INFLUÊNCIA DE HUMOR

A surpresa de ver o rosto de Gil em sua frente causou em Ian uma série divergente de emoções, indo desde dúvidas quanto a sua presença à alívio por vê-lo em um momento tão delicado. Ainda que por vias tortas, voltar a ter contato com ele dava um frescor a sua vida, já que sempre se deram bem até o fatídico término o qual consideravam tão precoce. Um ombro amigo lhe servia como uma luva.

Deixou o menor entrar sem maiores cerimônias. O rosto dele, porém, tinha impresso o mesmo ponto de interrogação o qual ele próprio teve ao encontrá-lo ali. Sentia ter caído numa espécie de universo paralelo, ou um sonho provocado pelo possível uso de entorpecentes causadores das mais diversas reações. Sentaram frente a frente, um em cada sofá, buscando um no outro respostas para suas perguntas.

— Chegou hoje? — Gil questionou, com as mãos entrelaçadas e os braços entre as pernas.

— É… Precisava espairecer e resolver umas coisas aqui com o Andreas. Ele tá aqui, tu já deve saber.

— Sim. Soube — limitou-se a responder — Ele não comentou que tu viria pra cá.

— Ele não sabia. Cheguei de surpresa — coçou a nuca — Tu… precisava falar com ele alguma coisa? Bom, se era algum recado pra mim—

— Não, não. Era coisa nossa. Nada demais.

Se antes as dúvidas já não eram poucas, o número aumentou com a colocação. Quando recebeu a ligação do primo mais velho, Ian lembrava dos esporos recebidos em virtude do encontro dele com seu ex, sem em momento algum falar a respeito de qualquer assunto entre eles. Como Gil parecia se esquivar de falar, o jeito foi deixá-lo conversar a sós.

— Se tu quiser, posso dar uma saída e vocês conversam. Acho que ele vai mesmo querer ver a fuça de qualquer um, menos a minha.

O maior franziu a sobrancelha.

— Capaz! A casa é de vocês… Mas foi séria assim a coisa?

— Ele não ouve o que eu falo. Parece que é informação demais pro cérebro dele.

— Caso Daniel de novo? — revirou os olhos — Conheço essa lenga lenga desde quando namoravamos.

— Antes fosse…

De novo, Ian contou o acontecido a Diógenes, a briga deles antes dele ir à casa de Ágata pela última vez. Tal qual ocorreu com o primo, Gil trocou de cor escutando aquilo, até sentiu cada célula sua se ouriçar. Sua pele já tão branca ficava sem tom algum. Não foi tarefa fácil falar uma segunda vez a respeito, mas era importante o menor entender o contexto daquela história toda entre eles. Confiava em sua opinião, tendo a convicção de expôr o que achava sem melindres.

Ao chegar na parte a qual envolvia o primo, porém, o espanto deu lugar a uma irritação sublime, vista na expressão seca de um inimigo precisando engolir a presença de outro. Ian, entretanto, seguiu contando sem poupar os detalhes, o que, pelo que podia perceber, em nada estava ajudando.

— Sabe o que me impressiona? Tu realmente acreditar que essa conversa ia acabar bem de alguma forma — confessou Gil — Esse papo teu não tem início, tem um meio bizarro e tô até agora tentando entender o final.

— Quando a gente passa por uma perda tão trágica como essa a vida ganha uma camada a mais. Fica claro que a qualquer instante pode chegar a nossa vez, e precisamos cuidar bem de cada minuto pra não partir em vão como ele.

— Então eu te pergunto: Deu resultado? — o outro baixou os olhos azuis, fitando o sofá. Gil revirou os olhos — Ainda me presto a perguntar o óbvio.

— Gil—

— Não, Ian. Peraí. Disso tudo, me diz pelo menos que tu percebe que tu veio até aqui atrás de sarna pra se coçar.

— P*ta que p*riu, eu tô falando grego?! Será possível que ninguém tá entendendo o que eu digo?!

— Entender, sim. Achar válido, nunca — foi direto e reto — Ian, o guri tava aqui, no canto dele, fazendo mal a ninguém. Aí tu chega aqui, cheio de razão e ainda cobra explicações ridículas. Ele errou mentindo do tratamento? Sim, concordo. Acontece que ele não é o primeiro no mundo a fazer isso.

