A Teoria das Cores

87 Verde Amarelado IV


ARTÍSTICO

Os dias passaram, a vida deu mais alguns de seus giros e a semana preparava-se para findar outra vez. Isabel pouco entendeu na conversa com a supervisora da escola do filho sobre o ocorrido, saindo de lá com mais dúvidas do que certezas. Por sinal, Dan retornara ao trabalho, arcando com vários puxões de orelha e longas horas de discursos sobre boas maneiras. Se havia prestado atenção em cinco minutos tinha sido muito.

Acordou naquela quinta feira ouvindo apenas o som dos pingos d’água caindo no chão. Perguntava-se qual o motivo que levava seu relógio biológico a seguir despertando tão cedo se estava encarando ainda a suspensão. Claro, Jeff lhe mandava todos os dias as tarefas de aula, mas isso não significava que seus cadernos havia saído da mochila em algum momento. Podia então se dar ao luxo de sonhar por mais uma hora que fosse. Como não foi possível, espreguiçou-se, colocou os chinelos e desceu a espera de alguma viva alma ter deixado café pronto.

Para sua sorte, apesar de ainda estar no preparo, Ian terminava de passar. Estranhou vê-lo tão bem arrumado aquele horário e naquele tempo onde a cama clamava para não ser abandonada. Deu ‘bom dia’, já questionando se os dates já ficaram tão exigentes. O mais velho riu-se, dando um giro rápido para que o primo analisar com maior propriedade antes de responder. Vestia uma jaqueta de couro preta, uma calça azul escura tão apertada que Dan chegou pensava que os testículos do primo viraram omeletes, além de seu all star. De detalhes, só o gel no cabelo castanho rebelde.

— Preciso estar bem pra minha apresentação, né mangolão?! — exclamou, distribuindo seu sorriso quase parte de seu rosto fino e bem desenhado — Vai assistir?

— Por chamada de vídeo vale? — arriscou, levando um tapa no ombro.

— Dá um jeito. Se não tiver lá, não fala comigo até a Rainha Elizabeth bater as botas!

— Como que—

— Dá um jeito — impôs, ainda que sua voz soasse com uma plenitude espiritual invejável, já tirando o recipiente do café do lugar e despejando um pouco do líquido sobre sua xícara posta a mesa — Quem mandou fazer c*g*da?

— Pode deixar que meu clone espiritual vai tá lá — revirou os olhos.

— Tá bem avisado, cabeção — disse, enquanto colocava a primeira e última colher de açúcar no café em mistura com leite.

Dan foi até o armário, tirando de lá uma xícara e colocando sob a mesa. Queria muito poder prestigiar o árduo trabalho realizado durante horas a fio com seus alunos para, enfim, o grande dia brilhar. Rebecca, entretanto, fora específica ao dizer que preferencialmente mantivesse distância da escola nos dias afastado. Destruiria seu coração caso assim não fizesse, tinha certeza.

Seu primeiro impulso subir até o quarto, pegar o celular e avisar os demais amigos a boa nova. Ao menos isso ainda conseguia fazer, amenizando um pouco o sentimento pesado que carregava dentro do peito. Alegrou-se um pouco recebendo retornos de visualização dados por eles, correndo para contar ao mais velho a respeito. Ian agradeceu, afirmando que o evento ocorreria ao longo do intervalo, ainda ressalvando a importância de sua presença lá não importava em quais circunstâncias. Dan revirou os olhos.

— Não tenho déficit cognitivo pra falar quinze vezes a mesma coisa e só aí eu entender — reclamou.

— Ué, pra tanta coisa tu banca avestruz que já acostumei a parecer vitrola quebrada — ironizou o maior.

Tinha horror dos dias nos quais o primo resolvia bancar o palhaço, jogando na cara suas limitações quanto a aceitação de certos instintos. Achava um absurdo ser recriminado por a vida inteira ter vivido com uma face da moeda e, por estar adentrando (mesmo a passos de lesma) neste novo mundo, haver uma força maior querendo tudo sendo resolvido a toque de caixa.

