A Tempestade
1 um: sacrifício
Notas iniciais
Enquanto alimentava a lareira com velhos papéis, Ludwig pôde contabilizar quatro baques à porta antes que a mesma fosse derrubada pelo rapaz raivoso de cabelos claríssimos. Não ergueu o rosto, mantendo uma impassível expressão de tranquilidade.
— Você destruiu a minha porta — anunciou, em voz baixa.
— Que se dane a sua maldita porta — respondeu Gilbert, irritado. Suas feições tinham mais de indignadas que de prepotentes: A invasão à casa do irmão caçula tinha seus propósitos muito além de mera provocação. — Você é um completo idiota.
— De todas as pessoas do mundo, você seria a última a ter o direito de me dizer uma coisa dessas. — o loiro lançou uma última carta ao fogo e, pela primeira vez desde a chegada do irmão, virou-se para encará-lo. — Você está falando como ele. É por isso que está aqui? — os olhos azuis de Ludwig brilhavam com desdém. — Por um acaso está com pena dele?
Gilbert deixou que caísse o papel que trazia nas mãos, e nele viam-se as marcas e bordas amassadas resultantes da falta de cuidado.
— Eu tô confuso.
O loiro deu um sorriso fraternal e, valendo-se da aparente fragilidade do irmão, dele aproximou-se gentilmente, posicionando seu braço sobre os ombros do outro. Houve uma época em que o prussiano fora responsável pelo mais novo: Agora, com Ludwig superando-o em tamanho, força e imponência, Gilbert parecia imensamente mais fraco.
— Então me escute.
— Não posso fazer isso. — O mais velho agora assumia a defensiva. A vulnerabilidade dava lugar à teimosia, como se, a qualquer instante, ele fosse justificar-se com um infantil “Porque eu não quero”. — Aquela ordem é... Desumana.
Ludwig deu sonoras gargalhadas e, tão rápido quanto começara, silenciou-se. Seu olhar fechou-se e endureceu.
A pressão sobre os ombros do prussiano pareceu aumentar de repente.
— Não venha me falar de humanidade. Não comigo. Não você. — Os olhos azuis fitavam os vermelhos e a tensão entre os outrora harmoniosos irmãos refletia o peso da atmosfera. Mesmo na paz da casa alemã, havia cheiro de guerra.
— Não seria a sua primeira invasão à Áustria. Isto não deveria ser um problema para você, e estou certo de que, quando este seu ataque de sensibilidade passar, você verá o quão ridículo está sendo. —O alemão separou-se do menor e assumiu uma postura autoritária, prostrado de costas em frente à lareira.
— Acontece que cê não tá só me pedindo pra invadir o barraco do aristocrata! Eu nem ia ligar se fosse isso! Ludwig, cê tá querendo que eu...
— Não deve restar uma única pedra da casa austríaca — finalizou o loiro, ainda sem virar-se. — Para que atinjamos os nossos objetivos, a Áustria tem que ser totalmente devastada, sem chances para se reerguer. E é você quem tem que fazer isso.
— Me dá uma porcaria de bom motivo pra fazer essa merda — contestou Gilbert, abaixando-se para pegar o documento do chão. — Mas o que eu acho é que esse seu chefe idiota tá te fazendo perder a cabeça.
— Ah, meu irmão... Você costumava ser tão forte quando eu era menor... Mas as coisas mudaram. — O perfil do alemão tornou-se visível à luz do fogo, mas ele ainda não encarava o outro. — Eu estou no comando agora. Isso é para o bem de todos nós. Apenas me escute e seja bonzinho.
— Hey, eu não tô te entendendo. Cê nunca foi assim, como pode me pedir uma coisa dessas? Pois saiba que eu não vou te obedecer!
Ludwig manteve-se em silêncio por um instante, deu um suspiro e virou-se de frente para o irmão. Trazia as mãos por trás das costas e os olhos endurecidos pela impaciência.
