A Sonhadora

1 Prólogo - A Infâcia e A Tragédia.


Eu já fui feliz.

Minha infância não foi uma das melhores, mas ninguém pode ter algo perfeito, certo? Eu me lembro muito bem do dia em que conheci todas aquelas pessoas pulando de cima pra baixo, escalando paredes e muros, sem medo de ser taxado de louco por aproveitar a liberdade de direito. Eu simplesmente me apaixonei a primeira vista pelos movimentos arrojados. Segui-os, até encontrar um simples parquinho de diversão, só que cheio até a boca destas pessoas, que fui acabar a descobrir que se chamam traceus (e traceuses, pras poucas garotas que lá haviam). Praticantes de Le Parkour. Daí em diante, nada mais pude fazer pra evitar meu destino.

A cada dia eu ai aprendendo mais, fazendo novos amigos e ficando cada vez melhor. Não havia um único dia em que eu não saísse pela vizinhança escalando muros, pulando por pontes, parecendo uma macaquinha saltitante. Mas não durou muito toda esta alegria. Não gosto de me lembrar deste dia (e confesso que me lembro de pouquíssimo), do acidente que acabou por me levar à fase mais obscura e trágica da minha vida.

Era uma sexta-feira de julho, já faz vários anos. Eu, mamãe e papai estávamos indo pra casa da vovó, no interior do Rio, pra passar alguns dias de férias. Eu estava muito animada, pois poderia praticar meus movimentos em um espaço totalmente novo, e não via vovó desde dois verões passados. Eu estava morrendo de saudades dela.

Olhei pra fora da janela: o trânsito estava calmo, não havia uma nuvem se quer no céu. Já dava pra ver a piscina no fundo da casa da vovó, a agua refrescante, e eu pulando ferozmente nela. Se havia outra coisa além do Parkour que eu adorava fazer, era nadar. É fácil se locomover, e a gravidade não tem tanto efeito dentro dela, me dando quanta liberdade eu quisesse. Mas qualquer outra visita á casa ou a piscina teria de esperar.

A única coisa de que me lembro, é de um caminhão enorme chegar muito perto, e de eu apagar na mesma hora.

Uma luz extremamente forte atingiu meu rosto. Eu abri meus olhos lentamente, um bip não parava de tocar ao meu lado. Meu corpo pesava como chumbo, eu não conseguia mexer nem mesmo meus olhos sem ter de fazer força pra isso. Consegui focar uma moça vestida de branco, com os cabelos presos em um coque. Ela abria a janela sorridente, arrumando algumas flores no criado-mudo. Foi quando me dei conta onde estava: no hospital.

Tentei me levantar, eu sabia o que tinha acontecido, e não era nada bom. Tínhamos acabado em um acidente, e eu precisava saber se mamãe e papai estão bem, eu necessitava disto. Eram muito importantes pra mim, mas por mais que eu gemesse e me revirasse, não conseguia sair do lugar. A enfermeira percebeu meu desespero, e tentou me reconfortar.

- Calma anjinha, elas estão bem. Vão se recuperar logo logo, e terão alta junto com você, ok? – Ela segurou meu ombro, e afagou minha cabeça. Pude sentir um galo enorme, parecendo um chifre de unicórnio. Eu deveria estar com uma aparência de bruxa, mas isso não importava. Mamãe e papai estavam bem, e era tudo o que eu pedia pra ficar em paz.

A enfermeira me deixou sozinha no quarto. Era branco como a maioria dos hospitais, mas o vidro da lâmpada era rosa-claro e tinha um formato de flor; um quarto para meninas. Um sorriso se esboçou no meu rosto. A luz do Sol era um tanto reconfortante, e eu pude relaxar o corpo.

Foi então que a sensação de pânico voltou. Eu não consegui sentir nem meu braço, nem minha perna esquerda. Simplesmente, não estavam ali. Meu corpo ainda estava muito grogue, mas eu reuni força o bastante pra tirar o cobertor com meu braço ainda são. Os bips da máquina aumentavam sua frequência conforme eu ia levantando a capa que me escondia à verdade. Pouco a pouco, eu finalmente descobri por que eu não os sentia. Pensei em um formigamento ou o não tão simples fato deles pararem de funcionar. Mas foi muito pior.

Eles simplesmente não estavam mais lá.

