A Sorte
1 A Sorte (Capítulo único)
Notas iniciais
O sol iluminava o continente do horizonte e mais um dia nascia. Aquele vulgar assalariado punha-se de pé ignorando sua imensa vontade de deitar seu corpo cansado. Mesmo sabendo que a manhã do próximo dia seria difícil, dormir tarde acabara por se tornar um hábito.
Seu chefe era apenas mais um, de muitos, que utilizava uma famosa técnica. Forçando seus funcionários a trabalhar exaustivamente por um longo período de tempo, o cansaço ia lentamente retirando sua mais valiosa capacidade: a capacidade de pensar.
Pouco a pouco, eles deixavam de questionarem-se o porquê de algo ser assim. Esqueciam que podiam ter opiniões e apenas aceitavam o que era lhes imposto. Eis aqui mais uma pessoa crescida. Mas eles não possuem culpa de serem assim, afinal de contas, na escola não é ensinado a sobreviver ao mundo dos adultos.
Esse cidadão modelo deixava seu apartamento e prosseguia novamente para seu trabalho. Porquê "cidadão modelo" pergunta você? Porque uma pessoa sem a capacidade de pensar, não almeja nada e não inveja nada. Consequentemente, não causa mudanças no sistemas e não comete infrações a leis.
Triste e real. Mas isso durou pouco tempo, algo inusitado devolveu-lhe a capacidade de pensar temporariamente. Afinal de contas, até mesmo um cidadão modelo se perguntaria "Mas que droga é aquilo?" após avistar aquela figura.
Ele rapidamente olhou para os lados em busca de uma festa a fantasia ou até mesmo de um evento de "animes" onde aqueles seres bizarros chamados "Otakus" costumam conviver. Mas isso foi em vão, nada desse gênero foi encontrado por sua visão. Sua sanidade poderia ser contestada nesse momento mas isso não parou por aí.
O ser vestindo uma espécie de roupa verde com alguns bordados brancos aproximou-se e disse:
-Olá, eu sou a sorte!
O homem rapidamente ignorou a figura já que poucas pessoas gostariam de ser associadas a tal ser. Mas algo havia mudado, tudo a sua volta não se movia e de certa forma haviam perdido sua "vida":
-Não se preocupe! -Continuou o homem que se autodenominava a sorte. -Eu parei o tempo para tudo no mundo, com a exceção de nós!
Ele não conseguia compreender aquela situação, afinal de contas, haviam anos que ele não "pensava". Mas felizmente, os seres humanos são animais um tanto inteligentes. Seu cérebro acessou suas memórias mais antigas, suas memórias de criança e rapidamente reaprendeu a pensar.
E após pensar, acabou por concluir que aquilo não passava de um delírio seu. Essa seria a dedução lógica e a tal sorte já esperava isso:
-Eu tenho alguma certeza de que você pensa estar em um sonho ou algo do gênero mas isso não fará diferença, contanto que você me ouça e entenda o que estou dizendo! -Afirmou a sorte.
O homem aceitou:
-Qual o mal de divertir-se um pouco em um sonho inofensivo? -Pensava ele de forma ingênua.
A sorte sorriu e colocou o tempo a andar novamente, tudo continuou como se ele nunca houvesse existido. Até porque atualmente, caso um trabalhador fique estragado, haverá milhares de outros, exatamente iguais, para substitui-lo. O conceito de "único" acabará por perder seu significado.
A sorte começou a andar e pediu que lhe acompanhasse, durante essa caminhada o homem percebeu que de certa forma eles não pertenciam a esta realidade. Mesmo que conseguissem ver e ouvir as pessoas que seguiam sua vida, eles não podiam toca-las ou interagir com esse mundo. E as pessoas desse lado não conseguiam vê-los ou ouvi-los:
-Como eu disse antes, eu sou a sorte! Eu decido tudo nesse mundo, absolutamente tudo!
O homem considerou essa, uma ótima oportunidade para exercer sua capacidade de pensar:
-Qualquer coisa? Poderia dar um exemplo?
A sorte voltou a sorrir e apontou para um idoso que caminhava na calçada com a ajuda de uma bengala:
-Olhe para aquele velho... -Afirmou a sorte pegando uma moeda em seu bolso. -Cara, ele morre e coroa ele vive.
A sorte jogou sua moeda para o ar, pegou-a e bateu-a em seu braço. Ela retirou sua mão lentamente até que a face da moeda que representava cara foi mostrada:
-Parece que ele não teve sorte! -Exclamou a sorte com uma cara um tanto indiferente.
O homem rapidamente fitou o velho que caminhava na calçada, o idoso colocou a mão sobre seu coração e em seguida caiu no chão. Ele não acreditou que uma vida poderia ser tomada tão facilmente, e muito menos que uma pessoa podia brincar com vidas sem sequer sentir sua consciência pesada. Apesar daquilo não ser exatamente uma pessoa.
Ele tentou ajudar o idoso mas, como dito anteriormente, era impossível para eles interagirem com aquela realidade. O pobre velho caiu no chão sem expressão, no meio da multidão levou tempo para alguém perceber sua situação. Enquanto ficava um tanto assustado com a frieza do ser ao seu lado, ele resolveu perguntar:
-Então...quando você mata as pessoas, elas têm um ataque cardíaco?
-Claro que não, imagine se todas as pessoas desse mundo apenas morressem com ataques cardíacos? Os humanos começariam a suspeitar e posteriormente...isso não acabaria bem. Eu apenas decido o que acontece, o mundo cuida dos métodos! -A sorte sorriu e continuou. -E não me culpe quando pessoas morrem...afinal de contas, foi apenas a sorte!