O barulho das colheres batendo nas bordas das xícaras foram sua única companhia por alguns minutos antes do celular do menor vibrar e aparecer na tela uma mensagem de Alisson perguntando se não dava para adiarem o evento por sua cama estar quentinha demais para ser largada as traças. Riu, ordenando que seu jeito mangolão fosse esquecido apenas naquela manhã e que, posteriormente, poderia já voltar com seus traquejos sociais e comportamentais.

Ian ficou abelhudando a cena, sequer forçando seus neurônios a pensar quem seria o responsável por seu primo mostrar os dentes aquela hora da manhã. Se por um lado, agradava-lhe a ideia dele dar vez aos longos conselhos já ditos a exaustão e se entregar ao impulso forte que julgava que sentia dentro do peito, por outro seu coração se esmilhaçava no chão, vencido pela inconformidade das ações da vida. Não se sentia no direito de questioná-las, tampouco subjugá-las apenas por não satisfazerem a seu gosto. Entretanto, permitia-se deixar os mares agitados beirarem a paz de seu rio ao menos uma vez para, quem sabe, tudo passar mais depressa.

Terminado o café, revezaram para limpar e secar os itens sujos e, depois, Daniel acompanhou o mais velho até a porta, e, antes de deixá-lo ir, segurou de leve sua mão. O gesto atraiu o olhar inquietante dele, Ian percebeu algo menos tumultuado das últimas vezes nas quais tinha tido a oportunidade de lhe encarar tão de perto, como se, por alguns míseros segundos, Daniel tivesse nos braços da paz. Surreal, pensava, o efeito de meia dúzia de palavras trocadas com alguém que cujo coração estava nas mãos de Alisson.

— Que foi? — questionou, com um sorriso tímido nos lábios.

— Só queria te desejar boa sorte do jeito que tu gosta…

Engolindo seco, foi diminuindo a distância entre seus rostos, culminando no selo entre os lábios. Durou poucos segundos, trazendo mais fraternidade do que desejo. Queria apenas tirar um sorriso dele para o caso de não conseguir dar a volta por cima e assistir a sua apresentação.

A estratégia, por sorte, deu certo. Ian agradeceu, tirando uma sombrinha de dentro da mochila e indo para o trabalho. Em virtude do evento, precisava chegar mais cedo e organizar os últimos detalhes, além de dar um ensaio rápido. E tão rápido quanto isso era o jeito com o qual Daniel precisava pensar para resolver seu problema.

Era um fato incontestável que chegar na escola e entrar na maior cara de pau seria pedir para comprar briga, acarretando até em problemas maiores. Qualquer ideia, como pular o muro ou se encher de óculos e casacos para passar batido caíam por terra, sendo as razões indo desde muito ridículas à inconsequentes. A única solução tida e que pareceu mais sensata foi achar alguém para lhe ajudar, sendo bem específico na escolha.

Ligou para Alisson mais de seis vezes antes do rapaz, furioso, perguntar se haviam lhe capado para precisar encher tanto o saco aquela hora da manhã. Ao explicar tudo o que ocorria, precisou engolir uma série de desaforos antes de tomar atitude e dar um ultimato.

— Se tu não me ajudar, beleza. Eu vou sozinho, mas ai de ti que se vier torrar meu saco!

O outro bufou na mesma hora.

— Me encontra em meia hora na frente da escola, 007.

Claro que Dan poderia contestar, alegando ser uma perda de tempo irem tão cedo se precisariam ir só na hora do intervalo. Porém, sabia da dor de cabeça surgindo em seguida, optando então por engolir a seco, tomar um banho de gato e correr para chegar na escola antes do amigo mudar de ideia.

Amigo… ainda podia lhe chamar assim? Havia um tom incomodativo na palavra, como se pronunciá-la, mesmo em pensamento, não saísse com a força na qual deveria. Lembrava-se do dia no qual confessou que ele era o melhor deles, pela finalidade de raciocínio e maneira como se portavam. Seus gênios, tão congruentes e faiscantes, tombavam-se vez ou outra gerando uma aquarela de cores vivas e quentes, onde poderia ficar eternamente caso o preço não fosse alto demais.

Al mostrou através de suas atitudes a importância de se defender, não ter medo nem vergonha de encarar os desafios cotidianos. Acreditava esta ser o motivo mais forte pelo qual estar perto dele tornou-se um solo irregular, onde qualquer novo passo podia acarretar consequências as quais fugia incansável, na busca de se apegar em qualquer explicação que servisse de escudo contra a verdade a sua frente.

