A Teoria das Cores
92 Ametista I
PAZ DE ESPÍRITO
Desde berço aprendemos muito sobre as grandes conquistas feitas pela humanidade. Para muitos foi a luz, outros a internet, alguns atribuem até mesmo ao streaming o título do melhor ponto onde conseguimos chegar. Se por um lado esses bens ajudaram a construir uma sociedade melhor desenvolvida, por outros acabam da mesma forma como começam: do nada. O mundo gira rápido demais no que tange a matéria. Já os momentos particulares, um café no fim de tarde com quem se ama, uma conversa com quem não se via há anos ou aquele beijo tão almejado são coisas que perduram as vezes por eras, perpetuando assim a convicção inviolável de que somos mais feitos de sentimentos do que de matéria.
A notícia do beijo de Alisson e Daniel chegou aos ouvidos de Amanda e ecoou longe em sua mente. Remeteu a junho quando aquele mesmo rapaz, tão segurou e engajado na luta por sua felicidade ao ter tido a concessão almejada, via-se em desespero por Jeff ter-lhe cobrado uma oral amiga, e surtado com a possibilidade de Gil ter sido seu primeiro contato sexual com alguém do mesmo gênero. Momentos de um passado que aparentava estar tão longe, mas cujos ventos trouxeram consigo as folhas mal escritas, as brisas inconfundíveis da serenidade de ter conquistado o mundo. Diante disso, como não transbordar de amor também? Como não querer compartilhar da emoção pura e simples de estar feliz?
Seu primeiro impulso foi abraçá-lo o mais forte que seus braços puderam. Não conseguia se imaginar na mesma situação que ele, encarando tudo da forma como demonstrou levar seus sentimentos, por isso limitou-se a acreditar que deu o melhor que pôde. Torcia para ver aquele sorriso perdurar por anos a fio para, na velhice, com o coração ardente de amor tal qual ali estava, e com memórias a dar e vender. Alisson aceitou o gesto, retribuindo contente por ter alguém como ela para confiar algo tão especial. Sentia-se acolhido pela gentileza, num ato de reciprocidade a qual ambos sempre tiveram, mas que naquele momento se tornava um símbolo de força de uma verdadeira amizade.
— Gente, nem sei o que te dizer. Sinceramente — a garota desabafou, contente.
— ‘Meus parabéns’, ‘Felicidades’... coisas assim. Que tal? — brincou o mais velho — Também tô bem perdidão, mas acho que tudo vai ficar bem mais fácil agora.
— Se tu desconsiderar a parte que tua mãe vai precisar saber disso, os pais dele também… — lembrou a garota — Não tô querendo ser chata, mas acredito que será o próximo passo né?
— Ainda não. Fazer isso sem antes ter certeza de que vai dar certo é um tiro no pé. Além do mais, isso pode abrir feridas doloridas pra c*r*lho. Temos que tá com tudo encaminhando quando chegar esse dia.
Mesmo que os sentimentos internos já tivessem tomando os rumos previamente vistos por eles, seria loucura atiçar a matilha antes do tempo. Alisson não tinha nem hipóteses formuladas para tentar chegar ao pensamento mais próximo do que sua mãe teria, então deduzia que Dan não estivesse avançado nesse quesito mais do que si. O jeito, então, era tratar de suas intenções primeiro e pensar naquilo depois.
— É… tu tem razão — a moça coçou a nuca. Não tinha contra argumentos — E o pessoal?
— Eles também.
— Mas, Al—
— Mandy, escuta — pediu — Pra começar, o fato da gente ter se beijado ou estar perto de assumir um compromisso não é motivo de exibição de circo. Somos pessoas, não filmes ou fanfics. Segundo, pensa em como a cabeça do Dan deve estar agora. Aí ter que encarar o pessoal perguntando, querendo saber tudo… Isso vai f*der o psicológico dele que já não é dos melhores.
Amanda não via modos de argumentar diferente, afinal de contas o difícil gênio do filho de Isabel custava a entrar nos eixos. Qualquer precipitação poderia, de fato, botar todo o processo a perder. Suspirou, um tanto quanto chateada, procurando mais dar razão aos fatos do que a vontade de saciar a curiosidade dos amigos. Não era hora para aquilo.
