A Teia de Sangue
3 A Teia de Sangue: Capítulo 03 — A Teoria do Caos
Notas iniciais
A Teia de Sangue: Capítulo 03 — A Teoria do Caos

Ficara estagnado, perplexo, petrificado. Por mais que cogitasse tal possibilidade, Josh torcia para que seus pensamentos estivessem errados. Seus olhos claros fitavam o agente funerário Willian Bludworth, porém, pareciam distantes e vazios.
— Joshua? — Willian tentou trazê-lo de volta.
— Nós entramos no Efeito Borboleta... — Josh sibilou tais palavras aos sussurros. — Nós entramos no Efeito Borboleta? — O jovem repetiu a frase mais uma vez, mas desta fez em tom de indagação.
Willian sorriu enquanto caminhava.
— Você nunca ouviu falar sobre isso? — O a gente funerário riu novamente enquanto Josh o olhava sério, esperando a resposta de sua pergunta. — Efeito Borboleta está presente na Teoria do Caos, onde uma pequena mudança no início de um evento qualquer pode trazer consequências enormes e absolutamente desconhecidas no futuro.
Joshua silenciou-se por alguns segundos. Parecia refletir nas explicações de Willian.
— Entendo, a minha visão, o meu aviso aos meus colegas que sobreviveram e deveriam morrer no acidente, mudou a trajetória do evento. Então quer dizer que daqui para frente o futuro é algo imprevisível para nós que sobrevivemos? — O garoto enfim pronunciou-se.
— Já lhe contei que a morte virá buscá-los, isso é fato. Resta você e seus amigos descobrirem quando e como. — Willian respondeu, escondendo seus dentes brancos enquanto mirava o jovem adolescente. — ‘’O bater de asas de uma borboleta no Brasil pode ocasionar um tornado imprevisível no Texas. ’’
Josh assentiu a cabeça silenciosamente, as palavras de Willian repassavam em sua mente como um texto de um livro que precisava ler. O adolescente pensara cautelosamente em cada palavra dita pelo agente funerário, Josh pretendia não acreditar no que fora dito por Willian, porém, as notícias da internet batiam com a suposta Teoria do Caos.
— Deve haver algum jeito... alguma maneira de impedir isso. — Josh pensou em voz alta. — Impedir que essa lista da morte seja feita. Meus amigos não tiveram culpa, foi apenas uma visão, não podemos ficar parados esperando a morte chegar. — O jovem rebelou-se contra a explicação dada por Willian sobre a visão que tivera no dia anterior.
— Escute, garoto. Esta será a última vez que irei repetir isso; é impossível impedir os planos da morte, você pode atrasá-los, mas nunca pará-los. O destino é certo para todos vocês, porém, Joshua, sua persistência poderá adiar um pouco esse destino, assim como todos os outros receptores da premonição fizeram. — Willian bradou com um tom de voz mais sério e potente.
— Receptores da premonição? — Josh indagou olhando-o com o cenho franzido. — Ah, entendo, os outros que tiveram a visão assim como eu tive.
— Isso. — O agente funerário assentiu enquanto caminhava pela sala úmida. — Os antigos receptores tentaram impedir a morte mais de uma vez, alguns obtiveram sucesso e atrasaram a morte por alguns dias, meses e até anos.
— Mas todos tiveram o mesmo destino... — Joshua sussurrou prevendo e adiando o que seria dito por Willian caso continuasse com sua frase. O adolescente tornou a ficar pensativo, com seu olhar distante e uma respiração mais pesada que o normal.
Josh custava a acreditar que seu fim estava prestes a acontecer, assim como o de todos os seus companheiros. Estando no auge dos seus dezessete anos, o adolescente se desesperava conforme o fato de que poderia morrer a qualquer momento fixava-se em sua mente.
O filho único dos Herdman fitou Willian de relance. Parecia analisar tudo que fora dito pelo negro e, com um gesto negativo realizado com a cabeça, Joshua retirou-se do local com uma rapidez e um ar de inconformidade inquestionável.
— E lá vamos nós mais uma vez... — Sibilou Willian Bludworth em um tom de voz quase inaudível, observando o jovem garoto se retirar de seu local de trabalho. O agente funerário retirou um antigo relógio — aparentemente banhado a ouro — do bolso de seu macacão azul escuro enquanto um sorriso lateral se formava em sua face. — O tempo está rodando.