Caminhava pela escola a passos de formiga, permitindo-se tomar a onda de pensamentos distantes e trafegar por ela. Embora aceitar o óbvio fizesse suas pernas bambearem, qual outra opção tinha? As desculpas findavam, as fugas tornaram-se irrisórias e a cegueira um calo apertado no sapato. Uma verdadeira rocha estava em suas costas, já não vendo a hora de poder tirá-la de lá. No entanto, entrava em conflito ao pensar em como fazer e, mais além, se valia a pena fazer.

As pistas todas estavam à mesa, o jogo aberto para quem quisesse ver. Por que então tinha calafrios ao pensar na solução e aceitar o que Ian, Vanessa e o próprio Alisson já haviam lhe dito à exaustão? Era tão difícil admitir em voz alta os desígnios pelos quais tanto se maltratava? Tudo tão confuso e claro ao mesmo tempo. Contraditórios como todas as suas atitudes até então.

Trocava olhares com as pessoas na rua, sentindo-se penetrado pelo julgamento. Como a história do ladrão: Não estava fazendo, contudo, soava como se todos soubessem que fazia. Começou a alongar os passos à medida que aquele incômodo ia subindo para sua cabeça igual uma febre forte, querendo cavar um buraco na terra para adentrar e chegar na escola sem passar por tanto estresse.

O mais velho estava escorado numa parede de uma papelaria quando se aproximou da escola, tomando fôlego devido a velocidade excessiva da caminhada. Ele lhe encarava de braços cruzados, esperando que chegasse para, enfim, reclamar dos sete minutos de atraso. Um pouco atordoado, limitou-se a dar um dedo do meio como resposta antes de ir direto ao ponto.

— A gente tem que entrar nesse c* antes do Ian se apresentar.

— A gente? Como assim? Onde tá escrito que tenho que entrar? Pensei que ia TE ajudar a entrar! — contestou.

— Será que dá pra parar de agir feito o bebezão que tu é e botar o cérebro pra funcionar uma vez?!

— Olha quem falando, né? — revidou — Se tivesse tendo o sonho que eu tive, ia entender porque tava tão gostosinho estar na cama…

Dan sentiu quando seu rosto começou a fervilhar, ainda mais como, só para aprontar, o outro questionou se queria detalhes. Negou na mesma hora, alegando o tempo ser curto para aquele tipo de gracinhas matinais típicas suas. Al pô-se a rir, como uma criança aprontando das suas. Certas rabugices valiam a pena quando feitas no momento certo, ainda mais com o vespeiro humano a sua frente.

— E se a gente mentisse que precisa de um atestado de escolaridade pra procurar serviço? Elas não sabem que trabalhamos — sugeriu.

— É uma boa, mas a escola tem câmeras. Vão nos pegar fácil.

— Se pensarmos assim vão nos pegar de qualquer jeito — deu de ombros — não tem como entrar sem sermos pegos.

— Então temos que dar trabalho para nos acharem — seu sorriso mordaz revelava a ânsia em botar em prática.

— O que tu tem em mente, pervertido? — indagou, em tom irônico.

— Se liga… — começara a explicar sua ideia quando, pouco depois, percebeu o guarda correndo para dentro da escola com as mãos apertando o espaço entre suas pernas.

Nem esperou para dar satisfações. Pegou Daniel pelo braço, começando a lhe puxar até chegarem bem próximos à entrada da instituição. Observou se algum servente vinha para cobrir o chamado da natureza do homem responsável pela segurança, agradecendo aos céus por notar nada além dos pássaros voando entre as árvores.

Cuidando bem os ângulos das câmeras que pôde observar — e rezando para não haver mais delas em pontos menos estratégicos — entrou agachado, pedindo para o filho de Isabel assim fazer também. Foram assim até a parte do estacionamento dos funcionários. Tudo ia bem até, sem querer, o menor encostar em um dos carros e disparar o alarme que gritava mais que uma mãe em trabalho de parto. Ambos deram um pulo quase até a lua, fugindo para outro canto como galinhas correndo do trem e se escondendo no primeiro canto possível. Al não deixou por menos, dando um tapa em sua nuca e suplicando para deixar seu lado protagonista de sitcom para trás por quinze minutos.

