IMPRESSIONANTE

A juventude tem consigo uma formiga agitada, espirituosa, que corre por entre as veias querendo explorar tudo a todo momento. Por exploração, compreende-se a arte de pesquisar, caçar, analisar, conhecer, acarretando em uma série de situações, no mínimo, curiosas. Há quem desenvolva talento para ser dançarina de pole dance, resolva não querer mais ter cabelo e raspá-lo (sendo o contrário igualmente válido, ou seja, deixar o cabelo crescer), criar um furão como bichinho de estimação… As situações e causos são dos mais variados, indo dos mais inofensivos aos questionáveis.

Daniel e Alisson, ao incorporarem a mescla perfeita de hormônios afrodisíacos liberados pelo cessar fogo do primeiro, conseguiam sentir o corpo se estremecendo cada vez que precisavam de um contato a mais. Tinham desenvolvido um vício logo na primeira tentação, descobrindo que, através dele, jamais iriam conseguir se aguentar. Mesmo sabendo disso no inconsciente, seu consciente apenas lhes deixava aproveitar da gloriosa sensação de estar em paz.

Terminado o banho, foram até o churrasco na casa dos tios do mais novo com a pressa do coelho de Alice. Por sorte, distraídos conversando e preparando tudo, sequer se deram conta da falta excessiva dos rapazes. Limitaram-se a aplaudí-los tão logo suas faces entraram no pátio interno atrás da padaria de Marcella e Ronaldo. Não havia um só olhar sem brilho ali, fosse por vê-los ascender na área a qual estavam se dedicando, ou, como no caso dos já cientes, pelo companheirismo não só em cena, como na vida. Temendo serem mal interpretados, optaram por ir um a cada canto, a fim de evitar encaradas indiscretas e constrangedoras tanto das mães como de Marcella.

Bruno esmerou-se em destacar a desenvoltura do filho, comentando sobre o quão diferente ficava ao se entregar na batida da música, deixando seu corpo flutuar por entre os acordes e balançar de acordo com a necessidade. Marisa concordou, alegando não só o mesmo com relação a Alisson, como também garantindo a performance daquela manhã como uma forma de preparo para uma futura competição, e a experiência adquirida ali, serviria como base sólida para o próspero destino deles. Ronaldo ergueu então um brinde, servindo um pouco de cerveja aos adultos e refrigerantes aos “pequenos” (ainda que Al tenha teimado muito por não receber um golinho da bebida alcoólica mesmo já tendo maioridade para tal).

Na sequência, querendo saber mais do “amigo” do filho, Bruno quis aprofundar o assunto de como a amizade deles surgiu, afinal praticamente não lhe conhecia e, no entanto, parecia tão próximo de seu campeão, como se referia a Dan. Este, aliás, viu quinze aparições passar em sua frente ao processar a frase em seu cérebro. Precisou encontrar dentro de si, nas mais profundas covas de sua alma, um autocontrole minimamente aceitável para não entrar em curto circuito ali mesmo.

Alisson, indo ao oposto disso, com a cara de pastor de ovelhas, apenas declarou ter conhecido o menor poucos meses antes, através de amigos em comum, mas lembrando o fato de, no início, não terem ido muito com a lata um do outro. O mais velho gargalhou, falando que histórias como aquela acontecem na vida poucas vezes, com o complemento ainda de Ronaldo, quem assegurou o quão marcantes elas se tornam. Naquele momento, muito mais do que quando ouviu a pergunta do pai de seu amado, foi quando o frio na barriga lhe apertou. Por fora, para manter as aparências, apenas riu, mesmo sabendo ser de nervosismo.

Sua sorte foi seu celular ter vibrado. Tirando-o do bolso, percebeu se tratar de uma mensagem de Gil. Questionava sobre como estavam indo sem a presença dele ali para segurar as pontas no ‘Wunder Bar’. Não aguentou rir, contando sobre como estavam indo bem, afinal aprendera a cartilha com o melhor. Gil agradeceu pelo elogio, mas enfatizou o quão importante era ele ter se dedicado e aprendido a lidar com o ambiente de trabalho. Não só isso, havia se transformado em alguém mais maduro de quando se encontraram as primeiras vezes.

