A Tarde Vazia
1 Capítulo Único
Naquela tarde quente, se sentia mesmo sob a sombra das árvores que restavam, as fortes ondas de calor que ascendiam do chão e o som das gotas de suor ao bater no asfalto, quando não se evaporavam no meio do caminho. Havia sido mais uma semana difícil, que se tornara apenas mais uma, com a rotina. Pensamentos carregados, como se fossem pequenas partículas, permeavam, ou constituíam aquele ar denso.
O sol já estava se movendo lentamente como de costume, até que se assustou antes da hora de sair daquela cidade, quando faria o belo espetáculo que as crianças veem os rajados vermelhos em um belo céu alaranjado ou então aquele pôr-do-sol que incita os beijos entre os amantes. Mas, naquele dia não.
A luz que se tornaria laranja começou a fraquejar quando viu aquela tropa de nuvens negras que marchava rumo àquele a quem pensávamos ter um poder estrondoso de calor que continuamente aquecia todo este planeta com milhões de pessoas. O tom avermelhado se enegreceu.
Era isso que Valdo via naquele anoitecer, o começo de uma tempestade ou mais um dos conflitos entre a luz e as trevas? Desde o episódio na estância, que há tantos anos ainda o atormentava. Logo ele que buscava incentivo, estava percebendo que seria mais difícil iluminar a mente dos explorados, se nem o sol, seu ídolo, estava conseguindo.
Esperava ansioso, sob o som de trovões e a luz de raios, a chegada de uma companhia. Mas até àquela hora só percebia a batalha no céu e sentia os fortes pingos da chuva em sua face envelhecida pelo tempo, ou pelas dificuldades da vida. Começou a se inquietar sentado naquele velho banco, pois Rosa não vinha. Como sempre aquela anarquista fazia tudo como ela queria que fosse, fazia suas ações, sem ninguém interferir como dizia seu ídolo Ravachol.
Em tantos anos ela não mudara absolutamente em nada, nem na beleza e nem nos ideais. E o havia abandonado agora no encontro em que ela mesma marcara, em um lugar tão quieto e melancólico em que nenhum ser se movimentava, nem mesmo o tempo passava.
Puxou lentamente do bolso da camisa encardida uma pequena caderneta que Chica havia perdido no bagunçado vagão de carga do trem na noite em que consumiram seus desejos em meio ao medo a novidades, a única experiência que o instinto os impulsionara a ter sem fraquejar. Pegou então a caneta que trazia no bolso da calça, e começou a esboçar um homem de braços abertos. A princípio seria um soldado, ou quem sabe um camponês. Mas então a metamorfose começou.
O desenho ficou totalmente em branco e começaram a surgir pequeninas mãos que foram aumentando de tamanho rapidamente rumo a Valdo como se fossem segurá-lo. Vieram então os braços saindo da folha e toda a forma de uma estátua surgiu a sua frente, ele em tamanha surpresa caiu para trás no banco deitado no chão enlameado. Aquela ser amorfo começou a seguir em sua direção, quando o homem sacou a foice para se defender. Mas de nada adiantava ela o trespassava como a uma gelatina, aquele cenário de guerra o perturbava mais a cada segundo, a cada batida do seu coração que a pouco estava parando junto com o tempo.
O temor aumentou quando ouviu passos marchando bem atrás de seu vilão, e um grito bradou: “- Sentido, volver!”. Foi então que percebeu a tropa que o cercava pelo outro lado. Olhou para o lado e viu Rosa bem ao longe, parada, e então correu ao seu encontro, mas simultaneamente ela esticou o braço e com a mão fez um sinal negativo. Perdido o homem correu para trás, a única direção que lhe restava e o fez com a maior velocidade que pode, até que chegou a um grande muro com um martelo ao lado. Largou então a foice e segurou forte o martelo e começou a espancar os tijolos até que conseguisse quebrar uma área em que apenas ele pudesse passar.
O processo lento e seus adversários se aproximavam sem muita pressa, pois já sabem que aquele homem só logo sucumbiria. Tentou abrir uma passagem em reta para que passasse de lado, mas quando eles o cercaram ele pegou a foice e o martelo se preparando para sua última batalha com as mãos vermelhas. Então de súbito uma mão leve o arrastou para trás sussurrando “sou eu Chica.”. Se vendo no chão ouviu de novo aquela voz “Valdo, sou eu Chica. Já está na hora de ir para o trabalho”, e então caiu da cama.
Por: L. David — 3ºB
Fale com o autor