— Dadas as circunstâncias — Ele mantinha a expressão imutável e livre de qualquer sinal de raiva, o que surpreendeu o mais velho. — Eu devia imaginar que você poderia me causar problemas. Mas eu tive alguma esperança. Só quem embora você seja meu irmão, Gil... Não posso arriscar meus interesses em nome de sua... Afeição pelo Roderich Edelstein.
— O quê? Francamente! Eu tô pouco me importando com aquele pianista maldito! — gritou Gilbert, as palavras lhe saindo mais rudes do que deveriam. — Eu só não vou ser partidário dessa sua irresponsabilidade! Isso é... Crueldade, Ludwig!
— Partidário... Um vocabulário requintado demais para alguém como você. —Provocou o mais novo, com um sorriso de escárnio. — Sejamos francos, meu irmão... Você já fez coisa bem pior.
A invulnerabilidade do prussiano pareceu enfraquecer-se, e ele pensou por um instante antes de responder.
— Então cê vai jogar isso na minha cara? É isso mesmo, maninho? — Ele deu um sorriso ao mesmo tempo tristonho e irônico. — Achei que cê tivesse orgulho de mim.
— E eu tive, meu irmão, eu tive — Ludwig falava calmamente, em voz baixa e suave. — Mas os tempos são outros. Já não se pode distribuir irresponsabilidades a torto e a direito sem uma razão, como você sempre fez... E isso é diferente. Temos um objetivo, agora.
— Objetivo? Cê tá chamando essa birrinha idiota de objetivo e ainda quer me criticar? — gritou, indignado com a frieza com que o irmão caçula tratava a situação. — Eu não sou um monstro! Eu não sou... Eu não sou um assassino!
Ludwig pareceu surpreso, como se tivesse deixado passar algum detalhe importante.
— Não?
O rosto pálido do albino enrubesceu. Agora Gilbert percebera o que estava acontecendo: O irmão se utilizava de seu passado conflituoso para provocá-lo e fazê-lo envergonhar-se.
— Será que não, Gil? — continuou o loiro, com um cínico sorriso banhado em gentileza. — Olhe para trás, irmão... E pense se alguém que fez o que você fez pode ter uma segunda chance.
— Eu não acredito que cê tá me dizendo isso.
Ludwig aproximou-se do mais velho novamente e pôs a mão sobre seu ombro.
— Você já está condenado, meu irmão. Eu estou lhe oferecendo essa chance. Use isso para o bem maior.
— Então eu terei que te dar as costas. — provocou o menor, afastando-se do outro, que não se alterou. — Eu me recuso a devastar a Áustria. Me desculpe.
O alemão suspirou, abaixando a cabeça.
— Em uma guerra, Gil, temos que fazer sacrifícios.
— Eu sei. Como cê bem me lembrou, eu entendo bem mais de guerras do que você, maninho.
Pela primeira vez, Ludwig pareceu confuso.
— Esse é meu sacrifício, irmãozinho. A gente se vê por aí.
Gilbert tirou o quepe azul-marinho e jogou-o no chão.
— Você não sabe o que está fazendo. — A expressão no rosto de Ludwig beirava um delicioso desespero. — Bancar o santo agora não adianta! Você não tem mais salvação, Gil! — o mais velho riu ao perceber o medo na voz do irmão.
— Kesesese... Cê não entendeu mesmo, né? Eu vou me mandar! Você que destrua o aristocrata sozinho, porque eu não vou fazer nada. Essa é minha redenção! — Gilbert já se encontrava à porta, e colocou o papel com a ordem do irmão no bolso do sobretudo. O alemão aos poucos recobrava a calma, e foi suavemente que ele quebrou o silêncio que se seguiu.
— Não se atreva a voltar.
— Não vou precisar. Ah, maninho — disse, antes de sair da casa alemã. — Toma cuidado com o que cê vai fazer. Cê não precisa... — foi com certa tristeza que terminou a frase. — Perder o rumo.
Ludwig bateu continência, mas o irmão já se fora.
Não seria naquela noite que a casa austríaca iria queimar.
E foi exatamente por isso que Gilbert Beilschmidt decidiu que aquele seria seu próximo destino.
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