— Mas é meu primo, c*r*lho! Quero ver ele bem! Tu não vê isso?!
— Não vai ser dando um tapa na cara dele que tu vai ver ele te abraçar e agradecer, Ian.

De fato, Gil pegou no ponto chave da coisa. Ian começou a se dar conta do problema. Na hora, fez por impulso, quase raiva pela eterna teimosia do mais velho em querer estar com a palavra final. No entanto, também tinha seus valores sobre agredir alguém e, olhando de fora, se via traindo a si mesmo em virtude de um momento de calor infame, sem qualquer fundamento, apenas por ego ferido de não ter recebido a resposta que queria. Conseguia ouvir o som da ficha caindo dentro de sua mente.

Por mais que seu interior clamasse por ajuda, não sabia bem como fazê-lo. Depois da sensação estranha habitual com relação a Daniel, aquilo se mostrava tão diferente quanto. Só que, em oposição à primeira, mostrava um lado seu vil, autoritário, medíocre e crente na força dos desejos herdados dos antepassados, cheios de instintos primitivos incontroláveis e insaciáveis. Um peso enorme começou a se abater sobre seus ombros, fazendo-o repensar a atitude e reanalisar a cena inteira.

—Eu errei… Verdade. Não posso nem criticar…

— Sabe, Ian, quando eu vi o Andreas naquele mercado, a primeira coisa que me veio à cabeça foram os tempos nos quais o olhar dele me fuzilava por estar contigo e ele não. De tanto ficar remoendo aquilo, fui na praia ontem à noitinha, vi ele sentado na areia com os pés enterrados nela. A luz que vinha do poste perto de onde ele tava refletindo nos olhos e no resto do rosto transformou ele em outro guri. Quase não reconheci.

Ian então encarou-o, surpreso.

— Falou com ele?

— Tentei, né? Num primeiro momento ele se ouriçou todo, fez ironias e tudo. Como viu que eu não ia ficar quieto, pois comecei a revidar, foi baixando a guardar, começamos a conversar e—

— E?

Gil respirou fundo. Não esperava confessar aquilo tão brevemente ao rapaz, mas, dadas as circunstâncias, lhe restavam poucas opções.

— Chegamos a conclusão que estamos saturados dessa situação, Ian — confessou — Aquele dia que a ex do teu primo me encontrou bêbado no chão da faculdade foi o fim pra mim. Ali, por mais que não admitisse, foi o estopim pra eu entender o que se passava dentro de mim.

O rapaz de olhos claros tornou a baixar seu olhar, fitando o chão. Uma tímida lágrima correu por seu rosto enquanto tentava processar a sucessão de fatos descritos pelo ex. Era surreal ouvir aquilo sob uma outra ótica, menos factual, cercada pelo calor dos ânimos. Ali falava o coração de Gil, pondo para fora tudo aquilo capaz de corromper seu coração e deixá-lo à margem das impurezas da vida, ou mesmo as próprias chicotadas dadas por si na alma por conta do amor que sentia por ele. Por um momento, um aperto no coração quase lhe arrancou a fala. Igual não sabia direito quais palavras usar depois de ouvir aquilo. Sentia-se um atirador matando um inocente sob pretexto de misericórdia.

— Quer dizer o que com isso? Que não te respeito? Não te quero bem?

Gil suspirou.

— Quando tu apareceu na minha porta, tu abriu também uma porta, só que interna, dentro de mim. Uma que tinha encostado, mas fiz a burrada de deixar a fresta aberta.

— Só queria resolver as coisas contigo…

— Me beijando? — revidou, ironizando — Ian, te conheço. Sei que não foi de propósito, mas aconteceu. Aquilo acendeu em mim um desejo que tá em mim até hoje da gente voltar. Mas…

— Mas…

— Eu não quero isso. Não vai me fazer bem — confessou — É duro pra mim admitir, só que é a realidade. E, se tu tá pensando que com o Andreas é muito diferente, se engana. Com ele é pior. Se pra mim tu é parte do problema, pra ele tu é todo.