Concordou, culminando a ação com um belo sorriso antes de abraçar seu amigo de novo. Por mais louvável que tudo fosse, ainda soava uma grande ironia do destino, disposto a fazer o possível para ligar uma alma predestinada a outra, não medindo esforços para tal. Ver Al tão entregue era sinal de que nada tinha um significado maior do que meras convicções ou pretextos. Para a morena, o amor deles concretizava a forma mais pura de se amar alguém, simplesmente por ser quem era, sem distinção de fatores. Uma pessoa amando outra. Simples assim. O máximo que suas forças eram capazes de fazer pelos amigos limitava-se a respeitar suas decisões, fossem quais fossem.
Não demoraram a retornar para o salão, desta vez com ânsia de um recomeço próspero e verdadeiro, onde as sombras sempre tão próximas começavam a se desfazer ante a luz irradiada pelos cintilantes olhos de Alisson. Tinha ciência dos próximos passos e do tamanho do impacto que eles causariam, mas fugia deles. Sabia que criar uma tormenta minutos depois de algo tão bonito ter acontecido não passava de masoquismo exagerado, não preventivo. Permitiu-se lhe dar uma folga para curtir o gosto da boca de Dan ainda tão vivo dentro da sua, fosse pela lembrança do ato ou pela troca de olhares incessantes que tiveram depois da conversa com Mandy. Loucura ou não, era real, e não queriam que aquilo se esfriasse jamais.
***
De todas as inquietantes e arrebatadoras armações do destino, Vanessa estar numa festa desacompanhada de Daniel soava, no mínimo, um absurdo. A fase de auto piedade tinha passado (se é que algum dia havia começado), porém, os resquícios daquele amor tão duvidoso, cheio de melindres, incapaz de ter fôlego suficiente para sobreviver a menor onda, ainda deixava seu coração balançado. Dava-se um desconto, afinal de contas não viveram juntos por dois dias. Foram mais de dois anos de afeto ruindo sob suas cabeças sem que qualquer um tivesse vontade de não deixar aquilo acontecer. Esquivava-se de pensar o contrário. Mesmo ferida, o resquício de sobriedade emocional lhe permitia ter essa sentença como a única variante possível de tudo aquilo.
O pior, na realidade, perpassava por outras vias. Ligava-se muito ao fato das palavras mal ditas, olhares distantes, atos tímidos e vontades contrárias. O real, um castelo construído em cima de solo pantanoso, nem importava tanto, dadas a inconsistência de cada gesto mal interpretado ou pior: sequer feito. De certa forma, ter encontrado seu ex namorado ali, vestindo outras vestes que não as de um menino confuso e perdido, trazia uma brisa fresca necessária para acalmar seus ânimos. Concordava que Daniel não se tornara o exemplo de controle emocional (e nem sabia se um dia ele alcançaria tal façanha), mas ao menos suas vontades ele já sabiam melhor quais eram. Isso lhe trazia uma paz interior de missão cumprida. Tudo aquilo que deveria ter sido feito dias antes, quando ainda eram um casal, fora feito ali, sobre as luzes piscantes e a música alta. A razão da vida tinha certeza qual era.
Tentar buscá-lo em meio a multidão efervecida passou longe de ser difícil. Viu-lhe próximo de Alisson, tão próximo que conseguia sentir suas auras complementando uma a outra num gesto invisível de cumplicidade e afeto. Não sabia, mas ambos já estavam unidos, o que explicava a sensação primaveril dentro de seu peito ao ver o sorriso na boca de seu eterno apaixonado. Havia uma diferença ali, outra perspectiva sobre uma mesma ação, o que acarretava numa mudança significativa dentro de suas vidas. Não podia estar mais feliz por ver a felicidade dele, ainda que sem compreender diretamente a razão dela até então. Entretanto, ao menos a ideia já lhe ocorria.
Uma chamada pelo celular tirou sua atenção do filho de Isabel, provocando um riso involuntário ao perceber de quem se tratava. Ágata ligava. Sabia que, em tais circunstâncias, ou ligava para contar um babado, ou queria saber de um. A regra não tinha, até então, encontrado sua exceção, mas conhecia a morena o suficiente para saber que nem mesmo o testemunho de um milagre a faria mudar o batido motivo.