A alta veio, mas entrei em uma depressão horrível. Não saía mais do meu quarto. Nem pra comer, beber ou falar. Eu me trancava lá, e só saía pra me alimentar de vez em nunca. Era engraçado, pois papai sempre fazia um prato super caprichado pra mim e mamãe colocava uma flor diferente na porta do meu quarto a cada dia, e eu nunca percebia, ou meramente não queria perceber. Perceber o quanto ainda me amavam e como eu era especial mesmo no estado em que eu estava. Isto me fazia doer muito por dentro, então eu inconscientemente apagava da memória.

Já fazia alguns meses em que eu não ia á escola, não via um porque. Receber zoações dos meus supostos colegas com quem nunca me dei bem? Não, obigada, muito menos agora. Me trancava no quarto o dia inteiro, chorava e chorava ainda mais, me recordando do momento em que me contaram tudo. O médico chegara com papai e mamãe, todos tentando traçar algo como um protótipo de sorriso para me dar aquela notícia horrível. Esta é uma das piores memórias que guardo até hoje.

Meu braço e minha perna esquerda tinham sido totalmente esmagados por um pedaço da lataria do caminhão, e eu não consegui escapar da cirurgia: tive de amputar os dois membros, sobrando tocos de cotovelo e joelho. Resumindo ao pé da letra: nunca mais eu poderia praticar Parkour, ou até mesmo nadar. Até poderia, mas não seria a mesma coisa, nunca mais. E nestes últimos dolorosos dias, a única coisa que faço é lamentar o que sobrou de mim, olhar para o que um dia foi uma criança normal, que teve que amadurecer tão precoce e forçadamente assim, do nada.

A única porta que permanecia aberta para o mundo exterior, era meu computador da época dos dinossauros, com o Windows 97 e um teclado que parecia uma máquina de escrever de tão rudimentar e barulhenta. Mesmo sendo tão velho como era, eu o amava. Podia liga-lo a qualquer hora do dia (ou da noite), e me expressar por um blog meia boca que criei, mas muito importante para mim. Todo dia, eu criava um novo texto falando como minha vida era horrível e massacrante, mesmo nunca recebendo nenhuma resposta, nenhum conselho que me ajudasse a superar este problema. Presumi que as pessoas simplesmente passavam por ele, e o fechavam sem ao menos tentar conhece-lo. Assim como eu também já fiz um dia.

Mais e mais dias se passaram. Eu tinha perdido a noção do tempo, ficava só no escuro do meu quarto e nem sabia se era dia ou noite. Recusava-me a olhar pra qualquer relógio que seja. Até mesmo ao do computador, dei um jeito de colar um papelzinho na tela e me esquecer que algo acontece lá fora.

Não havia muito que fazer em casa, e pouco a pouco eu ficava um pouquinho mais louca. Eu passava a maior parte do meu tempo no computador, e ele estava ficando chato demais depois de tanto tempo e nenhum reconhecimento. Meu blog já tinha pra mais de 50 postagens, e nenhum comentário além de spams. Eu checava-o todos os dias, mas nada mais que autopromoções e coisas do tipo. Era tão amargurante procurar por alguém mundo afora que me entendesse, e não achar. Então eu continuava a chorar e ficar mais triste e louca do que já estava.

Papai e mamãe tentaram conversar comigo: eles queriam me submeter a uma cirurgia para colocar próteses avançadíssimas em meus membros inexistentes, mas eu nunca mais queria passar por qualquer outra coisa do tipo, depois daquele acontecido. Além do mais, minha única felicidade verdadeira era o Parkour, e nenhuma maquina seria rápida o bastante pra este esporte tão dinâmico. Eu teria de pensar demais antes de qualquer movimento, e os reflexos não chegariam a uma velocidade boa o bastante. Eu nunca teria minha liberdade de volta, nunca mais.

Era o que eu pensava.

Mas algum bom tempo passou-se. Eu já tinha perdido qualquer pensamento sobre dia e horas, mas minha solidão já estava insuportável, tão insuportável ao ponto de eu cansar de reclamar. Acho que progredi quando comecei a abrir a janela do meu quarto, um pouquinho de cada vez. Eu ainda lutava contra minha família a não colocar as próteses, ainda não queria isto, não precisava de coisas que não me serviriam de inteiro. Eu só queria voltar no tempo, e poder ter uma infância normal, como qualquer outra pessoa. Mas isso já era impossível.