As palavras saídas da boca de Gil tinham uma navalha embutida, cortando-o fundo a cada nova oração por ele pronunciada. Via com clareza os pontos de vista dos dois apaixonados, ainda que sob a perplexidade dos fatos e as atribuições feitas a sua pessoa. Era como ser massacrado depois de ser torturado. A vida lhe mostrava um ponto cego, o qual tinha muito mais do que ele podia imaginar. Foi doído, deixou seu coração sangrando sem cessar, mas, por pior que fossem as palavras, nenhuma delas era em vão. A razão estava ao lado deles.

Depois daquilo ficou insustentável ficar ali. Podia esbarrar na carga negativa do ambiente e não aguentava mais aquilo. Disse ao ex que precisava ir à praia espairecer e, caso quisesse, podia conversar com Andreas o que quer que fosse. O menino negou, dada a gravidade e fraqueza emocional na qual, deduzia, ele devia estar metido. Foi embora depois de se despedir, pedindo que refletisse bem sobre a conversa e que retornaria assim que possível. O garoto agradeceu, observando sair enquanto levava consigo os restos de dignidade ainda restantes dentro de sua consciência. Estava tão desolado quanto um cão recém abandonado.

Só piorou quando, a passos lentos, foi andando até o quarto onde vira Andreas entrar e parou. Não tinha certeza se deveria entrar sem se anunciar antes, preparando-se, então, para bater na porta. Bem na hora, porém, começou a ouvir leves soluços e fungos vindo de lá. Soube na hora que o primo estava debruçado em lágrimas. O fardo de carregar aquela culpa consumiu-lhe por completo, não deixando espaço para mais nada em sua cabeça. Acabou por desistir, virando-se e indo à praia no mesmo instante e com a roupa que estava. Chegou a ouvir seu celular vibrar, mas ignorou. Não estava com cabeça.

Enquanto caminhava, milhões de flashbacks lhe surgiam como assombrações em torno de suas vítimas, querendo justiça por seus atos. Viu a cena de quando foi atrás de Gil, os primeiros toques e carícias feitos em Andreas, o abraço nú junto a Daniel na cachoeira… Momentos que, até minutos antes, carregavam consigo a mágica da vida, como se pudessem ser emoldurados na parede e admirados por si até o fim de seus dias. Sem o filtro da beleza, porém, tornavam-se cinzas, amargas, quase mesquinhas, movidas por suas próprias ambições e vontades. No fim das contas, começava a não se achar tão diferente do primo mais velho, de Daniel ou até mesmo Micael. Fazia jus ao status de primo. Compartilhava do mesmo gênio que o deles, com uma camada de personalidade.

Chegando à praia, encarava as ondas com a única vontade de atirar-se lá e nunca mais sair, ansiando que a água salgada limpasse toda a sujeira na qual havia se metido sem se dar conta. Via o quebrar das ondas com cobiça, esperando delas uma resposta tão simples e prática quanto sua ação. Para seu infortúnio, não era possível. A vida era mais complexa do que as forças da natureza. Tinha seus próprios padrões, regras e vontades. Nada nem ninguém conseguia dobrá-los por inteiro. Nem ele. Podia ver isso ali.

Ajoelhou-se na areia seca e deixou seu rosto ser lavado pelas lágrimas reprimidas, até mesmo acabando com todo o ar de seus pulmões gritando a fim de tirar aquele sofrimento horrendo de dentro de seu peito juvenil. Seu corpo parecia suplicar por isso, tremendo não só de nervoso, como de tristeza, carregando a mescla de ambos enquanto pedia por uma luz que mandasse embora as trevas repentinas as quais cobriam sua vida naquele momento.

***

Ficar o dia inteiro aguardando um sinal de vida de Ian, definitivamente, não estava nos planos de Daniel. Não conseguira se concentrar direito, errando até em algumas vezes pontuais, pensando no que teria feito Ian sair sem dar maiores explicações. Quando, por fim, chegou em casa, questionou a mãe a respeito e ela lhe garantiu saber tanto quanto si, uma vez o sobrinho tendo lhe mandado mensagem avisando sobre a ida. Por precaução, até Clara, mãe de Ian, foi avisada, afinal, mesmo sendo maior de idade, não suportaria a ideia de omitir da irmã um fato daquela magnitude e acabar sendo forçada a contar depois. Mesmo que achasse um exagero em circunstâncias normais, acabou concordando com Isabel.