Era verdade. Alisson tinha consciência sobre como sua vida havia dado um jeito de lhe proporcionar outra visão de mundo, tirando-o da confortável zona de conforto para fazê-lo encarar a dureza e a felicidade de amar e ser amado. Agradeceu ao ex de Ian por isso ali, pela paciência e generosidade com que lidou com seus atos, fazendo-o compreender a existência de coisas bem maiores do que seus antigos e mesquinhos pensamentos. Aproveitou para contar sobre ele e Dan, o passo gigante na relação deles e como estava sendo bom poder ser livre para tê-lo consigo.

No mesmo gancho, saiu, por parte de Gil, a história sobre ele e Andreas. Apesar de estarem se conhecendo, a ida de Ian deixou o outro fragilizado, um tanto quanto arisco, mas, com calma e paciência, estava conseguindo baixar sua guarda outra vez. Alisson se mostrou surpreso, comentando a respeito e parabenizando-o por estar seguindo em frente, colocando de novo sua vida em um novo alicerce, o qual lhe fizesse dar o próximo passo respeitando tudo vivido, mas encarando sempre o futuro. Sem tanta convicção filosófica, o mais velho limitou-se a garantir ser mais fácil terminar com boas lembranças a continuar criando péssimas. Neste sentido, Al não pôde discordar, rindo enquanto respondia.

Foi seu olho descuidar da tela do celular para flagrar Daniel o olhar dele de sua mira com total indiscrição. Sua cara de criança de castigo, voltando a si de minuto em minuto, lhe fez ter certeza de estar lidando com aquele mesmo Dan que conhecera meses antes e, até pouco tempo, era motivo de querer espremer seu cérebro até tirar de lá seu lado, o qual considerava, infantil. Riu do despropósito, desejando a Gil um feliz início de estrada antes de alegrar precisar cuidar da sua.

Tão logo guardou o celular, o filho de Isabel avisou a mãe que iria até a cozinha buscar um copo de refrigerante e já voltava. A desculpa, nem a ela nem a Al, colou. Perguntando a Marcella o que havia rolado, ouviu da tia do rapaz que fosse até lá para dar uma olhada, pois notou algo estranho em seu olhar. Seguiu o conselho, levantando em seguida e indo atrás dele, encontrando-o na cozinha servindo, de fato, um copo de refrigerante, mas com a mesma cara de segundos antes. Aproximou-se a passos leves, escorando-se com o braço direito no armário e aguardando ele lhe fitar, o que não tardou a acontecer.

— Só vim tomar refri. Já tô voltando — justificou o menor.

— Isso é sério? Tipo… Sério mesmo?! — questionou enquanto ria.

— Tomar refri? — fingiu não compreender — Claro, ué. Não tá vendo o copo?

Com um sorriso malicioso, Al levou suas mãos à cintura do garoto, seguindo encarando fundo em seus olhos.

— Vanessa é uma guria legal, sabe? Mas… P*rra. Como te deixou mal acostumado.

— Como assim?

— Ah, vai seguir se fazendo de salame, é? — provocou — Pateta, pateta… Olha que eu te mando tomar no c* se ficar com essas palhaçadas, hein?

— Não tem palhaçada nenhuma. Ninguém aqui tá no circo — deu de ombros.

Buscando calma lá do fundo da alma, compreendendo aquele tipo de atitude dele a mais tempo do que julgava precisar (e merecer!), colou seu corpo no dele, levando sua mão direita ao queixo dele, sem desgrudar um minuto o olhar.

— Não saio por aí entregando meu coração pra qualquer um, sabia? — dizia, sussurrando — Se eu tô contigo nessa, eu tô. Ponto. Sem mais, nem menos. Não quero e nem pretendo descumprir minha palavra pra ti, entendeu?

Sentindo seu rosto começar a apimentar, Dan passou as mãos por ele e suspirou antes de se dar o direito de defesa.

— Desculpa. Sei lá, é uma coisa minha isso. Eu começo a me sentir tão b*sta perto de quem eu gosto que acabo agindo assim. Foi mal. Sério.

Al sorriu.

— Por isso a terapia vai te fazer bem. Tu vai ver — garantiu, mantendo a atitude antes de se aproximar de sua orelha — Fica frio. Essa raba aí tem meu amor incondicional — disse, sussurrando de novo.

Diante do comentário, Daniel não conseguiu se manter inerte. Caiu na gargalhada.

— Achei até que tu tinha esquecido essa m*rda de ir a psicólogo.