Em meio a este tédio, eu consumia todo meu tempo olhando pela janela, as coisas se movimentarem lá em baixo. As pessoas andando, correndo, vivendo a vida diária, me dando uma vontade enorme de sair. Mas eu precisava me conter, então desviei o olhar pra casa do nosso único vizinho: seu Hugo. Ele era um senhorzinho de idade muito simpático e sempre com uma resposta na manga. Você simplesmente não conseguia ficar desapontado com ele, e sempre saía com algo a mais pra contar ao mundo. No quintal de sua casa, um pé de ipê-rosa se erguia, quase chegando a minha janela no segundo andar. Eu não tinha visto ainda, mas ele estava quase todo florido, num inverno rigoroso pros cariocas. Ele era a única coisa que dava cor á paisagem gélida e opaca da estação.

No dia seguinte, eu voltei a observar o pé de ipê florescido, e confesso que me perdi do mundo por alguns milésimos de segundos. Mas a casa de seu Hugo estava um tanto movimentada hoje. Vários homens carregavam móveis pesados pra dentro, enquanto eu podia vê-lo conversando ao lado de fora com uma garotinha com mais ou menos a mesma idade minha. Seus cabelos eram de um ruivo intenso e vermelho, mas a fisionomia incrivelmente... Asiática.

Eu já tinha visto várias misturas culturais e físicas por aqui, mas algo deste gênero é raro pra caramba. Ela conversava com seu Hugo de uma maneira tão íntima que pareciam neta e avô, e obviamente era ela quem estava se mudando pra casa dele, mas, por quê? Por mais que eu olhasse, os dois não tinham nada a ver um com o outro. Seu Hugo era caucasiano de cabelos negros (como alguns fios ainda indicavam no meio da cabeleira grisalha), mas ela era totalmente o oposto... Eu devo ter observado eles por muito tempo e muito profundamente, pois os dois se viraram pra minha direção ao mesmo tempo, tanto que quase perdi meu espirito de tanto susto. Minha reação instantânea foi fechar a janela e me encolher embaixo dela como um rolo de lã, tentando processar a o acontecimento. Eu nunca tinha me sentido tão entrosada ao mundo como naquele dia.

Mas não foi nem metade do que estava pra acontecer.

Alguns poucos dias se passaram. Eu ainda estava curiosa com minha nova vizinha, mas algo me intrigou mais ainda naquele dia: papai e mamãe. Estavam agindo de um jeito estranho demais, me dispensando e esquivando. Até mesmo o almoço estava sem sal. Papai nunca erra no sal, algo estava realmente fora do lugar. Mesmo assim, tentei não me concentrar de mais, logo passaria, certo?

A garotinha voltou a minha cabeça. Ela perecia ser normal, mas eu não conseguia passar muito tempo sem pensar nela, minha curiosidade nata não a deixava escapar da minha mente. E eu já estava ficando mais louca por causa disto, então tentei dispensá-la (e dispensar papai e mamãe também) mexendo um pouco no meu dinossauro.

Meu quarto ainda permanecia escuro, e tão bagunçado quanto sempre. Liguei o computador, e fiz algo que há muito tempo não fazia: checar meu blog. Eu já tinha perdido minhas esperanças nele, pois nem mesmo uma formiguinha tinha pensado em ter alguma consideração á mim e postar um comentário que me ajudasse. Mas hoje foi diferente. Em meio a todo o spam, alguém se importou comigo.

Isso mesmo, uma mensagem escrita com o coração e alma, não só com as mãos. Eu engoli cada palavra bem devagar, ficando mais nervosa a cada letra. Mas depois de terminar, minhas esperanças se esvaziaram de novo. “Duas horas, janela do seu quarto. Pronta pra surpresa?”, dizia. Eu fiquei ali parada, digerindo aquele texto sem nexo. Será que mandaram para o blog errado? Podia ser. Olhei o apelido: uma tal de “Marie”. Parecia ser o nome real dela (ou dele, sei lá), então olhei pro relógio na tela: 01h48min da tarde, quase na hora da suposta “surpresa”. Aquilo ainda soava muito estranho, demais da conta.