Da história sabiam ainda o mesmo que pela manhã. Sem notícias do primo e sobrinho e a vontade dele em dar maiores detalhes, não havia razão para terem colhido. Até porque Ágata, sendo estudante da escola, faltou aula em virtude do velório. Então ficariam com aquilo até que Ian retornasse, fosse ao vivo ou por mensagem. O jeito foi engolir a curiosidade e deixá-la em banho maria. Esperançosa, Isabel afirmou que notícia ruim chega rápido, portanto acreditava piamente no bem estar de seu sobrinho.

O que começava a lhe tirar o sono era o fato da história entre Alisson e seu filho ainda permanecer às cegas depois do tamanho da confusão onde haviam se metido. Aproveitando o fato de estarem sozinhos na cozinha enquanto Bruno descansava no quarto, a mãe arriscou falar no assunto, perguntando se Dan já tinha planos de conversar com o pai a respeito do amor dele por outro rapaz. Na mesma hora, Dan, que bebia um gole de suco de Mamão e Tangerina, afogou-se.

A pergunta era improvável, apesar de não ser completamente em vão. Sabia da razão da mãe, no entanto, achava inapropriada a hora, falando isso a ela. Isabel insistiu, comentando sobre a possível crescente da boataria. Ainda convicto do que falava, o menino garantiu que quase ninguém daria ouvidos a boatos criados por adolescentes sem noção, até porque não eram os primeiros rapazes a serem alvos de fuxico do gênero, tampouco os primeiros a fazerem jus a eles, mesmo o mundo não sabendo disso em certos aspectos. Aflita, a mulher só torceu para que fosse verdade. Temia pelo bem estar do filho, bem como a maneira a qual isso afetaria suas relações interpessoais. Mais do que nunca, sentia necessidade de se fazer presente em sua vida, a fim de garantir a segurança de seu “pequeno”.

Depois de beber o copo de suco, Dan agradeceu a preocupação da mãe, mas alegou precisar ir para o quarto fazer os deveres de casa. Isabel, conhecendo sua cria, não levou muita fé na conversa, mas aceitou para não complicar sua vida mais ainda. Na realidade, a dúvida da mãe o lembrou da ameaça feita por Arthur de lançar o vídeo devido a provocação de Al. Mesmo a segurança do ficante tendo lhe tocado os brios na hora, começava a sentir um calafrio na espinha pensando em como seria lidar com aquilo na escola e, aí sim, os olhares da sociedade. Não estava nem perto de se sentir pronto pra isso, tremendo só de cogitar a possibilidade.

Desesperado, acabou ligando para Ian num primeiro momento. Quando se deu conta, desligou na hora, afinal não era justo nem empático enchê-lo com seus problemas enquanto enfrentava uma crise bem maior em sua vida. O jeito, então, foi ligar para o criador do problema. Por sorte, o rapaz estava livre naquele momento, podendo lhe atender. Foi então que comentou consigo suas angústias, o medo da ameaça se tornar real e de como se sentia uma formiga recebendo água quente com aquela coisa toda. Com toda serenidade, o ficante, mantendo o tom de tranquilidade, afirmando ter conversado com Rebecca pelo telefone durante a tarde e de sua garantia que, caso Arthur leve adiante, terá de responder a um processo por uso indevido de imagem, uma vez que a gravação não foi autorizada.

Ainda sim, não era suficiente para conter os medos dele. Falou sobre, no caso de um vazamento, terem que se explicar, acabar confessando mesmo acerca de seu relacionamento e acabar, por conseguinte, expondo a opinião pública. Alisson, sem Dan ver devido a ligação, perguntou qual droga ele havia fumado. De imediato, o menor revidou lhe mandando tomar em seu orifício e pedindo maior credibilidade, já que realmente achava aquilo sério. Al retrucou, alegando que diarréia também era sério, mas nem por isso ver alguém correndo até o banheiro deixava de ser engraçado. Daniel não conseguiu manter a seriedade, cedendo ao impulso de gargalhar. O mais velho continuou, pedindo que não se estressar tanto com isso, fosse tomar um suquinho de maracujá e ver pornô. Mais risos.