Pelo curto tempo, sequer conseguiu dar uma resposta. Nem preocupava-se tanto com ela, afinal coisas bem mais intrigantes passavam por sua análise mental. Embora tivesse caído em seus braços uma vez quando estavam na biblioteca, era a primeira vez na qual sentia na própria pele a força do rapaz. Alisson tinha alguns poucos músculos escondidos por debaixo das roupas, só não fazia ideia de sua funcionalidade. Conseguia lhe arrastar com uma facilidade de quem pega um papel de bala e sai a carregar por aí. Fora a velocidade com qual arquitetava tudo, quase dando a entender que um plano já havia sido previamente calculado.

Como acesso aos fundos da escola era inexistente, andavam agachados até conseguirem, de fato, entrar e voltar a caminhar normalmente. Deram sorte por encontrar, poucos metros após a entrada, uma caixa de achados e perdidos com dois bonés ali. Dan já preparava um chilique sobre a higienização daquilo quando notou o guarda retornando ao posto. Pelas circunstâncias, se viu obrigado a pôr sem questionar e seguir caminhando de cabeça baixa para as câmeras não lhes flagrarem ainda mais. O homem nem percebeu, dando, inclusive, ‘bom dia’ quando passou por eles. Ambos riram, questionando-se se Elis engoliriria o disfarce. Por via das dúvidas, preferiram ficar sem a resposta, indo direto a sala vazia.

Era incrível como aquele ambiente, mesmo com todos os seus defeitos e má estruturação devido a falta de cuidados, conseguiu conquistar o coração dos meninos como nenhum outro espaço havia feito. Sentia-no como um porto seguro em meio ao caos ao ambiente escolar cujo único mérito, na opinião deles, era a capacidade incrível de fazer uma pessoa ter ânsia de vômito em menos de doze segundos. Ali, esse efeito era cortado como por encanto, trazendo o frescor de estarem longe do tumulto e, ao mesmo tempo, recordações de momentos inusitados que seus corações não conseguiam apagar.

Alisson e Daniel sentaram com uma carteira entre eles ouvindo só o barulho da rua ecoando abafado. Tanto tinham a dizer, mas pouco queriam falar. Alisson por não ter ideia se as línguas compridas de Jeferson e Sabine já haviam feito o que faziam de melhor, tendo posto todo o trabalho que vinha fazendo no lixo; e Daniel pelo simples peso na consciência de não saber mais onde caçar motivos para fugir do que estava estampado tanto em seu rosto quanto do colega a seu lado. O estômago dava várias voltas sem cessar, enquanto os dedos já começavam a formigar. O corpo sinalizava o que a mente queria evitar.

Mesmo sem estar totalmente convencido, Daniel foi o primeiro a quebrar o gelo. Afinal de contas, já tivera a coragem de contar ao menino sobre a possibilidade de gostar de garotos. A suspeita que pairou no ar em seguida daquele ato foi mera formalidade, pois bem sabiam a quantas andava.

— Tô tendo bastante tempo pra pensar agora que não preciso ver a essa diarréia ambulante — começava — Acho que… algumas coisas… realmente mudaram…

— Como? — inquiriu, atento às palavras como se elas fossem capazes de salvar sua vida.

Suspirou, antes de prosseguir.

— Domingo agora foi muito louco — riu, mais por constrangimento à qualquer outra coisa — Eu… Não sei o que aconteceu. De repente, eu tava colado com o Ian—

— Ian? — por mais esforço que tenha feito, no íntimo, aquilo não soava como completa novidade.

— S-sim — coçou a nuca — Sei lá… a gente começou a se beijar e eu não ia parar, Alisson. Eu juro que era capaz de ir até o fim se minha mãe não tivesse batido na porta.

Se saber quem estava provando do gosto da boca de Daniel não havia dado um único arranhão, tamanha obviedade daquela situação, ouvir uma afirmação daquelas conseguiu ter a força de uma manada de mamutes famintos. Uma batalha havia perdido, isso era fato, mas não era qualquer uma. Uma sensação esquisita tomou conta de seu peito, algo sentido apenas quando descobriu a verdade sobre seu pai e ao levar o tapa da mãe. Seus músculos não tinham forças para reagir, lutando com as últimas forças que tinham para manter seu olhar fixo no de Dan.

