fazer era se doar a ela, então ele faria isso. Era tudo o que ele poderia fazer. Levantou aquela pequena em seus braços e a levou para a cama, ficaram abraçados e quietos até adormecerem. Tinham a certeza de que algo muito forte havia sido construído ali.
Na semana seguinte Felipe visitou sua terapeuta pela última vez. Já não precisava mais vê-la.
– Espero que tenha se dado conta de que ninguém ama uma casca. Todos precisamos nos doar a alguém em algum momento. Acho que fez isso pelos outros por tanto tempo que não esperava receber o mesmo. Como se sente agora?
– Quer saber? Minha noiva é linda, rica e me ama. E eu só tive que aceitar isso. Sou um gordinho de sorte!
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