— Seu pau no c*.... Acabei de tomar suco. Não era de maracujá, mas tá valendo também — justificou, sorrindo.

— Então fica só com a parte mais divertida: ver pornô — aproximou sua boca do microfone do celular, sussurrando — De preferência os gays de agora em diante, viu?

Dan sentiu um frio lhe percorrer a espinha. Era improvável, mas não impossível aquela frase ter realmente saído da boca do mais velho. Já conhecia-o bem demais para saber quando e como ele usava de artimanhas para deixar alguém encurralado. A consequência era óbvia: seu rosto fervia, querendo enfiar a cabeça no primeiro buraco de tatu que encontrasse.

— Cala boca!

— Ui, ele ficou bravinho! Nossa, vou até me esconder aqui do tchu tchu cão! — ironizou o mais velho, rindo — Até mais, pateta. Preciso ir que tá chegando gente.

— Tchau, bebezão. E toma bem no meio do teu—

Sequer conseguiu terminar, já que o rapaz se viu necessitado de desligar depressa, deixando de novo sozinho com seus pensamentos, agora mais leves em virtude do gracejo de seu ficante. De todas as surpresas que uma relação como aquela poderia lhe dar, de longe essa era a melhor de todas. Ligar e ouvir sua voz brincando e tratando tudo com maior seriedade, sem tanta enrolação quanto ele mesmo fazia, dava-lhe a sensação de estar protegido dos males do mundo, e que, talvez, fosse hora dele também crescer e aprender a lutar tal qual o rapaz que amava aprendera a fazer. A começar tentando compreender se o comentário, à primeira vista tão displicente, não havia sido um sinal para algo maior.

***

Três dias passaram com a velocidade de um avião bem turbinado. A sexta feira, 21 de setembro, trazia com ela um certo ar de esperança e alívio. O sol lançava seu brilho sobre Nova Petrópolis iluminando não só o céu, como também a vida de muitos dos viventes na cidade. Na escola Presidente Lincoln, por exemplo, duas notícias agitavam a instituição: a primeira se tratava da entrega de boletins no turno seguinte, à tarde. A segunda, é que começaram as primeiras divulgações sobre o trote de dia das crianças, tão festivo e divertido quanto o anterior, da troca de roupas. Os terceiros anos não se aguentavam de animação, já que as oportunidades eram das mais diversas. A proposta do trote era ir com um personagem o qual marcou a infância, então a criatividade não teria limites, disso não tinham a menor dúvida.

Jeferson, Sabine, Adrian e Amanda comentavam entre si sobre as roupas desejadas e as possíveis escolhas de seus colegas. Jeff, o mais preparado deles por conhecer um contato de alguns dos membros da comissão organizadora dos trotes formada por alunos das respectivas turmas, foi atrás de uma roupa de Quico para o fatídico dia. Querendo debochar, Sabine largou um comentário amassado pelo diabinho de dentro do seu corpo, falando que o menino tinha ares de Chaves. Percebendo o dardo envenenado, Jeff lembrou o fato de Chaves ser protagonista e que, parecendo entusiasta do tema, sugeriu que viesse de Chiquinha. O fato arrancou risadas de Amanda e Adrian, mas Sabine ameaçou correr atrás do menino pelo desplante, mesmo que se aguentando para não cair na risada também. O outro casal, por outro lado, estava desprendido de ideias, pedindo até sugestões caso os amigos tivessem.