— Bem, parabéns, né? — tentava articular alguma coisa, ainda que falsa, só para não deixar que a aura de tristeza pairasse ali — Deve ter sido bom…

— Foi… pra eu descobrir que não quero nada com ele — uma nova faísca na hora surgiu no olhar do mais velho, sem entender onde queria chegar. Percebendo isso, prosseguiu a fala — Ian… ele é meu primo, basicamente um irmão mais velho. Tá, ele é envolvente, mas as jibóias também são e nem por isso quero uma.

Não pôde deixar de rir.

— Que comparação, hein? — ironizou o filho de Marisa.

— Cala boca e me deixa falar! — apesar do tom imperativo, ria também — Disse que iria até o fim porque… foi quase como instintivo, entende? Como se por dois segundos eu tivesse esquecido da parte emocional e só visse ele como…

— Homem — concluiu — É… Uma possibilidade bem coerente até. Lembrando agora, faria outra vez?

— Como ele não — foi incisivo — Não quero mais magoar meu primo. Eu amo ele demais pra ficar fazendo isso.

— Que bom que tomou os remédios hoje. Devia fazer isso mais vezes — debochou — Tá, e vai beijar quem então? O espelho do banheiro?

— Não sei… Nem sei se quero fazer outra vez, com outra pessoa — confessava — Tá tudo meio confuso ainda.

— Confuso, não. Enrolado eu diria — mexeu outra vez — Olha, pateta, eu sei quem pode resolver isso e sem dar qualquer rolo.

Curioso, encarou-o e questionou quem seria a tal figura. A certeza da resposta era quase absoluta. Quase. O tiro, entretanto, saiu pela culatra.

— Lembra daqueles dois guris que vimos no banheiro aqui do lado? Então… Fui numa festa bacaninha que um deles promoveu. Sei lá, quem sabe tu te solta um pouco e tenta…

— Só tem via… — ia falar, mas se deu conta — gay, bissexual, esse tipo de gente?

— Um pouco de tudo — respondeu, animado — Quiser, podemos marcar de fazer algo sábado. Dúvido que ele vai negar.

— Pode ser… Eu acho — coçou a nuca.

Tinha suas razões para acreditar no fracasso de uma situação como aquelas, uma vez que os tais sujeitos quase enfiaram sua cabeça na privada só por lhes ter pego no pulo cometendo atos impróprios dentro da escola. Qual máxima teria lhes subido a cabeça para aceitá-los e convidá-los a seus joguinhos? De algo tinha certeza: se aprontassem para si com alguma história mal contada, arrancaria pelo por pelo do corpo de Alisson usando uma pinça.

Este, aliás, pegou-se com a cara no chão. Com todas as variáveis possíveis e imagináveis dentro do contexto no qual viviam, ver o filho de Isabel admitindo algo pelo qual lutava tanto a não ver era, no mínimo, surpreendente. Concluiu que sua cabeça devia estar uma verdadeira máquina de lavar roupa, funcionando na potência alta. Por algum lado havia de escapar e, para sua sorte, escolheu o melhor. Era incerto a ocorrência de alguma coisa lá, pois o menor podia entrar em curto circuito e sair correndo, mas preferia acreditar na boa mão do destino, e que, ao menos naquela hora, a estendesse.

Movido pelo interesse em saber mais da tal festa, Dan não se acanhou de questionar mais sobre. Alisson, não por menos, desatou a comentar acerca das primeiras impressões, achando que era uma armadilha e depois descobrindo o antro de pecaminosidades residentes naquele microespaço. A parte dos meninos nús cometendo as mais loucuras sexuais possíveis foi de longe o combustível ágil capaz de fazer o corpo dele começar a reagir. Cruzou as pernas, colocou o corpo para frente, mais jogado, a fim de esconder, mas Al já tinha fisgado o peixe. Como observara pouco do acontecido dentro do quarto, abriu licença poética e acrescentou detalhes picantes só para mantê-lo assim.