— Jamais. Tu precisa de um urgente! — o tom foi de brincadeira, mas sabia o quão sério era aquilo para Dan, tratando de dar um último comentário a respeito — Isso vai nos dar um namoro mais tranquilo. Foca nisso. Se pá, até faço junto!

Mais risadas. Se havia uma coisa a qual Alisson era mestre, certamente isso se dava em arrancar fácil um riso seu. Não precisava de muito, apenas uma tirada, ironia, até mesmo puxando a orelha como era o caso. Algo no jeito dele em demonstrar sua preocupação, dava a seu coração um afago o qual buscou a vida inteira e nunca conseguiu encontrar de forma a lhe preencher por completo. A sensação de estar com alguém que parecia lhe conhecer de outros tempos, rompendo, aliás, as barreiras deste, deixava sua alma em paz, pois sabia que amava e era amado na mesma intensidade.

Acabou não resistindo a dar um leve selinho no rapaz, alegando ser melhor voltarem antes dos cochichos começarem. Rindo, Alisson acabou aceitando a sugestão. Porém, mal o fez, sentiu um arrepio na espinha ao ver Bruno parado na porta da casa com uma bandeja de pães de alho na mão e uma expressão de ter visto um fantasma no rosto.

***

Deixar-se envolver por certas aventuras, muitas vezes, dão a vida uma pitada de emoção extra, tão necessária para dar um sacode na monotonia. Com tantas emoções acontecendo, acabava que Vanessa sequer havia tirado um dia para desligar a mente, focando apenas nas coisas capazes de lhe proporcionar momentos de calma, alegria e companheirismo. Mesmo a história de ir a acampar com Mia e Pedro lhe soar meio doida, reconhecia a emoção da descoberta, do novo e incrível.

Encontrou o casal no horário em ponto, recebendo em primeira mão os comentários da surpresa em virtude tanto da ida ao camping quanto de sua presença. Pedro havia embarcado na história às cegas, descobrindo tudo à medida em que tudo avançava. Não pôde deixar de rir da situação, ao mesmo tempo em que seu coração se aquecia vendo uma relação tão sólida, alicerçada não só no amor, como também na amizade. Eram amigos acima de tudo, resultando naquela relação simples, mas singela.

O pai de Mia, no fim, responsabilizou-se por levá-los até o lugar, depois de muita insistência da mãe da moça a respeito. Vanessa, com isso, acabou conhecendo um pouco mais sobre a vida da namorada do rapaz no banco do carona na frente. Soube do primeiro momento tenso quando o homem e sua mulher descobriram do envolvimento de sua única filha com “outra menina”, já que, à época, não compreendiam bem qual era a situação de Pedro perante si mesmo e a sociedade. Comentou da inserção do rapaz na família, as tentativas tímidas que agora resultavam em almoços de tirar o fôlego com tantas risadas.

A história, tal qual acontecera ao visitar a ONG onde iria trabalhar, remetia a um passado não tão distante, mas parecido ter sido vivido em outras eras. Sabia reconhecer o quão penoso era o processo de aceitação e validação de seus sentimentos, não como algo passageiro, mas sim, parte do seu ser. Felizmente, as histórias dos três presentes no carro haviam tido seu final feliz. A sorte quanto a isso, sabia, era seletiva, do contrário não precisavam existir ONGs de apoio a LGBTs. Valorizava a preocupação e boa vontade dos pais de Mia, pois, com isso, deixavam claro que o amor não era criado a partir de rótulos, e sim, a partir do ser humano que a moça era.

Levaram um tempo significativo até o local, chegando já nos últimos raios de sol daquele dia. Só então a loira percebeu a razão de Mia e Pedro evitarem pedir para carregar qualquer coisa consigo: o porta malas tinha tudo o possível e imaginável para uma noite acampando de sucesso. Cadeiras de praia, duas barracas, marshmallows , biscoitos de variados sabores, além de cobertores, repelentes e uma caixa de isopor com bebidas tanto sem quanto com álcool. Não teve dúvidas de estarem bem assessorados. Passar trabalho estava fora de cogitação.