Ela seguiu em frente enquanto bocejava:
-Estou com sono...mas ainda preciso terminar isso...
Num segundo todo o espaço a sua volta mudou, e quando aquele homem apercebeu-se, eles estavam numa sala, onde um professor lecionava:
-Como podem ver a soma de um monômio e um polinômio é um polinômio cujos termos são os produtos do monômio por cada termo do polinômio! -Dizia o professor.
A sorte estendeu seu braço para o quadro:
-A matemática...o meu pior inimigo, aqui é um lugar onde eu não posso interferir. Independente de quantas vezes eu jogue um dado para decidir o valor de uma equação, esse valor nunca mudará!
O homem sorriu ao contemplar o lado fraco de um ser praticamente perfeito:
-Então até mesmo deus é imperfeito...
-Deus? -Riu a sorte. -Esse é apenas mais um sinônimo de sorte...
-Como assim?
-Imagine, você, tentando sobreviver sozinho num mundo gigantesco cheio de coisas que podem te matar. Poucas pessoas conseguiriam suportar esse medo, mas agora imagine a mesma situação de antes. Só que dessa vez, um ser mais poderoso que qualquer um irá te proteger. E esse ser ainda é bondoso, ele quer apenas que você acredite nele. E mais, se você for morto você culpará sua descrença. Conveniente, não? -Dizia a Sorte arrogantemente.
-Isso significa que você repudia deus?
A sorte voltou a sorrir:
-Nem mesmo eu possuo o direito de desprezar um ser humano, principalmente aquele que está se esforçando para sobreviver! Mesmo que eles tenham inventado isso ou não, eu não sou um juiz, sou apenas a Sorte!
Era estranho conviver com o ser mais próximo de ser Deus, que ainda assim mostrava-se mais humano do que muitos. A Sorte, novamente moveu seus braços e toda a realidade distorceu-se. Eles estavam num quarto de hospital, na cama estava uma criança. Sua mãe chorava enquanto acariciava sua pequena cabeça sem cabelos, o que sugeria um câncer.
Sem importar-se, a Sorte jogou uma moeda para aquele homem:
-Cara, a criança morre, coroa, o câncer dela é curado!
O homem pegou a moeda institivamente, ela estava mais pesada do que nunca. Uma mísera moeda pesava mais de dezenas de quilos:
-Então esse é o peso de uma vida... -Pensava ele.
A pressão de decidir o rumo de uma vida era grande mas a tentação de experimentar esse grande poder era maior. Num segundo de fraqueza, ele jogou a moeda a moeda para cima. Antes mesmo de ter tempo para arrepender-se ele era obrigado a pegar a moeda e aceitar sua sorte. Por sorte, era uma radiante coroa que era exibida.
Ele sorriu e olhou para a criança deitada na cama mas nada aconteceu. Ele olhou decepcionado para a Sorte:
-O quê? Você pensou que algo aconteceria no mesmo instante? -Disse a Sorte. -Claro que não, os humanos desconfiaram...mas não se preocupe, ele vai ficar bem.
-Obrigado... -Agradeceu ele.
-Não me agradeça...você apenas teve sorte... -Respondeu ela.
Ele percebendo que o fim desse sonho aproximava-se, resolveu impor sua última dúvida:
-Tudo nesse mundo é decidido na sorte? Mesmo quando nos esforçamos ao máximo, no final, é a sorte que decidirá?
-Exato. Independente do quanto que você estudou para uma prova, no final, é a sua sorte que decidirá sua nota! -Exclamou a sorte. -Por exemplo, quando você aleatoriamente esquece da matéria que você estudou por dias. Isso é sorte. Ou quando você se lembra de algo que nem estudou, isso também é sorte!
-Então porque as pessoas continuam se esforçando? -Perguntou ele de novo.
-Como eu disse antes...pessoas são fracas e precisam de algo para sustentá-las, seja quando criam algo mais forte que elas para protegê-las ou quando se esforçam para poderem se sentir mais confiante. Mais no final...nada disso importa...
Ele sentiu a tristeza dela ao falar aquilo:
-E porque você tem que decidir isso?
Ela riu de novo:
-Que pergunta boba...se não houvesse sorte, as pessoas seriam todas iguais, todas acertariam ou todas errariam, todas conseguiriam fazer algo ou ninguém conseguiriam fazer algo. Um mundo sem sorte é um mundo, simplesmente, fútil.
Ele apenas permaneceu em silêncio:
-Mas agora vamos ao importante...eu te trouxe aqui por um motivo, até mesmo a sorte precisa ser renovada com o tempo. Eu escolhi você, obviamente, na sorte! -Continuou a Sorte. -Cara, você acorda desse sonho, coroa, você tem uma longa e triste vida pela frente!
Ela colocou a moeda em sua mão:
-Decida seu futuro!
Ele hesitou antes de jogar sua pequena moeda para cima, que dessa vez não era tão pesada quanto antes:
-Parece que você sofreu bastante durante todo esse tempo...ter o peso de bilhões de vida sobre suas costas não deve ser fácil... -Pensou ele.
Ele jogou-a para o ar e pegou-a em sua mão. Descobriu-a lentamente mas um feixe de luz impediu-o de ver o resultado. De um segundo para o outro, ele levantou-se da sua cama rapidamente tendo a impressão que havia tido um sonho doce. Mas ele rapidamente lembrava-se de sua vida não era tão feliz.
E enquanto deixava sua casa em sua triste rotina, um moeda com a face cara virada para cima ficava em sua mesa...
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