— Pode-se saber quantas boquinhas já provou, piranha?
A loira não aguentou.
— De onde tu tirou que sou piranha? Que novidade é essa? — brincou.
— Existem dois tipos de meninas, amiga: as piranhas e as que fingem que não são piranhas entende?
— Fico com o segundo tipo. Obrigada — riu — Pro teu governo, tô quase indo embora sem ceder a esses instintos.
— Ué! Pegou um boy até quando brigou com a tua mulinha de estimação e agora que tá solteira real oficial vai se fazer?!
— A maioria aqui não faz meu estilo. Desconfio até que a maioria tá mais encantada com os Stormtroopers do que com as meninas disponíveis para trocar ideias!
— Pra uma ex universitária que foi até a festa dos namorados se divertir e agarrando um boy, a senhora tá muito seletiva!
— Eu tava magoada e fui porque tu insistiu. Bom frisar né?
Foi a vez de Ágata soltar o riso.
— Venceu porque tô generosa, hein?! — continuou no tom amigável — Quer vir aqui em casa? Faço um baldão de pipoca e assistimos O Chamado juntas. Topa?
— Deus me defenda! Prefiro ir pra casa sem precisar trocar a calcinha molhada! — riu — Amanhã talvez passe aí, mas agora só quero a minha cama mesmo. Fiquei aqui tempo demais pro meu gosto.
— Tu que sabe. Só mais uma perguntinha: Chegou a falar com ele ou ele ainda se mostrou resistente?
Van sorriu. Sabia de quem falava e sentiu um quentinho no coração a poder dar-lhe boas novas.
— Conseguimos ter uma conversa civilizada e tranquila, sim. Foi ótimo encarar as coisas sem máscara ou peso na consciência.
— Quero saber TU-DO! Prepara o texto depois e me envia contando detalhes! Beijo.
Dentre tantas características com as quais Ágata poderia ser associada, certamente eufórica estaria entre as principais, destacando-se em disparado. A convivência com a moça sempre lhe trouxe uma sensação boa, quase como se a serenidade lhe abraçasse cada vez que estavam juntas, ou, como naquele caso, trocavam algumas palavras. Era nítido como água que a amizade dela sempre estaria ali para o que fosse preciso, sem perguntas ou hesitação. Mais do que uma amiga, considerava-a uma irmã da vida.
Vendo ser um esforço inútil tentar se manter ali, uma vez que o objetivo de sua presença já se concluíra, levantou e foi na direção de Jeff, comprimentando-o de novo pelo aniversário e deixou um abraço e beijo para o pessoal. O garoto até tentou insistir para ela ficar, ou pelo menos despedir-se de Daniel, contudo a loira seguiu firme, agradecendo a sugestão com um sorriso sincero, mas negando por estar cansada — o que não era de todo mentira.
Dali foi direto para a saída e, ao chegar lá, o improvável: Viu Mia e Ana de mãos dadas e transmitindo uma aura serena e que chegou a tocar-lhe a alma. Não tinha ideia daquela possibilidade, mas mesmo sendo a surpresa um exímio elemento do destino para nos tirar do sossego, ficou tentada a trocar dois dedos de prosa. Tentava puxar da memória alguma desculpa, pensando até em marcar um novo encontro no parque, só que o medo de atrapalhar um momento só deles lhe impedia de dar seguimento.
Como esse sentimento prevaleceu, acabou virando ao lado oposto e deu os primeiros passos em direção a porta para chamar um motorista de aplicativo. Estava prestes a confirmar o trajeto quando uma voz ecoou vinda justamente da direção do casal. Tinham lhe visto. Ergueu um olhar simpático a eles, de certa forma até agradecido pelo momento. Foram figuras elementares quando o término com Daniel estava prestes a estourar. Via uma aura acolhedora em seu entorno, capaz de clarear o mais escuro dos pensamentos a ponto de deixá-lo insignificante.
Mia foi a primeira a ceder um abraço, e o namorado, ao fazê-lo na sequência, tratou de explicar o que faziam ali naquela hora da madrugada. Sabendo do assunto, Mia começou a cobrir o rosto rubro surgindo em si.
— Essa moça aí acordou com a fome de dez desabrigados. Pra piorar, queria um lanche muito específico. Posso com isso?! — brincou o rapaz, arrancando riso das moças presentes.