O pai de Mia lhes ajudou a carregar tudo até um local próximo a vertente de água a qual formava uma pequena cachoeira, local onde Ian e Daniel haviam se banhado meses antes. Montadas as barracas, o homem se despediu e foi embora, deixando-os mais à vontade para papear e contar histórias. Começaram contando sobre como a notícia da troca de nome chegou, a emoção do momento e a vontade de espalhar ao mundo o fato de ser quem realmente era, sensação a qual a loira bem conhecia. Passaram para a questão da competição de dança, os ânimos dos bastidores, os treinos feitos em casa ao longo da semana (alguns deles com Mia tentando junto e falhando tantas vezes que Pedro parou de contar), a felicidade por estar no pódio...

Porém, não tardou para a namorada do rapaz comentar o fato de achar que, apesar de estar interagindo e querendo saber, algo parecia lhe tirar do ar, deixando-a num mundo à parte. Van riu, justificando que estar naquele ambiente, tão familiar aos olhos e coração, lhe remetia diretamente a noite passada ali com o ex namorado, sua melhor amiga e o então ficante dela. Vendo o nítido interesse deles em querer saber mais, acabou contando tudo o que era de seu conhecimento sobre aquele fatídico dia. O convite inesperado feito por Ian de irem até lá, a briga do mais velho com Daniel, a tentantiva frustrada de terem mais uma tentativa de fazer sexo… O relato culminou na certeza por sua parte de que foi um dos dias mais

aleatórios vividos até então.

— Olha — começava Mia — Não conheço teu ex muito bem, praticamente só de vista, mas a fama dele e do Alisson me leva a crer que ali juntou a fome e a vontade de comer. Ô guris cabeça dura, né? Gente do céu! Foi o encontro perfeito! Almas gêmeas!

Van caiu na gargalhada com o comentário. Pedro aproveitou a deixa da namorada para perguntar algo o qual fazia tempo que andava refletindo, mas, em virtude das circunstâncias, jamais tinha tomado atitude.

— Van… Tu acha que foi feliz quando namorou com ele? Perguntou porque… Bem, tu há de convir comigo que o namoro de vocês passou longe de ser convencional, né?

A questão pegou-a de surpresa, levando a uma reflexão sobre toda a história deles. Durante muito tempo, mais do que sua mente conseguia lembrar, tentou se convencer da tranquilidade de sua relação, baseando-se no clássico critério de qualquer relacionamento ter problemas. Passado o tempo, ter desfeito os laços capazes de lhe sufocar, compreendia o fato que as desculpas usadas não correspondiam aos fatos verídicos. A resposta, diante disso, foi a mais lógica.

— Acho que tenho me perguntado isso desde que pus o ponto final, sabe? No fim, ele e eu nos iludimos em cima de falsas promessas, mudanças que nunca aconteceram quando deveriam… nos sujeitamos a isso. O erro tá aí. Então, a resposta é: Não fui infeliz. Disso a ser feliz vai um abismo também.

— Isso é muito louco pra mim — confessava o rapaz — Não consigo vê-los dessa forma tão… crua. Claro, já rolou deles ficarem um de birra com o outro, não se falarem, mas ter essa teia de acontecimentos tão bizarra… Tem dias que acordo e penso que é folclore!

— Chama-se máscara social, amor — Mia indagou — Elas nos protegem de muita coisa. Impedem que mostremos nossa face ao mundo, nossas verdades, segredos… Por isso é tão fácil apontar o dedo pro outro. Mesmo que tenham vários apontados pra si, o importante é o alheio.

Van não pôde negar. Desde quando conheceu Dan, via nele uma nuvem capaz de escondê-lo por trás dela, cobrindo boa parte de quem era. Começando pelo fato de namorarem às escondidas, passando pela descoberta da transsexualidade e, por fim, a decadência de uma história onde apenas ela, no fim das contas, acreditava que seria promissora e tinha se empenhado para isso.

Ainda sim, o fato de Alisson ter aparecido na vida do ex já estava a dar bons frutos de todo modo. Pela primeira vez, as armaduras, marca registrada do filho de Isabel, pareciam ter caído, mostrando o rapaz tranquilo que ele podia ser, mas jamais foi, sendo os motivos os mais diversos e os quais a maioria sequer tinha conhecimento e preferia assim manter. Se foi nos braços de um rapaz como ele onde encontrou sua morada, tanto melhor. Faziam-se bem e isso, no fim das contas, é o que valia.