Entre uma sugestão e outra, Sabine começou a perceber os olhares dos demais sobre eles, os benditos olhares. Desde que começou a fofoca sobre Al e Dan e o episódio no morro de Nova Petrópolis, estava difícil para eles não serem o centro das atenções, já que estavam juntos e ajudaram na ação. Comentando isso com os demais, Adrian até brincou, alegando ter ficado mais famoso que sua participação no time da escola. Já Amanda revelou ter recebido uma mensagem nada sutil da ex meio irmã, Amora, querendo saber notícias, até que ponto tudo era real. Com a cara no chão, Jeff perguntou como a moça tinha a audácia, uma vez que está apagada a meses, sem que ouçam falar direito seu nome. Mandy comentou que, apesar do episódio bacana vivido com ela às vésperas de seu aniversário, a essência dela continuava a mesma, sendo impossível uma aproximação contínua sem que faíscas saiam disso. Outra dúvida que brotou no pessoal veio do fato de, justamente os envolvidos principais, terem sumido sem dar notícias. O fato foi contestado por Jeff, enquanto Amanda os defendia, pedindo que os deixassem namorar em paz.

Na realidade, ambos aproveitavam o momento a sós juntos, sim, mas dedicando seu tempo a um treino incansável nas duas músicas: tanto a escolhida para a performance quanto a de abertura, onde seriam apenas eles e o público. Repetiam os passos e a coreografia algumas vezes, voltando em passos ainda difíceis de acertar, sincronizando movimentos os quais ainda escapavam, principalmente na música de abertura, além de arriscarem alguns mais ousados, por assim dizer, sem a interferência do professor nem do resto. Terminaram apenas quando ouviram o primeiro sinal dar vida, derretendo devido ao alto esforço feito. Prevenido, Dan acabou trazendo uma garrafa com água congelada, bebendo e compartilhando com o outro.

— É, pateta — dizia Al, ofegante — Ainda precisa comer muito arroz com feijão pra poder me alcançar, mas tá indo, né? Tem saúde e é o que importa.

Na mesma hora recebeu um chute no traseiro, rindo da reação do mais novo.

— Fica quieto ou vai desidratar — ameaçou, brincando.

— Uh, que medo! — brincou — Primeiro, mete a cabeça nas minhas bolas sem nem me conhecer, agora chuta minha bunda… Sei não, hein? Pra mim…

— Pra ti o quê, senhor fogo no r*bo? — revidou, sorrindo maledicente — Tu acha que eu não tô sacando que tu tá querendo desde o dia do banho?

Na mesma hora, Al puxou Dan, colando sua cintura na dele e aproximando seus rostos, indo com a boca bem próxima ao ouvido de Dan e confessando a ele, com a voz aveludada e rouca.

— Por mim tinha feito aquele dia mesmo… Já batemos uma um do lado do outro, o que seria sucumbir de vez, né?

A espinha de Dan gelou por inteiro com o comentário. Não restavam mais dúvidas, se é que algum momento as teve. De alguma forma, sabia que os instintos de Alisson começavam a falar mais alto do que sua razão. Começava a vê-lo se transformar num lobo selvagem e sedento por carne. A sua carne. Os olhos dele cobiçavam cada centímetro de seu corpo, devorando-o em segundo nos pensamentos, tinha certeza.

— Não sei… Se tô preparado pra isso…

— Comeu o c* da Vanessa sabendo que ela não tinha b*ceta, não comeu? E tá aí, vivão — disse, mordiscando sua orelha — Qual é, pateta. Não acha que já fomos longe demais pra agora inventar amarras?

— Eu tô sabendo disso. É complicado — não conseguia pôr em palavras exatas seus sentimentos — Mas prometo que vou conversar com o Ian e pedir pra ele me ajudar nisso.

— Olha, não querendo parecer chato, mas essa eu acho que tá um nível acima do que ele pode ajudar — riu — Entendo a boa vontade dele e acho super válido, mas pensa comigo: O que ele pode te dizer que eu não tenha te dito?

— E o que vocês me disseram que um especialista não vai dizer? — revidou.

— Pateta, a questão aqui não é só trepar. Eu sei que tu ainda não tá de cabeça nisso, ainda entra em contradição… Não dá pra gente ficar empurrando isso com a barriga pra, lá na frente, a bomba estourar. Precisamos resolver agora. Já.

— Mas tu não acha que—

— Não, não acho — cortou o namorado — Sério, Dan. Precisa achar alguém que te ajude. Não quero estar quase gozando e tu ter um surto.