— Em minha defesa a gente não jantou. Tomamos um café bem qualquer coisa por preguiça de fazer comida… e isso foi às sete da noite! — comentou a namorada, com o mesmo rosto iluminado de sempre.
— Entendo bem. Não se preocupem. Uma vez fiz lasanha às três da matina de domingo.
— Coragem! Imagina a sujeira pra lavar depois! — Mia mostrou-se apavorada, mesmo que seu rosto entregasse um riso imaginando a pilha enorme digna de desenhos animados.
— Pois é, então já devem ter percebido que dormir aquela noite não passou de um mero sonho.
O trio caiu na gargalhada de vez. No fim das contas, era bom para Vanessa entrar em contato com pessoas que tinham a capacidade de exorcizar seus demônios, nem que fossem por alguns minutos, onde seus pensamentos em relação ao turbilhão de emoções vividos até então virassem poeira levada pelos ventos da vida.
Ao se despedir para deixá-los curtir a noite, porém, partiu de Mia um convite para juntar-se ao momento. Ligeiramente constrangida, alegou estar saindo de uma festa de aniversário e que, portanto, não tinha condições de pensar em comida. Foi a vez de Ana insistir, alegando com convicção que a companhia já bastava e em nada atrapalharia os planos do casal. A loira ainda se esforçou tirando mais uma ou duas desculpas, mas acabou vencida pelo cansaço.
Enquanto caminhavam a procura de um lugarzinho bacana para saciar a fome, prosearam sobre assuntos que iam do cult ao pop em velocidade imensurável. Aliás, Van tinha dúvidas até se Ágata tinha a mesma fluidez de raciocínio, ainda que tivessem conversas ótimas também.
Mia, de longe, era a mais mediadora da situação. Não dava fôlego para o silêncio, emendando um tópico no outro. Ana, em dado momento, murmurou um pedido de desculpas pelo falatório inacabável. Vanessa riu, sem dar muito crédito, afinal em poucas oportunidades tivera alguém tão bem disposto a trocar ideias… ainda mais de madrugada!
Mesmo um pouco constrangido pela euforia da namorada, Ana sabia bem o que lhe tirava dos trilhos. Desde a primeira vez em que pôs os olhos na loira então namorada de Daniel, sentiu uma coisa parecida com uma fagulha acesa no fundo de seu peito. Os detalhes e as razões lhe eram desconhecidas. O que tinha como certo era justamente o existir por existir. A simplicidade de um sentimento com o qual só tinha encontrado uma vez e, graças, havia sido com Mia.
Aliás, o incrível era o fato de uma coisa não ter eliminado a outra. Vivia bem com a morena e sentia-se com sorte por tê-la ao seu lado. Paralelamente, uma curiosidade absurda de conhecer a loira de forma menos cordial tinha forças tal qual sentia por Mia. Estava conseguindo ser amigo de Van, sim. O caso era que era humano, sentia a derme verter calafrios com pensamentos intensos, instintos estes herdados de milênios da existência do homem. Conciliar os dois lados era domar um leão por encontro, e agradecia ao menos por agora não ser mais namorada de amigo seu.
Quando finalmente encontraram algum point aberto para comer, Van e Mia ficaram de arranjar uma mesa enquanto Ana fazia o pedido. Até chegou a insistir para a moça comer algo com eles, mas esta recusou de novo. Não faria sentido se entupir demais tendo saído de um aniversário pouco antes. O rapaz, então, foi em direção ao balcão do food truck deixando as meninas à vontade.
Vanessa pegava seu celular para verificar se havia alguma mensagem nova de Ágata ao notar a voz de Mia chamando seu nome. Encarou-a tão logo percebeu seu chamado, observando sua face tão serena devolvendo o olhar.
— Sabe que foi um achado te encontrar hoje, né? Nossa! Queria falar contigo, mas não arranjava coragem, menina! — Mia começou.
— Aconteceu algo? — a loira preocupou-se.
— Nada de grave. Fica tranquila. Na verdade, penso que essas coisas acontecem como o desabrochar de uma flor, entende? Quando nos damos conta, temos um fenômeno da natureza diante de nossos olhos capaz de encher nosso coração.