— Agora, pelo menos, tudo tá em paz. Eles descobriram esse amor, tô começando minha carreira com pé direito… pra mim, tá tudo ótimo.

— E tenho certeza que vai conseguir! — disse Mia, esperançosa — Estamos torcendo por isso, né meu amor?

— Com certeza! — exclamou o rapaz, sorridente.

Van agradeceu ao apoio do casal. De certa forma, haviam tido sua parcela de ajuda na reconstituição de seu ser, dando-lhe a folga emocional tão necessária para suportar aquela barra. Tanto eles quanto Ágata formavam sua base para construir um futuro mais sólido, pautado por tudo aquilo que realmente era passível de se realizar e deixando o resto ao dilúvio.

Pouco depois, Pedro avisou que, em virtude da correria do dia, seus neurônios já começavam a se despedir. As meninas reclamaram, pedindo que fizesse um esforço para lhes fazer companhia, mas o menino foi irredutível. Não aguentava o peso nos olhos começando a lhe abater e nada fazer a respeito. Desejou-lhes ‘boa noite’ antes de ir para a barraca onde dormiriam ele e Mia. Aproveitando-se do fato, a morena aproximou-se dela para conversar, sussurrando para que não atormentasse o namorado.

— Te agradeço demais por ter vindo! Sei que ele ficou muito feliz com isso! — garantiu a moça.

— Que isso! Pra mim, foi uma honra estar presente em uma comemoração tão bonita. Belo presente deu pra ele, hein? Acampar é sempre uma delícia! Até aproveito para me dar essa folga antes de começar a trabalhar na ONG.

— Mentira! Conseguiu um trabalho, então?! Ai que tudo! Coisa boa! — exclamou a moça, animada! Em Nova Petrópolis mesmo?

— Porto Alegre. Mas vou tentar vir a cada dois finais de semana, pra não ficar muito pesado, né?

— Claro! Tá certíssima! Mas me conta! Como é essa ONG? Cuidar de animais? Ajuda social nas famílias de risco?

Vanessa pôs-se então a contar com detalhes a rotina do lugar. Tinha em seus olhos um brilho claro de quem havia encontrado seu terreno, um jardineiro à espreita da terra perfeita para plantar sementes que, no futuro, seriam belas rosas. Mia não conseguiu se abster de ficar encantada com o trabalho, mesmo porque lhe atingia também em virtude do namorado. Saber da existência de organizações dispostas a fazer a diferença na vida de tantos como ele lhe dava orgulho, principalmente depois de ter conhecimento do fato de uma amiga sua estar envolvida.

Foi então que lhe veio uma ideia na mente e não tardou a compartilhá-la com a loira. Depois do término do relato, falou sobre seus pensamentos e questionou sobre a hipótese de seu namorado dar aulas de dança por lá também, caso fosse possível. Alegou que seria uma alegria sem tamanho para ele poder viver da arte, algo com o qual sonha desde muito novo e, em virtude da oportunidade da escola, estava vivenciando. A loira apreciou a ideia, contudo, não prometeu conseguir, uma vez que a estrutura do lugar, apesar da conservação e de um pátio invejável, não era das maiores. Mia garantiu não ter problema, mas só o fato de estar ajudando seu amado a alcançar algo, já fazia valer a pena.

Vanessa ficou encantada com a empatia da moça. Viu nela um exemplo perfeito de como um relacionamento, quando bem direcionado, fazia valer cada segundo do tempo investido. Sua entrega na história deles e a crença de poder ajudar a alcançar qualquer sonho era o que criava a atmosfera promissora deles, a qual, tinha certeza, jamais se romperia. Diante disso, acabou afirmando que falaria com os dirigentes a fim de, quem sabe, dar a oportunidade de ajudar na escrita de mais um capítulo daquela história a qual passava a admirar cada dia mais.

***

Quando Sabine colocava uma coisa na cabeça, dificilmente algo ou alguém a fazia mudar de ideia. Não foi diferente no que tangia a história da criação do livro de memórias dos terceiros anos de 2017 da escola Presidente Lincoln. A ideia iniciada em virtude das circunstâncias do livro de Daniel, de início, parecia tão simples e objetiva que, olhando o quarto com os recortes de impressos espalhados por cada centímetro, soava até um deboche. As ramificações foram surgindo à medida em que as unidades temáticas se desenvolviam, preenchendo, assim, o espaço previsto e imprevisto. Como tratava-se de uma confecção manual, o trabalho triplicou.