Aproveitando da saliência do ambiente, indagou maiores informações sobre suas sacanagens com Ian. Evidente que o menor teve um pouco mais de acanho enquanto contava a forma do acontecido, ainda mais por notar o maior contendo sua “alegria” sem muito esforço. Ficava desbaratinado cada vez que seus olhos faziam um movimento errado, tendo de começar a frase uma ou duas vezes. Ele bem sabia se beneficiar do relato, deixando em seu rosto um sorriso maledicente preenchendo o espaço e sua imaginação voar até onde conseguisse.

Quando deram por si, ouviram o sino do intervalo tocar, perplexos pelo tempo ter criado asas. As vozes ecoando pelos corredores já indicavam a ida para o ginásio de todos os presentes. O filho de Marisa então sugeriu ser a melhor hora, uma vez que poderiam se misturar em meio a multidão e não serem o foco das atenções. Com o aceno afirmativo de Dan, colocaram os bonés e deram um jeito de se enfiar entre o grupo de alunos mais próximo que puderam encontrar, sempre sem encarar muito de cabeça em pé para passar discretos sem cruzar olhares com Elis ou Rebecca, talvez seus piores desafetos naquelas circunstâncias.

O palco alugado estava uns bons metros a sua frente, posicionado no centro da quadra onde todos pudessem ver. Não havia uma decoração maior, apenas os captadores de som e caixas posicionadas de forma estratégica para que todos ouvissem. Enquanto o programador fazia os testes da qualidade do som, Ian, com a ajuda de Manolo, seu chefe, organizavam os pequenos em fila, todos com camisetas brancas cuja única tinta vinha das mãos pintadas e colocadas sob o tecido, lembrando Al e Dan das apresentações de dias das mães da infância. Nenhuma cor se repetia, fato que deixavam as estrelas do espetáculo afoitas querendo mostrar seu talento.

De fato, não tardou a acontecer. Logo, o grupo de doze crianças puseram-se a cantar, alternando com algumas flautas tocadas pelos maiores e o violão a comando de Ian. Os ouvintes, em sua maioria, com os olhares bem fixos neles enquanto arriscavam cantar junto.

“Numa folha qualquer

Eu desenho um Sol amarelo

E com cinco ou seis retas

É fácil fazer um castelo”

Os pequenos não faziam feio, com poucos deles desafinando ou errando a letra em momentos muito específicos, mas que, no conjunto, só eram percebidos pelos “críticos” dispostos a catar falhas como urubus atrás de carniça. Os músicos esmeraram-se na declamação das notas, e a mescla de violão e flauta, no fim, deu uma boa pedida. Dan focava no primo, sorridente ao ver o fruto de seu trabalho sair maduro. Lembrou-se das várias vezes na qual cantou para ele dormir aquela mesma música quando mais novo, obrigando-se, em virtude da lembrança, a engolir o choro para não dar o gostinho de Alisson tirar sarro.

Contrariando as expectativas, ele apenas acompanhava o sorriso pela performance de encher os olhos, fosse de alegria ou emoção. Tivera de dar o braço a torcer, o primo mais velho do “amigo” possuía um dom incrível e mágico, entendendo as razões pelas quais conseguia vez ou outra arrancar suspiros dele. Inclusive ali estava deixando-o enfeitiçado com a doçura da música e a boa melodia por trás dela.

Tomou a liberdade de, aos poucos, ir levando sua mão direita ao encontro da esquerda de Dan, sentindo o choque causado pelo atrito delas. O menor sequer olhou, mas pôde perceber que também havia sentido. No entanto, não recuou, fazendo mais uma tentativa no mesmo ritmo. Encostou primeiro a ponta dos dedos nas dele, para depois ir encaixando conforme ele fosse dando vazão. E deu! Entrelaçou suas mãos e assim permaneceu até o fim da música, ainda que Dan, mexido pela incerteza de propósitos, recusasse a encará-las. Claro que não foi razão suficiente para Al deixar de sorrir pelo sucesso da tentativa.

Os aplausos quando terminou podiam ser ouvidos a quilômetros de distância, junto aos assobios e gritos histéricos dos mais entusiastas. De todos, sem dúvida, o mais importante para si foi ver o olhar do primo emocionado vendo-o prosperar. Havia dado seu jeito como contou que faria. Por mais falta de nexo que suas ações tivessem, Daniel levava a sério seus sentimentos e se importava com eles. Não levava jeito para protetor, mas deixava-se ser protegido de maneira singular, de tal forma que acabava protegendo-o nos dias mais difíceis que passaram.