Dan não se aguentou, caindo na gargalhada. Sequer teve argumentos contra, afinal aquela atitude era típica sua. O jeito foi concordar em procurar ajuda de psicólogo e tentar iniciar um tratamento para, enfim, lidar com a felicidade proporcionada em sua vida do modo mais saudável possível.

Por seu ficante ter falado no primo, Al questionou se ele havia dado notícias. Dan negou, afirmando que, na falta de contato com o próprio, falou com o mais próximo. Chamou Micael, o qual falou sobre a insistência de Andreas na estadia em pelotas e, então, se viu diante da situação de falar com o rapaz. Tinha um certo gosto amargo na boca ao falar dele, afinal o episódio do soco no aniversário de Micael parecia ter sido vivido segundos antes cada vez que se lembrava. Ele, seco como a areia do deserto e frio como uma geleira do Ártico, apenas confirmou a estadia de Ian lá. Mais nada.

Alisson comentou sobre a barra ter pesado ao menino e o quão sua mente deve estar confusa diante da tragédia, mas que, mesmo conhecendo-o pouco, sabia ter dado o melhor de si. Dan complementou o pensamento falando em Ágata, lembrando que não teve sequer notícias dela nos últimos dias. Naquele instante, cogitou mandar mensagem para Vanessa a fim de saber da garota, mas, pensando ser intromissão demais, resolveu aguardar retorno do ex dela para ter maiores notícias. Até porque sua aula estava prestes a conversar, então o assunto precisaria ser adiado de qualquer forma.

***

Na ânsia de saber maiores detalhes sobre a tal fundação de ajuda a LGBTs, Vanessa não perdeu tempo em procurar na internet matérias em jornais, revistas, sites e redes sociais para começar a mergulhar naquele mundo. Seu olhar brilhava a cada nova experiência relatada tanto por pessoas acolhidas pelos trabalhos quanto por profissionais atuais e antigos, todos membros de alguma das siglas abrangentes da comunidade. Sentia-se em seu território lidando com isso.

Não satisfeita, marcou uma visita para a sexta feira pela manhã, indo para a cidade na véspera da entrevista e carregando Ágata junto a si. Sabia que a amiga precisava renovar os ares, vendo nisso uma excelente oportunidade de tirá-la do marasmo onde sua vida começava a querer afundar e entrava de novo nos eixos. Porém… nada. Ao chegar no quarto do hotel reservado em Porto Alegre, a moça não quis pôr o nariz na rua nem sob tortura. Na busca por respeitar aquele momento tão frágil, onde tudo acontecera tão de repente e o acontecimento sequer tinha esfriado, não insistiu. Acabou por lhe fazer companhia até a manhã seguinte quando foi conhecer seu futuro emprego.

Chegando no lugar na hora marcada, quase caiu para trás. Era sediada em um casarão antigo, com paredes em cor amarela e o encosto das janelas em azul. Um vasto pátio com grama com cheiro fresco, onde alguns jovens se reuniam em rodinhas de chimarrão para conversar, trocar ideias; Por dentro, o lugar, com dois andares, já tinha corredores menos largos, quase dando a impressão que duas pessoas andando lado a lado ficariam presas. Com várias salas de diferentes temáticas, os grupos tinham enfoque em trabalhos voluntários na comunidade, preparo para voltar ao mercado de trabalho, grupo de pais e mães de membros LGBTs, aulas de Inglês básico, arte em mais diversas áreas, além da área psicológica, assistência jurídica para toda e qualquer questão dessa natureza e um abrigo para expulsos de casa. Um lugar sério, passando profissionalismo e capacitação.

Quem lhe atendeu foi justamente uma mulher trans mais velha, a quem descobriu, enquanto conversavam, ter se assumido oito anos antes. A mulher aparentava estar muito feliz em ver alguém tão moça já lutando por seu lugar e, agora, se dispondo a ajudar a causa a qual conhece bem. Van, lógico, sentiu-se honrada, prometendo fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para ajudar. Sua função, além dos acertos sobre sálario e adendos como vale transporte, foi alertada no sentido de atenderem sempre, em caráter prioritário, os membros do abrigo, alegando que muitos deles sofrem muito no início com o desamparo total da família e demoram a reagir sem assistência adequada. Van garantiu tomar nota disso e dizendo que tentaria seguir a risca.