Esta era uma das poucas óticas com a qual conseguia lidar com o fato de Amora estar tão presente em sua vida, mais do que em todo o tempo que já se conheciam. A moça, sem dúvida, tinha serventia tanto no auxílio cronológico e relatorial do assunto, quanto para dar uma cara clean, mas estilosa a produção. Tinha de reconhecer o talento dela, ainda que seu orgulho fosse arranhado com isso. Outro ponto compartilhado entre elas era o entusiasmo pelo trote de roupas infantis de desenhos animados. Amora gabava-se a cada quinze minutos sobre a ajuda milagrosa de uma amiga dedicada ao cosplay que havia lhe ajudado a criar o look idêntico de Penélope Charmosa. Irônica, a outra questionou se não queria ir também com uma bandeira do orgulho gay pendurada no pescoço, o que fez a moça revirar os olhos.

— Estraga prazeres — mostrou a língua — Aí, falando em orgulho gay, bem que o Alisson podia ir de He Man , né? Já pensou aquele par de coxas numa roupa apertadinha? Gente! A calcinha chega a umedecer!

Sabine gargalhou com o comentário maledicente da parceira de trabalho.

— Pelo amor de Deus, criatura! Vira essa página! Alisson até em outra tá! Qual a dificuldade de entender isso?!

— Ah, nós teríamos tido um lance bacana… talvez até namoro tinha rolado se as moscas varejeiras não tivesse c*g*do nosso bolo. Além do mais, ele tinha uma pegada firme, de macho, sabe? Nunca peguei, mas tenho certeza que cara mais velho deve seguir a mesma linha dele. Tu saberia se não tivesse tão focada em pegar o qualquer coisa do Daniel.

A outra lhe mostrou o dedo do meio.

— Em primeiro lugar, de qualquer forma é um trote de desenhos infantis, não pornochanchada. Em segundo lugar, ‘qualquer coisa’ é muito relativo, minha querida. Em terceiro e último, mas não menos importante, não somos best friends, mas eu reprovaria de ano se tu ficasse real com o Alisson. Não boto fé nisso.

— Inveja é uma praga, né? — ironizou — Dependendo das circunstâncias, faria um livro igual o que tu fez pro Daniel, se tu quer saber.

— Tu viu o meu livro pra ele?! — exclamou a moça, apavorada.

— Calma, gatinha! Foi só por cima — riu — Que foi? Medo da tua parceira de crime dar com a língua nos dentes?

— Por que não vai plantar couve nas orelhas, hein?! — de novo, mostrou o dedo do meio.

Ainda que tenha tido pulso para lidar com a provocação da moça, por dentro queria cavar uma cova e se atirar dentro. Nunca foi a maior fã de ter seus sentimentos tão à mercê de julgamentos e críticas desnecessárias. Era sua vida e não interessava a mais ninguém o que nela acontecia, principalmente alguém como Amora. Sabia que, de alguma forma, estava segura, pelo simples fato de estarem se ajudando sem terem enfiado uma faca uma no peito da outra. No entanto, o incômodo não deixava de acontecer.

— Mas, sabe, tu e o Sheldon Cooper versão gostosa até que ficam bem — opinou a moça. Falava sobre Jeferson — Com o Daniel… Sei lá. É tipo cachorro quente de Strogonoff , entende? Sandália com meia, sal no café, pílula do dia seguinte sem ter transado…

— Tá! Já entendi! Não precisa desenhar que não sou lesada! — reclamou — Pro teu governo, nem tô mais pensando em ficar com ele. Não sabe que ele e o Alisson tão juntos?

— Então por que esse bendito livro tá aqui ainda? Posso saber?

— Vai cuidar aí do relato da Elis sobre a turma do 3B, vai! E não me enche o saco!

A garota revirou os olhos, voltando à ação. Na realidade, havia uma razão muito específica pela qual não tinha entregue: faltava a conclusão. Muito tempo tinha gasto pensando numa forma de concluir aquele trabalho no qual tanto empenho havia tido. No entanto, conversando com Amora, lhe veio um insight perfeito sobre como dar por encerrada a história deles, mesmo que não tenha sido vivida. O fato era que ganharia um fim, e começava a pensar em qual ocasião deveria entregá-lo…

CONTINUA