Celina continuava com o recolhimento dos enfeites juntamente aos demais alunos que se comprometeram em desfazer tudo que fora preparado para a despedida das férias. A ruiva não conseguia conter o desânimo por estar fazendo isso, afinal, era uma festa esperada por quase todos os alunos do terceiro ano.
— Não consigo fazer isso também. — A voz mais meiga que o normal de Emma Morris ecoou próxima à Celina. A loira, de tonalidade quase ruiva, também colaborava com o recolhimento de tudo do clube. — Dá um aperto no coração ter que desfazer uma festa tão aguardada.
Celina não era de conversar muito com a filha caçula dos Morris, muito menos de aprovar algumas atitudes tomadas pela adolescente — principalmente em relação aos inúmeros relacionamentos em pouco intervalo de tempo.
— Oi, Emma. Pois é... — Celina tentou demonstrar o máximo de simpatia e educação para com Emma. A ruiva responde com um sorriso tristonho enquanto voltava-se para uma faixa que estava escrito ‘’Turma de 2010’’.
— É algo plausível, sabe... — Emma começou a pronunciar olhando para Celina enquanto procurava a melhor maneira de se expressar. Contudo, Celina sabia que a loira tentava apenas encontrar palavras difíceis que demonstrassem sua aparente inteligência, típico de Emma Morris. — Assim, todos estão de luto... digo, o que aconteceu ontem foi algo absurdo e chocante. Acho que seria incoerente darmos uma festa depois de tantas mortes, né?
Celina não consegue esconder um sorriso debochado. A ruiva assente com a cabeça enquanto guardava a faixa em uma bolsa de plástico.
— Pelo menos você possui juízo e percebe o impacto do incidente. — Afirmou Celina enquanto apunhalava uma tesoura grande e cortava as cordas de outras duas faixas. — Aquela ali só se preocupa em tomar um sol, um dia após o acidente que deixou tantos amigos mortos.
— Quem? — Emma questionou enquanto olhava para o lado e notava a presença de Aurora Wheeler deitada em uma das cadeiras do clube, com a cabeça erguida e um óculos de sol. — Nossa... que absurdo. — Emma gaguejou enquanto ajeitava a alça de sua camiseta regata tentando esconder o biquíni amarelo que usava por debaixo.
— Acho que terminamos. Você vem para o cerimonial, certo? — Celina percebeu o biquíni assim que Emma iniciou a conversa, mas ainda assim tentou pressioná-la por puro prazer.
— Ah... sim, claro que vou! É no campo do clube, né? — Emma ainda titubeava ao sibilar tais palavras. Celina ergue as sobrancelhas como se a pergunta fosse um pouco óbvia, fazendo Emma mudar de postura propositalmente. — É claro que é... estou indo agora mesmo, até mais.
A loira se retira do local assim como outros alunos que já se dirigiam para o cerimonial. Celina não consegue esconder um sorriso sarcástico ao perceber o quanto Emma era estúpida e tentava disfarçar as misteriosas notas altas em todas as matérias.
— Ei, Miss Sunshine! — Celina berrou ironizando Aurora Wheeler que retira o óculos escuro olhando para a ruiva com uma expressão apressada. — Tem certeza que não vai ao cerimonial? Aposto que sua irmã irá.
— Bem... como pôde perceber, eu não sou ela. — Aurora rebateu recolando o objeto enquanto erguia a cabeça na direção do sol estridente. Celina gesticula um sinal de desprezo procurando ajudar outros alunos que ainda recolhiam mesas e coisas do tipo.
Aurora percebe a ida de Celina para uma sala do interior do clube na qual as cadeiras e as mesas deveriam ficar. Wheeler suspira de alívio enquanto retirava, pela última vez, seus óculos e mirava a água da piscina.
— Você é tão estúpida quanto eu, Celina. — Aurora cochichou. Seu olhar havia mudado drasticamente, assim como sua expressão facial. A loira coçou entrelaçou a mão direita nas próprias madeixas douradas, erguendo-se enquanto se dirigia para a borda da piscina, sentando na mesma. — Tão estúpida quanto eu. — Repetiu, saltando na água gelada da piscina.