— Desculpa, mas não entendi… — coçou a nuca. De fato, não sabia onde ela queria chegar.
— Van, eu não costumo fechar os olhos pra uma coisa quando sei que ela existe e precisa ser enfrentada com maturidade e coragem. Não vejo sentido pra ficar prolongando ou fingindo que os sentimentos são coisas da imaginação ou—
— Espera… Como assim sentimentos?
Mia então sorriu.
— Van… Sei que tu é uma guria fantástica e recém formada em psicologia. Entende melhor a mente humana do que eu — riu — Tu já deve ter percebido que meu boy tá mexido contigo né? Ou não?
A moça sequer soube onde se enfiar depois do comentário. Desde o primeiro dia, quando o encontrou na sala ensaiando com um colega e ficou para terminar de ver, aquilo era nítido em sua cabeça. De início, soou como um possível novo affair, daqueles que se tem ao ver um desconhecido que atrai a atenção de um olhar incessante. Depois, conforme foi passado, tomou ciência de ter sido nada mais do que fogo de palha… ao menos para si. Não era ingênua de não notar nada, contudo, nem louca o suficiente de apontar tal sentimento às custas da infelicidade de Mia. Como reagir quando a própria resolve falar abertamente disso era a única questão rondando sua mente àquela altura.
— Poxa… Até perdi a fala depois dessa! — confessou — Quer dizer, não é como se fosse uma grande surpresa, só não esperava estarmos assim, conversando a respeito.
— Imagino — riu — Não é comum a namorada de alguém tomar esse tipo de iniciativa. Existe muito conflito interno pra se chegar nesse ponto. Acho que, mais do que coragem, é preciso ter convicção dos fatos e encará-los como são. Sem filtros de raiva ou mágoa.
— Mas, Mia, nunca foi minha intenção provocar esse tipo de situação entre vocês. Deus me livre! Acabei de sair de um namoro pra lá de complicado e sei bem como isso deve ter sido pra ti.
— Capaz! Foi até divertido se quer saber! — Van perdeu o raciocínio com a fala da moça — Van, ele é um namorado incrível e sei que gosta de mim de verdade. O que acontece é que gosta de ti também. Entende? É simples!
— Como pode ser simples se vocês têm uma história juntos?!
— Que não se apaga por ele querer uma terceira pessoa somando a ela — explicou — Só quero que tu entenda que não me sinto ofendida ou magoada, simplesmente porque a situação é exatamente essa que te falei. E mesmo que não fosse, que ele tivesse decidido que é de ti que ele gosta e não de mim, paciência. A vida precisa seguir seu curso natural e não cabe a mim impôr as regras do jogo.
A loira sentiu a respiração falhar por meio segundo. Era absurdamente incrível presenciar um posicionamento tão franco e decidido, já tendo tomado ciência das ações e foco em como proceder diante delas. Chegou a sentir uma certa inveja, não que fosse do tipo barraqueira, mas conhecia-se o suficiente. Se até a prima de Dan já havia lhe causado um olhar desconfiado, imagina uma circunstância tão delicada quanto aquela.
— Bem… O que falar depois disso, né? — riu, constrangida.
— Que aceita participar da surpresa que tô fazendo — pediu a moça, com sorriso no rosto — De início pensei até em reunir os amigos para festejar e tudo, mas depois pensei melhor e acho que será mais bacana ter um momento entre nós, as duas meninas de sua vida.
— Festejar o quê exatamente?
— O processo foi longo, mas finalmente o nome social dele vai ser um sonho realizado! Ele até me pediu pra guardar segredo, pois quer contar aos amigos quando acontecer. Só que, dadas as circunstâncias dele sobre a tua pessoa, penso que vai me agradecer ainda.
Por um momento, veio à mente da moça toda a trajetória que viveu até ali. Tantas descobertas, conquistas, emoções e momentos os quais formaram o alicerce de sua nova vida. Pôde se ver com quinze anos outra vez, atravessando aquele rio que parecia não findar, tão indefesa e a mercê de pareceres e laudos médicos capazes de comprovar quem realmente era… Com aquele êxtase em forma de notícia, não conseguiu conter quando uma lágrima escorreu por seu frágil rosto, atraindo a curiosidade de Mia.