A mulher então levou Van a um dos grupos do jardim da frente, os quais, foi-lhe explicado, era a primeira vez que estavam ali. Quase como um “Alcoólicos Anônimos”, onde contavam suas experiências, sendo boas ou não. Os primeiro relato foi de um jovem negro expulso de casa três meses antes, mas que só conseguiu vaga ali na última semana; outro foi de uma menina cega cuja família religiosa atribuía sua condição a um castigo por gostar de moças; a terceira de um ex garoto de programa que estava sofrendo para aceitar sua condição recente de soropositivo. Todos arrancaram de Van lágrimas involuntárias, uma vez que via ali vidas humanas as quais tiveram seus direitos completamente violados.

Foi a quarta e última, porém, quem mexeu mais consigo. Era uma moça loira, tal qual ela própria, transsexual, que havia passado por constrangimentos na vida antes da readequação de gênero, a escola e seus momentos infernais, a total alienação dos pais num primeiro momento… relatos que podia se ver contado anos antes, quando decidiu que seria psicóloga. Aquele foi, de longe, o mais fundo em sua alma. Ali decidiu ficar. Garantiu a administradora que mal via a hora de começar, recebendo muitos agradecimentos por sua parte. Era bom, no fim, estar sendo acolhida. Seu eu interior, um Adam perdido de quatorze anos, se sentia, finalmente, em paz.

Ao voltar para o apartamento, porém, encontrou Ágata ainda atirada na cama. Sua paciência foi toda pelo ralo, questionando o que a morena fazia ali que não abriu a janela, respirou ar puro e deu, pelo menos, uma volta na quadra. Ágata fez manha, alegando não estar disposta a isso. Mesmo diante da recusa, a loira insistiu.

— E onde tu acha que ficar aí vai ajudar alguma coisa? — questionou, de braços cruzados.

— Tu é psicóloga. Me diz aí — revidou.

— Amiga, eu entendo, do fundo do meu coração, o processo de luto. Sei que é longo, difícil, mas precisa acontecer. Tu tem uma vida e precisa pegá-la de volta.

— Como eu vou fazer isso com o fantasma do Diógenes assombrando minha vida? — perguntou, com o olhar perdido — É tão horrível saber que nossa última conversa foi daquele jeito… Eu só queria paz, droga! Será que era tão difícil pra ele entender isso?!

— Olha aqui, já vou avisando — alertava — Se tu pensa que vai fazer a mesma coisa que fez com a morte do Bryan, tu tá muito enganada! Não vou deixar!

— Mas não é culpa. É remorso de ter sido… tão dura com ele — assumiu — Só queria que ele tivesse me entendido. Não era propriedade dele, mas nem por isso queria bem.

Van suspirou, sentando ao lado da amiga na cama e pegando sua mão. O ato fez a outra a encarar bem fundo nos olhos, enquanto recebia um sorriso encantador, capaz de iluminar seu espírito tão machucado.

— Onde quer que esteja, ele sabe — garantiu — Não era nenhum ignorante. Ele sabia que tu tinha um carinho por ele, se preocupava.

As lágrimas começaram a brotar no rosto de Ágata novamente, enquanto ela se sentava na cama.

— Queria poder dizer isso a ele — lamentou, enquanto começava a chorar.

Van então aproximou-se e a abraçou bem forte, para ela saber que não estava sozinha naquele momento tão precoce de ser vivido por alguém como ela. Quando se acalmou um pouco mais, colocou-a frente a frente e fitou seus olhos uma segunda vez.

— Vou tá aqui sempre, seja pra te ajudar a tocar a vida pra frente ou pra tu chorar quando a saudade apertar. O que não vou deixar é tu se consumir de novo por conta de algo que só o destino pode ser responsável. Ouviu bem?

— Obrigada, amiga — disse a moça — De coração. Muito obrigada.

Deram então mais um abraço. Por maiores que os desafios pudessem aparentar ser, Ágata tinha certeza que sempre teria o apoio incondicional de Vanessa, a amiga para todas as horas. Com ela, teria sempre um porto seguro onde se abrigar em dias de tempestade.

CONTINUA