Wheeler mergulha vagarosamente, sem pressa para retornar à superfície. Buscou um pouco de ar, e logo retornou para o fundo da piscina, nadando com braçadas lentas por todo o local. Aurora muda a posição, nadando agora no que seria uma tentativa de nado costas, um pouco mais torto que o normal.
— Sempre a Amélia... — Sussurrou em meio ao nado. A loira enfim parou enquanto observava o restante da piscina, as águas até então plácidas faziam um movimento ondulatório por conta de Aurora, que decidiu dar um último mergulho antes de se retirar.
Aurora, desta vez, imerge bastante ao ponto de atingir o chão ladrilhado da piscina e, apenas utilizando os dois braços, Aurora consegue se movimentar, por debaixo da água, por quase toda a piscina. Porém, enquanto estava prestes a ficar sem ar e retornar à superfície, os longos cabelos dourados da Wheeler são sugados por um ducto — o qual estava destampado — da piscina.
A cabeça da jovem é puxada para trás com uma brutidão imensa. Aurora solta um grito de dor e surpresa abafado pela água da piscina. Demorou alguns segundos para perceber do que se tratava, debatendo-se no fundo da piscina para tentar sair daquela situação de todas as maneiras.
Aurora berrava agonizando-se e já sem reservas de oxigênio. A loira tentou, com as mãos, soltar suas madeixas presas no ralo da piscina, contudo, seus cabelos iam sendo cada vez mais sugados conforme a loira se mexia tentando soltá-los.
Seus olhos claros estavam abertos sem se importarem com o cloro da piscina, afinal, o que estava em risco era a própria vida da garota. Aurora socou a parede da piscina inúmeras vezes como um reflexo de sua agonizante dor; estava totalmente sem ar, e logo seu limite chegaria.
— Não sei, talvez ele esteja presente. Acho que os pais das vítimas não querem ver o Diretor Nathan nem pintado de ouro. — Celina respondeu a pergunta de um amigo enquanto retornava da sala, assim como os demais. A ruiva notou a ausência de Aurora e, estando longe da área na qual a loira se afogava, não se importou com o sumiço repentino da mesma.
— Vou apagar as luzes, vocês fecham as portas e cobrem a piscina. — Um dos amigos de Celina pronunciou indo na direção da tomada do local, enquanto outro estudante se dirigia para o quadro que controlava a coberta da piscina.
Um único botão acionado foi capaz de deixar a situação de Aurora ainda mais complicada. A coberta azul já pairava sob as águas da piscina, deixando-a impenetrável e totalmente encoberta. Assim, Aurora Wheeler teria suas chances de sobrevivência reduzidas pela metade.
Aurora gritou enquanto sua cabeça estava totalmente na direção do ducto, quase encostada total mente na parede. As veias do pescoço da loira já estavam visíveis enquanto seus orbes claros se arregalavam intensamente. Contudo, ao perceber as bolhas e o movimento estranho na superfície da água, Celina percebe que aquilo se tratava de Aurora.
— Aurora! — Celina exclamou correndo na direção da loira enquanto apunhalava a tesoura que havia deixado em cima de uma mesa, já percebendo no que a Wheeler havia se metido. A ruiva salta na piscina nadando na direção da loira que a olha totalmente desesperada e, com um único ato preciso e certeiro, Celina corta os cabelos dourados de Aurora deixando-os sugados pelo ducto enquanto puxava o corpo quase desmaiado e sem vida da loira.
A coberta da piscina já estava bem em cima das duas, porém, a mesma foi parada a tempo quando Celina avistara o movimento suspeito de Aurora. Celina saltou par a fora da piscina com um urro retumbante, o mesmo aconteceu com Aurora, que procura de todas as maneiras o oxigênio a sua volta em um ato desesperador.
— Vocês estão bem? — O mesmo garoto de antes perguntou, ajudando-as a sair da água.
Aurora toca nos cabelos — que agora estavam na altura do pescoço — sem esconder as lágrimas que se misturavam com as gotículas da água da piscina em seu rosto. Aurora ainda buscava o ar, seu peito arfava intensamente.
— Como você não percebeu o ralo? — Celina perguntou com sua voz sendo interrompida diversas vezes pela própria respiração. — Isso poderia te matar afogada!