— É estranho ver isso de fora — confessava — É um processo tão complicado aceitar que o nome que te dão não te representa e, pior, te machuca. Odiava quando me chamavam de Adam… Tinha ódio, vergonha de mim por não querer aquilo…
— Eu compreendo. Ele tem horror que o chamem de Ana. Tentei várias vezes que usasse o nome social antes mesmo da troca oficial, mas é teimoso. Quis usar só quando pudesse esfregar na cara de todo mundo quem é.
— Tem toda razão de querer comemorar. É um momento muito especial. Tenho certeza que ele irá amar. No que depender de mim, tô dentro!
— Pensei em acampar lá em São Francisco de Paula, no parque da Cachoeira. Não sei se conhece.
Seus brios então se eriçaram. A última vez na qual esteve lá fora justamente com Daniel, acompanhado de Ágata e Ian. Tratava-se de quando ocorrera o episódio da cachoeira no qual Ian revelou tudo o que sentia de verdade pelo primo.
— Tem certeza que precisa ser lá? — coçou a nuca — Não é por nada, mas é só que… me traz algumas lembranças…
— Podemos encontrar outro lugar. Não me oponho. Só achei o mais lindo lá mesmo.
— Então deixa. Nada de bancar egoísmo agora né?
— Assim que se fala — sorriu — Caso te faça muito mal mesmo, procuramos outro. Só me manda uma mensagem.
— Tranquilo. Só uma coisa, Mia…
— Diga!
— Sabe que não tenho nada com o teu boy, né?
A morena acabou por cair na gargalhada.
— Sei, Van. Fica tranquila — ponderou — Se não quiser dividir barraca, só me avisa que tenho duas lá em casa, daí levo. Ok?
— Ok!
— Agora zíper na boca que ele tá voltando!
De fato, Ana voltava com a bandeja em mãos reclamando da má vontade do pessoal, ainda que entendesse o fato de ser madrugada e estarem caindo de sono em cima do caixa. As meninas se puseram a rir do comentário, mesmo que seus pensamentos estivessem todos voltados na felicidade que aquele rapaz teria dias depois.
***
Ainda que a noite tenha se esforçado para durar a eternidade, notava-se pela expressão dos convidados que o ânimo baladeiro começava a se despedir. Os primeiros a caírem, por pura ironia, foram os mais jovens, exaustos depois de dançarem tanto hits de seu tempo quanto os que embalaram a infância e adolescência de seus pais. Estes, ali presentes, aguentaram bem o fôlego da noite, alternando uma dança colada ao som de Perigo e um mexe remexe ao som de Deus é Brasileiro.
Nem mesmo o aniversariante conseguia segurar a barra. Depois de desidratar com tantas horas no centro da pista formada no meio do ‘Wunder Bar’, foi jogar conversa fora, tomar alguma coisa, perambular pelos grupinhos e se inteirar dos assuntos. Voltou a encontrar Al, Dan, Mandy, Adrian e Sabine quase 3 horas depois do beijo entre os dois primeiros. O quarteto estava na mesma mesa, cada qual fazendo mais força para permanecer de pé. Seus olhos já não aguentavam mais.
— Ah não! ‘Vamo lá, gurizada! Peço a dança do tchu tchu cão só pra vocês! Que tal, hein? — ironizou ao notar o “desânimo”.
— Vai a m*rda, Jeferson — Sabine contestou, esfregando os olhos — Que horas são?
— Quase quatro e meia, luz do meu dia.
— Gente… Graças a Deus é sexta e amanhã eu folgo. Queria ver levantar daqui a uma hora e meia e ir trabalhar! Sem condições! — Mandy comentou.
— Eu até tenho que trabalhar. Aqui, óbvio, mas como é só de tarde tô tranquilo — foi a vez de Al falar.
— Eu tenho a p*rra do treino. Tô f*dido — Adrian lembrou.
— Por falar em treino, vou cabular a dança amanhã. Não vou produzir nada indo semimorto pra escola — Dan indagou.
— Tu nunca rende nada, pateta. Graças a mim que tu saiu do nível ‘qualquer coisa’ pro ‘tanto faz’ — Al alfinetou.
— Cala boca, bebezão! — Dan não deixou por menos.
