A Sugadora De Almas
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Liana já havia começado a se preparar. Foi ao salão, fez o cabelo, as unhas, esfoliação... Seria um grande dia pra ela. O baile. Ela passou as férias na Espanha, com seus tios. Visitou vários lugares maravilhosos e comprou muitas roupas e sapatos incríveis. Não via a hora de mostrar tudo àquilo pra todo mundo do colégio. Ela estava muito ansiosa.
Na hora marcada, suas amigas chegaram para se aprontar. Eram muito unidas, portanto queriam chegar juntas ao baile.
Ouviu a porta do quarto se abrir, quando se virou viu uma menina branca, olhos azuis, alta e loira na frente, ainda com a mão na porta com cara de “Até que enfim te achei!” e outra menina atrás da loira. Essa era ruiva, cabelos cacheados, era um pouco mais baixa que a loira. Tinha olhos verdes.
- Rachel, Annie Bell!
- Eu já disse pra não me chamar assim. É Anabélle! – Disse a loira.
- Foi justamente o que eu disse, Annie Bell! – Disse Liana, divertida.
- Desisto de você, Lia. Virou caso perdido. – Anabélle respondeu.
- Eu não desisti de você. – Rachel disse, contrariando o que a loira havia dito. – Mas concordo que é um caso perdido.
As três se abraçaram. Era um contraste incrível: Anabélle loira, Rachel ruiva e Liana morena.
- Você fez falta, Rainha da Escola. – Disse Rachel.
- É Vossa Majestade, pra vocês, plebéias. – Brincou Liana.
- Você poderia ter deixado esse jeito marrento na Espanha, né?
Elas riram e começaram a se aprontar.
***
Elas chegaram ao baile deslumbrantes. Liana destacando-se entre todas as outras meninas. Como sempre acontecia depois das férias, todos perguntavam como havia sido a viagem de Liana. Nesse momento Rachel e Anabélle despediram-se de Liana. Sabiam que ela precisava de um tempo com os outros, além do mais não era nada legal ficar lá enquanto só ela recebia toda a atenção. Liana não se incomodava, achava normal que todas as meninas da escola, mesmo suas melhores amigas, sentissem um pouco de inveja dela. Era tão popular e deslumbrante...
Após cumprimentar todos os estudantes que a rodeava, ela continuou desfilando por todo o perímetro da escola onde o baile se realizava. Em algum momento viu uma aluna, aparentemente nova por ali. Tinha traços bonitos. Cabelos castanhos cacheados, era incrivelmente branca, tinha estatura mediana. Apenas um defeito, aos olhos de Liana: era gorda.
Não gordíssima ou obesa, apenas com excesso de peso. Parecia muito desajeitada com aquele corpo. Estava completamente desajustada, no meio de tanta gente. Não fazia parte das intenções de Liana, ajudar aquela moça. Pelo contrário. Em algum momento seria a menina que imploraria pela amizade de Liana, como tantas outras já haviam feito, pra conseguir um pouco de sua popularidade.
***
Após perambular um pouco mais e reencontrar suas amigas, foram onde a banda estava tocando. Conheciam os tocadores e solistas, portanto, podiam pedir algumas músicas pra serem tocadas em todas as festas.
- Marco, eu queria que você tocasse... – Liana gostaria de ter pedido We Are Young, porém não pôde completar.
Nesse momento, pelo visto, a menina desengonçada que Liana havia visto resolveu aparecer.
- Que tal um dueto? – Disse a menina.
- Claro! – Marco era muito educado e idiota pra ignorar alguém só por sua aparência. – Que música?
A menina olhou nos olhos de Liana, profundamente, e disse:
- We Are Young. Pode ser?
- Sim. Liana, você tinha algum pedido?
- Na verdade é o que vocês vão cantar, nesse momento. – Era como se menina a tentasse agradar, mas era impossível ela saber que música Liana queria.
Eles cantaram, e a menina surpreendeu todos. Sua voz era perfeita, emocionante. Ela poderia cantar durante toda a noite, ninguém se incomodaria. Ela interpretava a música como poucos. Era como se sentisse tudo o que a letra dizia.
Depois disso, Liana resolveu procurá-la, sozinha, pra tentar conhecê-la melhor.
- Oi. – Cumprimentou Liana.
- Oi! – Disse, nervosamente, a menina.
- Você é nova aqui, não é? – Perguntou Liana.
- Sou sim. – Disse a menina.
- Qual o seu nome? – Liana estava muito interessada em conhecer a menina.
- Meu nome? – A menina perguntou, com uma expressão muito estranha. – Escolha um. Eu tenho muitos nomes. Um a mais, um a menos não vai fazer diferença.
- Me desculpe, mas eu não entendi. – Liana achou aquilo muito estranho. Como alguém poderia ter muitos nomes? Talvez ela estivesse falando de algum apelido.