Aurora nada responde, apenas observa a ruiva ao seu lado, abraçando-a com um gesto de agradecimento, ainda imergindo-se, dessa vez, em lágrimas. As duas permaneceram abraçadas e molhadas, enquanto um dos amigos entregavam-lhes duas toalhas brancas.
— Vamos nos secar e irmos para o memorial. — Celina proferiu por fim.
Joshua Herdman corria desesperadamente pelo campo verde do clube ao qual pertencia à escola onde estuda. O garoto observou durante o trajeto inúmeros pais e alunos prestando suas homenagens às vítimas da explosão da noite anterior, todos trajando algo preto ou um tom escuro. Josh encontra Tommy ao lado de Kara e Catarina, a mãe de Tommy, os três sentados na primeira fileira de bancos que ali fora colocada.
— Tommy! — Josh tentou gritar, mas o momento era inoportuno para isso. O adolescente olhou para todos os lados, mas não encontrou Celina em lugar algum, decidiu correr para o clube, afinal, da última vez que se falaram ela estava lá.
Desviou de inúmeras pessoas, visivelmente apreensivo.
— Ei, Josh! Pra que tanta pressa? — Josh ouviu a voz de Scott bradar pelo seu nome, porém, não deu muita atenção para o loiro até se chocar com Celina.
— Josh! — A ruiva exclamou, estranhando o nervosismo visível do amigo.
— Onde você estava? Você precisa vir comigo, preciso te falar algumas coisas. Nós estamos correndo perigo! — Joshua explicou sem muitos detalhes, puxando-a pelo braço enquanto a levava para um local distante, afastando-a de Aurora e dos demais.
— O que está havendo, Josh? Você está estranho novamente. — Celina questionou.
— Os seus cabelos... você esteve nadando? — Josh não conseguiu não notar os cabelos ruivos e encharcados de Celina.
— Aurora estava se afogando, o cabelo dela foi sugado pelo ralo. Está tudo bem agora, banquei a heroína. — Explicou, cruzando os braços como se esperasse algo do amigo.
Joshua desviou o olhar por alguns segundos. Seus pensamentos se interligavam enquanto algo em sua mente lhe dizia que o pior ainda estava para acontecer. O garoto tornou a fitar Celina, engolindo em seco e finalmente contando-lhe o que estava prestes a acontecer.
— Escuta, sei que vai parecer estranho, mas tenho algo sério a te falar e espero que acredite em mim. — Joshua começou fazendo Celina lançar um olhar de preocupação. — Conversei com um homem, ele estava presente em outros casos de premonições como as que tive. Ele me disse... ele me disse que a morte daria um jeito de reparar o buraco que deixei com a minha visão.
— O que? Um buraco? Do que você tá falando, Josh? — Celina perguntou sem entender o amigo.
— Isso. Eu salvei vocês assim que avisei da minha visão, certo? Mas você... todos nós deveríamos morrer ontem. E essa mudança fez com que a morte planejasse novamente sua lista, ela virá atrás de todos nós.
— Espere um minuto... — Celina franziu o cenho ainda com os braços cruzados. — A morte irá buscar as pessoas que sobreviveram ontem, ou seja, nós iremos morrer, é isso? — Celina perguntou com um tom irônico enquanto o silêncio de Josh já respondia sua própria pergunta. — Isso é insano, Joshua! De onde você tirou isso? Quem é esse homem que você falou?
— Não é invenção da minha cabeça, Celina! Outras pessoas que sobreviveram de um desastre por conta de uma premonição acabaram morrendo uma por uma em incidentes comuns. E isso irá acontecer conosco também! — Josh exclamou tocando nos ombros de Celina. — Olhe para o que aconteceu com a Aurora, se não fosse por você, provavelmente ela teria morrido!
— Não! — Celina interrompeu. — Isso só foi uma trágica coincidência.
— Acredite em mim mais uma vez, por favor, Celina. — Joshua mudou o tom de voz de modo que soasse o mais convincente possível. — Precisamos reunir todos os outros que escaparam ontem, precisamos evitar que mais incidentes iguais ao da Aurora se repitam. Nós tentaremos quebrar a Teoria do Caos e evitar que a morte nos alcance.
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