Amanda observava ambos já com outros olhos. Saber que finalmente haviam se entregado ao sentimento que os unia dava um tom até ‘romântico’ às turras que um dava sobre o outro. Um verdadeiro casal gato e rato, onde ora um é caça e o outro caçador, ora um vira caça e o outro vira caçador. Sabine também tinha suas desconfianças, mas como sempre era assim, resolveu que iria ficar de boca calada.
A atenção só parou de ser dos rapazes quando Fernando, pai de Jeff, pediu a palavra para dar as considerações finais da festa e concluir aquela noite tão mágica ao filho. O homem parecia dedilhar as palavras antes de se atrever a dizê-las, afinal precisava que fosse um momento especial, íntimo, compartilhado frente a todos, algo que nem em sonho costumava fazer. Karen, sua esposa, estava ao seu lado, com a mão esquerda sob seu ombro.
— Primeiramente, gostaria de agradecer a presença de todos. É muito importante pra mim, como pai, perceber que tive a bênção de ser agraciado com um filho como o Jeferson. Um guri dedicado, focado no que quer, meio crianção, sim, ás vezes beira demais os limites entre juventude e vida adulta, mas é de confiança. Quem convive com ele mais do que eu, e aqui me refiro diretamente aos amigos, sabe que ele é um cara família. Não suporta climão entre pessoas que gosta. Não existe mágoa que não possa ser perdoada ou briga que não possa ser esquecida. Um ser de luz, que doa e recebe amizade, independente de quem seja. Portanto, meu filho, queria te dizer que, mais do que simples orgulho, eu e tua mãe temos admiração pela tua perseverança e carisma. Mais uma vez, parabéns!
Depois de uma salva de palmas, foi a vez de Karen dar seu depoimento sobre o filho.
— Eu sempre digo que amar um filho não é obrigação de uma mãe, mesmo porque, por obrigação, entendo algo imposto, forçado, sendo que não tem nada disso quando duas pessoas decidem juntas pôr um filho no mundo. Amar um filho começa desde o primeiro instante de gestação, sentindo aquela vida crescer dentro de ti e ter certeza de que ela terá vez e voz nesse mundo, fazendo dele um lugar melhor. E, gente, todo dia que eu acordo e vejo esse menino que muito embalei pra ninar cresceu e se tornou esse homem incrível… Eu sinto uma coisa tão forte dentro de mim que sequer sei pôr um nome, sabe? É como sempre receber uma notícia boa logo de manhã pela eternidade. A certeza de que plantei meu filho para o bem, e que, sem dúvida, estou colhendo esses frutos agora. Parabéns, filhote! A mãe te ama muito, viu?
Foram poucos os presentes que conseguiram segurar as lágrimas. Karen, então, debruçava-se nelas enquanto ia abraçar seu primogênito com toda força que seu coração pedia. Diante a demonstração tão singela, Jeff não ficou inerte. Acabou pegando o microfone também e dizendo algumas palavras.
— Poucos de vocês sabem além dos meus pais, mas planejo essa festa desde os meus cinco anos, quando ganhei um boneco do Darth Vader de um piá da creche e perguntei ao meu pai quem era aquele Max Steel — todos riram — De lá pra cá, conheci essa história, não perdi um filme sequer dos que lançaram, e aprendi que a tal força que tanto falavam neles é sobre tu acreditar que é possível e ir atrás disso, jamais pensar que os sonhos ou metas são coisas do além. E se isso aconteceu é porque tive dos velhos que me ensinaram tudo e estavam ali, do meu lado, me vendo crescer, errar e aprender. Valeu, pai. Valeu, mãe. Que a força sempre esteja com a gente! Abração!
Seria inverossímil para Jeff negar o quão feliz estava por receber aquela doce mensagem, afinal de contas seus pais não só eram sua base como a estrutura toda de quem era. Tê-los por perto era a certeza de que os próximos estavam certos e, mesmo que não, estariam ali para lhe dar suporte quando precisassem. Amava-os demais e ter recebido a graça de ser filho deles lhe preenchia o coração de afeto e solidariedade.