Topei, só pra manter o hábito que eu havia perdido naquele acidente: aventurar-me. Já fazia tanto tempo, que eu estava em abstinência de adrenalina e precisava sair dela quando a chance aparecesse. E apareceu. Abri minha janela vagarosamente, esperando qualquer coisa, desde um extraterrestre a um pombo, nunca se sabe. Mas não havia nada, nadinha, além do pé de ipê totalmente florido, colorindo o gramado do quintal de seu Hugo. A arvore já estava tocando minha janela, e batia levemente no vidro: sinal de alguns pesadelos à noite, eu era muito medrosa. Olhei para os lados, só pra confirmar se nenhuma coisa estava ali sem eu perceber. Nada. Isto é, até eu olhar pra frente de novo.

Ela estava lá, minha nova vizinha, trepada no galho mais alto da arvore florida. Eu quase tive um infarto com o susto que levei, cambaleando pra trás e caindo no chão. Seu sorriso ia de orelha a orelha, e era tão brilhante quanto seu cabelo ruivo, os seus olhos quase sumindo.

– Você é a Paula, né? – Ela se apressou em me perguntar, subindo na janela e sentando-se nela num pulo só. Tinha um forte sotaque asiático, que não reconheci de qual país especificamente. – Muito prazer, sou a Marie! Nova vizinha, sabe? – Ela riu por nenhum motivo aparente, descendo da janela e me ajudando a levantar.

– Poxa, você me deu o maior susto... – Minha voz saiu rouquíssima pelo mau uso nos últimos longos meses sem comunicação verbal. Ela desviou seus olhos estreitos pra minha perna esquerda, já equipada com uma prótese simples que ganhei quando tive a alta no hospital.

– Nada mal, usando sua prótese meia boca... – Então olhou pra mim em aprovação. – É um começo!

Eu me afastei, tentando deixar meu braço esquerdo fora de vista dela. Odiava ter de usar aquela prótese, doía demais. Mas eu não conseguia ficar em pé por mais de um minuto, então tinha de aguentar ela. Meu braço já não fazia tanta falta pro dia-a-dia, já que eu tinha meu direito ainda, mas a perna estava fora de cogitação.

Eu ainda não me sentia confortável a conversar sobre isto, e ainda lutava contra papai e mamãe pra não colocar próteses melhores. Sim, eu estava sendo teimosa e egoísta, mas se não fosse assim, não seria eu. Acho que Marie percebeu minha insegurança, e não tardou a mudar o assunto.

– Por que não saímos um pouco? Sabia que temos de tomar pelo menos um pouquinho de sol todo dia, pros ossos? Se não a gente vai continuar nanica quando crescermos! – Ela falava como se fosse uma mulher crescida tentando se comunicar com um bebê. Engraçado, ela literalmente entra pela janela do meu quarto, e me convida pra sair com ela, como se fossemos amigas há mais de anos. Não sabia se devia confiar nela.

- Você é o que do seu Hugo? – tentei desviar a conversa. Eu não estava pronta pra sair ainda, muito menos com uma pessoa tão estranha como ela era. Ela voltou a se sentar na janela, parecendo bem preocupada com a pergunta, provavelmente por que destruí uma chance dela me levar pra fora.

– Sou a neta dele, ué. Por que acha que eu me mudei pra cá? – Ela respondeu com indiferença.

– Não sei. E seus pais? Não vem?

Ela pereceu ficar chateada. Arrependi-me de tocar no assunto, imaginando que não gostava de lembrar-se disso tanto quanto eu não gostava de lembrar dos meus membros. Mesmo assim ela respondeu, um tanto desanimada.

– Nunca conheci meu pai de verdade, só o vi algumas vezes. As horas mais legais da minha vida, admito. – Ela tentou sorrir pra me deixar menos constrangida, mas nada além de um amarelinho conseguiu sair da boca dela. – E bem, minha mãe está sempre trabalhando demais, e viajando pra tudo quanto é canto do mundo. Então ela decidiu que eu não podia ficar sozinha o tempo inteiro, e me mandou pra casa do Vovô... – Percebi seu sorriso se tornar um pouco melhor. — Até agora está sendo bem legal, sabe? Acabei de desempacotar tudo faz algum tempinho, e o Vovô é um cara muito legal!