- Não, não são apelidos. – Divertiu-se a menina. – Mas me chame de Sofia, já que não quer escolher mais um nome pra mim.
Liana começou a se assustar com a menina. Era estranha demais. Talvez ela se drogasse, mas não parecia isso. Nesse momento, quando Liana estava fazendo seus planos para sair dali, ela deu um sorriso em sua direção. Um sorriso doce, meigo. E lhe disse:
- Vamos passear.
- Claro. – De repente Liana não lembrava porque estava com tanto receio de ir com ela. Então ela a seguiu.
***
A festa já havia terminado e elas não sabiam mais o que fazer. Rachel e Anabélle já a tinham procurado por todo lugar, junto com os meninos da banda. Marco e mais dois meninos procuravam do lado oeste da propriedade, perto de onde havia acontecido o baile. Rachel e Anabélle procuravam do lado leste. De repente, um grito ecoou:
- Anabélle! Anabélle! – Era Rachel a chamando. Ela não sabia o que sentir. Saiu correndo em direção ao grito.
- Rachel, o que acontec... – Nesse momento ela olhou para o chão e gritou, angustiada. – O que é isso? O que aconteceu aqui? – Nesse momento as duas já haviam começado a chorar. Rachel estava com a cabeça de alguém no colo. Era Liana, mas não parecia ser ela. Ela estava inconsciente.
***
Liana se olhava no espelho e não entendia nada. Não sabia o que pensar. Não tinha idéia de como aquilo havia acontecido. Quer dizer, até tinha uma idéia, uma espécie de sonho/lembrança, mas era louca demais pra ser verdade.
Aquilo a angustiava. Não saber o que havia acontecido a deixava quase louca. Suas amigas explicaram como haviam a encontrado, e que ela já estava assim. Ela não lembrava nada sobre a noite anterior, mas sabia que ninguém poderia inchar daquela maneira em uma noite. Ela estava gorda. Não com uma barriguinha por causa da noite anterior, ela estava gorda, como alguém que come demais em alguns meses. Como aquelas pessoas que não controlavam a boca. Mas ela nunca foi assim. Sempre seguiu suas dietas à risca. Não jantava, fazia academia, tudo pra manter aquele corpo. O médico disse que ela, provavelmente havia sido picada por abelhas ou algum outro inseto. Mas Liana sabia que não era. Nenhum inchaço de picada de inseto durava tanto tempo, especialmente depois de ter tomado tantos remédios, e o fato de que o “inchaço” era em todo o corpo aumentava suas desconfianças. Mais uma vez teve vontade de chorar, quando teve um pequeno lapso da memória... A menina...
***
Sofia olhava-se no espelho. Não acreditava que o resultado poderia ser tão bom. O único incômodo era que o pedaço da alma de Liana que ela havia roubado ainda a perturbava. A parte da alma que continha a magreza de Liana trazia pensamentos e lembranças que não eram seus. Liana era muito vaidosa, Sofia podia perceber pelo pedaço de alma que agora vivia nela. Era auto-suficiente. Odiava depender das pessoas, mas amava tê-las aos seus pés, dependentes dela. Ainda lembrava-se daquela menina de outros tempos. Antes de tornar uma sugadora de almas. Quando ela a humilhou, porque era feia, porque era gorda. Foi naquela mesma escola. Depois disso descobriu como adquirir características das pessoas, absorvendo partes das almas delas. Saiu daquela cidade e transformou-se. Em cada lugar que passava tinha um nome. Mas ainda precisava ser magra. Foi aí que ela decidiu que seria Liana, a maldita que a fez sofrer mais do que os outros, mais do que poderia aguentar. Ela teria sua vingança. Agora estava ali, magra. A silhueta da maldita. Estava perfeita. Ou quase. Estava pensando em mudar de olhos, outra vez. Havia se cansado dos castanhos que estavam em seu rosto. Lembrou-se da menina ruiva, de olhos verdes. Rachel. Ela estava do lado de Liana no dia da humilhação, e não fez nada. Sim. Gostava de olhos verdes. Quando aconteceria o próximo baile? Seria divertido pegar os olhos da ruiva, no mesmo lugar em que pegou a silhueta de Liana. Mas agora estava tarde e ela ainda tinha que ir à escola. Provavelmente ninguém a reconheceria, e Liana talvez não fosse à escola. Agora Liana se sentiria como ela se sentiu. Humilhada. Sua vingança com ela estava completa. Agora faltavam as outras. As que não fizeram nada. Elas também sofreriam. Um sorriso perpassou por seu rosto.
- Elas também vão sofrer. – Disse, sorrindo, a sugadora de almas.
Notas finais
Enfim, espero, mesmo, que tenham gostado.
Não deixem de comentar. ^^'
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