Viu também Ágata, poucos metros distante, aplaudindo, assobiando e dando gritos os quais não se entendia uma vírgula. Riu pelo ato, mas estava agradecido pelo apoio daqueles que mais gostava. Após as palavras de agradecimento da diretora e do professor de dança Gustavo, elogiou seus pequenos, abraçando um por um, e depois foi trocar umas palavrinhas com Ágata. Repetiu o ato do abraço, dando um beijo em sua bochecha como acréscimo.

— Arrasou, tigrão! — exclamava, contente — Sempre soube que tu ia dar bom como músico.

— Valeu, gatinha! — sorriu — Devo isso a ti. Sabe disso, né?

— Não me deve nada. Só te indiquei, mas o trabalho duro mesmo tu quem fez. E agora tá colhendo isso.

— E ter tu e o Dan aqui nessa hora significa muito mesmo. De coração.

A morena ajeitou seus cabelos, coçando a nuca.

— Pena não ser como antigamente… — suspirou — Mas é a vida! O importante é que tu tá indo bem!

— Não é como antigamente, mas é tão bom quanto se fosse — replicou — Tu é uma mina muito especial. Não esquece disso.

— Ah, eu não esqueço. Principalmente com Micael dizendo todo dia — brincou — É diferente, né? Mas não tinha como ser igual. Tu também tem uma luz tão bonita irradiando no teu entorno que a gente se sente no país das maravilhosas.

De novo, Ian tornou a sorrir.

— Tu vai ver que o Mica também sabe levar as gurias pra lá. Do jeito dele, claro — disse, malicioso.

— Safado! — deu um leve tapa em seu ombro.

— Vou ver com ele. Talvez consiga dar uma banda por aqui.

— Vou esperar então.

Deram um último abraço enquanto foi tentar encontrar Al e Dan. Não tardou a achá-los, uma vez que os garotos já vinham em sua direção. Ambos parabenizaram-no, com o primo se dando o direito de dar um abraço rápido no mais velho. Alisson, por sua vez, limitou-se a trocar um aperto de mãos.

— Queria saber tocar assim… deve ser f*da! — pensava o mais novo.

— Tu sabe tocar… bronha, mas sabe — alfinetou Al, arrancando risadas de Ian, em contrapartida, uma expressão pouco amiga de Daniel — Realmente, parece ser incrível mesmo.

— Tudo na vida é uma questão de prática. Se quiserem tomar aulas daqui um tempo, a gente recebe com muito gosto.

— Sugere pro teu primo fazer com instrumentos de sopro. Ele vai adorar ter que pôr algo na boca — provocou.

— Cala boca! — exclamou.

O sino do fim do intervalo tocou logo na sequência. Despediram se de Ian e informaram que precisavam sair dali o mais depressa possível. O mais velho desejou-lhes sorte, deixando que tomassem seu rumo. Como sabiam da provável abelhudice da equipe diretiva e professores na porta de entrada, resolveram fazer a mesma tática usada para entrar, misturando-se em meio a multidão e separando-se dela quando foi possível.

Tentaram desviar do foco das câmeras o máximo possível, quase encostando-se na parede para atender ao pedido. Jogaram os bonés na caixa de achados e seguiram até o estacionamento. Al notou que uma das professoras estava saindo com o carro. Pouco atenta, talvez muito pela pressa, saiu sem conferir se o portão estava fechando direito. Encontraram ali a brecha perfeita para sair de fininho, sem precisar passar pela portaria. O esforço valera a pena.

— Valeu — sorriu Dan — Por tudo.

— Nunca mais me faz acordar cedo e vir para escola quando eu não quero, ouviu? — brincou o mais velho, arrancando risadas — De nada, pateta.

— A gente… se vê?

— Com certeza! — esticou a mão, recebendo um novo aperto.

Al e Dan tiveram ali a certeza de algo forte dentro de seu coração. Encontravam-se em sintonia, arrematados pela intenção de quererem conhecer um outro lado de sua vivência então. O fato era um só: Não conseguiriam fugir por muito mais tempo. A grande questão que permeava, entretanto, seguia: o que mais precisariam atravessar ainda?

CONTINUA