– Que bom saber disto... – Eu tentei sorrir pra não ser chata, mas acho que não deu certo. Sentei em minha cama, encarando o chão. Mamãe e papai nunca deixaram de cuidar de mim, mesmo fazendo todo este drama por todo este tempo. Mamãe ainda colocava flores na minha porta e papai fazia aquela comida deliciosa. Marie não sabia onde o pai está e quase nunca vê a mãe. Isso me fez parecer uma estúpida egocêntrica que estava tornando a vida das pessoas que mais me amavam um inferno. Eu não só parecia, como estava sendo. Marie ficou olhando pra mim, esperando qualquer reação. Eu subitamente me levantei, e abri a porta do meu quarto. Na face virada para o corredor, havia um vasinho cheio de arabescos grudado a ela, suportando uma pequena flor cor-de-rosa.

– Pra onde vamos? – Me virei pra Marie, já desenrolando o enigma do por que papai e mamãe estavam estranhos hoje de manhã. A flor era do pé de ipê de seu Hugo. O sorriso de Marie voltou a se estender de orelha a orelha.

– Me segue! – Ela respondeu, estendendo sua mão pra mim, e colocando uma das pernas do lado de fora da janela. Isso não me cheirava bem...

– Não dá pra gente usar a porta? Tipo, como pessoas normais? – Eu tentei ser a mais educada possível, mas parecia não ter jeito. Seu sorriso já dizia que ela estava lá pra me levar pela janela, custe o que custasse. Aquele cheiro de armação estava ficando mais forte a cada minuto.

– Ouvi falar que você já foi uma ótima traceuse. Por que não mostra pra mim? Vamos lá, é só descer uma arvorezinha! Eu sei que você consegue! – Ela tentou me convencer.

Claro, uma arvorezinha de dois andares pra uma garota sem braço nem perna, meio difícil, não? Mas ela parecia ter tanta esperança em mim, esperança que eu só vi em duas pessoas minha vida inteira: papai e mamãe. Poxa vida, estava impossível resistir à tentação.

- Sim, eu já fui uma ótima traceuse. Mas isto é passado, e eu odeio o passado. – Eu respondi. – Tem noção de quanto eu já sofri? – Ela me jogou uma expressão de compreensão. Parecia entender disto mais que qualquer um no mundo.

– Uma coisa que aprendi é que o passado nos tem muito a ensinar. Quem escolhe aprender com ele, somos nós mesmos. Vamos, sei que você consegue!

Ela me olhou suplicante, como se sua vida dependesse disto. Junte este olhar ao fato dela ser a criatura mais fofa do mundo (sério, ela parecia um gatinho querendo leite).

– Ok, ok. Mas preciso que você me ajude, sabe como é, né? – Mostrei meu braço amputado a ela, hesitando um pouco.

Num milissegundo, ela já tinha pego minha mão, e saído em disparada pra janela. Com uma habilidade incrível, pousou num galho já firme e grosso da arvore e abriu os braços pra mim.

– Vamos lá, pule! Eu te seguro!

Eu me sentei na janela, tentando encontrar coragem. Meu coração estava em disparada. Tentei não pensar, fechei os olhos e pulei.

Foi a melhor sensação da minha vida.

Marie me guiou cuidadosamente, mas mesmo assim não baixando a uma velocidade onde eu conseguiria parar facilmente. Ela me segurava com firmeza, quase como se dissesse “confie em mim” silenciosamente, me deixando muito mais calma do que eu realmente ficaria. Só sei que depois de toda a escassez de adrenalina nestes últimos meses, quando chegamos ao chão, demorou bastante pra minha mente se reordenar.

– Eu disse que você conseguia, Flor, não disse?

Eu a fitei. Mechas de seu cabelo se espalhavam pelo rosto, ainda não tirando a beleza dela, e de seu sorriso. Eu não pude conter, e sorrir também. Ela tinha me feito relembrar o passado, mas o que foi bom dele, não o ruim. Podia ser estranha, mas estava começando a achar esta estranheza incrivelmente legal.

– Vamos lá, a surpresa ainda não acabou! – E ela me levou pela mão de novo, direto pra dentro de sua nova casa.

A casa de seu Hugo era um tanto moderna, branca e com uma varanda cheia de flores a colorindo. Quem a visse de fora e não conhecesse seus moradores, nunca imaginariam que um senhor de idade foi quem a projetou. Seu Hugo podia ser um tanto velho, mas tinha uma mente tão jovem quanto a nossa. Marie abriu a porta, e demos de encontro com uma pequena festa de aniversario. Mamãe, papai e seu Hugo, todos com um chapeuzinho na cabeça. Mal percebi, Marie já tinha posto um destes na minha e na dela também.