Pouco depois, já recebendo os cumprimentos pelo discurso paterno e materno, um dos seguranças lhe chamou afirmando que uma moça de nome Cris estava a lhe esperar. Seu olhar ficou perdido, completamente sem rumo. O que faria sua ex ir até ali? Não haviam terminado nos piores termos, de fato, mas também não foram nos melhores. Arriscou que, por ser seu aniversário, a moça deu uma trégua e acabou decidindo prestigiar. Disse ao homem, então, que a atenderia, indo junto a ele até a entrada.
Chegando lá, encontrou a moça com as mãos na cintura segurando uma pequena caixinha em uma delas. Suas feições não estavam nos melhores dias, lembrando um grande temporal se armando. Temeu o que raios teria a trazido ali, mas sabia que coisa boa nem de longe podia ser. E nem sequer teve chance de questionar.
Mal ia abrindo a boca e a mão de Cris estalou seu rosto num relampejo. Perdeu por completo os sentidos do que fazia com o gesto improvável.
— Isso é por tu ter dormido com a Karina, seu cretino! — esbravejou a moça — Achou mesmo que não saberia que tu pegou a namorada de um amigo meu?
Num primeiro momento não identificou de quem a moça falava e quase a tachou de louca, até lembrar da noite dos solteiros com Alisson tempos antes… Era a moça com quem passara a noite.
— Namorada?! Ela me disse que tinha brigado por conta dele ter descoberto a gravidez e—
— Claro, e tu acredito nisso? Ela tá grávida, sim, mas eles estavam juntos tentando resolver o problema! Aí descubro por acaso uma coisa dessas e tenho que ficar quieta pra madame se passar de boazinha?!
— M-mas ela parecia tão fragilizada por não ter o apoio do cara… Juro como pareceu verdade!
— Fragilizada deve tá agora que ouviu um monte de desaforo — ironizou — Quanto a parecer real, nosso namoro também e olha só onde estamos não é mesmo?
Mesmo ouvindo aquilo da boca de Cris, parecia tão irreal. Quando conheceu Karina, espraguejou o rapaz que a deixou sozinha com um filho na barriga, só para descobrir que ele jamais foi embora tempos depois? Foi um tiro certeiro em seus neurônios.
Para agravar ainda mais o estado de choque, Cris abraçou-o forte. Depois daquilo, Jeff não compreendia mais nada.
— Apesar de ter preferido a Sherlock Holmes pós-moderna, queria muito te entregar isso — estendeu as mãos com a caixinha.
Sabia do que se tratava, entretanto não deixou de tocar seu coração. Dentro do objeto, os anéis que o menino havia comprado na época em que estavam juntos. Sentiu um peso enorme começar a fazer morada sobre seus ombros, entregando-os de volta a ex antes mesmo que esfriassem nas suas mãos.
— Não precisa me devolver. Fica com elas — pediu o menino.
— Se ficarem comigo, mando derreter — brincou, ainda que, no fundo, houvesse uma certa verdade em sua fala — Além do mais, pode usar para selar tua felicidade, não é?
Ao terminar a frase, Cris sequer ficou para ouvir a resposta. Virou-se e foi junto com toda história construída por eles. Um pouco cheia de bizarrices, como o momento recém vivido, mas que também, no fundo, colocaram um ponto final da forma mais civilizada que puderam. A consciência, agora, podia dormir tranquila.
Jeff retornou ao salão ainda se sentindo uma barata tonta, guardando as tais alianças dentro do bolso. E, tão logo o fez, viu Sabine se aproximar feito uma assombração à sua frente.
— Quase deu pra ouvir daqui o estalo do tapa dela, sabia? — ironizou.
— Tô até agora tentando entender onde eu entrei. Ela não entendeu que caí de gaiato na história.
— História?
— Coisa minha e dela. Não liga — deu de ombros — Viu que tá tocando Perfect do Ed Sheeran? ‘Bora dançar uma rodada juntos?
— E a Cris? Não vai se enciumar de ver o ex comigo?
— Só respira, gata. Só respira.
A moça caiu na gargalhada, dando a mão para Jeff conduzi-la até a pista e começar a dançar a lá valsa. No fim, era o que importava. Ter a compreensão daquela a quem demorou a acreditar, mas que tinha conquistado seu coração para sempre. Se havia uma verdade na fala de Cris, é que aquelas alianças concretizaram sua felicidade, sim. Disso Jeferson não tinha uma dúvida sequer.
CONTINUA
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