– Surpresa! – Seu Hugo brincava com uma língua de sogra. Vendo-o naquele estado, eu conseguia facilmente imaginar ele pedindo pra assoprar as velas do bolo também.

– O que foi que... Mãe, Pai? O que tá acontecendo aqui? – Eu os perguntei, muito confusa. Aniversário, sim, mas de quem?

– Não se lembra Paula? – Papai perguntou. Sua expressão era um tanto preocupada.

– É teu aniversário, querida! – Mamãe me lembrou.

Meu aniversário, 30 de maio. Já havia se passado quase um ano. Um ano que meus pais tentam todos os dias me recobrar a vida sem resultados, mas nunca perdendo a esperança. O remorso me bateu como uma parede de tijolos na velocidade de um carro, bem em cima no meu coração. Todo este tempo, as duas pessoas que mais me amam eram as que mais estavam sendo atingidas pelo meu egoísmo e medo. Sem contar que eles foram buscar ajuda fora também, e eu acabei por encontrar Marie e Seu Hugo, duas grandes pessoas que nunca vou esquecer.

– Nos decidimos uma coisa querida, vamos parar de tentar te pressionar a colocar as próteses. Se você não quer, então assim será. – Papai disse, abrindo um sorriso.

Como eu me senti burra e má naquele instante, é impossível de descrever. Mas eu tinha que consertar. Eu tinha que aceitar o passado de uma vez por todas, e continuar a viver, mas viver uma vida melhor. Aprender com o que passei, e fazer a coisa certa desta vez.

Pelo menos, desta única vez.

– Esperem... – eu me decidi. Papai, mamãe e Marie me olharam surpresos.

– O que foi Paula? – Seu Hugo perguntou. Acho que sua audição já não era a mesma de antigamente.

– Eu disse pra esperarem... – Tomei ar, tentando desentalar uma frase difícil de ser dita. – Eu quero colocar elas sim! Quero as próteses, e quero voltar pra escola também...

Eu não consegui encarar ninguém nos olhos, Mas Marie pulou animadamente em cima de mim, nos fazendo cair juntas.

– Isso! Eba! Paula vai estudar comigo! – Ela exclamava com entusiasmo, sem se dar conta de que estava quase me esmagando.

– É Marie, eu acho que sim, só não entendo o entusiasmo! — Eu respondi sem ar, já que ela ainda não tinha notado onde estava. Mesmo assim, a felicidade dela era tão esbaldante que derramou em mim e me fez sorrir também. Ela podia ser meio lelé da cuca, mas tinha um bom coração.

Marie só saiu de mim quando Seu Hugo a ajudou a levantar, e até ele me abraçou.

– Muito bem, Paula! Não se pode deixar o passado pra trás quando ele tem tanto a ensinar. – Ele me disse, confiante de que eram as palavras certas.

– Sem querer ser chata, Seu Hugo, mas a Marie já me disse algo muito parecido. – eu observei. Ele olhou Marie com uma pontinha de tristeza.

– Ah, eu pensei que poderia usar essa frase dela antes que ela mesma pudesse...

– Quer dizer que é você quem está copiando dela, e não ela de você? Não devia ser ao contrário?

– Quem disse? – Ele sorriu ao me perguntar. Não há idade certa pra essas coisas, e posso dizer que Marie é tão sábia quanto eu! – Ele olhou pela sala — Deixe-me ver, onde está minha bengala... – E saiu em busca dela, me deixando sozinha com mamãe e papai.

Eu juro que nunca os vi tão contentes em todos os meus nove anos de idade. E isso me fez lembrar o quão mesquinha eu fui. Não conseguir conter as lágrimas, que começaram a rolar freneticamente pelo meu rosto. Papai e mamãe pareciam sem palavras também, então simplesmente me abraçaram, como já não faziam há quase um ano. Naquele instante, eu senti que finalmente tinha aprendido com o passado, e que ele podia realmente nos ensinar algo. Não importa o quanto demore, um dia, dois, um mês, um ano inteirinho, seja quanto tempo for. No final, entendi que meus pais nunca deixariam de acreditar mim, e que quem te ama, são aqueles que nunca te deixarão, não importa o que for.

Quem sabe eu voltaria a ser feliz dali em diante?